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Reconnaissance mutuelle des qualifications professionnelles

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primeiro livro de Ferréz, Fortaleza da desilusão, um livro de poesia concreta que foi lançado dia 22 de novembro de 1997 (CIDÃO afs, 2013).

110Evento de literatura marginal ocorrido no dia 15 de maio de 2017, às 17h, na Fábrica de Cultura

São Luís, localizada na zona sul de São Paulo. A convidada foi a historiadora mineira, escritora e dramaturga Cidinha da Silva, que falou sobre seu livro lançado em 2016 “#Parem de Nos Matar”.

111Cheiro do Ralo virou filme e foi lançado em 2007, sob a direção de Heitor Dhalia.

112Livro publicado pela Editora Planeta, escrito por Ferréz e ilustrado por Alexandre Demaio.

113A questão da “marginalidade e resistência” em Deus Foi Almoçar foi tratada por Rejane Pivetta de

A personagem protagonista do romance é Rael, um rapaz que gosta de ler e trabalha - ao contrário da maioria de seus amigos cujas histórias de vida fazem parte do enredo - busca uma conduta de vida honesta, mas se depara com o dilema de se apaixonar por Paula, namorada do amigo Matcherros. Rael leva o romance adiante e as consequências são trágicas. Essa paixão é vivida e ambientada no Capão, periferia, zona sul de São Paulo capital, lugar que é retratado por Ferréz como “terra sem lei”, onde amigos farreiam em carros abarrotados, terrenos baldios funcionam como cemitérios clandestinos, a polícia e o crime organizado montam firma114 juntos.

Tiroteios fazem as vezes de despertadores para trabalhadores (muitos sem trabalho) e o ócio durante os dias vira instituição para muitos jovens, vítimas do sistema – como indica o escritor. Outra instituição, as drogas (incluindo o álcool) que o autor retrata como elemento que arruína lares e acomoda pessoas consternadas à realidade dura com ares de imutabilidade. Caberia para essa associação: drogas e lares arruinados um estudo sociológico, com perspectivas de classe, pois é bem possível que esse tipo de associação ocorra para as classes privilegiadas – quiçá não do mesmo modo.

No texto de Capão Pecado “a peculiaridade basilar da estilística romanesca” (BAKHTIN, 2015, p.30) que inclui a dialogização do heterodiscurso social com suas dissonâncias individuais, além da “estratificação interna da língua nacional” (idem, p.29) pode ser percebida pela condução do narrador que é expresso por um texto mais formal do que o das personagens - sem tantas gírias e a oralidade presente nos diálogos -: “Pregos não totalmente pregados às tábuas recolhidas na feira para se montar barracos rasgam a sua pele. Só o ar frio da noite e o calor da fuga não o faz sentir grande dor” (FERRÉZ, 2013, p.117). Essa estratificação da língua e as dissonâncias individuais aparecem, também, no modo diferente de falar das personagens mulheres – linguagem dos gêneros (BAKHTIN, 2015, p.29) -, e das pessoas mais velhas – linguagem das gerações e das faixas etárias (idem, p.30). Mas o que marca estilisticamente o livro e explicita sua produção social, são “as participações”, que demonstram o modo de falar de um grupo.

114 Gíria para indicar associação, junção.

É muito comum no movimento Hip Hop o feat., que são participações coletivas nas produções materiais, obras de arte como o grafite, as letras de rap e Ferréz traz essa característica como possibilidade estética e compõe seu estilo de escrita nessa mesma aura do Movimento Hip Hop. Nessas participações os rappers são mensageiros, denunciam a realidade precária das periferias e têm sua cadência própria na leitura – em um ritmo que se aproxima muito das poesias do rap - além do próprio texto ficcional de Ferréz que também tem certa função de denúncia de determinada realidade, o que é realizado pelas descrições dos cenários feitas pelo narrador, tanto quanto pelos diálogos das personagens que ambientam a localidade: “- Fio, o pai vai pra tal Sede, mas num esquenta não, que se os filhos da puta levá uma eu desço a bota. – Cuidado, pai, esses caras não brincam em serviço. – Que nada, fio, são tudo comédia” (idem, p.146). A passagem citada se refere à ida de Chico, pai de Burgos (o vilão do livro, pois se opõe tanto ao sistema, quanto à própria quebrada), à sede da Igreja Universal, devido à insistência dos vizinhos à sua conversão, na sequência é narrada a experiência do culto nessa igreja.

Em um contexto geral, fora a demonstração da precariedade de zonas periféricas aos grandes centros urbanos, o livro representa o ódio entre classes (manos e playboys); o preconceito racial; a problemática da religião como formadora social; os divertimentos das e dos jovens, como mergulhar no Guaraci, lago que faz parte de um clube, onde os jovens entram de modo clandestino, bares, “bailes e rolês noturnos” (idem, p.24); relações de gênero que explicitam mulheres com jornadas triplas de trabalho ou tidas pelos homens como objetos: “- Mano! Cê precisa vê, catamos a Fátima ontem e levamos lá pro Doce Mel. [...] – Catamos? Com quantos ela foi ontem? – Vixe, ladrão! Ela foi comigo, com o Pássaro e com o Amarelos. – Nossa, que piranha, mano! E ela rendeu pra todo mundo assim na maior?” (idem, p.88).

Capão Pecado, como livro, nos permite a reflexão sobre o caráter social que o constitui. Já as histórias contadas, nos permitem sentir que os dias no Capão parecem passar num presente contínuo, pois a relação com o futuro é incerta. Projetos ambiciosos ligados à realização da própria vida soam fantasmagóricos, ou, como engano dos sentidos – isso porque a crueldade do entorno parece implacável. Segundo Ferréz (2013, p.8), na nota do autor, Capão Pecado é:

Um livro, talvez um reflexo de uma periferia que cerca toda a cidade. Um povo que serve a comida, que lava os carros, que faz a segurança, que cuida dos filhos dos ricos e que muitas vezes não tem segurança nem alimentação para os próprios filhos, e que ainda tem esperança, embora cada vez menos sonhos. (FERRÉZ, 2013, p.8).

Mais que um reflexo, diríamos que o livro é a apreensão de relações humanas e materiais de produção da sociedade, dinâmicas e complexas, que resultam em formações sociais muito distintas em suas formas, de uso dos meios técnicos, comunicação, desenvolvimento qualitativo e produção social.

Ao longo do livro, percebemos que os postos de trabalho ocupados pelos periféricos são os dos serviços pesados: na área da metalurgia, onde o trabalhador lida com um ambiente hostil em termos de limpeza e barulho, além de perigoso pelo convívio diário com altas temperaturas, precisa suportar quantidade de peso considerável e manusear máquinas de alto risco; os trabalhos que servem aos mais ricos diretamente, como o trabalho de uma diarista, empregada doméstica, motorista – estes dois últimos, foram os trabalhos desempenhados pelos pais de Ferréz; serviços que, sobretudo, não exigem alto grau de escolaridade. Também aparecem personagens como o vendedor de algodão doce, o atendente de padaria – Ferréz já ocupou este posto de trabalho.

Através das formações familiares presentes no romance, percebemos que esses postos de trabalho são passados como herança de geração em geração, o que não é consequência apenas do grau de escolarização baixo, mas de todo um modo de vida que sustenta as sociedades que são baseadas na diferenciação cultural hierárquica entre classes, entre uma pessoa e outra. No que diz respeito ao preparo para o sucesso pessoal no mercado de trabalho, Jessé Souza (2015) explica que,

[...] o indivíduo privilegiado por um aparente “talento inato” é, na verdade, produto de capacidade e habilidades transmitidas de pais para filhos por mecanismos de identificação afetiva por meio de exemplos cotidianos, assegurando a reprodução de privilégios de classe indefinidamente no tempo. (SOUZA, 2015, p.22-23).

Os pais retratados por Ferréz em Capão Pecado são indivíduos socialmente precarizados que sofrem humilhações diárias e transmitem às suas filhas e filhos a realidade de serem “‘corpo’ vendido a baixo preço” (SOUZA, 2015, p.24) que lutam

para sobreviver e não para preencher o tempo ocioso das filhas e filhos, com atividades de complementação à escola, como aprender outra língua, ou, atividades esportivas e de lazer, como fazer natação, ir ao teatro, cinema, biblioteca – o que ocorre nas classes média e alta. Atividades que permitem a aquisição e a reprodução de capital cultural por transmissão afetiva.

Apesar dessas práticas tornarem-se invisíveis (porque rotineiras) na vida cotidiana das classes média (SOUZA, 2009, p.19) são elas “que possibilitam primeiro o sucesso escolar dos filhos e depois o sucesso deles no mercado de trabalho, o que vai ser chamado de ‘mérito individual’ mais tarde e legitimar todo tipo de privilégio” (SOUZA, 2015, p.23).

[...] a vida não é fácil, estude, meu fio, foi o que seu pai lhe disse a vida inteira, mas ele só veio a sentir falta do estudo quando saiu de sua cidade e começou a procurar emprego no Rio de Janeiro. Encontrou um emprego temporário, que oferece alojamento, comida e um escasso salário mensal, lá está ele, de segunda a sábado, levantando vigas, fazendo concreto, trazendo tijolos, rebocando paredes, azulejando banheiros, aplicando massa, enfim, fazendo tudo que um ajudante de pedreiro faz. (FERRÉZ, 2013, p.125).

Essa é a vida de Carimbê, tio das personagens Matcherros e Cebola (irmãos em Capão Pecado e amigos de Rael, o protagonista da história). O corpo vendido a baixo preço consome grande parte de sua energia em trabalhos braçais, passa horas em função do transporte público, não têm o tempo justo para se alimentar e descansar, nem as condições necessárias para permanecer reproduzindo, com dignidade, seus afazeres diários, a própria vida. O resultado dessa equação é mais consumo da própria energia vital do que a reposição e manutenção desta, o que corresponde a uma mente/corpo sempre cansados e, indo mais além, à morte prematura. Não queremos aqui enfatizar a dicotomia corpo e mente, visto que trabalhos braçais também implicam em aprendizado: exigem observação, experiência, expressão verbal ou escrita, elaboração de argumentos. No entanto, o livro demonstra que o tempo dedicado a esse tipo de trabalho, toma conta da vida da pessoa trabalhadora de modo a não sobrar tempo e espaço para inúmeras atividades que são necessárias para que um indivíduo produza e reproduza a própria existência com dignidade, senso crítico transformador. Práticas que capacitam seres socialmente críticos não fazem parte da rotina dessas pessoas

cansadas, que se distanciam, diariamente, da aquisição da aparelhagem exigida na competição social, mais do que se aproximam – salvo exceções.

Essas mentes/corpos cansados servem de exemplo115 de vida às filhas e

filhos nas periferias e podem até incentivá-los aos estudos – como fez o pai de Carimbê-, visto que é por falta deles (em parte), que encontram-se na divisão social do trabalho, com os empregos de baixa renda e piores condições de existência. No entanto, estão em alto grau, materialmente e emocionalmente, distanciados das esferas de aquisição de conhecimento116 valorizado, o que não lhes permite

afetividade com o assunto – transmissão afetiva - e domínio do tema. Nos referimos aos conhecimentos que são valorizados socialmente e elevam, em termos de dignidade, as condições de vida dessas trabalhadoras(es) e permitem que o pensar e o agir se deem mais livremente: com o questionar, o interpretar, o criar, o escolher e o realizar fazendo parte de seu cotidiano. Esse tipo de conhecimento vem, parcialmente, do estudo formal: escolas, universidades, cursos e especializações.

As personagens em Capão Pecado, ao longo da narrativa, não migram de um lugar de fracasso para um lugar de sucesso, porque não bastam esforços sem recursos. No caso de Rael, o protagonista, o movimento é de um jovem que parecia estar no caminho certo, mas se perde até chegar ao erro seguido de morte. Estar no caminho certo é uma virtude para a ralé: “não ‘mexer nas coisas dos outros’ e nem se ‘meter com coisa errada’” (FREITAS, p.287, 2015, grifos da autora) é o que “sobra” de mais digno à ralé, que quando não tem a sorte de uma vida orientada “para o sucesso”, cai em comportamentos passíveis de punição social e criminal. O próprio Ferréz (2017) cita em uma de nossas entrevistas o ensinamento de sua mãe, que diz ser o único valor que ele segue: “- Não pegue nada de ninguém”.

Podemos conjecturar que as classes média e alta ensinam o mesmo. De fato, porém, o efeito esperado por estas classes é produzir crianças educadas, enquanto para as pessoas periféricas o efeito, além da educação, é diminuir a possibilidade da

115Ferréz costuma comentar em suas entrevistas que não teve, em casa, o exemplo de pais leitores e

nem a prática de leitura fazia parte de seu universo e de seus amigos na infância. No entanto, em outros momentos, afirma o pai, baiano, como leitor de cordel.

116No livro Ralé Brasileira: quem é e como vive, capítulo 12: “A Instituição do Fracasso: a educação

da ralé”, a pesquisadora Lorena Freitas, colaboradora do livro de Jessé Souza, relata histórias de família da ralé e demonstra a impossibilidade de ascensão desta classe, num cotidiano que agride corpo e alma por gerações.

filha ou do filho ser enquadrado pela polícia, o que pode acarretar em humilhações, surras e a temida privação da liberdade.

Com relação ao gênero literário, pelo estilo, Capão Pecado também é compreendido por alguns pesquisadores, como um tipo novo de realismo117, cujo um

dos aspectos relevantes é o fato da obra conter como cerne o tema da violência118

que está intimamente ligada a um conteúdo extraliterário procedente da vivência/experiência do escritor, morador de periferia.

[...] o menino que não concilia o sono com a fome; o barulho dos carros passando pela fresta do barraco, encobrindo a música do disco que fala de muitos na contramão da evolução social, sendo seus destinos infrutíferos, e sendo seus futuros tão gloriosos e raros quanto um belo pôr-do-sol.

Ë muito raro um favelado parar para ver as estrelas numa grande e farta cidade que só lhe entrega cada dia mais a miséria, mas que é sua cidade. (FERRÉZ, 2013, p.187-188).

A pessoa periférica é figura historicamente excluída da produção literária de modo geral - seja pelo consumo de livros, prática de leitura, seja pela criação e produção de literatura - fato que a difere com relação a outras(os) escritoras(es), que também tratam do mesmo tema, porém, olhando-o de fora119, imprimindo suas

percepções acerca da vida cotidiana (alheia, do outro) o que não é demérito, mas prática cultural.

117Williams defendia o realismo “como forma que permite ao escritor abarcar a sociedade em sua

totalidade” (GLASER apud WILLIAMS, 2011a).

118As “narrativas contemporâneas da violência” podem ser melhor estudadas na Tese de Doutorado

de Adélcio de Souza Cruz (2009), na qual cunha o termo “mercadoria da crueldade” - para a literatura de Fernando Bonassi, no livro Passaporte (2001) que, segundo Cruz (2009), pode ser estudado como herdeiro da linha estética de Rubem Fonseca, autor de Feliz Ano Novo (1975) - e, também, o termo “literatura ruidosa”, que considera como sendo a literatura produzida por Paulo Lins, autor de Cidade de Deus (1997) e Ferréz, autor trabalhado na presente tese, cujas tradições derivam, segundo Cruz (2009), de autores como Lima Barreto (literatura pré-modernista) que escreveu em 1949 Clara dos Anjos e Recordações do escrivão Isaías Caminha, Carolina Maria de Jesus (moradora da antiga favela do Canindé em São Paulo), autora de Quarto de Despejo (1960) e João Antônio Ferreira Filho, autor de Malagueta, Perus e Bacanaço (1963).

119No livro O romance histórico de Lukács, primeiro capítulo, A forma do romance clássico, o autor

descreve a importância de Walter Scott (início do séc. XIX), ícone na produção/criação do romance histórico, no que concerne à criação de personagens representantes da vida popular e/ou excluídos socialmente como: ladrões, traficantes, etc. Porém, Walter Scott era “membro da pequena nobreza inglesa fortemente ligado à burguesia no que diz respeito às tradições e ao estilo de vida individual” (LUKÁCS, 2011, p.75) e, em sua extensa criação, deu traços marginalizados a seus personagens, não era ele mesmo um homem escritor socialmente marginalizado.

O perigo de usarmos afirmações como um tipo novo de realismo está no esquecimento do que veio antes e organizou todo um modo de compreensão das formas sociais que surgiram após a formação das cidades com a Revolução Industrial. Vimos que- o romance, como obra literária e sua produção, tem íntima ligação com os anseios da então classe burguesa, devido não só aos conteúdos temáticos próximos à realidade social, mas também à sua forma. Por mais que o escritor incorpore elementos do discurso falado em sua linguagem literária é importante lembrarmos que não se dá do mesmo modo que a fala e sua linguagem cotidiana - que tem por característica alto grau de espontaneidade. É uma linguagem que resulta de um exercício de reflexão, segundo Eagleton (2006), “uma espécie de violência linguística: a literatura é uma forma ‘especial’ de linguagem, em contraste com a linguagem ‘comum’, que usamos habitualmente” (idem, p.6-7, grifos do autor). Portanto, quando Ferréz escreve fazendo o uso da linguagem da quebrada, seu filtro criativo e intenções estão na composição do texto, desenhando um estilo próprio, expressando ideologias, indicando lugares de fala e uma realidade mais ampla que a de Ferréz como escritor e do livro objeto literário. Segundo Williams (2014, p.100), “linguagem, que é simultaneamente forma e conteúdo, inclui, embora muitas vezes de modo inconsciente, as relações reais – e a tensão entre essas relações e as relações conscientes – do escritor e de outros”.

Considerando essas questões podemos afirmar, com base em Bakhtin (2015), que o romance tem como princípio seu tom social, pois a própria palavra tem sua vida social. Além do mais, extrapola a chamada língua única, dominante - aquela necessária para que se efetivem os processos de centralização sociopolítica e cultural. Esta língua única, na verdade, é uma abstração gramatical, pois encontra- se apartada da vida social, não expressa pontos de vistas, apesar de estar carregada de intenções, por exemplo, quando subjuga culturalmente outras línguas e dialetos (BAKHTIN, p.40-41, 2015). Em Capão Pecado, Ferréz usa esta língua única, mas também desvia, permitindo que seu enunciado se complete pelas dicções do outro – a prosa permite esse tipo de texto híbrido. Segundo Williams (2014):

[...] a prosa é um compartilhamento de experiências que, em suas qualidades humanas, pode transcender e influenciar as relações sociais. É sempre assim na relação emtre literatura e sociedade: a sociedade

determina a escrita da literatura muito mais do que percebemos e em níveis muito mais profundos do que admitimos em geral. (WILLIAMS, 2014, p.98).

Fica claro tanto no discurso literário de Ferréz, quanto no extraliterário, que a vontade do autor é produzir um discurso responsivo antecipável (idem, p.52), no sentido mesmo de conceber uma literatura para seu público alvo, o público da quebrada - fato que não limita outras possibilidades de alcance, pelas trocas culturais que se dão permanentemente entre centros e periferias, no campo da literatura. Segundo Williams (2014, p.98), “Em sentido mais geral, a escrita da prosa é uma transação entre números identificáveis de escritores e leitores, organizados em certas relações sociais variáveis, como educação, hábitos de classe, distribuição e custos de publicação”.

As molduras possíveis para tratarmos o romance Capão Pecado são muitas e variam conforme as possibilidades de enfoque – sociologia, literatura contemporânea, literatura testemunhal, literatura oral, documental, novo realismo -, optamos por tratá-lo como faz Ferréz ao intitular sua prática de escrita: Literatura Marginal. O termo Literatura Marginal, relacionado ao Capão Pecado, marca um espaço político e geográfico, uma linguagem. A expressão da quebrada, cujas relações sociais trazem a lume culturas marginais, são o tempo todo atravessadas por expressões culturais dominantes, quando não se estendem até elas e a penetram, borrando (mas não apagando) fronteiras, confrontando organizações do simbólico, ou mesmo propondo, em vez de representações do social, sua reapresentação – visto que culturas dominantes e culturas marginais não são entidades e sim, cenários. Segundo Canclini (2015, p.362): “Um cenário [...] é um lugar onde um relato é levado à cena. É preciso incluir na reestruturação a reencenação, os procedimentos de hibridação mediante os quais as reapresentações do social são elaboradas com o sentido dramático”.

Na escrita da presente tese reconhecemos a complexidade e possíveis conflitos que podem haver ao tentarmos explicar, pela obra de Ferréz, o que vem a ser Literatura Marginal que, de certa forma, reapresenta tanto pessoas em situação de marginalização social como a própria literatura.

Ferréz mesmo, ao denominar dessa forma sua produção literária, indica um estilo, porém, produz obras com elementos muito distintos, coordena códigos

culturais de diferentes espaços sociais, o que demonstra que a afirmação de sua literatura, como literatura marginal, tem mais a ver com uma reivindicação política articulada ao uso de determinadas linguagens. Tem a ver, também, com a trajetória de vida que organiza o simbólico e a produção material nessa trajetória.

Se tentarmos imaginar qual o projeto de Ferréz, como romancista, para este livro e em como estabelece o nexo com a realidade cotidiana, a ênfase nos tipos de

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