Chapter II – Recognition and enforcement
Paragraph 4 – Recognition or enforcement may be postponed or refused if the judgment referred to under paragraph 3 is the subject of review in the State of origin or if the time limit
Neste tópico tivemos em vista as opiniões das mulheres sobre como elas se viam, ou seja, se elas se consideravam analfabetas ou não e o porquê disso, durante o período em que as mesmas foram acompanhadas no Programa Brasil Alfabetizado (PBA). Pelas entrevistas feitas, no início, no final do período de escolarização e alguns meses após esse término isso se tornou possível. O quadro a seguir apresenta as respostas que elas deram nas três entrevistas realizadas:
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Quadro 8: Como as mulheres se viram durante o PBA?
MULHERES ENTREVISTA 1 ENTREVISTA 2 ENTREVISTA 3
Eva
“Analfabeta” (“[não sabia] ler e
escrever”)
“Analfabeta” (Não havia aprendido
nada ainda)
“Analfabeta” (Não escrevia tudo e não
lia direito)
Ana
“Analfabeta” (“[não sabia] nada ainda” e “[não sabia ler] palavras grandes”)
“Não sou analfabeta” (Sabia algumas coisas e
lia palavras grandes)
“Não sou analfabeta”
(Lia alguma coisa)
Raquel
“Não sou analfabeta” (Escrevia o seu nome)
“Não sou analfabeta” (Escrevia o seu nome)
“Não sou analfabeta” (Escrevia o seu nome)
Rebeca
“Não sou analfabeta” (Conhecia as letras do
alfabeto)
“Não sou analfabeta” (Sabia escrever o nome e
conhecia e lia letras)
“Não sou analfabeta” (Escrevia o nome, entendendo e aprendendo
alguma coisa)
Sara
“Não sou analfabeta” (Escrevia o seu nome)
“Mais ou menos [analfabeta]” (Fazia tarefa, conta e
soletrava palavras)
“Analfabeta” (Não sabia ler completo
nem tudo)
Rute
“Não sou analfabeta” (Escrevia o seu nome)
“Analfabeta” (Não lia nem escrevia
uma palavra correta)
“Analfabeta” (Não sabia ler tudo, nem
lia corretamente)
De acordo com o Quadro 8, duas alunas, Eva e Ana, iniciaram as aulas se considerando analfabetas e uma delas (Eva) não mudou essa visão no final e mesmo depois do PBA, porque, segundo ela, não havia aprendido nada (não sabia ler nem escrever). Já Ana, por ter aprendido a ler palavras grandes, não mais se considerava “analfabeta”. Duas alunas não mudaram a visão que tinham ao longo do Programa, uma vez que desde o início não se consideravam analfabetas, uma porque sabia escrever o nome, conhecia e lia as letras e, também, por estar aprendendo e entendendo algumas coisas (Rebeca) e a outra porque escrevia o nome (Raquel). Como Rebeca e Raquel; Sara e Rute iniciaram o Brasil Alfabetizado não se considerando analfabetas, mas terminaram mudando de concepção.Para uma maior clareza e um detalhamento do Quadro 8, analisou -se as mulheres por pares, tendo como critério alguns pontos de contato nas respostas delas.
No período inicial das aulas, quando perguntadas se elas se achavam analfabetas, somente Eva e Ana iniciaram as aulas afirmando que sim. A razão dada por Eva era que ela
108 “[não sabia] ler e escrever” e Ana era a de que ela “[não sabia] nada ainda” e também “[não sabia ler] palavras grandes”. É importante destacar que Ana era a aluna mais avançada60
em relação à leitura e à escrita dentre as mulheres pesquisadas, e Eva era uma das menos avançadas.
No final do período de aulas Eva continuava afirmando, como no primeiro momento, que era “analfabeta”. O motivo de Eva era que não havia aprendido “quase nada ainda não”, que para ela representa especialmente o não saber ler: “Eu só não digo que sou analfabeta quando eu já tiver lendo (...), eu acho assim”. O não saber ler já tinha sido citado por ela num primeiro momento como um motivo fundamental dela se compreender como “analfabeta” (dessa vez ela não citou o escrever, como na primeira entrevista). Diferentemente de Eva, Ana, nesse momento já não se considerava “analfabeta”, pois já sabia “algumas besteirinhas”,
já sabia ler palavras grandes. Finalmente, no período após o término das aulas (cinco meses depois), Eva ainda se
achava analfabeta, porque não sabia “escrever tudo ainda. Não sei ler direito, nem escrever”. Já Ana, nessa última entrevista, reafirmou que não se considerava mais “analfabeta”, pois já sabia “ler alguma coisa”.
Outra dupla de mulheres é Raquel e Rebeca, que não se viam como analfabetas. Elas justificaram essa afirmação de forma diferente. No período inicial, final e após o término das
aulas, Raquel, a menos avançada das duas em termos de leitura e escrita, justificou sua
resposta de uma só maneira: “já aprendi a fazer o meu próprio nome”. Raquel continuou insistindo em dizer que não era “analfabeta”, porque aprendeu a “fazer” o nome dela. Rebeca também afirmou que não era “analfabeta” do início ao final das aulas, porém, apresentou justificativas distintas da de Raquel e mais diversificadas. Inicialmente ela afirmou que não era analfabeta, porque já conhecia as letras do alfabeto, além da letra “o”. Ela disse:
mesmo eu não sabendo ler, né, assim, diretamente as palavras certas, como deve, mas pra mim eu já tô, já tô feliz de estar aprendendo, né. Eu não sou a analfabeta assim. Quando diz assim: eu não conheço nem um “o” como seja uma xícara de café. Então, eu já tô conhecendo mais de um “o”, né (...). Mas, assim, tem que aprender mais (Rebeca - Entrevista 5 – 22/12/2011).
No final das aulas, Rebeca apresentou o mesmo motivo de antes, isto é, que o “analfabeto é aquele que não sabe nem o que é um ‘o’ [...], que se diz que é uma xícara”. Ou que o “analfabeto mesmo, tapado, é aquele que não sabe nem do nome”. Ela afirmou que
109 conhecia as letras. Após as aulas, sendo ela uma das mulheres menos avançada em termos de leitura e escrita, disse que o motivo dela não ser “analfabeta” era que ela estava “aprendendo aos pouquinhos”, pois anteriormente “não sabia fazer nada”. Ou seja, “não conhecia a letra, nem nada”. Além disso, também disse que já fazia o seu “nome” e já estava entendendo “algumas coisinhas”.
Os outros dois pares de mulheres (Sara e Rute) iniciaram as aulas afirmando que não eram analfabetas, justificando, como Raquel, que já sabiam “fazer” os seus próprios nomes.
No final do período de aulas, Rute mudou de opinião e disse, nesse segundo momento, que se considerava “analfabeta” e apresentou como motivo o fato de não saber “ler uma palavra correta” e não saber “escrever uma coisa” que alguém venha a pedir para ela escrever.
Sara, que havia dito categoricamente que não era “analfabeta”, no final do período de aulas afirmou que era “analfabeta” só que “mais ou menos”. Ela disse, de um lado, que já sabia “algumas coisas”, como “fazer tarefas, conta, [soletrar] [e ler] algumas coisinhas”. Por outro lado, ela disse que não sabia “ler completo assim, totalmente ler, não sei ainda não”. Ou seja, tinha dificuldade com “alguma letra” e com “alguns nomes”, e com “nome grande”.
No período após o término das aulas, Sara, uma das mais avançadas, continuou afirmando, agora com mais convicção, que ainda era “analfabeta”, pois não sabia “ler, assim, completo e tudo, tudo”. Quando foi feita informalmente essa pergunta, ela disse que ficara
pensando a semana todinha. Digo, meu Deus do céu, me ajuda, porque, porque eu fiquei pensando: não sei ler, ler completamente, assim, tudo. Se eu soubesse, mas não sei completamente, assim. De algumas coisas eu sei ler. Tem hora que dá um branco (Sara – Entrevista 30 – 03/10/2012).
Rute, como Sara, afirmou que era “analfabeta”, pois ainda não sabia “ler [tudo]” ou “ler corretamente”. Interessante é que, diferentemente de Rebeca e Raquel (que disseram não ser analfabetas pelo fato de escreverem o seu próprio nome), ela disse que uma pessoa que só escreve o seu nome continua sendo analfabeta.
Uma pessoa que escreve o nome, não pode dizer que não é analfabeta (Rute - Entrevista 27 – 04/10/2012).
Acho que sou analfabeta. (pausa, olhando para mim). Acho que uma pessoa escrevendo só seu nome não pode dizer que, que não é analfabeta. É sim (Rute - Entrevista 27 – 04/10/2012).
110 O caso das alunas Sara e Rute é particularmente interessante, pois o processo de escolarização se encarregou de convencê-las de que elas eram de fato analfabetas, já que não aprenderam efetivamente a ler e escrever.
É preciso ficar atento, porém, às concepções das mulheres acerca do que é uma pessoa “analfabeta”, que indica diferenças das concepções da literatura educacional em geral, revela também diferenças nas próprias concepções das mulheres entre si e, além disso, expressa algo da identidade delas, ou seja, de como se veem.