3. Analyse de la littérature
3.1 Recommandations générales
O objetivo geral deste trabalho, como já estabelecido, é reconstruir o arcabouço teórico-conceitual e metodológico da sociologia de Florestan Fernandes. De acordo com as exigências do método de “análise das significações”, proposto por Karl Mannheim e explanado anteriormente, essa reconstrução deveria partir – nas tentativas de investigar as origens ideológicas da obra de um autor ou de identificá-la com certos estilos sociais de pensamento – das categorias teóricas mais gerais e abstratas. Esse ponto de partida analítico pode ser utilizado não apenas no estudo da visão de mundo pertencente a uma dada época histórica, como fez Mannheim com o conservantismo alemão do século XIX, mas também poderá inspirar investigações sociológicas capazes de desvendar as raízes ideológicas das orientações teóricas centrais de um determinado cientista social. A hipótese principal aqui sustentada é a de que as categorias metodológicas de Florestan Fernandes não podem ser adequadamente interpretadas e assimiladas sem referência a seu estilo de pensamento ou visão de
mundo radical-popular, anticolonialista e socialista. Não se trata simplesmente de
querer provar a presença do socialismo, como forma de reflexão sobre o mundo histórico e social, na sociologia acadêmica de Florestan Fernandes produzida entre as décadas de 1940 e 1960, mas de reconhecer que sem o exame de tais raízes ideológicas será impossível compreender suas efetivas posições teóricas, metodológicas e práticas nas ciências sociais. No intuito de fortalecer essa hipótese, procurou-se seguir os passos gerais do método sugerido por Mannheim, de modo que esta segunda parte do trabalho será dedicada ao aspecto mais abstrato do pensamento teórico de Florestan Fernandes, a sua definição de sociologia. A presente discussão não poderia ser
avançada, entretanto, sem uma caracterização prévia do sentido que a reflexão teórica nas ciências sociais detinha para o intelectual uspiano, que precederá, portanto, a exposição de sua conceituação particular do campo sociológico como especialidade acadêmica. Nas próximas partes do trabalho, as categorias metodológicas fundamentais de Florestan Fernandes serão reconstruídas a partir de sua definição geral de sociologia apresentada adiante e de sua similitude morfológica ou estrutural com o pensamento socialista. Essa visão irá contrastar, em especial, com as interpretações correntemente aceitas que associaram os aspectos teóricos, metodológicos e práticos da produção sociológica de Florestan Fernandes às feições características do modelo político-liberal de pensamento e sua identificação valorativa com a ordem social burguesa. A validade desse enfoque alternativo, o de análise da sociologia de Fernandes a partir dos seus parâmetros ideológicos socialistas, só poderá ser verificada após a demonstração de que o ponto de vista oposto, que enfatiza o aspecto liberal-burguês, revela certos equívocos e lacunas insanáveis na interpretação do pensamento teórico do cientista social paulistano. Essa última tarefa, contudo, não corresponderá a esta parte do trabalho. O objetivo maior, agora, será o de estabelecer, pelo exame da definição de sociologia em Florestan Fernandes, os marcos iniciais e os elementos preliminares das demais etapas desta investigação sociológica sobre uma das principais obras de reflexão teórica nas ciências sociais brasileiras.
O sentido do trabalho teórico em Florestan Fernandes
Não seria possível reconstruir as categorias sociológicas fundamentais de Florestan Fernandes sem atinar, antes, para o significado que teve o trabalho teórico
em sua produção acadêmica. Por isso seria oportuno chamar atenção, primeiro, para os objetivos pedagógicos colimados por Fernandes em alguns de seus trabalhos de sistematização conceitual e, segundo, para os cuidados a serem tomados de modo a não sugerir a existência de um projeto teórico pronto e acabado, cujos delineamentos mais gerais já tivessem sido elaborados de antemão, como potencialidades a serem realizadas, bastando apenas que seu portador intelectual aos poucos fosse desenvolvendo os elementos presentes nas “intenções básicas” (Mannheim) de seu pensamento. Essa seria uma visão idealizada da evolução da obra de um autor, em especial de um cientista social, a qual pode passar por transformações radicais em decorrência de seus vínculos cambiantes e contraditórios com a sociedade, sendo inconcebível uma coerência teórica, conceitual e metodológica totais num mesmo momento e, principalmente, ao longo do tempo. Quanto ao primeiro ponto, seria imprescindível lembrar a importância decisiva que a atividade docente teve para Florestan Fernandes em sua formação como sociólogo. A necessidade de “reduzir o conhecimento acumulado previamente ao que é essencial” e, ao mesmo tempo, de “expor tal conhecimento de modo claro, conciso e elegante” (Fernandes, 1980c: 176) impulsionou Fernandes a concentrar seus esforços pedagógicos na aprendizagem básica do estudante ou, mais precisamente, no ensino da “teoria elementar, que é ‘geral’ e precisa ser aprendida logo de início” (Fernandes, 1978a: 21). Ao voltar-se para a tarefa de exposição sistemática dos requisitos fundamentais e indispensáveis na formação do cientista social, Fernandes pôde tornar seu labor de reflexão teórica mais consistente em termos de precisão conceitual e domínio dos instrumentos metodológicos em diferentes campos de investigação de sua disciplina acadêmica.
Essas observações parecem tanto mais verdadeiras quando se considera a íntima ligação entre alguns dos escritos teóricos e metodológicos mais relevantes de
Florestan Fernandes e suas atividades de ensino. Não só seu projeto não concretizado de escrever um manual de sociologia o atesta1, mas também o seu ensaio “Apontamentos sobre os problemas da indução na sociologia” (1954) e seu livro A
natureza sociológica da sociologia (1980a), ambos escritos para servirem de roteiros
de exposição em salas de aula2. Ainda a esse respeito, caberia mencionar seu trabalho de organizador de coletâneas de textos básicos na área das ciências sociais, projetados com o intuito de suprir lacunas na formação de novos pesquisadores. Em Comunidade
e sociedade (1973a), por exemplo, Fernandes agrupa os vários escritos pertencentes a
diferentes autores fundamentais das ciências sociais segundo uma ordem logicamente coerente, partindo dos problemas teóricos, conceituais e metodológicos para alcançar o âmbito mais específico das questões de aplicação3. Como bem notou Renan Freitas Pinto, uma particularidade existente nas coletâneas organizadas por Florestan
1 O referido manual deveria ter sido publicado pela extinta Companhia Editora Nacional. Fernandes
chegou a escrever cinco capítulos: “O que é a sociologia?” (1959); “As grandes formas da vida social” (1959); “As perspectivas fundamentais da explicação sociológica” (1965); “A interação social” (1965) e “O conceito de sistema social” (1965). Esses textos podem ser atualmente consultados em Elementos de
sociologia teórica, em cujo prefácio Fernandes revela as razões do abandono de seu projeto original: “A
introdução e a primeira parte contêm capítulos de duas tentativas frustradas (uma, de 1959; outra, de 1965) de escrever um manual de sociologia, velho compromisso que tenho com a Companhia Editora Nacional. Ambas as tentativas foram interrompidas: a primeira, porque resolvi fazer um levantamento sobre o ensino de nível superior da sociologia no Brasil e os resultados evidenciaram a conveniência da adoção de um plano mais flexível; a segunda, porque as reformas em curso no ensino superior impunham que se aguardasse o que iria acontecer com a sociologia nas soluções e nos enquadramentos finais” (Fernandes, 1974: 9).
2 O primeiro escrito foi publicado como a segunda parte de Fundamentos empíricos da explicação
sociológica (1978c), consistindo na “reprodução das preleções, feitas em janeiro de 1954, aos
professores de sociologia de escolas normais oficiais, que se inscreveram no Curso de Extensão
Cultural, promovido em colaboração pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo e pela
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo” (Fernandes, 1978c: 41). De acordo com Florestan Fernandes, o formato original do texto a ser desenvolvido em sala de aula foi também mantido (Fernandes, 1978c: 41). Já o livro A natureza sociológica da sociologia teve sua origem diretamente num curso de pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 1978, sob o título “A sociologia em uma época de crise da civilização”.
3 Na verdade, o título completo da coletânea acima mencionada é Comunidade e sociedade: leituras
sobre problemas conceituais, metodológicos e de aplicação (1973a), sendo cada uma das seções gerais
do livro precedida por textos introdutórios do próprio Florestan Fernandes. Além da “nota prévia” que antecede toda a coletânea, encontram-se introduções parciais do organizador às seguintes divisões da obra: I - A perspectiva macro-sociológica; II - Distinções e contrastes conceituais básicos; III - O estudo da comunidade e da sociedade; IV - Alguns problemas práticos. Dentre os autores selecionados por Fernandes, podem ser observados nomes como Gurvitch, Wright Mills, Simmel, Tönnies, Weber, Park e Burgess, Parsons, Mannheim, Goldmann, Comte, Malinowski, Wirth, Bettelheim, apenas para citar alguns dos mais conhecidos.
Fernandes é que “o conjunto de introduções que o autor escreveu para apresentar as diversas unidades temáticas das coletâneas, representam a rigor, uma síntese de seu pensamento teórico”4 (Freitas Pinto, 1992: 159). Na qualidade de atividade de caráter pedagógico5, as obras organizadas por Fernandes concorrem para potencializar a síntese de seu próprio pensamento teórico. Tais considerações poderiam ser estendidas,
mutatis mutandis, ao papel de coordenador desempenhado por Florestan Fernandes no
ambicioso projeto editorial que representou a coleção “Grandes Cientistas Sociais”, editada entre 1978 e 1990. Ao todo com sessenta volumes publicados, essa coleção reuniu coletâneas de autores fundamentais das ciências sociais, distribuindo-se pelas áreas de Sociologia, Antropologia, História, Economia, Geografia, Psicologia e também Pensamento Político. Essas subdivisões e a própria escolha dos autores a figurarem na “Coleção” podem lançar pistas bastante significativas para a compreensão da pluralidade e afinidades teóricas do pensamento de Florestan Fernandes, constituindo um relevante tema de investigação o conhecimento da história de cada volume publicado e o porquê da ausência de alguns nomes que chegaram a ser cogitados6. Em tais sentidos é que se pode afirmar que as tarefas pedagógicas de
4 Ainda em relação às introduções de Fernandes para os livros por ele organizados, irá asseverar esse
mesmo autor como elas podem se revelar uma síntese da produção teórica do sociólogo paulistano: “Há nessas introduções, anotações que se referem a questões centrais de sua obra, como pode ser melhor verificado se o leitor fizer uma leitura dessas introduções, independente da leitura dos textos dos autores incluídos. Se quisermos dizer de outra forma, encontraremos aí um conjunto relativamente completo de temas teóricos e problemas de natureza empírica e de aplicação, que correspondem em suas linhas gerais, a seu pensamento sociológico e aos temas centrais de sua obra” (Freitas Pinto, 1992: 159).
5 É assim que na introdução à seção “Alguns problemas práticos”, do livro Comunidade e sociedade,
dirá Florestan Fernandes: “O conjunto de leituras, reunidas neste capítulo, tem um objetivo restrito. Elas visam ‘iniciar’ o estudante na dimensão prática da reflexão sociológica. Portanto, trata-se de uma unidade de trabalho didático que o professor poderá ou não explorar, dependendo da orientação que imprimiu aos cursos e à preparação de seus alunos. Em termos ideais, convinha enriquecer o livro através dessa unidade de trabalho didático” (Fernandes, 1973a: 387).
6 Na pesquisa que empreendi no Acervo Particular de Florestan Fernandes, entre os meses de maio e
julho de 2006, foi encontrada uma pequena troca de correspondência entre o coordenador da Coleção e a editora Ática. Havia também uma lista de volumes já publicados e de outros apenas projetados para serem editados, a exemplo de dois livros que seriam dedicados a Frantz Fanon e a Antonio Gramsci, figurando também os nomes dos respectivos organizadores de cada uma das coletâneas. A importância de uma pesquisa específica sobre a história da “Coleção Grandes Cientistas Sociais” foi antes destacada
Florestan Fernandes como docente em universidades brasileiras e coordenador, compilador e organizador de coletâneas introdutórias fazem parte da própria construção de seu pensamento teórico.
Não seria exagerado afirmar que esse trabalho, ao mesmo tempo teórico e didático de Florestan Fernandes, teve continuidade em outras compilações desta vez organizadas por alguns de seus antigos alunos, assistentes e colaboradores mais diretos junto à Cadeira de Sociologia I da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo e ao CESIT (Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho). São os casos, por exemplo, de Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni em Homem e sociedade: leituras básicas de sociologia geral (1970), coletânea pensada como um livro introdutório na área da “sociologia sistemática”, cujo complemento seria o volume Comunidade e sociedade (1973a), antes mencionado e organizado pelo próprio Fernandes. Não há dúvidas de que as leituras acima propostas por Cardoso e Ianni estavam diretamente vinculadas ao arcabouço teórico, conceitual e metodológico de Florestan Fernandes no que diz respeito às divisões dos campos fundamentais da sociologia, assunto específico a ser tratado mais adiante na quarta parte deste trabalho. Exemplos marcantes de outras compilações, as quais certamente guardam afinidades teóricas com a perspectiva sociológica de Florestan Fernandes, podem ser encontrados nos seguintes volumes: Teorias de estratificação social:
leituras de sociologia, organizado por Octavio Ianni (1972); Educação e sociedade:
leituras de sociologia da educação (1970), com textos compilados por Luiz Pereira e
Marialice Mencarini Foracchi; Sociologia e sociedade: leituras de introdução à
sociologia (1977), sob organização de Marialice Mencarini Foracchi e José de Souza
por Paulo Henrique Martinez, “História política do Brasil e análise de classes”, in Florestan Fernandes,
Martins; e, ainda, Sociologia: para ler os clássicos (2005b), organizado por Gabriel Cohn. Esses exemplos seriam suficientes para apresentar a ressonância do trabalho teórico de Florestan Fernandes, como uma espécie de prolongamento de suas preocupações acadêmicas e pedagógicas, na orientação das coletâneas então elaboradas por alguns de seus colaboradores mais diretos.
Quanto ao segundo ponto (cf. supra, p. 140), é preciso ter em mente que o projeto intelectual de Florestan Fernandes foi sendo constantemente redefinido diante das circunstâncias institucionais e políticas com as quais ele se deparou no ambiente acadêmico da USP e no cenário mais abrangente da rápida modernização da cidade de São Paulo ao longo das décadas de 1940 e 50. Nesse sentido, cumpriria considerar como os diversos vínculos sociais estabelecidos em torno de Fernandes e por ele mesmo criados atuaram não somente como fontes de reelaborações de seu próprio pensamento, mas também de superação das contradições teóricas da sociologia por uma necessidade de maior integração conceitual e metodológica. Em outras palavras, deve-se evitar o equívoco interpretativo de afirmar a plena consciência de um projeto teórico, por parte de Florestan Fernandes, apenas pelo fato de se ter escolhido, como ponto de partida da análise, algumas das configurações mais desenvolvidas de seu pensamento num dado momento de sua trajetória intelectual. Essa opção metodológica não pretende sugerir que suas idéias tenham seguido, desde o início de sua construção teórica, um caminho já previamente definido e para o qual bastaria tão-somente descobrir os princípios teleológicos de seu desenvolvimento. As mudanças de direção e rupturas na produção de sua obra não poderiam ser previstas, nem os modos específicos como elas seriam integradas a estruturas teórico-conceituais edificadas em momentos anteriores. As ressalvas de Florestan Fernandes, ao ser perguntado como interpretaria “toda a sua produção científica”, se haveria “um projeto teórico, uma
‘linha-mestra’, orientando seus trabalhos e pesquisas” e qual seria “a sua trajetória intelectual”, são deveras elucidativas. No início de sua resposta, dirá:
“Essa é uma pergunta complicada para mim. Pelo que sei, só Comte sabia o que ele ia fazer durante todo o resto da vida. Em geral, as preocupações teóricas de qualquer intelectual – especialmente se ele é um sociólogo, historiador ou um antropólogo, enfim alguém que trabalha com problemas que dizem respeito às sociedades humanas – se alteram ao longo do tempo. Não há uma pessoa que nasça com um projeto e depois o realize completamente” (Fernandes, 1978a: 3).
Ainda em se tratando da construção da obra de Florestan Fernandes, seria necessário lembrar sua concepção particular de produção teórica nas ciências sociais como uma atividade inseparável da prática concreta de pesquisas. Isso implicou oscilações e diversos enriquecimentos conceituais nas posturas teóricas assumidas por Fernandes, muitas vezes em decorrência das mudanças nas suas próprias temáticas de investigação. O trabalho teórico, para ele, não poderia ser entendido como uma sorte qualquer de reflexão baseada em idéias gerais ou na mera especulação. Ao contrário, o avanço do conhecimento nas ciências sociais significava fundamentalmente a produção teórica original sobre uma determinada realidade ou sobre novos fenômenos que destoam de situações já investigadas, mas que guardam em relação a essas últimas conexões estruturais, funcionais ou de sentido. Uma maneira muito diferente de conceber teoria. Ao compará-la com os ambiciosos vôos especulativos, baseados em raciocínios hipotéticos, a partir dos quais se procura pensar a lógica de estruturação da ação social e dos elementos mais gerais e axiomáticos de quaisquer tipos de sociedade, pode-se cair na armadilha escolástica de considerar a modalidade de trabalho teórico pretendida por Fernandes como algo menor e desprovido de significação acadêmica mais profunda diante do reconhecimento, prestígio e notoriedade alcançados pelos que se dedicam à grande teoria. A crítica radical dessa atividade especulativa, oposta à idéia de uma construção teórica original nas ciências sociais, está presente de
diferentes formas no decorrer da trajetória sociológica de Florestan Fernandes. Nos depoimentos que prestou, por exemplo, sobre o tipo de ensino herdado de seus antigos mestres estrangeiros, principalmente franceses, Florestan Fernandes procurou sempre destacar as deficiências concernentes ao modo de compreender o labor teórico, nos marcos da orientação monográfica e eclética dos cursos então ministrados. A teoria era concebida mais em termos de uma propensão muito abstrata na discussão das idéias e sua gênese. Algo que, para Fernandes, estaria muito longe de ser considerado um verdadeiro trabalho teórico nas ciências sociais. As limitações desse tipo de ensino é que levariam os estudantes a conceberem o trabalho teórico como uma sorte qualquer de história das idéias, ou de balanço dos avanços obtidos em certos campos de investigação, e não como uma atividade voltada para a produção de conhecimentos originais sobre determinados fenômenos com base na construção de novos conceitos e no refinamento metodológico. Essa seria a principal deficiência, conforme o próprio Florestan Fernandes, das orientações ecléticas presentes nos cursos por ele freqüentados na Universidade de São Paulo. A esse respeito, ele iria dizer:
“Em termos da minha relação com as Ciências Sociais, meus professores não tentavam encaminhar os estudantes para a Sociologia, a Economia, a Filosofia ou a Estatística. O ensino era eclético. Visava combinar as várias correntes do pensamento e, de outro lado, enfatizava mais que tudo, o aspecto teórico do trabalho. O preconceito contra o ensino de tipo elementar era tão grande que, quando eu me tornei estudante da Faculdade de Filosofia [em 1941], tive dificuldades de trabalhar com manuais. Os assistentes recomendavam que não se lessem manuais; que se lessem os originais. [...] a regra era esta: pôr uma grande ênfase no aspecto teórico. O que vem a ser o aspecto teórico no caso? Isto significava que os estudantes aprendiam a construir teorias; que os estudantes fossem orientados para as técnicas através das quais se faz análise e a crítica das descobertas, ao mesmo tempo se procede à síntese? Não se fazia isso. Os cursos eram monográficos, de balanços dos conhecimentos obtidos em determinados campos. Por exemplo, havia cursos de Sociologia estética, de sociologia econômica, de monografia familiar, de introdução à economia, história das doutrinas econômicas. Não havia curso de técnicas e métodos aplicados à investigação e, muito menos cursos de técnicas e métodos aplicados à parte lógica e de construção da inferência (indução, dedução etc.). Esses cursos surgiram mais tarde, igualmente por influência nossa.
Assim o que se entendia por teoria, realmente era um ensino altamente