B. Ensuring UNCTAD policy solutions support “boots on the ground”
VI. Realigning the organizational structure
Silência é a filha mais velha das quatro filhas dos Mpepe e a primeira das mulheres de quem tomamos conhecimento no romance. Sua presença no enredo é tão breve quanto sua existência, pois sua vida minguara pelas garras de um leão. Segundo o relato de Mariamar: “a minha irmã, Silência, foi a última vítima dos leões que, desde há algumas semanas, atormentam a nossa povoação” (COUTO, 2012 p. 14). Silência, como o nome sugere, representa a sujeição ao poder masculino, e sua ausência de voz ao longo da narrativa é o seu traço mais evidente. Um silêncio pesado e grosso que incomoda ao atento leitor, pois que sua vida de tão sufocada não lhe permitia gritar.
De sua morte repentina, restavam dúvidas e questionamentos: “como acontecera aquela tragédia? A filha teria saído de casa a meio da noite? E se assim acontecera, ela teria a intenção de pôr cobro à própria vida? ” (COUTO, 2012, p. 18), refletia o pai insone na noite seguinte à morte da filha. Ao pai assombrava a imagem do “ensanguentado saco contendo os restos da filha” COUTO, 2012, p. 16). Hanifa, decidindo ir ao mato pegar os restos da filha, é impedida pelo marido. Um corpo desfeito, dilacerado, incompleto é uma forte imagem que remete a uma violência brutal. A destruição do corpo também remete, num plano simbólico, à destruição da mulher, pois dentro do dualismo mente/corpo, macho/fêmea, a desvalorização do corpo
(matéria pecaminosa) em oposição à alma (sagrada, dada por Deus) sempre foi um grande aliado da opressão feminina (XAVIER, 2007). Grosz (2000, p. 67 apud XAVIER, 2007 p. 18) explica que o pensamento misógino justifica a posição secundária da mulher ao contê-las dentro de seus corpos representados ou construídos “como frágeis, imperfeitos, desregrados, não confiáveis, sujeitos a várias intrusões que estão fora do controle consciente”.
Logo, concluímos que a destruição do corpo de Silência é sobretudo a imagem de uma borboleta esmagada no seu casulo, sem chance de se libertar e de se desenvolver. A crítica feminista, como aponta Xavier (2007, p 20), tem trabalhado para retirar o corpo desse lugar e trazê-lo “para o centro da ação política e da produção teórica”. Feministas como Nancy Chodorow e Julia Kristeva procuram ver o corpo feminino de forma positiva: “elas buscam a transformação de atitudes, crenças e valores, uma vez que o corpo é uma construção social, uma representação ideológica” (XAVIER, 2007, p. 21).
À mãe, preocupava também saber quais as partes da filha enterradas. “O coração? [...]. Enterramos o coração?” (COUTO, 2012, p. 17). Sentia-se torturada por não saber se enterrara o coração da filha, se fora comido pela fera, ou se ainda repousava no meio da savana junto a restos do corpo. O coração é o “órgão central do indivíduo, corresponde de maneira muito geral, à noção de centro. [...]. A sede dos sentimentos, centro da vida, da vontade e da inteligência” (CHEVALEIR, GHEERBRANT, 2015, p. 280, 281). De Silência, fora arrancado o seu coração e tudo que ele simboliza, mas de que servia um coração que não podia amar e escolher? Depois de tudo que ela vivera, ainda lhe restara um coração?
No intuito de entender essas perguntas, é preciso saber que a vida da personagem é marcada pela violência e por um apagamento tão profundo que quase não a deixa existir. Silência é introduzida na narrativa por outra voz, pela fala da irmã, enquanto sua voz permanece em silêncio. Mesmo nas memórias da irmã, ela permanece quase invisível. “Obedeça a tudo, menos ao amor, assim me dizia Silência, a minha pobre irmã” (COUTO, 2012, p. 49). Assim aconselhava aquela a quem nunca foi permitido amar. Que sabia ela sobre amor, se viveu enclausurada no lar e maltratada por quem a devia proteger? “- Não queira crescer, mana, não queira ser mulher, advertiu Silência” (COUTO, 2012, p. 125). De que estaria tentando proteger sua irmã?
“Durante anos, meu pai, Genito Mpepe, abusou das filhas. Primeiro aconteceu com Silência. Minha irmã sofreu calada, sem partilhar esse terrível segredo” (COUTO 2012, p. 87). Ser mulher, para Silência, era o que a tornava suscetível aos abusos do pai. Soa absurdo pensar que o fato de ser mulher determine um perigo real na sociedade de sofrer determinada violência, mas basta analisar um pouco mais amiúde para perceber que tal afirmação é tão verdadeira
quanto cruel. A Organização das Nações Unidas (ONU) publicou uma pesquisa cujas estimativas apontam que sete em cada dez mulheres no mundo sofrerão algum tipo de violência. Elas poderão ser espancadas, estupradas, mutiladas, abusadas ao longo de suas vidas.35
Mesmo considerando a diversidade das culturas, cada qual com suas peculiaridades, Badinter (1986, p 24) confirma a “universalidade da proibição do incesto”. Couto afirma que em Moçambique o incesto “também é interdito. Mas em certas circunstâncias, muito raras, um feiticeiro pode recomendar que um pai faça amor com a filha36”. A afirmação de Couto nos causa certo incômodo pelo modo como ele a constrói. “Fazer amor” sugere um envolvimento amoroso entre duas pessoas, e é difícil imaginar ser esse o caso de um homem adulto que, recomendado por um outro, tenha relações sexuais com sua filha. A isto deve-se chamar estupro, violação, violência sexual. Isso nos leva a tomar o ato de Genito como inaceitável.
A violação incestuosa era de conhecimento da mãe que, nas palavras de Mariamar: “sempre fez de conta que nada sabia. Que era invenção dos vizinhos, delírios de quem queria esconder as próprias mazelas” (COUTO 2012, p. 87). O silêncio das mulheres em geral tem sido grande aliado da cultura machista opressora, mas é preciso entender as causas desse silêncio. Nye (1995, p 142) explica que “quando relações masculino/feminino são analisadas apenas como relações de força entre consequências, a realidade psicológica concreta na qual as mulheres vivem é ignorada”.
É preciso lembrar que as mulheres são educadas para a dependência, são ensinadas a servir e a se sentir culpadas pelos maus tratos que vierem a sofrer. Ademais, “as mulheres não lutam contra um anônimo outro masculino, mas contra pais, irmãos, mães, maridos” (NYE, 1995, p. 142), logo, os laços parentais e afetivos se convertem em algemas, impedem-nas de agir em defesa própria. Ir contra o homem é ir contra a sociedade da qual ele é representante, seria uma afronta.
A necessidade de aceitação pelo outro, por vezes, leva o oprimido a reproduzir o discurso do opressor. Hanifa é um desses casos, uma vez que, não só silenciava a filha, como também se tornava reprodutora da violência praticada em seu lar. O discurso patriarcal se manifesta, além disso, sob forma de poder simbólico; como explica Bourdieu (1989, p. 07-08), “o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”.
35 Disponível em: https://nacoesunidas.org/no-dia-internacional-da-mulher-onu-pede-fim-de-todos-os-tipos-de- violencia-de-genero/ Acesso em: 12/06/2016
36 ENTREVISTA: Uma conversa com Mia Couto 04/09/2013 Por Anabela Mota Ribeiro http://desacato.info/uma-conversa-com-mia-couto/
A presença de Silência manifesta-se num plano fantástico, pós-morte, em aparições à sua irmã. Em uma das suas visitações, Silência surge no quintal do lar dos Mpepe, enquanto Mariamar depenava uma galinha: “De súbito, vejo Silência, em contraluz, recolhendo em suas mãos as flutuantes plumas. - Veja, mana: este é meu coração. Os leões não o levaram. Você sabe a quem entregar” (COUTO 2012, p. 82). Esse coração alado, a quem teria pertencido, durante tão curta vida? A promessa do amor, que nunca veio, foi retirada dos sonhos da irmã. Assim como Mariamar, Silência também se apaixonou pelo caçador. “Ela era minha irmã, minha amiga. Mais do que isso, ela era a minha outra pessoa” (COUTO, 2012, p. 241). Mariamar acusa-a de inveja, de ciúmes, “porque ela não tinha alma para, em si, inventar uma outra vida” (COUTO, 2012, p. 241). Mais uma vez, evidencia-se outra face da ideologia patriarcal: a ideia de que as mulheres são inimigas, que devem viver em constante disputa. Em contraponto a essa ideia, as feministas contemporâneas adotaram o conceito de sororidade.
A sororidade é uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo. É uma experiência subjetiva das mulheres que conduz a uma busca de relações positivas e a uma aliança existencial e política corpo a corpo, subjetividade a subjetividade com outras mulheres, para contribuir com a eliminação social de todas as formas de opressão e com apoio mútuo para alcançar o poder genérico de todo empoderamento vital de cada mulher. (LAGARDE DE LOS RÍOS, 2012, p. 543 apud BECKER, 2011, p. 4. Tradução nossa).
O termo sororidade tem sido bastante usado entre as feministas contemporâneas, embora não exista oficialmente na língua portuguesa. A palavra que mais se aproxima de seu sentido é “fraternidade”, porém é descrita como “solidariedade entre irmãos ou então como harmonia entre os homens”. As duas palavras têm origem no latim: “frater” vem de irmão, ao passo que “soror” corresponde a irmã. Permaneceu em uso a palavra masculina, reflexo da crença de que apenas as relações entre homens se concretizam de modo harmonioso. Parte daí a necessidade de resgatar a palavra sororidade e trazer seu significado para o campo da vivência das mulheres (BECKER, 2011).
Apesar da efêmera disputa pelo parceiro, após a morte de Silência, as irmãs voltam a se reunir, agora em diferentes corpos. Em corpo de leoa, Silência ressurgirá e reencontrará sua igual. O leão é o animal que simboliza o poder, a sabedoria e a justiça (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2015). É revestida dessa felina imagem, a leoa, que as irmãs se unirão novamente, durante a travessia do rio: “E, de súbito, ela ali está: a leoa! [...] Como se há muito me esperasse, ergue a cabeça e crava-me fundo o seu inquisitivo olhar”. Mariamar reconhece no olhar de leoa sua apartada irmã. “Não há tensão no eu porte. [...] Mais do que isso: a leoa
saúda-me com respeito de irmã” (COUTO, 2012, p. 55). O curso das águas do rio é o seguir da própria vida e assim reconhece Mariamar: “O rio não me levou ao destino. Mas a viagem conduziu-me a quem de mim estava apartada: a leoa, minha esperada irmã” (COUTO, 2012, p. 59). Esse regresso, através do rio, remete ao regresso a “soror”, sentimento de irmandade para além dos laços sanguíneos.
Mesmo com o silêncio pesando no nome, remetendo a submissão, seu fim, em verdade, foi seu grito de libertação. Silência não fora morta pelos leões acidentalmente, portanto. “Naquela fatídica madrugada, Silência estava escapando de Kulumani, fugindo do regime despótico de Genito Mpepe” (COUTO, 2012, p. 177). A morte é um fim absoluto? Que tipo de violência leva uma jovem a preferir a morte a continuar vivendo em tal regime? Para Chevalier e Gheerbrant (2015, p. 621) a morte “designa o fim absoluto de qualquer coisa de positivo”, dos seres humanos, animais, plantas, ou de figuras abstratas como uma amizade, ou a paz. Por outro lado, “é também introdutora aos mundos desconhecidos” assim, ela é “revelação e introdução”. Por isso, podemos pensar a morte de Silência como passagem para um plano de liberdade metafórica fora da sujeição em que vivia.