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secularismo/secularização

Passemos à análise dos Documentos Conclusivos a partir das palavras chaves. Iniciemos pelos termos secularismo/secularização, expressões muito utilizadas nos Documentos para se falar da atuação da Igreja na vida social.

Na Conferência do Rio de Janeiro não há referências aos termos secularização e secularismo. Esses irão aparecer no Documento de Medellín, ainda assim, com pouca expressão. Apenas três vezes é citado o termo secularização131 e secularismo não consta no Documento.

Já na Conferência de Santo Domingo, em 1992, o termo secularismo aparece no Documento Conclusivo dessa conferência quatorze vezes, enquanto secularização consta cinco vezes. Esse documento faz uma distinção entre os dois termos:

131 Na verdade apenas duas, visto que em uma das vezes o termo é apontado no índice remissivo, mas é

Uma modalidade é o “secularismo” que nega a Deus, ou porque sustenta que todas as realidades se explicam por si mesmas sem recorrer a Deus, ou porque se considera a Deus como inimigo, alienação do homem. Esta posição secularista deve-se distinguir do processo chamado “secularização”. Este sustenta legitimamente que as realidades materiais da natureza e do homem são em si “boas”, e suas leis devem ser respeitadas, e que a liberdade é para a auto- realização humana e é respeitada por Deus (Santo Domingo, versão on line, p. 126).

Na Conferência de Puebla, 1979, aparece no texto conclusivo sete vezes o termo secularização e doze vezes o termo secularismo. Como no texto de Santo Domingo, os termos são entendidos em Puebla como distintos. Secularização é visto “como uma legitima autonomia do secular, justo e desejável”, no entanto, em sua passagem real para o processo histórico ocidental, para a civilização urbano-industrial é inspirado pela ideologia que “chamamos de secularismo” (Puebla [1979], CELAM, 2004, p. 397). Esta, em sua essência, “separa e opõe” o homem em relação a Deus; concebe a construção da história como responsabilidade exclusiva do homem, considerada em sua mera imanência. Trata-se de:

Uma concepção de mundo segundo a qual este último se explica por si mesmo, não sendo necessário recorrer a Deus: Deus seria pois supérfluo e até mesmo um obstáculo. Este secularismo, para reconhecer o poder do homem, acaba se colocando acima de Deus ou mesmo negando-o. Novas formas de ateísmo – um ateísmo antropocêntrico, não abstrato e metafísico, mas prático e militante – parecem derivar dele. Em união com este secularismo ateu, nos é proposta todos os dias, sob as formas mais diversas, uma civilização de consumo, o hedonismo, erigido em valor supremo, uma vontade de poder e de domínio, de discriminação de toda espécie: constituem elas outras tantas inclinações desumanas deste humanismo (Puebla [1979], CELAM, 2004, p. 398).

No Documento de Aparecida os termos secularização e secularismo aparecem apenas três vezes ambos, não há preocupação em distingui-lo, são sempre citados como algo que provoca mudanças nem sempre positivas para a Igreja.

O secularismo, entendido como um “processo que separa e opõe o homem em relação a Deus” e que tem seu ponto de partida na ciência, técnica e urbanização crescente (Puebla, p, 397), está intimamente relacionado ao crescente processo de urbanização na América Latina, dessa forma, uma das grandes preocupações da Igreja diz respeito às cidades e às mudanças culturais pelas quais as mesmas passam:

Na passagem da cultura agrária para a urbano-industrial, a cidade se transforma em propulsora da nova civilização universal. Esse fato requer novo discernimento por parte da Igreja. Globalmente, deve inspirar-se na visão da Bíblia, a qual ao mesmo tempo em que comprova positivamente a tendência dos homens à criação de cidades onde conviver de modo mais associado e humano, é crítica da dimensão desumana do pecado que nelas se origina. Assim sendo, nas atuais circunstâncias a Igreja não alenta o ideal de criação de megalópoles que se tornam irremediavelmente desumanas, como tampouco de uma industrialização excessivamente acelerada que as atuais gerações tenham que pagar à custa de sua própria felicidade, com sacrifícios desproporcionais. Por outro lado, reconhece que a vida urbana e as transformações industriais levantam problemas até agora desconhecidos. Em seu interior se modificam os modos de vida e as estruturas habituais da vida: a família, a vizinhança, a organização do trabalho. Alteram-se igualmente as condições de vida do homem religioso, dos fiéis e da comunidade cristã (...) não há razão para pensar que as formas essenciais da consciência religiosa estejam exclusivamente ligadas à cultura agrária. É falso dizer que a passagem para a civilização urbano industrial acarrete necessariamente a abolição da religião. Contudo, constitui um evidente desafio, ao se condicionar com novas formas e estruturas de vida, a consciência religiosa e a vida cristã. A Igreja se encontra pois diante do desafio de renovar sua evangelização, de modo que possa ajudar aos fiéis a viver sua vida cristã no quadro dos novos condicionamentos que a sociedade urbano-industrial cria para a vida de santidade; para a oração e contemplação; para as relações entre os homens, que se tornam anônimas e arraigadas no meramente funcional; para a nova vivência do trabalho, da produção e do consumo (Puebla [1979], CELAM, 2004, p, 396-397).

À crescente urbanização a Igreja relaciona o processo de mudança cultural por que passa a sociedade. Segundo sua visão urbanização estaria diretamente relacionada ao crescimento demográfico, às migrações, à maior acessibilidade e mobilidade espacial, assim como aos problemas advindos desse fenômeno, como precários serviços de saúde, alimentação, educação e empregos o que, por sua vez, conformaria um quadro propicio ao “desenraizamento”, sobretudo nos processos de migrações.

Modernidade

O contexto de modernidade seria o pano de fundo para todas essas transformações apontadas pela Igreja. A modernidade como causa de todos esses desarranjos.

Na década de 1950, na Conferência do Rio de Janeiro o termo modernidade não apareceu no Documento Conclusivo, falou-se numa “profunda transformação nas estruturas sociais da América Latina, causada pelo processo de industrialização” fato de grande preocupação para o clero já que o “pensamento cristão” não se encontrava presente nesse processo.

Na Conferência de Medelín não há referência ao termo modernidade, mas o conteúdo sociológico desse fenômeno pode ser apreendido pelo que a Igreja chamava de mudanças culturais, essas mudanças seriam verificadas especialmente através das alterações no seio da família.

Porque a família tem sofrido, talvez mais que outras instituições, os impactos das mudanças e transformações sociais. Porque na América Latina a família sofre de modo especialmente grave as conseqüências “dos círculos viciosos” do subdesenvolvimento: más condições de vida e cultura, baixo nível de salubridade, baixo poder aquisitivo etc., transformações que nem sempre se podem captar adequadamente (Medelín [1968], CELAM, 2004, p, 103-104).

As razões apontadas pela Igreja para tantos problemas na instituição familiar seriam a “influência de quatro fenômenos sociais fundamentais”.

a) Passagem de uma sociedade rural a uma sociedade urbana, fato que alteraria relações do tipo patriarcal;

b) Agravamento das desigualdades propiciadas pelo processo de desenvolvimento; c) Rápido crescimento demográfico;

d) Processo de socialização que subtrai valores “essenciais” da família enfraquecendo-a.

Também no documento de Puebla não há referência ao termo modernidade, mas fala-se em época moderna e vida moderna. Em Santo Domingo o termo aparece treze vezes. A modernidade é citada como um contexto de desafio para Igreja, por ser caracterizado por ampla mudança cultural, é necessário que, em nome da evangelização, a Igreja se ponha em “diálogo” com a modernidade (Santo Domingo, versão on line p.75).

Embora realidade pluricultural, a América Latina e o Caribe estão profundamente marcados pela cultura ocidental, cuja memória, consciência e projeto se apresentam sempre em nosso predominante estilo de vida comum. Daí o impacto que a cultura moderna e as possibilidades a nós oferecidas por seu período pós-moderno produziram em nossa maneira de ser.

A cultura moderna se caracteriza pela centralidade do homem; os valores da personalização, da dimensão social e da convivência; a absolutização da razão, cujas conquistas científicas e tecnológicas e informáticas têm satisfeito muitas das necessidades do homem, ao mesmo tempo em que tem buscado autonomia em relação à natureza, a qual domina; em relação à história, cuja construção ele assume; e inclusive em relação a Deus, do qual se desinteressa ou relega à consciência pessoal, privilegiando exclusivamente a ordem temporal.

A pós-modernidade é o resultado do fracasso da pretensão reducionista da razão moderna, que leva o homem a questionar tanto alguns êxitos de modernidade como a confiança no progresso indefinido, embora reconheça, como faz também a Igreja, seus valores.

Tanto a modernidade com seus valores e contra-valores, como a pós- modernidade enquanto espaço aberto à transcendência apresentam sérios desafios à evangelização da cultura (SANTO DOMINGO, CELAM, 2004, p,747-748).

É possível encontrar muitos outros termos que fazem referência à modernidade, sem citar o verbete. No Rio de Janeiro comunicação social; em Medelín mudança; em Puebla mudanças culturais; em Santo Domingo globalização e mudança. Em Aparecida é dito que “as novas formas de expressões culturais, produtos da globalização”, afetam a vida e a identidade pessoal, tornando as pessoas “presa fáceis das novas propostas religiosas e pseudo-religiosas” (Documento de Aparecida, 2008, p, 199).

Em contexto de urbanização das cidades e cultura moderna a Igreja propõe o que ela chama de “Nova Evangelização”, isto é, uma retomada semelhante àquela evangelização ocorrida há quinhentos anos, esta, deve estar baseada no princípio de que “em Cristo há uma riqueza insondável que nenhuma cultura, de qualquer época, extingue (...)”. Segundo o Papa essa evangelização deve ser “nova em seu ardor, em seus métodos e em sua expressão (...) (Santo Domingo, p. 649), em contextos de mudanças culturais, precisa ser coerente para ser eficaz. Portanto, os desafios pastorais em contexto urbano seriam os seguintes:

A América Latina e o Caribe acham-se hoje num processo acelerado de urbanização. A cidade pós-industrial não representa só uma

variante do tradicional habitat humano, mas constitui, de fato, a passagem da cultura rural à cultura urbana, sede e motor na nova civilização universal. Nela altera-se a forma com a qual num grupo social, num povo, numa nação, os homens cultivam sua relação consigo mesmo, com os outros, com a natureza e com Deus.

Na cidade a relação com a natureza se limita, quase sempre e pelo próprio ser da cidade ao processo de produção de bens de consumo. As relações entre as pessoas se tornam amplamente funcionais e as relações com Deus passam por acentuada crise, porque falta a mediação da natureza tão importante na religiosidade rural, e porque a modernidade tende a fechar o homem dentro da imanência do mundo. As relações do homem urbano com ele mesmo também mudam, porque a cultura moderna faz com que valorize principalmente sua liberdade, sua autonomia, a racionalidade científico-tecnológica e, de modo geral, sua subjetividade, sua dignidade humana e seus direitos. Com efeito, na cidade encontram-se os grandes centros geradores da ciência e tecnologia moderna.

Nossas metrópoles latino-americanas têm também como característica atual periferias de pobreza e miséria, que quase sempre constituem a maioria da população, fruto de modelos econômicos exploradores e excludentes. Até o campo se urbaniza pela multiplicação das comunicações e transportes.

Por sua vez, o homem urbano atual apresenta tipo diverso do homem rural: confia na ciência e na tecnologia; é influenciado pelos grandes meios de comunicação social; é dinâmico e projetado em direção do novo; consumista, audiovisual, anônimo na massa e desarraigado (Santo Domingo [1992], CELAM, 2004, 749-750).

O reconhecimento de uma grande mudança cultural faz com a Igreja reconheça a necessidade de uma Nova Evangelização; a cidade ganha atenção especial, pois é entendida como lócus privilegiado das mudanças em curso, no entanto, dado a massificação dos meios de comunicação, inclusive nas cidades pequenas e na área rural, as ações da Igreja não devem ser restritas, devem aproveitar-se de todas os meios modernos de comunicação para evangelizar. Dentre as novas práticas suscitadas pela cultura moderna o texto destaca a “invasão das seitas e propostas religiosas de diversas origens” (Santo Domingo, [1992], CELAM, 2004, p, 648).

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