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Au-delà de la recherche, des aspects logiciels, technologiques, communication

Prosseguindo, após uma reflexão ética, reafirma-se que o ambiente público tem estado imerso no gerencialismo, ideologia que, conforme já relatado anteriormente, prega uma busca desenfreada pela competitividade e pela eficiência no trabalho, ou seja, exalta uma procura imediatista que não discerne as consequências de suas ações sobre a vida do trabalhador. Por conta de suas características, esse ideal tem realizado uma série de alterações no espaço público para que seja possível contemplar a substituição de um modelo burocrático por um modelo mais ligado à gestão (CHANLAT, 2002). Dentro desse contexto, o que há realmente é uma alteração lógica em que se passa a buscar os resultados, inclusive por meio de contendas pessoais, sem se atentar aos meios (GAULEJAC, 2011).

Assim, o que se percebe é que os novos métodos de gestão provocam a competição entre os próprios empregados, algo que ainda é socialmente entendido como justo e positivo. Para essa visão, a competição interna e a concorrência externa são fatores de estimulo e eficácia

(GAULEJAC, 2011), assim, a gestão mobiliza cada trabalhador para que ele veja sua vida como uma disputa na qual se busca sempre maiores resultados, mais dinheiro, riqueza e poder (GAULEJAC, 2007). Entretanto essa prática impossibilita a comunicação e o diálogo franco. Além disso, diversas ações, entre elas, a terceirização e a “horizontalização” do processo produtivo, acabam por ter como consequência o aumento da competitividade. Esse novo perfil exigido do trabalhador favorece o desenvolvimento de um comportamento agressivo, pois estabelece a necessidade de ser competitivo, capaz, qualificado, criativo e polivalente, sem a garantia de que esse comportamento resultará ao menos na manutenção das condições de trabalho que possui (MARTININGO FILHO; SIQUEIRA, 2008). Sendo que a aplicação de novos métodos de gestão reforça ainda mais as tensões, ao introduzir mudanças profundas nas práticas e na cultura do serviço público (GAULEJAC, 2011).

Adicionalmente, ressalta-se que a visão focada em metodologias gerenciais importadas de outros países tem origem nas universidades brasileiras, que formam administradores a partir de uma perspectiva que prima pela especialização técnica. Essa perspectiva atendeu bem o processo de industrialização no país, mas hoje se encontra inadequada para o atual momento da gestão (CRUZ; VILLELA, 2007). Assim, por conta desse tipo de influência, o recém-chegado ao serviço público insere-se no contexto, trazendo em si uma ideologia que preza a competição e o comportamento agressivo, e logo entra em choque com as pessoas presentes no ambiente, fato propulsor de diversos conflitos e de sentimentos ambíguos e dolorosos. Esse comportamento pode inclusive vir a trazer sérios prejuízos à organização com a destruição do clima de trabalho, o aumento geral do sentimento de insegurança e o bloqueio da criatividade e da inovação. Do mesmo modo, o avanço do mérito, conforme diz Gaulejac (2011), contribui para a destruição das solidariedades implantadas na cultura até então presente no serviço público. E, consequentemente, é gerado um custo para a sociedade como um todo, tendo em vista uma possível redução da produtividade, além da possibilidade de afastamentos por motivos de saúde (MARTININGO FILHO; SIQUEIRA, 2008). Além disso, a própria lógica competitiva reduz o Estado a um sistema burocrático, jurídico e financeiro a favor da gestão, perdendo, então, “a expressão política do interesse público coletivo” (GAULEJAC, 2007, p.165), pois “quando cada um quer ser campeão, ninguém mais se preocupa com o bem comum” (GAULEJAC, 2007, p.170).

Ademais, constatações como a crise de diversos ramos estatais, bem como a disseminação do discurso empresarial como modelo organizacional eficiente têm proporcionado mudanças importantes no modo como o cidadão percebe o Estado e os serviços

públicos e na visão social da ação pública e de seus componentes (CHANLAT, 2002). Portanto, a introdução de novos métodos de gestão na administração pública, que seria vista, em uma primeira análise, como uma metodologia eficaz para a melhoria da qualidade dos serviços prestados e, consequentemente, proporcionar um melhor desempenho de servidores e gestores públicos, não logrou qualquer vantagem marcante perante a burocracia. O gerencialismo no setor público trouxe apenas algumas novas características e novos aspectos a partir do surgimento da Administração Gerencial Pública. No entanto, muitos discursos tentam trazer ideias e motivações para grandes e inovadoras mudanças, esquecendo-se dos principais motivos da formação da burocracia, entre eles a preservação do bem comum e da coletividade (CHANLAT, 2002).

Outro tema notável acerca da discussão do trabalho gerencial no contexto público é o estudo dos papeis intermediários. Esses estudos contribuem fortemente para a compreensão das dificuldades psíquicas e da identificação do indivíduo, já que as funções mediadoras, de representação e de passagem oferecem um papel psíquico frágil dentro da organização, influenciando seus ocupantes (SÁ e AZEVEDO, 2010), o que demonstra as dificuldades de se estar entre o técnico e o político no ambiente da Administração Pública. É necessário que o gestor intermediário absorva as pressões vindas de seus superiores e as repasse ao grupo que comanda de modo ter uma resposta satisfatória, atitude que muitas vezes proporciona pressão semelhante aos comandados. Por conta da pressão, os gestores médios são os mais atingidos pelo discurso que versa sobre sua suposta ineficiência, visão que, associada a outros fatores, como a alienação subjetiva e o controle massivo, tende a impossibilitar que esses funcionários públicos estejam motivados, pois denigre a construção da identidade profissional do trabalhador (CHANLAT, 2002).

Contraditoriamente, Gaulejac (2007) relata que, em casos como esses, a inserção de modelos gerenciais sofisticados faz com o que os indivíduos presentes no ambiente organizacional comecem a aceitar esse espaço como o único local em que possam ser feliz. Assumindo essa visão, há de fato a necessidade de se pensar no impacto das mudanças proporcionadas pelos modelos gerenciais na identificação profissional dos servidores públicos, e de se refletir o quanto esses modelos, bem como as pressões inerentes, podem prejudicar as relações de trabalho, ao invés de desenvolvê-las (SIQUEIRA; MENDES, 2009). O apoio social oferecido por colegas, superiores e usuários, seria uma alternativa a tal pressão sobre as relações de trabalho e um elemento central para uma boa gestão pública. No entanto, apesar de constatado o problema e uma possível solução, o que se percebe é a manutenção de um

sentimento de insegurança sustentado pela introdução de práticas gerenciais (CHANLAT, 2002), que vedam o suporte de colegas.

Vale ressaltar que esse sentimento de insegurança é relatado com grande frequência por funcionários públicos de carreira. Isso porque, apesar de esses possuírem um cargo estável, que lhes dá a garantia de não serem dispensados, muitos deles se veem hesitantes perante as diversas estratégias de gestão que primam por oferecer a sensação de instabilidade aos funcionários. Um exemplo dessa estratégia é a instrumentalização da ocupação de cargos em comissão. Tal prática, que em um primeiro momento teria a intenção de oferecer maiores desafios aos que se destacam, proporcionando-lhes a ocupação de cargos hierarquicamente superiores, pode vir a gerar grande pressão tanto aos ocupantes de tais cargos, quanto àqueles que pleiteiam sua ocupação. Isso ocorre por haver uma indução da ação subjetiva do trabalhador de forma a proporcionar que ele relacione o seu provimento nesses cargos ao resultado satisfatório de seu trabalho, haja vista que o ingresso em tais funções hierárquicas ser uma ação discricionária da chefia e uma das poucas formas de reconhecimento do esforço do trabalhador no serviço público.

Por conta dessa deficiência no serviço público, o servidor público se vê pressionado não só a ocupar esse tipo de cargo para demonstrar a sua qualidade profissional, mas também a se manter nessa ocupação. Percebe-se, assim, que a estratégia de proporcionar o provimento em cargos com as características em questão gera um sentimento dual, pois, apesar de muitos se sentirem felizes por possuírem um emprego estável e bem remunerado, muitas vezes se ressentem ao serem preteridos na ocupação dos cargos comissionados (BESSI; GRISCI, 2008). Finalmente, vale ressaltar que, ao copiar as práticas de gestão do setor privado, “totalmente opostas ao espírito do serviço público e que são compartilhadas pela maioria dos servidores públicos” (GAULEJAC, 2011, p.155), a administração pública perde a possibilidade de encontrar modelos, ideias e práticas específicas do setor público (PAES DE PAULA, 2005). A crise econômica tem mostrado que essa atitude é um erro, pois, nesse contexto, o papel apenas gerencial dos dispositivos reguladores não é suficiente e a baixa presença dos serviços públicos não é aceitável, dando lugar aos modelos e às ideias mais aderentes à ação pública (CHANLAT, 2002), exatamente por conta da ação privada não ser capaz de suprir as necessidades sociais.