Após analisar a presença dos mapas nas coleções em foco, passamos a um segundo tipo de imagens encontradas nos livros didáticos: os desenhos. O termo “desenho” pode parecer vulgar para se referir a algumas obras alocadas nessa categoria, mas foi considerado o mais adequado para reunir representações pictóricas realizadas por diferentes métodos e em diferentes suportes (como gravuras, aquarelas, óleo sobre tela, etc.), todos não fotográficos, e que guardam semelhanças entre si devido aos contextos em que foram produzidos. Portanto, o termo “desenho” é aqui utilizado tão somente com esta finalidade prática de separar as imagens fotográficas das não fotográficas, sem qualquer pretensão de correção teórica ou conceitual no campo artístico.
Enquadramos no tipo “desenhos”, de acordo com o que encontramos nos livros didáticos, quatro categorias de imagens, de acordo com seu contexto de produção: imagens do século XXI, que englobam ilustrações feitas especificamente para as coleções didáticas; do final do século XVI, em que viajantes europeus estiveram no Brasil e produziram ou inspiraram relatos textuais e imagéticos sobre os costumes dos povos nativos; da primeira metade do século XIX, quando estrangeiros vindos em expedições científicas e artísticas retrataram povos indígenas, dessa vez através de outros olhares e técnicas; e do final do século XIX, período em que os indígenas ganham destaque em nossa iconografia com a emergência do romantismo e da busca pela construção de uma identidade nacional.
Uma primeira categoria que identificamos no tipo “desenho” engloba aquelas
ilustrações elaboradas especificamente para a edição didática, portanto, imagens produzidas
no século XXI. Trata-se de uma categoria pouco recorrente. A coleção Projeto Araribá se vale mais delas na parte da Pré-História, um período que foi excluído em nosso recorte de pesquisa. Entretanto, há duas imagens que destacaremos aqui por sua particularidade. Enquanto as imagens sobre Pré-História geralmente mostram vestígios arqueológicos – pontas de flechas, cerâmicas, pinturas rupestres – no tópico sobre o surgimento da agricultura, essa
148 coleção traz ilustrações que representam pessoas, para ilustrar os processos de produção de cerâmica e de farinha de mandioca.
O livro de 5ª série da primeira edição traz uma ilustração de duas mulheres (nuas, usando adornos como colares e braceletes) ralando mandioca. A legenda explica que “depois de ralar a mandioca, as índias colocavam a farinha para secar ao sol. Com isso, o veneno era eliminado” (PAH 2008, 5ª série, p.63). O a seguir, o Tema 5 “A arte da cerâmica e as moradias”, traz uma pequena ilustração representando uma mulher fazendo cerâmica, em um box que explica o significado da palavra “oleiro” (PAH 2008, 5ª série, p.64).
A segunda edição da coleção segue a mesma estrutura, repetindo as mesmas imagens. As únicas duas diferenças são, primeiro, a substituição da pequena ilustração da mulher fazendo cerâmica por uma maior, seguindo a mesma estética da ilustração das mulheres produzindo farinha. Nessa nova ilustração se vê quatro mulheres envolvidas na produção de cerâmica, com a legenda: “ilustração atual representando a produção ceramista dos antigos povos marajoaras. A cerâmica do Brasil pré-histórico ficou registrada principalmente nos utensílios domésticos e nas urnas funerárias descobertos por arqueólogos” (PAH 2011, 6º ano, p.62). Percebemos aqui um pequeno descompasso, pois é de conhecimento que normalmente a produção de cerâmica entre indígenas é realizada por mulheres, no que a ilustração demonstra correção. No entanto o texto, embora mencione que a atividade era “exercida provavelmente por mulheres”, utiliza o masculino no restante: “os oleiros preparavam o barro acrescentando grãos de areia, cascas de árvore e água. (...) [em outra técnica] os oleiros aproveitavam cacos de cerâmica usada...” (PAH 2011, 6º ano, p.62).
Na terceira edição as ilustrações das mulheres produzindo farinha e fazendo cerâmica permanecem, mas são diferentes. Ainda que sejam muito semelhantes em conteúdo aos anteriores, dessa vez os desenhos contam um jogo de luz e sombra melhor trabalhado e, de maneira geral, têm ares mais realistas (Figura 8). Enquanto as imagens da edição anterior tinham o crédito de Rodval Matias, estas são atribuídas a Orly Wanders. As legendas também sofreram ligeira modificação. Na primeira ilustração encontra-se “ilustração atual representando a fabricação de farinha de mandioca. Cores-fantasia. Depois de ralar a mandioca, as mulheres colocavam a massa resultante para escorrer. Em seguida, essa massa era colocada ao sol, processo que eliminava o veneno, e torrada, transformando-se em farinha” (PAH 2014, 6º ano, p.63). A imagem da produção de cerâmica, a legenda apenas adequou a grafia de “produção ceramista de antigos povos marajoaras” para “antigos povos Marajoara” (PAH 2014, 6º ano, p.64). Com isso, podemos perceber um refinamento na
149 qualidade das imagens nessa edição, o que demostra uma maior preocupação com a parte estética na dinâmica de publicação. Embora nenhuma dessas imagens seja objeto de propostas de reflexão, sua presença valoriza os conhecimentos e técnicas desenvolvidas pelos povos nativos.
Figura 8 Acima, ilustração da produção de farinha de mandioca presente nas duas primeiras edições da coleção
Projeto Araribá. Abaixo, ilustração que a substitui na terceira edição (PAH 2014, 6º ano, p.63).
Além dessas ilustrações, a coleção Projeto Araribá: História utiliza esse recurso na seção “Compreender um texto: Uma lenda do milho”, que segundo a explicação “faz parte da tradição dos guaranis do sul do Brasil” (PAH 2008, 5ª série, p.72). A ilustração, que também não traz legenda, representa uma cena descrita no texto, de dois indígenas lutando contra um terceiro (como vimos no capítulo anterior, o “emissário de Nhandeyara”), enquanto outros observam o surgimento do primeiro pé de milho, consequência da luta (PAH 2008, 5ª série, p.72-73).
Na segunda edição permanecem as imagens ilustrando “Uma lenda do milho”, mas reelaboradas, representando as mesmas cenas de modo um pouco diferente (PAH 2011, 6º ano, p.70-71). Nessa edição há ainda uma ilustração que não aparece em nenhuma outra. Ao trazer a narrativa de Davi Kopenawa Yanomami sobre os primeiros contatos com não indígenas, o livro didático apresenta uma “ilustração atual [que] representa como poderia ter sido a primeira reação dos índios yanomamis diante da cultura dos não índios” (PAH 2011, 7º ano, p.205). A ilustração mostra indígenas correndo, assustados, ao ver passar um avião sobre
150 a aldeia. Na terceira edição dessa coleção permanecem apenas as ilustrações sobre a lenda do milho, sendo assim perceptível o empobrecimento no uso de ilustrações nessa última edição.
A coleção História: Sociedade & Cidadania também se utiliza tipo de recurso visual. Em suas três edições encontramos, nos livros de 8º ano, quando trata do tema das bandeiras, uma ilustração representando uma expedição bandeirante na mata. Na primeira edição essa imagem não tem nenhuma legenda, mas pela relação com o texto entende-se que se trata de uma representação do que seria uma expedição bandeirante. Na ilustração os indígenas aparecem entre “homens brancos”, abrindo caminho com facões ou carregando sacos em suas cabeças, destacando a informação do texto de que faziam parte dessas expedições indígenas escravizados, usados como “guias, cozinheiros, guerreiros e carregadores” (HSC 2008, 7ª série, p.73). Na segunda edição essa ilustração é reproduzida novamente, mas dessa vez com maior destaque, ocupando quase toda a página, e trazendo a legenda “desenho de uma bandeira com base em pesquisa” (HSC 2011, 8º ano, p.35). Na terceira edição esse tema se mantém, mas a ilustração é outra. Dessa vez, os indígenas que figuravam em primeiro plano nas edições anteriores, aparecem mais ao fundo da ilustração, com menor destaque (HSC 2014, 8º ano, p.31). Não estamos discutindo a questão dos bandeirantes, mas chama atenção nessa imagem a ressignificação da figura mesma do bandeirante, agora representado de forma mais fiel aos debates historiográficos.
Duas ilustrações incluídas na terceira edição de História: Sociedade & Cidadania chamam a atenção por seu conteúdo. No livro de 7º ano, no capítulo sobre a colonização portuguesa, a seção “O texto como fonte” trata da guerra de Itapuã. Segundo o texto, o acontecimento se deu quando portugueses responderam a uma ofensiva dos Tupinambá na Bahia, que passaram a resistir à ocupação europeia na região, em 1555. Os portugueses então atacaram a aldeia de Itapuã, promovendo um massacre dos indígenas. A ilustração representa esse conflito, destacando pontos levantados no texto, como a superioridade de equipamentos dos portugueses (Figura 9). Na imagem, vemos portugueses com espadas e armas de fogo lutando contra indígenas com lanças e arco e flecha. A ilustração mostra também habitações pegando fogo e indígenas mortos (HSC 2014, 7º ano, p.276).
Outra ilustração incluída na terceira edição encontra-se no capítulo sobre “A marcha da colonização”, no livro de 8º ano. Esse capítulo traz uma seção “Para saber mais: Indígenas: dominação e resistência”, onde há uma ilustração (Figura 10) cuja legenda informa: “ilustração recriando um aspecto da resistência indígena aos bandeirantes no sul” (HSC 2014, 8º ano, p.32). Essa ilustração mostra indígenas atacando duas jangadas que seriam de
151 bandeirantes, em um rio, com flechas e lanças. Novamente, portanto, a coleção destaca visualmente a resistência indígena às investidas colonizadoras. Interessante notar que essas ilustrações vão perfeitamente ao acordo do sentido geral da narrativa que representam. Na ilustração sobre a Guerra de Itapuã, em que os indígenas acabaram derrotados, esses aparecem correndo, como em fuga, mortos, e com habitações incendiadas. No caso da ilustração sobre a resistência aos bandeirantes, em que os indígenas tiveram êxito, estes são representados em posição de vantagem. Ou seja, ambas as ilustrações tratam da resistência indígena, mas uma os mostra como vítimas e outra como vencedores.
Figura 9 Ilustração sobre a Guerra de Itapuã (HSC 2014, 7º ano, p.276).
Figura 10 “Ilustração recriando um aspecto da resistência indígena aos bandeirantes no Sul” (HSC 2014, 8º ano,
152 Considerando as ilustrações encontradas nas duas coleções, percebemos que elas constituem um recurso para enriquecer a narrativa visualmente. Em suas diferentes edições a coleção Projeto Araribá praticamente não apresenta mudanças, prevalecendo as ilustrações obre a produção da farinha, que valoriza o conhecimento indígena, e as que acompanham a “lenda do milho”, que não possibilitam maiores problematizações sobre a história indígena. Já a coleção História: Sociedade & Cidadania, naquela ilustração presente em todas as edições, traz um elemento que permite problematizar a questão. Ao representar indígenas participando da expedição bandeirante, reforça o uso dessa força de trabalho, mesmo nas atividades destinadas a capturar outros indígenas, o que permite trazer uma maior complexidade para as relações interétnicas naquele contexto. Percebemos também nessa coleção mudanças que, mesmo não sendo em grande quantidade, não deixam de ser bastante significativas. A presença de ilustrações sobre conflitos entre indígenas e colonos na Bahia e da resistência aos bandeirantes no sul, destaca o aspecto da resistência indígena, que como vimos no capítulo anterior é um dos pontos caraterísticos daquela coleção. Consideramos que reforçar visualmente essa resistência é uma grande contribuição qualitativa para a representação dos indígenas como agentes ativos na história, e não apenas como sujeitos passivos ante a ação dos colonizadores.
Após estas considerações sobre o uso de ilustrações originais nos livros didáticos, passamos a outra categoria entre as imagens do tipo “desenho”: as imagens produzidas no
final do século XVI. Considerando as duas coleções em seu conjunto, constata-se que são
utilizadas imagens de Hans Staden, Jean de Léry, André Thévet e Theodore de Bry, havendo um grande predomínio das obras desse último, que constituem 13 das 27 vezes em que esse tipo de imagem aparece nos livros didáticos. A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha sintetiza a relação entre esses indivíduos e sua experiência com os indígenas no Brasil,
... temos o franciscano André Thevet, cujo interesse pela mitologia o torna a melhor fonte sobre a cosmologia Tupinambá do século XVI. Contrapondo-se a Thevet, direta ou indiretamente, temos também dois autores excepcionais que estiveram entre os Tupinambá mais ou menos na mesma época, mas em posições assimétricas, um como inimigo destinado a ser comido, outro como aliado: o artilheiro do Hesse, Hans Staden, que viveu prisioneiro dos Tupinambá, e os descreve como inteligência e pragmatismo em livro publicado originalmente em 1557 que conheceu imediato sucesso - quatro edições em um ano -, e o calvinista Jean de Léry que passa alguns meses, em 1557, com os mesmos Tupinambá quando a perseguição que Villegagnon move aos huguenotes os obriga a se instalarem em terra firme. O livro de Lery só é publicado em 1578, e embora o autor afirme que o redigiu em 1563, várias passagens atestam interpolações posteriores a esta data. Seja como for, a edição em 1592, em Frankfurt, da terceira parte da Coleção de Grandes Viagens ilustrada pelo ourives, gravurista e propagandista huguenote Theodor de Bry, que reunia os livros
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de Hans Staden e de Jean de Léry, publicados simultaneamente em alemão e em latim, consagra a influência desses autores fundamentais (CUNHA, 2012, p.33-34).
O que temos, então, são indivíduos que tiveram diferentes experiências com os ameríndios no Brasil em meados do século XVI, produzindo relatos destinados a um público europeu ávido por informações e imagens dos exóticos habitantes do “novo mundo”. Esses relatos ganharam maior popularidade com a obra de Theodore de Bry. O enorme sucesso gozado pela obra desse autor se deu, em parte, devido à qualidade de suas gravuras.
Para a elaboração de suas ilustrações, de Bry utilizou a técnica da gravura em cobre, que permitia uma maior riqueza de detalhes. No entanto, era mais cara e, por isso, ainda pouco presente nas coleções de crônicas, que utilizavam, em geral, a xilogravura. O emprego de uma técnica inovadora, a escolha de temas polêmicos para serem retratados (como o canibalismo e a idolatria) além de inovações no processo de reprodução e impressão geraram um grande impacto visual, chegando a influenciar as obras de outros artistas (KALIL, 2011, p.263).
Portanto, percebemos que as coleções didáticas reproduzem imagens que têm uma longa história de circulação, e representam percepções e expectativas de um momento histórico específico. Esse tipo de imagens está presente nos capítulos que tratam da chegada dos portugueses ao Brasil e os primeiros momentos da colonização, bem como, nos capítulos dedicados especificamente aos povos indígenas. Devido às experiências dos autores em foco, os Tupi são os principais representados nessas imagens. Quanto aos temas, focam principalmente nos conflitos, tanto entre europeus e indígenas quanto dos indígenas entre si, e costumes desses povos, como estrutura das aldeias e antropofagia.
A coleção História: Sociedade & Cidadania utiliza gravuras do século XVI nas edições distribuídas no PNLD 2008 e 2014. Na primeira edição são três imagens, sendo duas de Theodore de Bry e uma de Hans Staden. Ambas as imagens feitas por Theodore de Bry representam batalhas entre europeus e indígenas. A primeira (Figura 11) é colorida, e sua legenda traz informações complementares ao texto principal, dizendo que “os colonizadores chamavam os povos indígenas de ‘bárbaros’. Com isso, justificavam a guerra contra eles; através dela, conseguiam a terra e os próprios indígenas, na condição de escravos” (HSC 2008, 7ª série, p.12).
A segunda imagem de Bry, em preto e branco, representa, segundo a legenda “o combate entre os portugueses e os Tupinambá, aliados aos franceses, no litoral do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XVI” (HSC 2008, 7ª série, p.30) (Figura 12). Também tem, portanto, um caráter ilustrativo relacionado ao tema do texto principal, que é a ação do
154 governador-geral Mem de Sá (1558-1572) no combate aos Tupinambá, então aliados aos franceses que haviam estabelecido a França Antártica na baía de Guanabara, em 1555 (HSC 2008, 7ª série, p.30-31).
Ambas as imagens destacam o aspecto da resistência indígena aos colonizadores, sendo utilizadas de maneira ilustrativa, sem propostas de reflexão sobre as mesmas. Destacamos, ainda, algumas inconsistências verificadas quanto à descrição dessas imagens no volume em questão. A origem da primeira imagem mencionada é atribuída da seguinte maneira: “esta representação, elaborada por Théodor de Bry para a obra Brevíssima relación
da la destruccion de las Indias, de Frei Bartolomé de las Casas, mostra a guerra entre
europeus (nos barcos) e ameríndios” (HSC 2008, 7ª série, p.12). A mesma imagem também é utilizada na coleção Projeto Araribá, onde conta com a legenda: “conflito entre portugueses e índios caetés na região de Pernambuco. Gravura colorizada de Theodore de Bry, 1562” (PAH 2008, 6ª série, p.176).
Figura 11 Gravura de Theodore de Bry, na coleção História: Sociedade e Cidadania (HSC 2008, 8º ano, p.12).
Figura 12 Gravura de Theodore de Bry, baseada em original de Hans Staden, representando combate entre os
155 Em primeiro lugar, a verificação da identificação “Tammaraka”, na ilha localizada no centro da parte inferior da imagem (Figura 11) permite concluir pela correção da descrição da coleção Araribá, pois a ilha de Itamaracá (então uma capitania) pertence atualmente ao estado de Pernambuco, embora a gravura seja provavelmente de 1592, e não 1562, como indicado.
Um segundo fator refere-se ao fato de que imagens de Theodore de Bry sobre o Brasil foram feitas a partir das xilogravuras de Hans Staden. Recorrendo-se a obra desse autor, encontramos a imagem descrita como “o sítio de Igaraçu” (STADEN, 2013, p.39). Em sua primeira viajem ao Brasil, ao aportar em Olinda, Staden relata que “por culpa dos portugueses, eclodiu um tumulto dos selvagens numa região, a dos Caetés (...) e o capitão do país nos implorou pela graça de Deus que acorrêssemos em ajuda à localidade de Igaraçu, a cinco milhas de Olinda e que os selvagens estavam prestes a tomar” (STADEN, 2013, p.37). A referida imagem corresponde ao relato desenvolvido por Staden sobre o acontecimento, de modo que podemos concluir que informação contida na coleção História: Sociedade & Cidadania, de que a imagem foi elaborada para a obra de Bartolomé de las Casas, está incorreta.
Verificamos também uma incorreção na segunda imagem, descrita como batalha entre portugueses e Tupinambá no litoral do Rio de Janeiro. É possível ler na imagem (Figura 12) a identificação do forte de Brikioka (Bertioga) e a denominação da ilha de Sº Maro (Santo Amaro). Novamente recorrendo à obra de Hans Staden, encontramos a ilustração original (STADEN, 2013, p.57) com a contextualização, onde consta que o povoado de Bertioga estava a cinco milhas de São Vicente, sendo “o primeiro lugar que os inimigos dos portugueses e dos Tupiniquins alcançavam em suas expedições guerreiras a partir do norte, e dali eles continuavam, avançando por entre a ilha de Santo Amaro e o continente, até São Vicente” (STADEN, 2013, p.56). Segundo o autor foi por esse motivo que se construiu uma fortificação em Bertioga, onde o próprio Staden acabaria sendo capturado pelos Tupinambá. Por essa descrição verifica-se que o conflito representado na imagem se deu na capitania de São Vicente, hoje estado de São Paulo, e não no litoral do Rio de Janeiro, como diz a descrição no livro didático. Além disso, não se dá destaque ao fato de haver mais indígenas (Tupiniquim) do que portugueses lutando contra os Tupinambá.
A última imagem do século XVI presente na primeira edição da coleção História: Sociedade & Cidadania é uma das xilogravuras originais de Hans Staden. Ela está em uma atividade de “leitura de imagem”, onde se sugere que o aluno analise a imagem em seus detalhes e crie uma legenda para ela (HSC 2008, 7ª série, p.35). O mais interessante nesse
156 caso é que ao final do volume há um apêndice intitulado “Elementos de pesquisa para a atividade Leitura de Imagem”, onde consta um texto com vários detalhes sobre a imagem e seu autor, permitindo ao leitor uma maior compreensão da imagem e do contexto que ela representa (HSC 2008, 7ª série, p.260).
Na terceira edição da coleção (na segunda não consta nenhuma imagem do tipo que estamos tratando) as imagens do século XVI reproduzidas tem um conteúdo diferente da primeira edição. Desta vez não há imagens de conflitos entre europeus e indígenas, e o foco incide sobre aspectos do modo de vida. Isso se dá devido a esta terceira edição incluir o capítulo “Os Tupi e os portugueses: encontros e desencontros”, que, como vimos, passa a abordar aspectos da cultura Tupi no século XVI, algo que não fazia nas edições anteriores. Dessa forma, encontramos imagens como uma de Hans Staden onde se destaca as “malocas de uma aldeia tupi” (HSC 2014, 7º ano, p.229) (Figura 13), e uma de Theodore de Bry onde “os pajés tupinambás (ao centro) dançam durante um ritual organizado por eles com o objetivo de cura dos doentes e fortalecimento espiritual do grupo” (HSC 2014, 7º ano, p.231). Também há na edição uma imagem representando o morubixaba Cunhambebe, retirada da obra de André Thevét, que aparece duas vezes – na primeira em tamanho menor, sem nenhuma legenda (HSC 2014, 7º ano, p.196), e na segunda vez com maior destaque, com