Coordinating the Use of Lean Across Ministries and Certain Other Agencies
5. We recommend that those responsible for the Lean initiative regularly assess the timeliness and quality of feedback provided on Lean plans
A discussão sobre o papel das tecnologias do imaginário em relação ao vilão da Copa do Mundo de 1950 apresentou resultados interessantes e que não se encerram neste momento, após a análise dos dados. Na verdade, pode suscitar outros debates. Primeiramente, a respeito de Barbosa, foi reveladora para o presente trabalho a constatação de que, ao menos no corpus analisado, sua figura como grande culpado ou símbolo da derrota brasileira para o Uruguai tenha se mostrado frágil, sem registros absolutamente contundentes, com direito a outro ator em cena bastante recorrente, caso de Bigode.
A analogia da bacia semântica ajudou para se alcançar essa visão mais amplificada e panorâmica do fluxo de informações sobre a derrota do Brasil nas páginas do periódico. Pode- se constatar uma mudança na forma de encarar o revés. De um começo mais branco, eufórico, de valorização do rival vencedor e com otimismo em relação ao futuro, os cronistas esportivos da época passaram a se debruçar sobre aspectos mais práticos de causas da derrota, como fatores psicológicos, falta de uma liderança mais forte, erros de marcação, falhas de Bigode e de Barbosa, entre outros.
Todavia, a discussão diretamente relacionada às razões da derrota ocorrem de forma mais contundente quando o filme da Copa do Mundo começa a ganhar destaque nas páginas do Jornal dos Sports. Antes, tínhamos o relato do jornal impresso pura e simplesmente. Ao entrar em ação os anúncios e textos de divulgação e repercussão do filme, o cinema influencia o texto do jornal. Há, portanto, duas tecnologias em voga e é possível entender uma mudança de percepção do mesmo fato quando não havia o cinema, isso porque o cinema tem essa capacidade de apelar para estratégias de sedução que ficam evidentes na forma com que o texto do jornal trata o assunto a partir do estímulo audiovisual. O vídeo faz as pessoas reviverem ou terem emoções novas sobre a Copa e também, segundo o jornal, tira todas as dúvidas e esclarece por que o Brasil perdeu. Todas as outras reflexões anteriores a respeito do revés, das mais otimistas às pessimistas, parecem perder o valor diante da imagem. É neste momento que Barbosa ganha mais destaque, quase sempre atrelado ao filme e aos motivos da derrota por meio de anúncios com a sua foto ou depoimentos de pessoas que assistiram ao filme, caso importante de José Lins do Rego, já citado.
É possível compreender que o Barbosa vilão, referência automática da derrota do Brasil diante do Uruguai, foi construída e contou com as tecnologias do imaginário para tal, a interação delas. Como se vê, é um processo gradual, lento e que não se encerra na análise de
cerca de cinco meses do Jornal dos Sports. Esse corpus auxilia na percepção do contexto e como alegoria de uma bacia semântica mais extensa e complexa que perpassa as décadas. Tanto perpassa as décadas que se chega à Copa de 2014, também no Brasil, e, diante de um vexame da seleção, ao menos dois jornais, no dia seguinte, pedem desculpas a Barbosa e aos jogadores de 1950 por acharem que aquele havia sido o maior desastre futebolístico da história nacional. Ao menos dois jornais praticarem esse movimento de reverência a 1950 é uma mostra interessante de que aquele ano estava no imaginário da derrota, sobretudo com Barbosa de protagonista, e que, após a goleada de 7 a 1 da Alemanha em 2014, abre-se a possibilidade de uma nova tradição, de uma nova concepção do que vem a ser uma derrota trágica do Brasil em Copas. Ou seja, pode-se estar aí o início da cristalização de um novo imaginário, que sai da cobertura esportiva e chega na sociedade.
Um ponto de reflexão que também surge da análise é o papel do jornalismo em si. Lembrando-se da discussão de capítulos anteriores, a construção do vilão Barbosa é um bom exemplo de quanto o jornalismo pode ir muito além de sua função básica de informar. O jornalismo diz buscar a verdade, porém mais parece construir versões a respeito de fatos. E, para isso, utiliza-se de técnicas e estratégias de espetacularização. O vilão (ou o herói) nada mais é do que espetacularizar personagens que se prestam a determinados enredos concebidos com a intenção de informar, sim, mas também entreter, gerar atenção e vender, seja vender jornais, anúncios ou qualquer outra coisa. Talvez por isso que o jornalismo do Jornal dos Sports tenha valorizado tanto o filme a ponto deste transformar o conteúdo. No fim, o jornal impresso e o cinema se prestaram para o mesmo fim, de construir um imaginário de uma história a respeito de uma grande derrota. Como fora visto, Mário Filho teve sua obra criticada por alguns estudiosos exatamente pela sua inclinação ao romance. Tratou a história do negro no futebol brasileiro com uma narrativa romanceada, encadeada como uma grande ficção. Mas também sua obra está repleta de informações importantes e foi responsável por sedimentar um imaginário em torno do futebol brasileiro e do papel do racismo no processo de amadurecimento do esporte.
Imaginava-se que, além do protagonismo de Barbosa, fosse encontrado, nas páginas do Jornal dos Sports, o assunto referente ao racismo. Isso não foi detectado nas leituras, o que leva a crer que pensar Barbosa como um vilão arregimentado também à base do pensamento racista do povo brasileiro foi uma construção que levou certo tempo, assim como sua própria condição de vilão no campo de futebol. Igualmente, não foi avistada referência ao termo Maracanazo, que se tornou conhecido mundialmente como forma de lembrar o jogo de 16 de
julho de 1950. Quando isso aconteceu? Como aconteceu? Assim como o racismo, é um tópico dessa longa trajetória que merece novos estudos. Acredita-se que há muitos outros pontos de virada, que impulsionaram, durante as décadas, o vilanismo para Barbosa. Neste curto período de análise, foi o cinema em conjunção com o texto impresso, duas tecnologias. Pode ter sido, mais adiante, o impacto da televisão nas casas das pessoas. Pode ter sido, ainda mais adiante, a produção audiovisual sobre o jogo, como o curta-metragem citado aqui, em que um homem volta no tempo para tentar evitar o gol de Ghiggia. Ou ainda a eclosão de livros sobre o Maracanazo, também uma tecnologia que pode ter sedimentado esse imaginário.
Barbosa pode ter falhado, mas isso não é o mesmo que ser transformado no símbolo de uma derrota. De um ponto a outro, há uma grande distância. Nessa lacuna, ingressam os agentes que ressignificam as coisas. Ingressam os responsáveis por fazer de um fato (a falha) em uma grande história (o imaginário), uma versão da verdade. Ingressam nessa lacuna o aparato técnico e tecnológico dos meios de comunicação. Conclusões que nos inclinam a ampliar a reflexão do papel do jornalista e suscitam futuros estudos sobre o assunto.