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RECHERCHE DANS DES SITUATIONS SPÉCIFIQUES

A) Origens e Principais Características

A abordagem contingencial da organização surgiu em decorrência de diversos estudos teórico-empíricos desenvolvidos a partir da década de 50, que procuraram demonstrar a relação entre variáveis ambientais (contextuais) e diferentes formas estruturais e processos organizacionais.

Sobre as suas origens observa-se uma certa confusão principalmente com relação a abordagem sócio-técnica, com a qüal mantém pontos referenciais comuns (Loveridge, 1980; Trist, 1980; Motta, 1986; Chiavenato,1987; Kelley, 1990). No entanto, há uma tendência geral em considerar que as origens da abordagem contingencial remontam a uma série de estudos, desenvolvidos nas décadas de 50 e 60, que procuraram explicar as variações no funcionamento e nas estruturas das organizações, de acordo com os seus ambientes operacionais.

Dentre os trabalhos originais destacam-se as pesquisas de Woodward (tecnologia e estrutura); Bums e Stalker (modelo organizacional e ambiente); Perrow (tecnologia e estrutura); Lawrence e Lorsch (organização e ambiente). Perrow, semelhantemente a de Woodward, procurou estabelecer um link entre tecnologia e estrutura, identificando a tecnologia de produção como o principal fator de definição do tipo de estrutura.

Por sua vez, Bums e Stalker (1961) constataram na sua pesquisa o surgimento de um novo modelo organizacional, que denominaram ‘orgânico’, dotado de grande flexibilidade, descentralização e desburocratização, em contraposição ao modelo mecanístico, cuja ênfase assentava-se nos princípios universais da administração científica. A predominância de um ou outro modelo gerencial ocorria em função do tipo de variação ou da estabilidade ambiental: o modelo mecanístico, prevalecia quando as empresas operavam em ambientes relativamente estáveis e o modelo orgânico, quando o ambiente apresentava-se em constantes mutações e condições instáveis.

Estes estudos contingencialistas foram amplamente interpretados (não necessáriamente por seus autores) como confirmando um determinismo tecnológico (Trist,

1980; Motta, 1986a; Kovács, 1987b; Bortolaia Silva, 1991). Na avaliação de Kovács (1987b, p. 3 9) tanto para Woodward quanto para Perrow, a tecnologia representa “a mais importante contingência para as empresas”. Porém, a literatura corrente não aponta para um consenso neste sentido. Loveridge (1980), todavia, defende que muitos autores contingencialistas atuais, contrariamente a literatura determinística dos anos 50, assumem um quadro interpretativo amplo.

Com relação as suas origens paradigmáticas, Burrel e Morgan (1979) interpretam o contingencialismo (que eles preferem denominar ‘Teoria da Contingência’) como uma síntese contemporânea de três vertentes referenciais: a Teoria dos Sistemas Abertos, a Abordagem Estrutural-Funcionalista da Organização e os estudos empíricos objetivistas, sobre motivação no trabalho, estilo de liderança, estrutura organizacional, tecnologia e muitas outras variáveis organizacionais que passaram a ser interpretadas com relação às diversas contingências ambientais. Estes autores destacam a obra de Lawrence e Lorsch, “As Empresas e o Ambiente”, apresentada em 1967, como um marco referencial para a difusão da abordagem contingencial, por terem os autores concluído (após estudarem dez empresas operando em condições ambientais variáveis) que princípios organizacionais diferentes são apropriados a diferentes circunstâncias ambientais e, sem dúvida, em partes diferentes da mesma organização.

Assim como Burrel e Morgan* Chiavenato descreve o contingencialismo como uma síntese de diversas influências e contribuições teóricas de todas as teorias administrativas/organizacionais, desde a Teoria da Administração Científica à Teoria Geral dos Sistemas e Cibernética. De acordo com o esquema da Figura 1-3, adaptado de Hicks e Gullet (1975), Chiavenato apresenta as contribuições das diversas teorias organizacionais ao contingencialismo, que ele denomina Teoria da Contingência2.

Como sua principal característica, a abordagem contingencial parte do pressuposto que não há nada de absoluto nas organizações ou na teoria administrativa, mas tudo é relativo às contingências impostas pelo ambiente e pela tecnologia. Ou seja, não há uma única ‘melhor maneira’ (íhe one besí way).

FIGURA 1-2-A CONTRIBUIÇÃO DAS DIVERSAS TEORIAS DA ORGANIZAÇÃO À TEORIA DA CONTINGÊNCIA

Fonte: CHIAVENATO, 1987.

Outras características da abordagem contingencial são apontadas por Burrel & Morgan (1979) tais como:

a) A organização e o seu funcionamento são interpretados de acordo com a Teoria Geral dos Sistemas (o que equivale dizer, princípios que se aplicam aos organismos biológicos);

b) A organização é, então, vista como existindo em um contexto ambiental amplo, onde um estado de influência e interdependência mútua se estabelece. De acordo com este ponto de vista, a organização é um subsistema de um sistema social mais amplo, do qual o ambiente faz parte;

c) Há uma preocupação em interpretar e representar as relações que se estabelecem entre a organização e o seu ambiente, que são vitais para a sobrevivência organizacional;

d) A organização é analisada como sendo formada por diversos subsistemas funcionais, cada qual interagindo com elementos do ambiente externo. Estes subsistemas, juntamente com o ambiente, dão origem às contingências que atuam sobre a organização.

e) As organizações contemporâneas são interpretadas como localizadas em ambiente turbulento e incerto, no qual mudanças políticas, econômicas, sociais, técnicas e mercadológicas acontecem muito rapidamente. De acordo com esta interpretação, a era do ambiente organizacional estável e certo já foi ultrapassada (Burrel e Morgan, 1979).

B) Relação entre Tecnologia e Democracia segundo a Abordagem Contingencial

A literatura contingencialista não trate de forma tão enfática e objetiva a questão da relação entre tecnologia e democracia, da mesma forma que as duas abordagens anteriores, mas oferece indicativos para a sua interpretação, pois a tecnologia tem sido privilegiada dentre as diversas contingências, muitas vezes associada com a participação dos trabalhadores e/ou a organização do trabalho. É o caso dos estudos de Loveridge (1980); Wallace (1989) e Keley (1990).

Loveridge (1980) analisa as contingências ambientais (dentre as quais destaca a tecnologia), como influenciadoras, mas não determinantes, da configuração dos sistemas de controle dos locais de trabalho. Segundo este autor, as condições de participação estão diretamente relacionadas com duas variáveis: o potencial de participação, decorrente das condições estruturais que facilitam ou impedem a interação entre trabalhadores e gerência; e a propensão dos atores para participar, considerada como “a habilidade (conhecimento ou qualificação) para compartilharem da tomada de decisão e o desejo de fazê-lo” (ibid., p.298).

Refletindo sobre as condições necessárias ao potencial de participação, Loveridge entende que a tecnologia estabelece limites para o compartilhamento de poder, que devem ser considerados conjuntamente com as variáveis organizacionais tamanho e estrutura. Por sua vez, o autor reconhece a existência de interdependências tanto da estrutura quanto da tecnologia de produção com o ambiente externo, o estilo gerencial e a filosofia de relações industriais. Porém, acrescenta, “diversas características da estrutura organizacional, particularmente que têm consequências sobre a participação, são de algum modo, configuradas pela tecnologia” (ibid., p.303).

Já Wallace (1989) reconhece que as pesquisas passadas são inconclusivas a respeito dos efeitos da mudança tecnológica sobre a satisfação no trabalho, a alienação do trabalhador e autonomia. Ele advoga uma abordagem contingencial na análise dos efeitos da mudança tecnológica sobre a qualidade de vida no trabalho, entendida como um conceito amplo que inclui as possibilidades de autonomia no trabalho, aumento do grau de responsabilidade e participação nas decisões.

De acordo com esta perspectiva, os efeitos da tecnologia não seguem uniformemente a mesma direção, tratando-se de diferentes indústrias, com diversidade de processos intra-organizacionais e dependem do grau de participação dos trabalhadores nas decisões sobre as novas tecnologias. Wallace (ibid., p.387) defende que “a mudança tecnológica constante poderá criar um clima de caos organizacional, se os trabalhadores não forem consultados e envolvidos na sua implementação” (ibid., p.387).

Por sua vez, Kelley (1990), em sua pesquisa, procura interpretar as implicações da introdução de inovação tecnológica (no caso máquinas CNC) sobre as relações de trabalho, no que se refere à autonomia, poder e controle, e, apesar de não abordar diretamente a questão ‘tecnologia e democracia’, oferece pistas e dá margem a interpretações correlatas.

Particularmente, sobre a participação dos trabalhadores e a questão das novas tecnologias, a pesquisa concluiu que nas empresas de menor porte e de menor complexidade organizacional, onde as estruturas organizacionais eram simples e não havia controle burocrático (formal), as relações informais entre operários e supervisores eram facilitadas. Nelas, os trabalhadores que atuavam em pontos fundamentais do processo de produção,

operando as novas máquinas CNC, adquiriram maior autonomia e responsabilidade na tomada de decisão.

Portanto, estas pequenas firmas, tendiam a oferecer maiores oportunidades de democratização do local de trabalho, com a introdução das novas tecnologias, independentemente das condições técnico-econômicas. Ao contrário, nas organizações maiores e mais complexas, onde a burocratização e a formalização de procedimentos eram maiores, as relações hierárquicas eram mais autoritárias e as relações industriais vigentes não ofereciam condições de participação dos trabalhadores nas decisões, nem aumento de qualificação com a introdução da automação microeletrônica.

Curiosamente, em função de suas observações, Kelley concluiu que, com relação à democratização do trabalho, a presença dos sindicatos representava um fator prejudicial, contrariando as conclusões de diversos autores no sentido de representam um elemento significativo no combate às conseqüências negativas dos processos de automação (Emery e Thorsrud, 1976; Marques, 1986; Neder, 1988b; Leite, 1987,1990,1992; Bresciani, 1990). Segundo a autora, isto acontece, porque nos EUA a presença dos sindicatos é vista como uma ameaça e os empresários relutam em compartilhar poder e controle com os operários sindicalizados.

Q Avaliação Critica da Abordagem Contingencial

Apesar de ter o mérito de desmistificar os princípios universais da Administração Científica, incluindo a melhor maneira de se organizar, alertar sobre os fatores contingenciais diversos que atuam sobre as organizações e as relações funcionais que se estabelecem entre eles e as práticas administrativas, a abordagem contingencial é alvo de inúmeras críticas.

Os críticos apontam a pluridiversidade paradigmática como o maior problema, pois invibializa a sua coerência conceituai e estabelecimento como uma verdadeira teoria organizacional. Daí a polêmica entre os que assumem o contingencialismo como sendo apenas uma das abordagens sistêmicas (Koontz, 1980; Wallace, 1989; Kelley, 1990) e os que lhe atribuem o caráter de ‘teoria’ (Burrel e Morgan, 1979; Loveridge, 1980; Motta, 1986a; Chiavenato, 1987; Kovács, 1987b).

Tendo como matriz paradigmática mais significativa a Teoria Sistêmica, a abordagem contingencial padece das mesmas fragilidades e incoerências de que o sistemismo é alvo, enquanto modelo de ciência que reproduz (o positivismo) e a teoria social com que se identifica, baseada no eficientismo e na colaboração entre as classes. Nem sempre de forma explícita, o contingencialismo tenta reproduzir a ideologia da manutenção do equilíbrio, uma contradição para uma abordagem que defende a dinâmica ambiental, a ação contingencial das variáveis ambientais e a necessidade de uma resposta organizacional também contingente. Mudam os níveis de equilíbrio, mas a homeostase é um objetivo permanente, ou, nas palavras de Motta (1986a, p.85) “mudar para de fato não mudar”.

Na busca do equilíbrio, objetiva-se a integração dos dominados, numa sociedade burocrática de consenso. Desta forma, o tipo de conflito que oculta é o conflito contingencial (relativo aos métodos de administração, à tecnologia e ao processo de trabalho), não se aceitando o conflito político permanente entre capital e trabalho. Esta maneira de avaliar o conflito, confirma a identificação da abordagem contingencial com as abordagens do tipo gerencialista, que adotam uma visão despolitizada das organizações, como sistemas normativamente integrados (Bastos e Seidel, 1992).

Nessa perspectiva, a participação dos trabalhadores é avaliada de forma reducionista como um meio para incrementar o desempenho organizacional e atingir a eficiência/eficácia, seja através do aumento da produtividade, seja através da capacidade de adaptação às mudanças (Storch, 1987).

Na avaliação de Motta (1986a), similarmente à abordagem sócio-técnica, o contingencialismo escamoteia as questões do poder e da dominação na idéia de integração e, conseqüentemente, o conflito entre a parte (indivíduo) e o todo (organização) aparece como uma disfunção na medida que tudo é pensado em termos de equilíbrio, harmonia e cooperação, de acordo com a ideologia das relações humanas.

Além disso, apesar de evidenciar o papel das contingências, a abordagem contingencial não trata a reação operária, as suas formas de organização, lutas e resistência como uma contingência a ser interpretada. Observa-se a valorização exacerbada de duas variáveis contingenciais: a tecnologia e o ambiente, funcionando na maioria das interpretações como verdadeiros imperativos ou determinantes de certos aspectos organizacionais, como p.e.

a estrutura e a organização do trabalho. (Woodward, 1977; Perrow, 1981). Isto justifica as críticas aos contingencialistas como defensores do determinismo tecnológico (Trist, 1981; Chiavenato, 1987).

Da mesma forma que a AST, a abordagem contingencial também não discute a natureza social da tecnologia e isto representa uma limitação conceituai significativa, principalmente para o estabelecimento de relação entre a democratização industrial e a introdução de novas tecnologias de produção. Como também, pelo fato de se constitituir numa abordagem gerencial de cunho eficientista, interpreta a qualidade de vida no trabalho, a participação dos trabalhadores nas decisões e a democratização industrial unicamente como meios para o atingimento da eficácia organizacional. E, para concluir, considerando o seu caráter eclético e integrativo, a abordagem contingencial pressupõe que nenhuma das teorias administrativas está superada, sendo que cada uma delas é válida para uma dada situação, dentro da qual funciona adequadamente, despojada de qualquer valoração política e social.

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