A LR dos pneus inservíveis é objeto de muitos estudos realizados no Brasil. Além dos trabalhos mostrados na análise bibliométrica no capítulo 1, artigos, dissertações e teses nacionais mostram alguns exemplos de pesquisas realizadas em território brasileiro.
Fagundes, Amorim e Lima (2017) apresentam uma pesquisa-ação sobre a LR de pneus inservíveis em um município de pequeno porte com foco na fase inicial do processo, a coleta, que se apresenta como um dos gargalos. Segundo os autores, um dos principais fatores que complica o correto funcionamento do processo é que consumidores finais, órgãos públicos e empresas particulares devem trabalhar conjuntamente. Dentro deste contexto, o trabalho teve como objetivo identificar oportunidades de melhoria na coleta de pneus inservíveis, através de uma pesquisa-ação que envolveu a participação simultânea de um órgão público e de empresas privadas. O trabalho foi realizado em uma cidade com menos de cem mil habitantes no Brasil. O resultado final mostrou a eficiência do método de pesquisa-ação aplicado em um processo que envolveu os setores público e privado, uma vez que após a implementação das melhorias a coleta mensal aumentou em mais de 50%.
Stark (2015) propôs melhoria na LR de pneus inservíveis no estado de São Paulo por meio de um modelo linear inteiro misto como apoio às decisões de localização de instalações de centros de armazenamento e empresas intermediárias; alocação do material entre os níveis de ecopontos, centros, empresas intermediárias e destinação, visando a minimização dos custos.
Vivaldo et al. (2015) enfatizam a complexidade da LR de pneus inservíveis em uma cidade de 6164 habitantes localizada em Goiás. A cidade segue todo o procedimento para a adequada destinação deste resíduo: existem dois pontos de coleta que funcionam em duas borracharias, onde os agentes envolvidos na cadeia de pneumáticos depositam os pneus inservíveis. Os pneus coletados são levados semanalmente para uma área do aterro controlado municipal onde aguardam o transporte para a destinação final, que é uma fábrica de cimento
localizada a 60 km. O transporte para a destinação final acontece uma vez por mês e é de responsabilidade da prefeitura municipal, que para finalizar o ciclo solicita o certificado de destinação ambientalmente correta.
Vivaldo et al. (2015) citam como benchmarking na LR de pneus inservíveis o Programa Rodando Limpo que aconteceu em João Pessoa, (PB) desde março de 2005. O trabalho de Freitas e Nóbrega (2014) mostra em detalhes este programa, que consistiu na coleta e destinação final dos pneus inservíveis para utilização como combustível em fornos de fabricação de clinquer. Estes autores confirmaram os benefícios no coprocessamento e ações realizadas pelo setor de pneus em conjunto com a indústria cimenteira que ajudam a resolver os graves problemas ambientais resultantes do descarte de pneus inservíveis.
Bauer et al. (2015) através de um estudo de caso duplo descrevem como os pneus podem retornar ao ciclo de negócios após serem usados. O trabalho mostra os diferentes canais de retorno. Os pneus descartados que ainda são servíveis podem passar por processos de recuperação que ainda garantirão sua utilização por mais algum tempo. Já os pneus inservíveis podem retornar como matéria prima para a indústria cimenteira, destinados para o coprocessamento em fornos de clínquer. Neste caso, podem também ser destinados à reciclagem, para a indústria de artefatos, construção civil, indústria de construção rodoviária e de materiais de fricção.
Andrade, Jesus e Cruz (2015) relatam em seu trabalho a baixa eficiência da LR com posterior destinação ambientalmente correta dos pneus inservíveis no extremo sul da Bahia, como a inexistência de ponto de coleta e descarte dos pneus em lixões e aterros. Para auxiliarem na resolução do problema, propuseram a criação de uma usina de reciclagem e fizeram uma análise de viabilidade econômica, social e ambiental. Apesar dos resultados serem positivos quando analisados os aspectos sociais e ambientais, a viabilidade econômica não justifica o investimento, com uma rentabilidade de 3% ao ano e consequentemente um prazo de retorno de investimento de aproximadamente 34 anos. Os autores concluem que a inviabilidade econômica é devido ao alto custo com a implantação da recicladora, o que poderia ser resolvido com uma parceria com fabricantes de pneus ou com a própria ANIP.
Lagarinhos, Tenório e Espinosa (2013) apresentam os resultados obtidos com a reciclagem de pneus no Brasil pelos fabricantes e importadores de pneus inservíveis e as tecnologias utilizadas para a destinação final. Este trabalho traz como conclusão a importância de se aumentarem as ações para que a meta de destinação ambientalmente correta sempre seja alcançada. Outra contribuição deste trabalho é o ponto para reflexão sobre o fato de que os
fabricantes e importadores não trabalham em conjunto para realizar a coleta, transporte e destinação dos pneus inservíveis o que gera um aumento do custo da coleta e destinação.
Spreafico et al. (2012) fizeram o diagnóstico da LR de pneus inservíveis na região norte do Ceará. O resultado mostra a desinformação e não atendimento às legislações federais como os principais problemas na disposição final dos pneus inservíveis.
Souza e D’ Agosto (2013) e Souza (2011) fizeram a análise da cadeia de valor de uma rede de LR de pneus inservíveis. O estudo comprova que é possível distribuir os benefícios financeiros ao longo da cadeia, quando a destinação final dos pneus é o coprocessamento em fábricas de cimento substituindo o coque de petróleo. O método proposto pode ajudar a melhorar os processos existentes ao longo da cadeia de LR, reduzir custos ou criar valor para o cliente. A grande contribuição do estudo de Souza e D’ Agosto (2013) e Souza (2011) é que os pneus inservíveis que são geralmente considerados bens de valor negativo que não geram receita quando reintroduzidos no ciclo de produção, podem sim constituir uma rede sustentável economicamente. Apesar do método proposto mostrar que é possível remunerar os elementos da cadeia, em situações extremas em que o coque de petróleo atinge o valor mínimo, em outras situações torna-se insustentável a substituição. Apesar do estudo de Souza e D’ Agosto (2013) e Souza (2011) ser limitado a situação proposta no trabalho, para a cidade do Rio de Janeiro tendo como cliente a fábrica de cimento mais próxima, é um grande passo para tratativas visando o lado econômico desta rede logística e não apenas ambiental. Souza e D’ Agosto (2013) e Souza (2011) concluem que a possibilidade de obter algum benefício financeiro para todos os agentes da cadeia, aumenta a atratividade da utilização de pneus inservíveis na cadeia de LR, que pode fornecer um abastecimento mais regular dos pneus processados e um melhor nível de serviço ao cliente.
Uma conclusão importante do trabalho de Souza e D’ Agosto (2013) e Souza (2011) é que a principal limitação para o uso de pneus inservíveis como um substituto para o coque de petróleo é o fato das fábricas de cimento no Brasil serem pagas para eliminar este resíduo, situação que foi desconsiderada no estudo. Os autores finalizam mencionando que essa destinação pode não ser a mais adequada, mas por ser a mais utilizada no Brasil e no restante do mundo, merece atenção e estudos para melhorias no processo. Neste estudo não foram considerados os potenciais benefícios sociais e ambientais oriundos da reciclagem dos pneus.
Rocha (2008) utilizou modelos de localização para um sistema de LR dos pneus inservíveis no estado do Ceará, visando à reciclagem da borracha a ser empregada na pavimentação asfáltica. O objetivo do trabalho foi determinar uma configuração adequada para a rede de coleta de pneus inservíveis no estado do Ceará, identificando a localização
apropriada para instalação de pontos de coleta e propondo ações que auxiliem na dinamização do fluxo reverso de pneus.
Pode-se perceber que existe uma lacuna de estudo referente ao aumento da eficiência no processo de LR dos pneus inservíveis relacionado ao funcionamento dos consórcios de cidade. Além disto, nenhum dos estudos descritos faz uso da SED para análise de alternativas que aumentem o desempenho do sistema. Estes aspectos são tratados na presente tese.