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Recapture du glutamate et libération du lactate par les astrocytes : l’hypothèse de la

B. Couplage neurovasculaire : relation étroite entre l’activité

III. Le couplage neurométabolique fournit l’énergie nécessaire aux

3. Recapture du glutamate et libération du lactate par les astrocytes : l’hypothèse de la

É visível e tranquilo o quanto para a família de Dona Zita o mundo é explicado pela lógica da religião, da magia, da governança da realidade pelas forças de outra esfera, um universo mágico que sustenta toda a vida, a vida de cada pessoa do grupo, o que acontece, o que irá acontecer. As mulheres mais fortes da família – Vó Dola, Dona Zita e Mãe Fátima – o são por conta de transitarem nesses dois universos, por terem diálogo direto com as entidades, orixás da casa (Exus, Xangô, Iansã, Ogum, Omolu, Oxossi, Iemanjá, Erês), com os caboclos (Boiadeiro, Sultão das Matas, Marujo Seu Martim) e o “povo do tempo” (Zé Pilintra, Maria Padilha).

Nas narrativas de várias mães de santo do universo das Pedrinhas, de como começaram a serem tocadas pela religião, é muito recorrente a doença de derrubar a pessoa ainda jovem e a família não saber o que fazer mais, os médicos não terem respostas e em alguns casos, mesmo os médicos, dizerem que a única solução seria espiritual. Mãe Fátima, além de participar dessa dinâmica, ter uma longa história de determinação da vida pelas forças ancestrais, também tem seu trabalho profissional fora do espaço do barracão –

como enfermeira em um hospital público da cidade – para manter o cotidiano do grupo, as obrigações, as oferendas e as festas.

O começo do envolvimento de Mãe Fátima com o candomblé e com as práticas de benzeção tem como marco uma forte resistência nelas a acreditar. Mãe Fátima conta que ainda adolescente caiu doente de cama e alguns médicos, inclusive doutor Gil Moreira Passos, indicavam que era uma “doença espiritual”. Sendo espírita, o referido médico, tendo tentado outros tipos de tratamento, diagnostica a doença:

ele trabalhava no posto de saúde e ele falou pra mãe o seguinte: que eu não podia comer feijão, a casca, que não podia comer arroz, não tomar a água de feijão, cozinhava o feijão e depois tirava e passava na peneira, cozinhava o arroz, tirava e passava na peneira. E eu não podia tomar água comum. Naquela época ele deu o problema que eu tinha como "víru no fígado" e hoje nem existe essas palavras. Eu tinha vírus no fígado. E depois do tratamento, logo... e não foi nada disso...

Somente após um pai de santo dizer que ela tinha uma obrigação que era cuidar do orixá dela, ficou recolhida e ao final de sete dias já estava melhor e começou o processo de fazedura de sua cabeça.

Eu não suportava o candomblé. Não acreditava. Eu vim acreditar no candomblé foi depois do problema de saúde que eu tive e os médicos não deram previsão solução do meu problema. Mãe gastou o que tinha e o que não tinha e nada foi resolvido. E aí foi quando chegou esse pai de santo aí na Rua do Cruzeiro e eu estava assim magrinha, magrinha, e eu só tinha a pelezinha assim segura no osso.

A revelação se dá num consultório de posto de saúde;

Doutor Gil que é pai de Gilberto Gil. Mãe foi e Dr. Gil era espírita. Quando eu cheguei na porta do consultório assim, aí ele olhou pra mim assim, mãe me segurando nos braços e eu arrastando das pernas porque não conseguia caminhar e aí ele foi e tinha uma banquinha e aí ele mandou pisar na banquinha. E aí mãe falou: “Ela não aguenta ficar em pé...” e eu pensei que não aguentava e aí eu fiquei em pé naquela banquinha. E ele mandou mãe pegar num braço e ele pegou no outro e ele disse: “Você vai subir, você é capaz, você vai subir aí”. E ele fazendo assim... e repetiu: “Você é capaz, você vai subir sim. Bote o pé em cima que você vai subir”. E aí quando eu botei o pé, eu senti força na outra perna e eu subi e sentei e eu sentada e ele me olha me examinou e depois ele falou pra minha mãe: “Olha, a senhora quer a saúde da tua filha, leva

ela num centro espírita. Sua filha é vidente, sua filha é espírita”. E foi verdade porque eu vim adoecer e depois eu começava a ver as coisas.

Ela continua seu relato dizendo a respeito das promonições que ela tinha nesse período, de pessoas que iriam falecer, de acidentes, de assassinatos, da forma como uma prima havia falecido em um hospital da cidade. E ela conclui essa parte:

[...] e hoje eu entendo mais ou menos, né? E aí não levou 10 minutos, vi meu irmão chegando, chorando com as mãos assim na cabeça, chorando. E do jeito que eu vi meu irmão contou. [...] E não deu 10 minutos, meu irmão para o carro na porta. Louco, louco, louco. Que a minha cunhada tinha morrido. E aí, mãe começou chorando e me segurou assim e “Como foi que você viu?” Eu falei: “Eu não sei, eu vi”. Ou seja, mãe ficou num nervoso que ela tinha falecido e queria descobrir ao mesmo tempo como foi que eu de cá tinha visto aquilo, né?

Perguntada se aquela situação já vinha se repetindo por outras vezes, ela diz:

Ela já tinha tido problema, ela já tinha sido cuidado. Só que era assim, ela cuidou só que ela não tinha aquela fidelidade, aquela fé. E aí comecei a adoecer às 5 horas da tarde. Eu passava a noite inteirinha ruim, e quando dava 5 da manhã, quando já ia amanhecendo, aí eu ia melhorando. Só que era um melhorando assim, eu fui perdendo peso rapidamente, eu fui engalfinhando em cima de uma cama. Só que durante o dia, até uma hora dessa aqui eu estava na cama, se você chegasse, eu não conseguia levantar porque eu tinha emagrecido demais. Mas se você chegasse, eu ia na cozinha, conversava com você mais ou menos. E agora se você chegasse e o sol estivesse entrando... e eu já não conversava mais nada. Era só aquele calafrio, calafrio, calafrio...

Vários elementos chamam a atenção nessa narrativa. O primeiro, com relação ao chamamento. Ela é anunciada pelo médico espírita, no exercício de sua profissão. O segundo é que ela fica doente, sem solução, não só com relação à medicina tradicional, mas também com relação à medicina popular, sendo Vó Dola rezadeira. O terceiro elemento são as adivinhações, muito recorrentes na família de Vó Dola. Durante a pesquisa, pudemos perceber que mais de 5 integrantes possuem esse dom, inclusive Vó Zita.

No entanto, o elemento que mais chama a atenção é mesmo a narrativa de uma cura feita por ela antes mesmo da jovem Fátima passar pelo processo de iniciação.

Sim, antes disso aí, eu já estava já doente, já de cama. E aí eu não lembro quem foi, eu lembro que ela foi me visitar. E aí ela chegou com a filha e ela; a menina estava toda na lepra. E eles falavam que lepra era um cobreiro. E mãe falou assim, ela está aí no quarto. E ela deitada assim, ela entrou e eu olhei pra menina e o corpo da menina estava correndo água da coceira que teve e aí tava descendo aquela salmoura, descendo água. Foi Dona Anelita; e aí eu chamei mãe, ela veio: “É o quê? Você já está com sede?” Eu tinha muita sede e ela levava água pra eu tomar. “É o quê? Você já está com sede?” Eu falei: “Pega uns galhos de mamona aí que eu vou rezar Jana”. E aí ela começou: “Não liga não que ela tá variada de febre”. Eu disse: “Traz uns galhos de mamona aí que eu vou rezar e eu não estou com febre não”. E aí ela foi buscar os galhos de mamona, naquela época tinha muita mamona nos quintais e aí eu comecei a passar aqueles galhos na menina e aí eu pedi uma faca e comecei cortando e pedi mãe: “Bota isso aqui no fumeiro”. E naquela época todo mundo tinha um fogão a lenha. Bota isso aqui no fumeiro. Com três dias, Dona Anelita entrou com a menina e a pele cicatrizando.

Vó Dola também resistiu à sugestão do médico. Mãe Fátima diz: “Eu lembro que ela falou assim pra ele: ‘Que espiritismo qual é nada doutor. Maior é Deus. A minha filha está precisando é de tratamento, não é de ir para espiritismo não’”. Orientada por uma senhora vizinha, Dona Joana, moradora da Rua do Cruzeiro, Vó Dola, mesmo resistindo, desconfiada, mas com medo da adolescente Fátima morrer de tão arruinada que estava, aceitou. Antes, Dona Joana fora conversar com o pai de santo que disse:

“Manda ela trazer a menina aqui. A menina tem santo de luz, manda ela trazer a menina aqui. Guia de Luz”. E aí Dona Joana falou: “Eu não posso nem falar isso pra ela, porque parece que ela não acredita muito nas coisas”. “Não, então manda ela trazer a menina aqui. E fala que ela que chegue aqui antes de 5 horas. Porque não é às 5 horas que a menina arruína?”

Ela repete, tanto no relato sobre a consulta com Dr. Gil, quanto na consulta com o Pai Zelito16, como é conhecido, uma situação na qual a mãe (Vó Dola) tenta ajudá-la a se manter em pé e ambos insistem que ela pode caminhar ou ficar em pé.

E aí quando chegou, ela bateu na porta, ela segura de um lado em mim, e para subir a escada ela segurou nas minhas costas e levantando as pernas porque eu não aguentava subir as escadas. Quando chegou na porta

16 O pai de santo a que mãe de Fátima se refere na entrevista é Pai Joselito, também entrevistado por ocasião dessa pesquisa, com barracão localizado na Rua do Cruzeiro, na mesma direção na qual se encontra o Beco de Dola.

assim, ela bateu e ele veio de lá pra cá com uma vasilha de água e desbachou eu, mãe, Dona Joana pra lá e falou “Solta ela”. Mãe falou: “Mas ela não vai aguentar”. Ele falou: “Solta ela”. E aí mãe me soltou e aí ele falou: “Vem, minha filha, vem aqui. Você tem forças pra chegar até aqui”. E aí eu olhei pra ela assim e deu vontade de voltar da porta. Eu fiz assim quando eu ia entrando. E ele falou: “Venha”. Ele falou: “Venha”. E: “Pode ir soltando” e ele pegou assim na minha blusa assim, com medo de eu cair. Era pra aquele cabide no espírito [...] E aí quando eu tirei a blusa, ele falou assim: “Me dá a mão”. E falou: “Deus que lhe abençoe, Deus que lhe abençoa, Xangô que lhe dê saúde”.

E completou a acolhida:

[...] “Eu não posso cobrar”. E aí ela falou: “Não, mas pelo ao menos se o senhor cobrar dela”. Ele falou: “Eu não posso, eu não posso cobrar nada. Porque o santo dessa menina é rico, é milionário. É o santo dessa menina que vai fortalecer vocês tudo. É o santo dessa menina que vem ajudando vocês tudo. É o santo dessa menina que vai lhe ajudar”.

Segundo Mauss (2003), são três os modos de qualificação assinalados pelos observadores no tornar-se mágico: revelação, consagração e tradição. A revelação se dá quando um mágico crê achar-se em relação com um ou vários espíritos, que se colocam a seu serviço e dos quais recebe sua doutrina. A narrativa de Mãe Fátima a coloca como alguém que garantirá ao grupo uma continuidade, uma sobrevivência.

Depois, segundo Mãe Fátima, Pai Zelito ordenou a um auxiliar:

“Tire um banho pra essa menina, tire de abô, não tire banho quente não”. E aí mãe falou pra ele assim: “Mas ela não pode tomar banho frio não porque a essa hora ela tem febre”. E aí ele falou: “É encima dessa febre que ela vai tomar esse banho, porque se essa febre fosse por doença ela já deveria tomar um banho frio, e quanto mais que é uma febre espiritual”.

Enquanto estávamos entrevistando o pai de santo de Mãe Fátima, Pai Zelito, ele precisou atender a uma de suas filhas que vinha lá dos fundos da casa após cumprir alguma obrigação. E o mais interessante é perceber como, dentro e fora da comunidade, as rezadeiras e os curandeiros são respeitados e reverenciados. E a fama de pai Zelito é tanta que já havíamos ouvido outras pessoas relatarem sobre seus trabalhos.

As narrativas desse momento continuam longamente na entrevista com a Mãe Fátima, apresentando a carga simbólica de sua iniciação ligada à sua missão. São relatos

que fazem uma ligação forte entre sua função social – mãe de santo e benzedeira – e sua trajetória de vida.