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Nous avons recommandé au ministère d’analyser l’application des mesures coercitives et, s’il y a lieu, d’élaborer des lignes directrices à

RÉSULTATS DE NOTRE VÉRIFICATION

2.98 Nous avons recommandé au ministère d’analyser l’application des mesures coercitives et, s’il y a lieu, d’élaborer des lignes directrices à

Já apontamos em todo o trabalho a importância da linguagem na ontologia hermenêutica de Gadamer. Agora, chegou o momento de nos concentrarmos na problemática da universalidade da linguagem. Este tópico tem por objetivo aprofundar a nossa reflexão sobre a transmissão da tradição na linguagem. Não seria um absurdo falar que, para Gadamer, o próprio ser se refere às mensagens do passado capaz de se reproduzir no momento presente da existência; mensagens que se tornam monumentos (o exemplo do clássico) que continuam servindo de modelo para o presente. Para legitimar a palavra que nos vem pela tradição, Gadamer precisa primeiro demonstrar que existem outros usos legítimos da linguagem que não aquele realizado pela ciência. Entre eles, o filósofo dá uma atenção especial à fala poética e à linguagem cotidiana.

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Para começar, devemos refletir sobre a dificuldade que temos em tornar a linguagem um objeto de conhecimento. Gadamer defende a idéia de que a linguagem impõe difíceis obstáculos ao pensamento, uma vez que não podemos pensá-la fora dela mesma, ou seja, quando pensamos, fazemo-lo dentro da linguagem. Não podemos colocá-la totalmente diante dos nossos olhos, daí vem a dificuldade de torná-la um objeto dado. “Só podemos pensar dentro de uma linguagem e é justamente o fato de que nosso pensamento habita a linguagem que constitui o enigma profundo que a linguagem propõe ao pensar”158. Antes de qualquer coisa, a linguagem representa um mistério profundo para Gadamer.

Gadamer defende a universalidade da linguagem, tendo em vista que é através dela que nos relacionamos com o mundo; o ser se nos apresenta na linguagem, não há experiência humana de mundo fora dela. A universalidade da linguagem na hermenêutica gadameriana fica clara no célebre filosofema (φιλοσόφημα): “O ser que pode ser compreendido é a linguagem”159

(grifo do próprio autor). Não seria um exagero dizermos que aqui se pode considerar o mundo como um texto a ser lido. Por isso, a nossa relação com o mundo na hermenêutica se dá como interpretação. Quando Gadamer determina a nossa relação com o mundo, enquanto uma interpretação, torna-se no mínimo problemático o conceito de um ser em si, dado fora da linguagem. Apesar da linguagem ser essencialmente comunitária, o intérprete sempre manifesta o mundo a partir do seu próprio vocabulário, dessa forma, dará ao seu mundo, no mínimo, um toque peculiar. Cada indivíduo vê o mundo dentro de um horizonte lingüístico próprio. “O padrão de medida para ampliação progressiva da própria imagem do mundo não se forma por um mundo em si, à margem de todo caráter de linguagem.”160. O mundo é tal como o manifestamos na nossa linguagem. O fato de o mundo só se demonstrar no vocabulário do seu intérprete não nos faz chafurdar em um mundo irreal.

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GADAMER, 2002, p. 176.

159

Idem, 2003, p. 612. Em alemão: “Sein, das verstanden werden kann, ist Sprache.”.

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“Ao contrário, aquilo que o próprio mundo é não é nada distinto das visões em que ele se apresenta.”161. A linguagem apresenta uma ambivalência na hermenêutica gadameriana; uma vez que, apesar da linguagem que manifesta o mundo ser a minha, ela é essencialmente comunitária. Pois não existe uma linguagem privada.

Gadamer demonstra que a linguagem está em condições de abarcar todos os nossos tipos de relação com o mundo. Tanto a ciência, quanto o nosso saber natural e imediato do mundo, são formas de experiências realizadas na linguagem. O fato de a ciência, muitas vezes, afirmar o contrário do nosso saber imediato natural do mundo, pode não alterar em nada o nosso falar cotidiano. A compreensão do nosso mundo vital, que se vem condensando na nossa linguagem natural, não pode ser substituída pelo ideal de rigor da linguagem científica. Por exemplo, para a explicação científica que Copérnico deu ao cosmo não faz sentido falar que o Sol se põe. “Assim, mesmo depois que a explicação copernicana do cosmo penetrou em nosso saber, o sol não deixou de se pôr para nós”162. A ciência moderna é apenas uma dentre outros comportamentos possíveis da linguagem. Junto a ela, Gadamer reconhece o valor de outras formas de expressão humanas, como, por exemplo, a linguagem poética e a linguagem cotidiana. O mundo que se apresenta nessas formas de linguagem não é um mundo arbitrário.

Nossa maneira de falar do pôr-do-sol certamente não é arbitrária, mas expressa uma aparência real. É a aparência que se oferece àquele que não se move. É o sol que nos alcança e nos abandona com os seus raios. Nesse sentido, o pôr-do-sol é, para a nossa contemplação uma realidade (é “relativo ao nosso estar-aí”)163.

Com a legitimidade que Gadamer confere aos vários desempenhos da linguagem, ele conquistou o direito de falar a respeito da linguagem da tradição. É pela linguagem que nos 161 GADAMER, 2003, p. 577. 162 Ibidem, p. 579. 163

encontramos com a verdade da tradição. É através dela que o passado chega ao presente. Ademais, a verdade da tradição nos atinge inexoravelmente pela linguagem. Para demonstrar isso, será bastante ilustrativo relatar a primazia que Gadamer confere ao sentido da audição na experiência hermenêutica. “Nada há que não seja acessível ao ouvido através da linguagem”164. O saber que aqui se expressa vai muito além do mero reconhecimento de que estamos na marcha da tradição. Aponta para o fato de que aquele que é interpelado pela palavra da tradição, querendo ou não querendo, irá escutar o sussurrar da sua verdade. “Não pode afastar o ouvido, tal qual afastamos a vista de alguma coisa olhando noutra direção”165. Não depende da nossa vontade sermos ou não atingidos pela palavra da tradição. “Tradição (Überliefeferung) não é um processo que aprendemos a dominar, mas sim linguagem transmitida (tradierte), na qual vivemos”166. Porque vivemos na sua linguagem, escutamos a verdade da tradição queiramos ou não.

A tese de Gadamer é que, na linguagem, somos tocados pela verdade dos antigos, é certo que aquele que se encontra no seio da tradição escutará suas mensagens. Uma coisa que quase nunca é trabalhada expressamente pelos intérpretes de Gadamer é a dimensão oral da tradição. “Desde há muito tempo, antes do uso de toda escrita, essa é a verdadeira essência do ouvir, a saber, o ouvinte é capaz de ouvir a lenda, o mito, a verdade dos antigos.”167 A tradição não depende apenas do seu registro escrito, ela se faz consuetudinária. A tradição se emancipa da escritura monumental, tornado-se verbo, isto é, palavra geradora do mundo.

O ouvir que compreende a tradição, insere a sua verdade num comportamento próprio para com o mundo, em um comportamento próprio de linguagem. “Pois a palavra interpretadora é a palavra do intérprete. Não é a linguagem nem o vocabulário do texto.”168

164

GADAMER, 2003, p. 596.

165

Idem, loc. cit.

166

HABERMAS, Jüngen. Dialética e hermenêutica. Porto Alegre: L&PM, 1987, p. 19.

167

GADAMER, op cit., p. 597.

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Dessa forma, a verdade da tradição ganha sempre uma validez renovada, dependendo da linguagem que a esteja manifestando. A linguagem do intérprete não possui apenas um desempenho reprodutivo, mas sim produtivo. A sua linguagem representa e produz o mundo concomitantemente. Isso ocorre por conta do desempenho especulativo da linguagem; como um espelho, ela reflete uma imagem, que não é a original, mas, ao mesmo tempo, não é totalmente independente da imagem que reproduz. A metáfora do espelho serve para expressar a idéia de que a linguagem, a um só tempo, reproduz e produz uma imagem do mundo. Na sua essência especulativa, a linguagem possui um desempenho produtivo.

Com efeito, em Gadamer, o intérprete não é um mero repassador da tradição; com ele, o sentido da tradição sofre uma inflexão. Aliás, é só pela interpretação que o sentido da tradição se concretiza. Ela é a recriação da tradição nas palavras do intérprete; e sem o intérprete o sentido da tradição está morto. Somente ele revivifica sua verdade. A palavra interpretadora tira o sentido da sua alienação, fazendo-o falar em uma nova conjuntura histórica. É dessa forma que a tradição vive: ampliando-se nas palavras interpretadoras.