O termo diagnóstico vem sendo utilizado sempre que tentamos ter uma visão sobre um determinado fenômeno, quando observamos suas características, sua relação com o todo, e, de uma forma bem natural, estabelecemos aí um modo de diagnosticar.
Ancona Lopez (1984) assinala que o termo diagnóstico deriva do grego
diagnôstikos e exprime discernimento, faculdade de conhecer, “de ver através
de.” Ela entende o termo no sentido amplo e restrito. No sentido amplo, quando dispomos de observação, avaliação e interpretação a partir de nossas percepções, experiências, informações, pois ao realizarmos o discernimento sobre um fenômeno estamos fazendo um provável diagnóstico. E, no sentido restrito, o termo diagnóstico é visto para além do sentido comum, está ligado ao conhecimento mediante conceitos científicos, e menciona que quando
fazemos a leitura de um acontecimento valendo-se de critérios específicos de um determinado campo do saber, estamos fazendo um diagnóstico científico em relação a esse campo.
Para Simon (1983, p.19), o termo diagnóstico vem do grego e dia significa separar e gnosis significa perceber ou conhecer. Assim, para algo ser conhecido ou percebido, é necessário haver uma separação ou discriminação. Ele diz que “o uso do diagnóstico deve sua existência à necessidade do intelecto humano de poupar trabalho, uma das formas de conseguir é utilizando abstrações.”
A psicologia se constituiu a partir das ciências humanas e é daí que incide seu olhar para os fenômenos, nos quais introduz seus procedimentos, sua teoria, sua técnica, e, à medida que unificou seu objeto de estudo, ela conquistou sua identidade profissional.
Ancona Lopez observa que o diagnóstico em psicologia se iniciou em 1896, quando o psicólogo foi chamado à clínica médica para fazer procedimentos diagnósticos com crianças deficientes físicas e mentais. E a partir da visão desse modelo médico, a doença mental passou a fazer parte dos estudos científicos, distanciando das causações divinas ou das possessões; Dessa forma ela tornou-se objeto de observação, descrição e classificação e paralelamente à psiquiatria, que tratava das doenças mentais, surgiu a psicopatologia, divisão da medicina que estuda o comportamento anormal, e, ao lado a psicologia geral, que pesquisava a esfera psíquica, emergiu a psicologia clínica, cujo interesse principal está centrado na esfera da angústia humana.
A psicologia clínica procura mediante seu instrumental entrar em contato com a vida psíquica do indivíduo para ajudá-lo a diminuir seu sofrimento, e para alcançar tal objetivo utiliza de suas teorias e técnicas. A psicoterapia e o psicodiagnóstico são seus alicerces para a realização dessa empreitada. O psicodiagnóstico tem o objetivo de estabelecer as bases para compreender o indivíduo na subjetividade de seu padecimento. E aqui, neste trabalho de pesquisa, priorizo o percurso do diagnóstico e a sua função para a psicoterapia. Para Walter Trinca (1984 p14):
O processo diagnóstico é a forma resultante de determinada organização e estruturação dos elementos de um estudo de caso, realizado segundo certa concepção diagnóstica, se expressa na seqüência de fases e nos passos que se dão para a consecução dos objetivos diagnósticos.
Estes são estruturados e orientados e se conduzem conforme a concepção diagnóstica da época. Como assinala Papazanakis (1997), o processo diagnóstico é influenciado pela compreensão ideológica, filosófica e histórica que balizam e decidem os seus instrumentos.
Junto à busca de conhecimento na visão das ciências naturais, ocorreu uma ruptura epistemológica, a respeito da formulação de conceitos de objetividade, a partir do pensamento filosófico da época, pois foi evidenciado que a subjetividade é intrínseca ao conhecimento humano. Assim, é inconcebível admitir a relação entre dois sujeitos como sendo a de sujeito e objeto separados, uma vez que eles participam do mesmo mundo, interpõem- se suas subjetividades. E na psicologia essa ruptura aparece na visão de psicodiagnóstico, quando se percebe que se está implicado na situação dual de entrevista, há uma relação entre “sujeito e psicólogo que observa”, e assim não há possibilidade de imparcialidade objetiva na situação de experimentação. As correntes na psicologia que valorizam esse modelo de psicodiagnóstico são: o humanismo, a fenomenologia e a psicanálise. Porém, para este trabalho, vou focalizar apenas a psicanálise.
O modelo psicanalítico traz como conceito fundamental o inconsciente, que emerge na relação de transferência do paciente com relação ao analista e, nesse sentido, todo o trabalho, seja ele diagnóstico ou psicoterapia, se alicerça sob o mesmo referencial. O que os diferencia no caso é a condição do tempo e do objetivo proposto. E, para Trinca (1984 p.15), “o psicodiagnóstico deve configurar uma espécie de antevisão dos fenômenos que a prática psicanalítica bem sucedida encontraria no paciente e com os quais lidaria”.
Ancona Lopez (1984, p.8) refere que
(...) através da ótica psicanalítica rediscutem-se a determinação psíquica, a dinâmica da personalidade, revêem-se os comportamentos psicopatológicos, sua origem e prognóstico embora
desde o início, os estudos psicopatológicos, tenham se preocupado em definir e conhecer a personalidade, foi a psicanálise que propôs o complexo mais completo de formulações sobre sua formação, estrutura e funcionamento.
Ocampo e Arzeno (1976, 1974 p. 17) trazem referências ao processo compreensivo e assinalam que a técnica diagnóstica se passa na relação dual e assimétrica em que uma pessoa necessita de auxílio e outra aceita ajudá-lo, em um contexto demarcado com papéis definidos e tempo delimitado “cujo objetivo é obter uma descrição e compreensão a mais profunda e completa possível da personalidade total do paciente ou grupo familiar. (...). Abarca os aspectos pretéritos, presentes (diagnósticos) e futuros (prognósticos) dessas pessoas.”.
Trinca (1997 p.20) analisando a história do psicodiagnóstico no Brasil, comenta que, nos anos 70, alguns profissionais da psicologia discutiam o uso das técnicas diagnósticas vigente até então, como os métodos advindos do modelo médico e psicométrico, e sentiam necessidade de trabalhar com modelos “menos invasivos e mais libertos da rigidez excessiva e condizente com a atuação profissional do psicólogo”. Então foram atraídos pelo modelo psicanalítico como resposta à busca de uma abordagem mais abrangente.
A teoria psicanalítica freudiana trata o indivíduo como um ser total, inseparável, mas que pode ser pesquisado segundo seu modelo teórico de “aparelho psíquico”, tópico econômico e dinâmico, por meio de seus sistemas de funcionamento diferenciados, inicialmente o modelo consciente, pré- consciente inconsciente e, posteriormente, o ego, superego e id. A psicanálise prioriza a importância da relação de transferência que se processa entre o analista e o cliente. Dessa forma, o modelo de diagnóstico psicanalítico traz uma abertura para novas possibilidades de investigação, pois a técnica da transferência – contratransferência habilita o profissional a ser ele próprio o instrumental de trabalho, e, conseqüentemente, distanciando-o dos modelos tradicionais de mensuração.
A seguir, passamos a expor com mais detalhe o “modelo compreensivo” de diagnóstico que considero o mais pertinente para os objetivos desta Dissertação.
Ocampo e Arzeno (1974); Di Loreto; Trinca, (1984) referem que se conduz pelo processo psicodiagnóstico “compreensivo”, esse modelo que se “caracteriza por uma síntese harmônica e descritiva do conjunto de dados”, e é compreendido como uma estrutura ordenada de princípios, métodos e técnicas. Trinca (1984) observa que o termo comprehendere vem do latim e significa, abraçar, tomar e apreender o conjunto, e no psicodiagnóstico tem a função de clarear, tornar compreensível, dar uma lógica ao conjunto de dados apresentados.
Esse autor (1984, p.23) enfatiza a importância das habilidades clínicas adquiridas pela experiência do psicólogo clínico para lidar com o fenômeno psíquico. E diz que o alvo do diagnóstico psicológico ”é o estudo dos fatores intrapsíquicos, interpessoais e socioculturais, cuja interação acarreta desajustamento no paciente”.
Aponta que o trabalho de psicodiagnóstico concilia várias informações e refere que essa postura ampla é fundamental, porque os múltiplos referenciais colhidos no diagnóstico psicológico, tais como: a identificação do paciente, entrevistas e outras técnicas de investigação clínica da personalidade, anamnese, testes psicológicos, exames adicionais, orientações, encaminhamentos, etc. impedem uma visão unilateral, própria de outros modelos de diagnóstico. Assim o modelo compreensivo tem como pressuposto a convergência para a totalidade do ser humano. Trinca (1983 p.30) observa que:
(...) todos os componentes interagem em todos os níveis (inter e intra níveis) do diagnóstico. O trabalho essencial do psicólogo, sendo uma síntese integrativa de todos os componentes em todos os níveis, leva em conta as interações e reciprocidades que continuamente se dão.
O modelo do sistema compreensivo, porém, foi criticado por Vorcaro (1995, p. 52), que no seu trabalho escreve:
(...) ensaio de ‘globalização compreensiva’, a prática psicodiagnóstica combina atividades e instrumentos desenvolvidos nas mais diferentes perspectivas conceituais. Sustenta na mesma construção diagnóstica fragmentos das visões inatista, cognitivista,
comportamentalista, genética e psicanalítica, que resvalam na diversidade das estratégias que a aparelham (...). Na sua visão, a execução de frações de conceitos teóricos como parte de um mesmo sistema sustenta uma (...) ilusória homogeneidade conceitual, aplainada na suposta síntese do sujeito.
Papazanakis (1997), no seu trabalho Conceito Freudiano de Ego. Um
Eixo para Leitura do Psicodiagnóstico, ao definir o modelo de psicodiagnóstico
escreve:
resultado do trabalho de Binet e de Freud, o psicodiagnóstico se constrói e se exerce sobre princípios híbridos, parâmetros contraditórios que refletem a própria dualidade do objeto que estuda: o homem, com conduta passível de ser medida e processos internos que não podem ser observados.
Dessa forma, ela nos convida que façamos a leitura do psicodiagnóstico à luz do conceito do ego freudiano, como ligação entre os aspectos cognitivo e afetivo-emocional. Estes nos permitem reunir os dados logrados no psicodiagnóstico e, desse modo, o ego freudiano possibilita um eixo a todo o material conseguido durante o processo, “na medida em que é o lugar onde se dão as articulações entre os aspectos intelectuais, motores e emocionais do indivíduo” (PAPAZANAKIS, 1997, p.22.).
Assim, nortearei o trabalho de pesquisa em psicodiagnóstico pelo modelo compreensivo, pois, nessa visão, tal qual Walter Trinca, considerarei a importância de apreender o indivíduo como um ser integral, em sua própria idiossincrasia. Assim, enfatizarei as várias abordagens, tais como: as entrevistas clínicas, a interpretação dos dados estatísticos comparados com outras pesquisas, o modelo de psicodiagnóstico médico e psicanalítico. E me conduzirei pelo fio condutor que Papazanakis nos sugeriu, isto é, o ego freudiano, como eixo de organização deste trabalho.
Entretanto, essa apreensão do indivíduo no trabalho de psicodiagnóstico, assim como numa obra de arte, sempre haverá algo que nos escapa, algo do indizível, o inapreensível, que está na essência do indivíduo que a criou, e no modelo freudiano tem no id sua morada.
Groddeck (1991), psiquiatra alemão muito ligado à psicanálise, manteve correspondência com Freud de 1917 a 1925, participando aquele da denominação do conceito de id (das Es), de forma a dizer segundo Laplanche e Pontalis (1985, p.288):
Sustento que o homem é animado pelo Desconhecido, uma força maravilhosa que ao mesmo tempo dirige o que ele faz e o que lhe acontece. A proposição ‘eu vivo’ só condicionalmente é correta, exprime apenas uma parte estreita e superficial do princípio fundamental. ‘O homem é vivido pelo id’.
Assim tentaremos apreender o indivíduo humano, por meio do modelo do psicodiagnóstico compreensivo, de forma análoga à plasticidade que os autores Othmer & Othmer (2003) referem em seus estudos sobre diagnóstico, nos quais eles equiparam seu trabalho à maneira de pintar de alguns artistas do século XX, à forma como eles assimilaram a figura humana. Os autores apontam como modelo o retrato de Sylvette, de Pablo Picasso, na qual ele apresenta uma inovadora experiência em que mostra a figura feminina de todos os lados, de frente, de lado, de trás, todos ocupando a tridimensionalidade da figura humana.
2.2. Elementos psicanalíticos para compreensão da sexualidade-