Como se verá em detalhes, esta tese entrevistou um grupo de 12 camelôs do centro comercial de Belém. Do ponto de vista metodológico, muito mais que instrumento de
coleta de dados, esses encontros foram norteados pelo horizonte teórico-metológico da etnografia, onde localizamos a centralidade de nossa pesquisa empírica. Nesse sentido, depois de percorrer um longo percurso, traçando, através da história do mundo do trabalho na Amazônia, a trajetória que liga o tipo camponês-caboclo ao camelô, tratou-se de buscar compreender o camelô em suas múltiplas dimensões. O desafio sempre foi estar atento aos sedimentos do processo intersubjetivo que liga o camelô às formas antigas de trabalho na região, sem que com isso se deixasse de ver aspectos novos, trazidos pelo campo, ou seja, respostas à dinâmica do mundo contemporâneo e/ou pressões exógenas.
Dentro da perspectiva fenomenológica, aliada a uma compreensão etnográfica, buscou-se trabalhar com aquilo que afeta os sentidos (sejam os dos grupos estudados ou os nossos enquanto pesquisadores), sem que isso seja escondido como erro ou falha na construção do conhecimento. Isso talvez tenha me causado uma dificuldade inicial, provavelmente pela influência de minha formação. Na tradição jornalística, onde atuo profissionalmente há mais de 10 anos, a entrevista é, geralmente, curta, com interesse bem delimitado conforme a linha editorial e o público-alvo. Só é veiculado/publicado aquilo que se refere diretamente ao assunto em questão. Raramente o contato com o entrevistado é longo e as impressões do entrevistador ou os bastidores da conversa chegam ao público. Em nossa cultura profissional atuamos como se fosse possível comunicar uma objetividade resultante desse encontro, no qual o jornalista funciona como crivo que retira essas “impurezas” subjetivas.
Na contramão das rotinas jornalísticas, portanto, essa pesquisa se inspirou na prática etnográfica, realizando entrevistas em profundidade, com roteiro flexível (deixando que a conversa pudesse se abrir a aspectos inesperados), de agosto de 2016 a junho de 2017.
Mais do que ater-se às respostas, também deu-se atenção aos silêncios, às hesitações, à linguagem não-verbal e ao comportamento dos pares e dos clientes. Além disso, a pesquisa realizou uma observação do espaço social. Dessa maneira, tentou-se se aproximar dos procedimentos que Peirano (2014) atribui a uma boa etnografia, como considerar a comunicação no contexto da situação, transformar em linguagem escrita o que foi vivido no campo e tentar evitar as predefinições, deixando que o campo renove a compreensão do objeto estudado. Nesse sentido:
hoje podemos dispensar a oposição teoria/empiria porque (…) O refinamento da disciplina, então, não acontece em um espaço virtual, abstrato e fechado. Ao contrário, a própria teoria se aprimora pelo constante confronto com dados novos, com as novas experiências de campo, resultando em uma invariável bricolagem intelectual. (PEIRANO, 2014, p. 380).
Apesar de esperar que os dados obtidos nesta pesquisa de inspiração etnográfica, tragam alguma riqueza teórica para quem lê, sabe-se que poderão ser reavaliados, sempre permitindo nova configuração interpretativa. Como alerta Peirano (1995)
(…) toda (boa) etnografia precisa ser tão rica que possa sustentar uma reanálise dos dados iniciais. Nela, as informações não são oferecidas apenas para esclarecer ou manter um determinado ponto de vista teórico, mas haverá sempre a ocorrência de novos indícios, dados que falarão mais que o autor e que permitirão uma abordagem diversa (PEIRANO, 1995, p. 57)
Vale ressaltar que estou ciente de que esta pesquisa não pode ser considerada propriamente uma etnografia ou uma observação participante, porque o tempo dedicado ao campo não pôde ser maior, levando em conta os parâmetros dessa metodologia e tendo em vista que as visitas ao centro só foram realizadas após a Qualificação e a mudança de orientador, já com prazo exíguo de conclusão da tese. Entende-se, portanto, que apesar do esforço empreendido, uma etnografia necessita de um contato mais prolongado com os entrevistados. Magnani (2009) explica que só após uma prática etnográfica intensa é que se pode chegar ao insight da experiência etnográfica.
a “sacada” na pesquisa etnográfica, quando ocorre – em virtude de algum acontecimento, trivial ou não – só se produz porque precedida e preparada por uma presença continuada em campo e uma atitude de atenção viva. Não é a obsessão pelo acúmulo de detalhes que caracteriza a etnografia, mas a atenção que se lhes dá: em algum momento os fragmentos podem arranjar-se num todo que oferece a pista para um novo entendimento, voltando à citação de Lévi- Strauss. Dessa discussão emergem algumas considerações: a primeira é que se deve distinguir entre “prática etnográfica” de “experiência etnográfica”: enquanto a prática é programada, contínua, a experiência é descontínua, imprevista. No entanto, esta induz àquela, e uma depende da outra (…) (MAGNANI, 2009, p. 136)
Como já se disse, mesmo nos insights mais brilhantes, uma etnografia ainda deixa pontos para novas interpretações. Como explica Peirano (1995) rigor analítico e ruído enográfico não são incompatíveis nem mesmo nas melhores etnografias. Na verdade, ela
afirma que as reanálises não atestam uma falha. Ao contrário, comprovam a fecundidade teórica do trabalho etnográfico.
Dessa forma, este trabalho compreende a profundidade do que é fazer uma etnografia. Trata-se de “um método, não uma mera ferramenta de pesquisa (…) Como método, foi forjada pela antropologia ao longo da sua formação e não pode ser utilizada, sem mais, ignorando os diferentes contextos teóricos que lhe dão fundamento” (MAGNANI, 2012, p. 175).
Vale destacar aqui, no entanto, que o objetivo central deste trabalho é menos chegar ao insight da experiência etnográfica após uma longa e rigorosa prática de campo, e mais demonstrar o caráter intersubjetivo (histórico) da experiência do trabalho na Amazônia, sensivelmente nessa transição do rural para o urbano. Trata-se, como já dito de demonstrar alguma continuidade nas experiências das trajetórias desses grupos que sempre estiveram em posição subalterna no mundo do trabalho na região.
Além disso, cabe aqui também registrar que a etnografia costuma ser associada às análises descritivas de todos os dados possíveis de sociedades de pequena escala, “primitivas”, ágrafas ou rurais. Parte do referencial aqui utilizado, inclusive, se baseia nas experiências de Bourdieu (1979), no ritual cabila na Argélia, ou no estudo de Mauss (2003), sobre os grupos da Polinésia, Melanésia e Noroeste Americano. Como já se disse, no entanto, o grupo entrevistado nesta pesquisa, apesar de sofrer influência da economia arcaica, é urbano e também é pressionado pelas mudanças operadas pelo capitalismo contemporâneo. Vale dizer que estudos de grupos urbanos, ou seja, a etnografia aplicada a estes, ou aquilo que se chama de antropologia urbana, é um fenômeno bem antigo. É que “apesar de muitas vezes ser pensada como um desenvolvimento tardio da própria antropologia, apresenta alguns antecedentes que foram até contemporâneos àqueles da antropologia clássica voltada para os chamados povos primitivos” (MAGNANI, 2003, p. 82). Notadamente, a antropologia urbana ganhou maior evidência a partir da Escola de Chicago, já na primeira metade do século XX. Como explica Travancas (2009), as pesquisas desse grupo vão:
direcionar sua perspectiva multidisciplinar para os grandes centros urbanos (…) Antropólogos não estudarão exclusivamente sociedades indígenas ou distintas e distantes do pesquisador. Começarão a desenvolver trabalhos sobre a sua cidade, os seus bairros, os seus habitantes e suas profissões. Um de seus principais
expoentes, Robert Park (1990), sociólogo que antes de entrar para a carreira acadêmica trabalhou como o jornalista, vai entender e definir a cidade como um laboratório social. (TRAVANCAS, 2009 p. 99).
No cenário urbano, o pesquisador se depara diante de desafios de natureza diferenciada em relação aos enfrentados para compreender as comunidades tradicionais. Na cidade, a distância entre observador e “nativo” não é física nem de língua, mas exige um outro tipo de deslocamento do pesquisador, em relação à sua própria sociedade. Como disse DaMatta (1978), “vestir a capa de etnólogo é aprender (…) a transformar o exótico em familiar e o familiar em exótico”. Dessa forma:
já não se trata mais de depositar no selvagem africano ou melanésico o mundo de práticas primitivas que se deseja objetificar e inventariar, mas de descobri-las em nós, nas nossas instituições, na nossa prática política e religiosa. O prolema é, então, o de tirar a capa de membro de uma classe e de um grupo social específico para poder – com etnólogo – estranhar alguma regra social familiar e assim descobrir (ou recolocar, como fazem as crianças quando perguntam os <<porquês>>) o exótico no que está petrificado dentro de nós pela reificação e pelos mecanismos de legitimação. (DAMATTA, 1978, p. 5)
No Brasil, a Escola de Chicago influenciou trabalhos da Escola Livre de Sociologia e Política e na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP, no final dos anos de 1940. Segundo Magnani (2012), os primeiros trabalhos nacionais em antropologia urbana foram realizados pelas pesquisadoras Ruth Cardoso, Eunice Durham e Gioconda Mussolini. O próprio Magnani, então orientando de Cardoso, fez pesquisas sobre as práticas de lazer nos bairros da periferia de São Paulo. Segundo Pereira (2013), a influência da Escola de Chicago pode ser percebida em Magnani na discussão das relações de sociabilidade a partir de uma perspectiva espacializada, em relação direta com os lugares e equipamentos urbanos. O autor utilizou categorias nativas dos grupos estudados (pedaço, mancha e circuito) e observou as relações de sociabilidade no contexto do bairro, como intermediário entre a casa e a rua. Magnani (2002) explica que na antropologia urbana se parte
do pressuposto de que a cidade, mais do que um mero cenário onde transcorre a ação social, é o resultado das práticas, intervenções e modificações impostas pelos mais diferentes atores (poder público, corporações privadas, associações, grupos de pressão, moradores, visitantes, equipamentos, rede viária, mobiliário urbano, eventos, etc.) em sua complexa rede de interações, trocas e conflitos. Esse resultado, sempre em processo, constitui, por sua vez, um repertório de
possibilidades que, ou compõem o leque para novos arranjos ou, ao contrário, surgem como obstáculos. Cabe à etnografia captar esse duplo movimento: […] o que se propõe é um olhar de perto e de dentro, mas a partir dos arranjos dos próprios atores sociais, ou seja, das formas por meio das quais eles se avêm para transitar pela cidade, usufruir seus serviços, utilizar seus equipamentos, estabelecer encontros e trocas nas mais diferentes esferas – religiosidade, trabalho, lazer, cultura, participação política ou associativa etc. Esta estratégia supõe um investimento em ambos os pólos da relação: de um lado, sobre os atores sociais, o grupo e a prática que estão sendo estudados e, de outro, a paisagem em que essa prática se desenvolve, entendida não como mero cenário, mas parte constitutiva do recorte de análise. É o que caracteriza o enfoque da antropologia urbana, diferenciando-o da abordagem de outras disciplinas e até mesmo de outras opções no interior da antropologia. (MAGNANI, 2002, p. 18) Em 1988, Magnani criou o Núcleo de Antropologia Urbana, laboratório de pesquisa de diferentes práticas culturais urbanas e também de experimentos etnográficos. No grupo ele consolidou alguns pressupostos da Escola de Chicago. O desafio é pensar as especificidades da etnografia no espaço urbano, que deve considerar a dimensão, diversidade e particularidades.
Desse modo, seria necessário articular um enfoque que seja ao mesmo tempo de longe e de fora, por apreender as relações estruturais e mais gerais, e de perto e de dentro, por preocupar-se com as atividades dos atores sociais em seu cotidiano urbano. Nem tão de longe a ponto de, justamente, não identificar a atuação desses atores, nem tão de perto a ponto de confundir-se com as práticas particulares desses interlocutores da pesquisa, ressalta Magnani. A etnografia produz, segundo essa perspectiva, o encontro de pontos de vista, o que o pesquisador tem dos fenômenos com o dos nativos, produzindo assim um novo ponto de vista, mais geral que a explicação nativa e mais denso do que a abordagem inicial da pesquisa (PEREIRA, 2013, p. 591 e 592).
Um outro dilema que surge na antropologia urbana se dá com respeito à noção de totalidade em sua dupla face: a forma como é vivida pelos atores sociais e como é percebida pelo pesquisador. Trata-se de perceber categorias vividas empiricamente e depois descrevê-las articulando-as em sistema de relações. Pereira (2013) afirma que em
Da periferia ao centro, Magnani compreende as cidades como diversificadas e
constantemente inventadas e reinventadas pelos arranjos criativos daqueles que nelas vivem nas condições socioeconômicas as mais variadas possíveis.
Magnani propõe que a antropologia, quando realizada na cidade, deve ao mesmo tempo ser na e da cidade. Preocupar-se tanto com os processos sociais que nela ocorrem quanto com o modo como esses alteram e são alterados pelos espaços urbanos. Em outras palavras, o autor afirma que as cidades, a partir das quais os antropólogos urbanos falam, não devem servir apenas de cenários para a pesquisa e, por outro lado, concomitantemente, os processos mais gerais e
estruturais que influenciam na formação das cidades, como os econômicos e políticos, não podem ser o único foco (PEREIRA, 2013, p. 593).
Ainda no tocante à antropologia urbana, uma das inspirações deste trabalho é a obra de Gilberto Velho. No hoje clássico A Utopia urbana, o ritmo do texto se distribuiu como o movimento de câmera de um cineasta. Começa em uma perspectiva mais ampla, descrevendo Copacabana, para depois falar dos moradores do prédio, dos vizinhos e, por fim, da ideologia e imagem da sociedade sobre o bairro. Dessa forma, à maneira da obra de Velho (1989), a estratégia desta pesquisa também foi a de fornecer informações sobre o bairro da Campina, onde fica o Centro Comercial de Belém que abriga os camelôs estudados por esta tese. Tratou-se, portanto, desde aspectos históricos, urbanísticos, demográficos, como do perfil da ocupação que gerou a configuração atual. Em seguida, buscou-se mapas sociais ou cognitivos construídos pelos agentes que frequentam o bairro, neste caso os camelôs. Outro aspecto importante foi a construção de tabelas com dados dos entrevistados, como origem familiar e grau de escolaridade. Importante mostrar aqui que o centro comercial de Belém tornou-se um centro de atração de trabalhadores e consumidores com forte relação com as cidades de tradição camponês-cabocla. No passado e ainda hoje, por exemplo, percebe-se alguns compradores de mercadorias de camelôs que as revendem no interior do Estado. Através das entrevistas de inspiração etnográfica, portanto, buscou-se demonstrar essa sociabilidade espacializada. Um desses aspectos foi estabelecer uma cartografia do centro a partir dos pontos de vista dos camelôs, entre os melhores e piores locais para venda. Estas entrevistas também foram conduzidas de maneira a mostrar que o trabalho na rua é um fenômeno social total com dimensões estéticas, políticas, familiares, morais, etc. Outros objetivos foram: demonstrar a importância da economia da honra entre os camelôs; estabelecer classificações entre os camelôs quanto aos níveis de precariedade, complexidade de seu trabalho e acesso a clientes; estabelecer classificação entre camelôs batalhadores (trabalham para reproduzir a família) e empreendedores (trabalham para reproduzir o próprio capital).
Algumas estratégias desta tese, portanto, se inspiram em Velho, na medida em que este analisa os discursos dos agentes para estabelecer um sistema de representação e classificação do mundo social e natural.
“trata-se de verificar que categorias são utilizadas, como se relacionam e hierarquizam, e os princípios que presidem esta organização” (1989;65). Trata-se,
pois, de categorização, hierarquização e organização espacial. O autor está evidenciando como o espaço social se reifica no espaço físico. (CARRICONDE, 2013, p. 198)
A obra de Velho (1989) serve de inspiração porque dimensionou e relacionou sistema de classificação e representações com o processo de estratificação. Ele verificou que categorias eram utilizadas, como se relacionavam, se hierarquizavam e os princípios que presidiam esta organização. Assim como nesta tese, ele também buscou um universo situado no meio urbano em uma sociedade complexa, tendo uma série de características heterogêneas, mas apresentando certas experiências comuns. Lá era o fato de morarem em Copacabana. Neste estudo é o de trabalharem no bairro da Campina ou melhor no Centro Comercial de Belém. No caso de Velho (1989) havia um predomínio de indivíduos
white collars. No caso desta pesquisa há um predomínio, como já se disse, de indivíduos
de origem camponês-cabocla. Nas palavras de Souza (2012), diria-se que são trabalhadores de origem rural, que no ambiente urbano viraram batalhadores, ou seja, a elite da ralé. Dessa maneira, assim como Velho (1989), trabalha-se com uma certa delimitação dos estratos sociais. Por outro lado, ao contrário de Velho, esta tese pode afirmar que em algumas situações os camelôs pensam e agem como grupo. Apesar das diferenças de grupos estudados, percebeu-se, assim como em Velho (1989) que as representações estão altamente vinculadas a sua posição na estratificação social. Assim como o autor, percebeu-se a importância do trabalho de campo para ir além das aparências e identificar os códigos do grupo estudado.