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Transformation du modèle d’affaire

10.3. Recommandations communes

A obra MM é primordialmente uma escrita sobre o olhar; desde seu início, antes mesmo da primeira palavra, o olhar predomina, nas referências verbais ou visuais. Por exemplo, nas páginas 6 e 7, junto ao título, há duas figuras de um olho abrindo-se e fechando-se. Portanto, a reflexão sobre o campo da imagem e do olhar, em Lacan, merece um tratamento especial. Faremos uma revisão das principais ideias de Lacan a respeito da imagem e do olhar, presentes na sua maioria no Seminário XI, no qual ele dedica considerável parte da obra para falar do objeto olhar, o objeto a representante da pulsão escópica.

Primeiramente, as reflexões lacanianas sobre a imagem e a pulsão escópica aparecem na obra separadas da discussão das pulsões em geral. Segundo Miller (2005), isso se deve ao fato de Lacan considerar importante revisar as ideias de Merleau-Ponty, seu amigo e interlocutor, cuja obra O visível e o invisível (1964) acabara de ser editada. Lacan aproveita para marcar sua dívida, mas principalmente sua diferença em relação à fenomenologia praticada por Merleau-Ponty e Husserl. Na fenomenologia, a consciência é vista enquanto intencionalidade e o modo de o sujeito fazer sua entrada no mundo: não há ruptura entre sujeito- objeto, já que a consciência é sempre consciência de algo; toda manifestação subjetiva compreende um objeto, por isso, o percebido coincide sempre com o perceber, o olhado com o olhar (QUINET, 2004, p. 35). Há uma superação da diferença entre a imanência dos processos mentais e a transcendência das coisas ou da realidade em si. Não há numenos, apenas

fenômenos. Além disso, há uma anterioridade nessa intencionalidade em relação ao objeto e ao sujeito empírico, ela é quem os constitui e constitui o conhecimento. A percepção visual adquire uma simbologia especialmente importante para o conhecimento.

Para Husserl, o sujeito da percepção não está fora do mundo. Lacan segue-o nesse ponto, mas retoma elementos da filosofia kantiana, como a noção de das Ding, a coisa em si, a partir do qual Lacan elaborará o conceito de objeto a, irrepresentável, sem substância, a não ser a substância gozante, cujo ser é, na verdade, semblante de ser. Lacan não restabelece o ser para além do fenomênico: para além do Imaginário e do Simbólico que o sustenta, existe o Real, que escapa ao espelho do imaginário e à representação simbólica. O objeto a não é ser, mas

semblante de ser para o sujeito, que o reencarna nos objetos parciais da pulsão. O olhar fenomenológico não contesta a unidade do sujeito que percebe, ao contrário da psicanálise, para quem o sujeito é já dividido pela linguagem. Assim, ao contrário da fenomenologia, Lacan já concebe o fenômeno estruturado pelas relações significantes que constituem o simbólico, não é mais unívoco. A estrutura da linguagem condiciona tanto o sujeito que percebe quanto o percebido, pois o sujeito dividido não pode operar uma síntese subjetiva dos objetos percebidos. A psicanálise mostra que a realidade inconsciente, estruturada pela linguagem, não poupa a percepção. O sujeito do inconsciente não pode estar ausente da percepção e, com isso, do desejo e da fantasia.

Entretanto, Merleau-Ponty introduz um tema importante para Lacan: o conceito de

carne. A carne não é o corpo enquanto matéria biológica, é o ponto de contato entre o quiasma, que é o sujeito, e o mundo, e preside a distinção entre o visível e o invisível. A carne refere-se ao corpo, mas não é ele; está no mundo, mas não é do mundo. É a carne que faz daquele que

olhar no espetáculo do mundo será muito importante na concepção lacaniana do campo escópico, do campo do gozo do olhar. Nesse mundo em que vemos, também somos vistos. Mas o olhar escapa à dimensão imaginária, o olhar não está só no outro (semelhante), no nível dos olhos. Não é tampouco um olhar do sujeito, mas um olhar que incide sobre o sujeito. Há uma antinomia entre a visão e o olhar. Não se pode dirigir a atenção para um plano visual, sem que a própria percepção seja colocada em segundo plano. Em outras palavras, podemos ver o mundo, mas nessa operação há uma escotomização do nosso olhar: vemos o mundo, mas não

vemos nosso olhar.

Lacan chama isso de esquize do olho e do olhar:

A esquize que nos interessa não é a distância que se prende ao fato de haver formas impostas pelo mundo e para as quais a intencionalidade da experiência fenomenológica nos dirige, donde os limites que encontramos na experiência do visível. O olhar de que encontramos no horizonte e como ponto de chegada de nossa experiência, isto é, a falta constitutiva da angústia da castração.O olho e o olhar, esta é para nós a esquize na qual se manifesta a pulsão ao nível do campo escópico. (LACAN, 1964/2008b, p.76).

A visão só existe quando escamoteia, nega o olhar; a visibilidade ocorre pelo apagamento do olhar, que se torna o objeto a, objeto perdido. Na esquize do olho e do olhar, percebemos uma reviravolta no pensamento lacaniano. O campo escópico faz o sujeito entrar em contato com a castração e sua angústia, pois algo se perdeu para sempre no campo visual: o olhar da mãe, enquanto objeto a, fantasia da completude. No seu lugar, aparece a castração da mãe.

Até 1964, o conceito de imaginário era relacionado às imagens do corpo do próprio sujeito e o da mãe, que possuíam uma importante função na constituição subjetiva. Em torno dos seis meses de vida, a criança reconheceria sua imagem no espelho, ou melhor, assumiria imaginariamente uma completude ou totalidade corpórea e, em júbilo, colar-se-ia a essa imagem, com o auxílio da mãe, que autenticaria tal ilusão. Antes mesmo de seu corpo ser experimentado como totalidade, o infans alinhar-se-ia a essa imagem de completude.

No Seminário IV, A relação de objeto, Lacan introduz a noção de falo; com isso inaugura uma nova tônica a seu ensino: o imaginário passa agora a ser reordenado sob as coordenadas do simbólico; então, o estádio do espelho é reconsiderado quanto ao desejo da mãe, ou seja, em relação ao falo, uma vez que ele falta ao desejo da mãe. A imagem do próprio corpo pode gerar júbilo, pelo fato de a criança acreditar na completude dessa imagem, a qual ocuparia o lugar do falo. Essa experiência em relação à própria imagem do corpo também

poderia gerar uma posição depressiva, quando ou se a criança se deparasse com a incompletude, a castração do corpo da mãe; se para esta alguma coisa pode faltar, ela deixa de ser onipotente, então imaginariamente o corpo também pode ser incompleto; a partir daí a criança vai buscar entender o que quer a mãe para ser completa e moldar-se-á a esse desejo materno para ser aquilo que a complete (o falo).

O Seminário XI vem complementar essa subordinação do imaginário ao simbólico, por meio de uma reformulação mais radical do campo visual (MILLER, 2005, p. 305). A esquize do olho e do olhar também faz parte da diferença entre o imaginário e o real: este último é o domínio da pulsão, que produz gozo ao se satisfazer – um gozo que pode ser mais-de-gozar

mortífero ou angustiante; por outro lado, a percepção visual é imaginária, seu modelo é o mundo dos espelhos e das semelhanças, sustentado pelo simbólico. O Simbólico funciona como uma barreira entre o imaginário e o real.

No início de nosso trabalho, ao pensar a relação das imagens com os três domínios lacanianos do nó borromeano, indagamos se elas eram imaginárias, simbólicas ou reais. Na verdade, o campo escópico seria estruturado pelos três registros: do lado imaginário, temos os espelhos, imagens de completude e semelhança, cuja âncora é o eu (moi). O simbólico introduz o desejo do pai e da mãe, ao trazer o Nome-do-Pai, que esvazia esse todo-gozar da mãe, real e destruidor, e impõe um gozo fálico, parcial ou incompleto. O campo do Outro deixa de ser completo, o objeto do gozo, o objeto a é retirado do seu campo, produzindo um Outro castrado. É por isso que tal objeto não pode ser encontrado na realidade: nem o seio, nem a voz, nem o olhar são percebidos, não podem ser tocados, cheirados, vistos (QUINET, 2004, p. 41-43). O retorno desse objeto se dá no campo do Outro de diversas maneiras, causando desejo, se a pulsão o contorna e respeita em relação a ele certa distância; ou pode provocar angústia, se este objeto se aproxima demais.

A visão e a imagem, em Lacan, adquirem uma relevância particular também no que tange ao relacionamento entre a percepção e o psíquico; em certo sentido, ele defende que o

perceptum (o percebido) antecede e conforma o percipiens (quem percebe): no campo da pulsão, o sujeito são seus objetos. Daí a distinção entre o real e a fantasia complica-se. Lacan refere-se a uma experiência sobre a visão, presente na obra de Merleau-Ponty, em que um ponto luminoso é colocado num quarto escuro para incidir sobre um disco preto. No entanto, não vemos o disco preto, mas um cone visual branco. Ao interpormos um anteparo, uma folha entre o disco preto e a fonte luminosa, a luz rebate no anteparo, ilumina o quarto, e então é que vemos o disco. Em certo sentido, o objeto estava lá, mas não conseguíamos vê-lo. A luz nos permite ver, todavia, se vemos a luz, não vemos o objeto; é o que acontece ao olhar, só vemos o mundo,

quando o olhar está ausente. O anteparo simboliza o Nome-do-Pai, que produz um corte no mundo da visão, produzindo ao mesmo tempo o sujeito que vê e o mundo visto. Como explica Quinet,

Esta realidade que vejo, ou seja, o quarto iluminado com seus elementos nitidamente distintos, é estruturada pelo simbólico, suporte da percepção visual. O fenômeno é, portanto, estruturado pela linguagem. Isto significa que inexiste fenômeno que possa ser apreendido em um suposto momento pré- reflexivo, anterior à linguagem. (QUINET, 2004, p. 45).

Logo, o campo do visual distingue-se do campo escópico. Neste, estamos na esfera do desejo, que é o avesso da consciência. O campo visual, de acordo com Lacan, está relacionado às elaborações filosóficas de Descartes a respeito da visão, em que há correspondência ponto por ponto de duas unidades no espaço. O sujeito cartesiano é um ponto geometral no espaço e pode, por essa lógica, ser compreendido pelos cegos, porque se confunde com a racionalidade. Teríamos aí o sujeito da representação em oposição ao sujeito do desejo.

Para exemplificar isso, Lacan usa o quadro de Hans Holbein, Os embaixadores, no qual o pintor renascentista utilizou-se de um recurso chamado anamorfose. Colocando-nos de frente para o quadro, vemos dois homens ostentando os símbolos de seu prestígio terreno, mas há uma forma alongada e estranha a seus pés, irreconhecível para quem olha o quadro frontalmente. Tal forma só pode ser compreendida se nos colocarmos num plano quase paralelo ao quadro; então podemos ver uma caveira, que representa a vaidade humana. Lacan considera essa figura como a presentificação do olhar, efígie da castração simbólica: para vermos os homens, não podemos ver o olhar, esse objeto que é retirado para que o campo visual se constitua. A perspectiva renascentista, por outro lado, é uma criação que organiza o plano visual a partir de um ponto geométrico que representa o lugar de onde o sujeito vê o mundo, o olhar está ausente do quadro.