Os mágicos se subdividem entre os tipos ou categorias de efeitos que apresentam: os cartomagos trabalham somente, ou especificamente com mágicas que envolvam cartas de baralho. Os closapistas são praticantes da mágica close up ou de proximidade, pois é realizada à uma distância próxima do espectador (conhecida como
magia de cerca em espanhol), os mentalistas apresentam seus efeitos num contexto de
super habilidades da mente (como a transmissão de pensamentos, adivinhação, previsão do futuro, etc) ou mistérios relacionados à mente e além da vida (comunicação com espíritos). E os ilusionistas trabalham com efeitos de palco (chamados de grandes ilusões), apresentados em teatros, auditórios e circos, embora este termo também abarque todos os demais praticantes desta arte.
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―Similarly, the honest conjuror is an actor, employing his or her deftness of characterization, consummate dexterity, and general charm, often but not always assisted by certain concealed technologies, to win the attention and the appreciation of an audience. The conjuror is a character actor, a juggler of the senses and a máster of psychology, and makes no attempt to be a guru, saint, clairvoyant, or messiah. Entertainment is the goal.‖
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Alguns ilusionistas são conhecidos também como manipuladores, aqueles que manipulam objetos, fazendo-os aparecer, desaparecer, mudar de forma, cor, tamanho, entre outros. Os Mágicos em geral estudam as diferentes categorias de efeitos, pois algumas técnicas ou elementos de determinada área são comuns também em outra, no que confere ao estilo alguns mágicos se aprofundam em determinada categoria.
Jean Eugene Robert-Houdin, nascido em Blois, França, em 1805, começou a praticar mágica ainda jovem e tornou-se relojoeiro por profissão, abriu um teatro de mágica em Paris em 1845, com apresentações que uniam técnicas de prestidigitação à mecânica de seus autômatos, Robert-Houdin era especialista em desenvolver pequenas máquinas automotivas e por este motivo concebeu muitos números originais, como a famosa ilusão da laranjeira20. Ele foi um dos primeiros mágicos a adotar o visual que conhecemos como ―clássico‖ na arte da mágica, composto por fraque, cartola, bastão e luvas, a indumentária da aristocracia francesa do século XIX (STEINMEYER, 2003, p. 143-144).
Foi também um dos responsáveis por popularizar os termos ―prestidigitador‖ e ―escamoteador‖, como denominava a sua prática. E também por levar as apresentações de mágica para os grandes teatros, influenciando em estrutura e estética as apresentações dos mágicos que sobrevieram ao seu tempo como os irmãos Davenport, Professor Anderson (The Great Wizard of the North), Alexander ―The Great‖ Herrmann, Harry Kellar, Howard Thurston, Danté, etc. Criando uma tradição neste formato de apresentação que pode ser identificada no trabalho de importantes mágicos da modernidade como Harry Blackstone, Blackstone Jr., Richiardi Jr e Lance Burton, e na construção do visual do personagem dos quadrinhos Mandrake, de 1930.
Ainda buscando uma construção mais precisa da figura do mágico é importante considerar a transição das diversas roupagens que essa figura utilizou desde o figurino clássico do século XIX, ―eternizado‖ por Robert-Houdin, convertido aos poucos num traje de gala ou num traje social, uma vestimenta que conferia autoridade para o performer.
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The Marvelous Orange Tree é um famoso número criado por Robert-Houdin e pode ser visto no filme Eisenheim The illusionist (em português: O ilusionista).
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Por todo o século XX a mágica vai se expandir com diferentes estilos e narrativas. Os Irmãos Davenport, por exemplo, propõem um ato único que os faz viajar o mundo, apresentando a spirit cabinet (cabine espiritual ou cabine dos espíritos, como é mais conhecida atualmente). Neste ato, Ira e William Davenport eram aprisionados em um grande armário com duas grandes portas, um de frente ao outro tendo pulsos e pernas presos por cordas e uma grande quantidade de objetos ao redor (ver Figura 4).
Ao fechar esse armário, os objetos misteriosamente se agitavam, produziam sons e eram arremessados para fora do armário, que ao ser aberto revelava os irmãos totalmente
presos e incapazes de manipular os objetos. Esse número tornou-se uma sensação, sobretudo porque o enunciado do número remetia aos fenômenos espirituais, e os artistas envolvidos não afirmavam nem negavam a possibilidade. Essa narrativa ilustrou uma série de efeitos de magia, tornando-se um dos mais contraditórios estilos de apresentação, desaguando em interessantes variações na atualidade.
Figura 5- O mentalista Banachek apresentando cabine espiritual. Fonte: http://www.banachek.com Outra figura importante na história da mágica moderna é o conjurador chinês. Nesta abordagem temos muitos exemplos, todos de um mesmo período investindo nesta
Figura 4 - Irmãos Davenport. Publicidade do séc. XIX. Fonte: https://www.zazzle.com
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mesma persona, inclusive
copiando uns aos outros nas apresentações, mas destacamos um dentre eles que possui uma história singular e que retrata fielmente uma vida de devoção à arte da mágica, Chung Ling Soo: nascido nos EUA, William Ellsworth Robinson foi um mestre em mágica e maquiagem. Por quase duas décadas viveu sob a identidade de um mágico chinês, evitando falar em público, fazia uso inclusive de um intérprete.
Soo, têve um rival em sua
vida, um autêntico mágico chinês chamado Ching Ling Foo, mas seus números tinham um efeito muito superior aos dele, o que levou Foo a trocar provocações chegando a desafiar Soo a provar sua ―etnia chinesa‖. A despeito de toda esta confusão, Chung Ling Soo (Robinson) têve uma vida de total dedicação à arte da mágica chegando inclusive a falecer vítima de uma falha técnica em um de seus principais atos, o número de pegar a bala (bullet catch), momento em que descobriram sua identidade americana.
Seguindo a linha do traje aristocrata, mas agora num contexto diferente temos o traje de gala, menos pomposo que o clássico francês do século XIX e uma abordagem não tão misteriosa, mas voltada para a o entretenimento, para a diversão, às vezes para o riso. Podemos notar esta inclinação ―espetacular‖ e ―galante‖ da figura do mágico, especialmente no trabalho de Channing Pollock; como também em Harry Blackstone que atuou nos mais inusitados locais em sua época, incluindo apresentação para tropas americanas durante a Segunda Guerra Mundial, e seu filho, Blackstone Jr. que continuou seu legado explorando também figurinos temáticos e cenários onde podemos notar um flerte com a dramaturgia para o ato de mágica.
Nessa linha do ―show business‖, exagerando nos padrões de espetacularidade temos a dupla Siegfried & Roy. O trabalho deles ficou mundialmente conhecido por utilizarem animais selvagens como tigres, zebras e elefantes nos efeitos das ilusões. A dupla iniciou seu trabalho num cruzeiro da Europa para a América, em que
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apresentaram com seu primeiro animal um chita, desde então o trabalho com os grandes felinos e outros animais selvagens tornou-se a marca deles, atualmente seu show se encontra interrompido devido um grave acidente em que um dos tigres atacou Roy em cena.
O século XX foi de grande florescimento para a arte dos mágicos no mundo todo, com a evolução dos sistemas de comunicação e correspondência tendo facilitado a troca de conhecimentos e o intercâmbio, a comunidade mágica aumentou consideravelmente. Mágicos de diversos países fizeram seus importantes acréscimos para a arte, no entanto limitamos aqui a falar de um número seleto, tendo em vista o foco desta seção que é conhecer a figura do mágico a partir do século XIX e ressaltar suas transições nas diferentes abordagens e roupagens de apresentação, destacando alguns artistas, mas considerando, e sempre que possível rememorando, os demais tantos que com certeza estão mencionados nos livros mais técnicos sobre mágica.
No final do século XX encontramos três mágicos que romperam com as vestes tradicionais e deram novas perspectivas para a apresentação de mágica, um deles é o canadense Doug Henning, que criou um estilo único, utilizando roupas coloridas combinadas com um visual hippie new age, por vezes usando camisas sem mangas, jeans e característicos tênis. Ele estreou um show na Broadway em 1974 e especiais de TV, muito de suas apresentações tem um caráter circense flertando também com a estética do musical.
O segundo mágico, talvez o mais conhecido, é David Copperfield, que modernizou as grandes apresentações de palco, explorando o uso poético da iluminação e criando um acabamento ímpar, perfeccionista, para o trabalho com grandes ilusões. Copperfield também popularizou um gênero de ilusionismo chamado ―mega ilusionismo‖, em que o mágico utiliza grandes objetos ou instalações como objeto do efeito, por exemplo, atravessar as paredes da Grande Muralha da China, ou desaparecer a Estátua da Liberdade.
Por último, citamos o trabalho de David Blaine, que trouxe uma nova visão para a mágica atual, não por meio de grandes aparelhos, efeitos de palco e roupas pomposas, mas pela utilização de objetos cotidianos e pela proximidade com a plateia, seus primeiros especiais de TV eram realizados na rua para as pessoas que passavam no momento. Suas vestes eram roupas cotidianas, como se estivesse indo caminhar por aí, e justamente por se colocar num lugar comum, como qualquer outro ser humano, sua mágica ganhou potência afetiva, ele popularizou o estilo que conhecemos como street
27 magic21. Blaine também inaugura um formato que flerta com a body art, se denominando um endurance artist, um artista que põe o corpo a testar os limites físicos de resistência. Seu primeiro trabalho nessa linha foi passar sete dias enterrado num caixão de vidro. Esse ato foi inspirado num desafio que Houdini iria realizar, mas que em decorrência de sua morte, nunca chegou a fazê-lo. Depois Blaine foi emparedado em pé num bloco de gelo, permanecendo por quase sessenta e duas horas. E assim seus atos se tornaram cada vez mais desafiadores, como passar quarenta e quatro dias vivendo em jejum numa caixa de vidro suspensa em Londres, ou sete dias submerso utilizando um tubo para respirar e se alimentar antes de tentar o recorde mundial de apnéia, em entrevista ele menciona sua motivação aos desafios: ―eu gostaria de descobrir quanto tempo eu poderia sobreviver sem nada‖.
Até este ponto podemos perceber as diferentes formas que a figura do mágico se apresentou no decorrer de duzentos anos, apesar das transições e diferentes estéticas de acordo com o contexto e com as
transformações da sociedade,
podemos notar que alguns artistas cultivam elementos que mantêm uma fidelidade com a tradição, por vezes como uma homenagem ao passado. Tais elementos podem ser objetos, maneiras de apresentar um número
ou rotina, ou ainda no figurino, na publicidade, gestos e posicionamento em cena. Tivemos no final do século XX e início do século XXI um período de exposição negativa e revelação de técnicas e outras particularidades na Mágica. Em decorrência disso, o fator processo criativo e a busca por novas fontes de criação foi acelerada; Obviamente a revelação foi um processo danoso, pois os estudos em mágica e a busca por uma poética singular já era realizada por alguns mágicos, independente de quem
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Destaca-se o trabalho do mágico americano Jeff Sheridan no Central Park (NYC), por volta de 1960, como a vanguarda do estilo Street Magic na cultura ocidental moderna. Harada nos fala que a mágica também floresceu nas ruas, praças e locais públicos, nas diversas culturas que praticaram esta forma de arte (HARADA, 2012, p.22).
Figura 7 - David Blaine. Fonte:
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viesse a expor os segredos sob a justificativa de ―estar induzindo os mágicos a inovar‖, a organização mundial de mágica FISM22 (Fédération Internationale des Sociétés
Magiques) possui em seus congressos uma categoria de competição para invenção de
números, métodos ou equipamentos em mágica. Enxergamos a mágica atual e os mágicos atuais num processo de reconstrução da arte e dos paradigmas estabelecidos.
A mágica do século XXI vive um renascimento, dialoga com outras linguagens artísticas e abrange de modo mais evidente as diferentes etnias, gêneros, grupos e culturas. A relação política que o espectador atual estabelece com a apresentação de mágica em sua apreciação, difere, por exemplo, da curiosidade apresentada no século anterior, marcado por descobertas e novidades tecnológicas que atiçavam a imaginação das pessoas. A união com os recursos de vídeo sofreu ampliações para além das possibilidades realizadas por George Méliès23 com o cinema no final do século XIX.
A mágica ―para a câmera de vídeo‖ ganhou vertentes positivas como o uso em conjunto com um telão no palco, um importante recurso para a mágica close-up que possibilita apreciar esse tipo de apresentação num teatro de grande porte. Como também na interação do artista com o vídeo em cena, como podemos notar no trabalho de Marco Tempest24 e Adam Trent25. Mas também é explorado comercialmente de modo exagerado em especiais televisivos de ―mágica‖, onde o artista é mais um ―ator de TV‖ do que um mágico, e utiliza recursos especiais como cortes de vídeo e edições, às vezes até efeitos especiais ou atores fazendo o papel de espectadores, esta abordagem se distancia estruturalmente do que a mágica propõe.