Partie III : Résultats de reconstructions 109
5.4. Reconstruction du facteur g
Fonte: Acervo de Edmée da Costa Leite.
“Eu, Edmée da Costa Leite, nasci em Caxias, no bairro Cangalheiro, aos quatro dias do mês de abril de 1933, advinda de uma família de oito irmãos, sendo quatro homens e quatro mulheres. Quando entrei para a escola, tinha sete anos, já sabia ler e escrever, minha mãe foi quem me ensinou, me alfabetizou. Ela possuía apenas o primário e, quando foi me matricular, a professora falou para a diretora que dava para me matricular na segunda série, pois já sabia ler e escrever.
Quando criança, passamos por uma tragédia na nossa família, ainda me lembro. Houve um grande incêndio na rua em que morava, isso em 1937. Esse incêndio iniciou onde hoje se encontra a Igreja católica do bairro indo até à nossa residência. Na nossa casa, tinha um comércio e queimou tudo. Tudo aconteceu por volta do meio-dia, o fogo se alastrou e queimou a casa e o comércio. Eu e minha irmã mais nova fomos retiradas de casa por uma pessoa que passava na rua e viu o clamor da família. Nós perdemos praticamente tudo e nossa família, com muita luta, foi se reconstituindo financeiramente e emocionalmente. Nossa casa era farta, mas, a partir desse episódio, a família passou a conhecer a pobreza, mas, mesmo assim, com a luta familiar, não nos faltava pão à mesa para uma família de oito filhos e até para quem chegasse apresentando dificuldades. Papai tornou-se ourives e mamãe continuando nas tarefas domésticas para equilibrar o sustento da família junto com os filhos. Lá em casa, todos trabalhavam, meus pais criaram todos fazendo as tarefas de casa, homens e mulheres. O pai confeccionava joias e vendia, principalmente em festejos. Meus irmãos exerciam a profissão de alfaiate e eu estudava e trabalhava numa oficina de confecção de camisas masculinas. Costurava e bordava na máquina, fazia crochê, eu aprendi a fazer crochê com mamãe.
No que se refere aos meus anos escolares, estudei o curso primário na Escola João Lisboa, única escola pública da época. Devido à questão financeira ser muito
difícil, no que se refere a material e fardamento, ficava sempre prejudicado. Tínhamos apenas a blusa e a saia de farda, meus pais só pagavam a metade da mensalidade. Eu nunca tive um livro no primário. Ao terminar o primário, fiz exame de admissão, fui muito bem classificada, mas não tinha idade para frequentar o ginásio, já que ainda não tinha completado 11 anos. Mamãe foi fazer minha matrícula, mas não conseguiu porque eu não possuia a idade exigida, ela teria que esperar o ano todo para poder me matricular. Na época, o meu padrinho era muito influente, então o procurei e falei da situação, ele falou com o diretor e consegui a matrícula na seguinte condição: eu ficaria na sala como ouvinte, ao completar os 11 anos, em abril, a matrícula seria efetuada. Isso ajudou muito, pois os pobres não tinham influência nenhuma junto às autoridades. No ginásio, estudava pelo livro do meu amigo. As folhas de provas de desenho na escola, na época eram compradas, mas esse amigo era quem comprava para mim, porque era tudo muito difícil, éramos muito pobres.
Na escola, havia algumas questões que eu não entendia, algumas vezes fui parar na direção, mas eram coisas simples, por exemplo, a turma era mista, meninas e meninos, na hora do intervalo eram separados. As meninas iam para o varandão e os meninos iam para o pátio, era expressamente proibido as meninas passarem para o pátio e vice-versa, e o maior amigo de infância e de colégio foi um menino. Certo dia eu passei na hora do intervalo da varanda para o pátio, para sentar e conversar com meu amigo. Fui chamada imediatamente para a diretoria, o diretor passava carão, mas eu não entendia o porquê daquilo. O interessante é que quem ia à escola atender ao chamado do diretor era meu pai. Para ele, aquilo tudo era coisa de criança, ele gostava muito de mim, era louco por mim, para ele, aquilo tudo era normal.
Quanto à formação pedagógica, o curso que tinha na época era o Magistério. Eu não queria fazer Magistério. Não abraçava a carreira de professora, não sei dizer, mas não gostava. Passei um ano sem estudar. Porque não queria fazer Magistério. Nisso, entendi que meus pais não tinham condições de me enviar para estudar em outro lugar. Então, cursei o Magistério no Colégio Caxiense, concluí o curso e fiquei sem emprego. Como minha família não tinha contato com político, ficou difícil uma nomeação. Certo dia, sentei e fiz uma carta ao governador do Estado, contando toda a minha história de pobreza, de como estudei e, no final, pedi uma nomeação. Meu pedido foi atendido, mas a nomeação não saiu para Caxias. O secretário me fez uma carta, dizendo que fez rigorosa pesquisa no quadro de Caxias e que não havia nada. Na realidade, tinha, sim. Mas, como queria o emprego, terminei sendo nomeada para a cidade de Bacabal. Trabalhei lá por vários anos, quando surgiu um curso em São Luís e informaram que as duas pessoas que melhor se sobressaíssem no curso iam escolher a cidade na qual queria trabalhar. Eu estudei muito para conseguir a vaga e fiquei dentro das vagas ditas. Quando tudo terminou, que estava na certeza da vinda para Caxias, recebi um documento com retorno à Bacabal. Fiquei muito indignada com essa situação. Decidi ir até ao gabinete do secretário de Educação exigir que fosse cumprido o divulgado. Lá, recebi chá de cadeira, até que invadi a sala do secretário e exigi dele a nomeação para Caxias, conforme foi divulgado pela equipe. Assim, vim para a minha cidade natal.
Quanto à ida para a Universidade, se deu da seguinte maneira: Ao retornar de Bacabal, eu e algumas colegas do Curso de Supervisão (realizado e São Luís) fomos incentivadas a irmos para a faculdade. As provas eram eliminatórias, você
só fazia as provas do dia seguinte se tivesse passado na anterior. O ingresso foi muito difícil, enfrentaram com muita determinação o curso. Dada a disciplina no curso, fui monitora da minha turma, éramos dois monitores, eu e outro colega. A turma era dividida, eu ficava com um grupo e ele com outro. Nos reuníamos na casa de uma das colegas para estudar. Para ser monitor/a da turma, um dos critérios estabelecidos era a nota e a habilidade com as disciplinas do curso. Os monitores eram responsáveis por toda a preparação das aulas práticas ou de campo, desde a ida até a volta, inclusive com o material. Tínham que levar tudo para não faltar nada. Teve um dia que era para irmos para a aula num jipe, só que um dia antes o colega que possuía o carro resolveu lavá-lo porque estava muito sujo, entrou água no lugar errado. Já estava quase chegando a hora da aula e o carro não funcionava, já estávamos aperreados, foi quando passou um senhor e pedimos ajuda para consertar o carro. Consertou, deu tudo certo fomos para a aula, quando chegamos no local, o monitor do outro grupo disse: tem que descontar ponto desse grupo (risos). O professor desconsiderou e a aula de campo foi muito boa, todos fazendo perguntas, interagindo muito, assim eram as nossas aulas de campo, muito boa”.