Em 1903, Horace Marucchi chamou as catacumbas de “o berço do cristianismo e os arquivos da Igreja primitiva" (p.4-5), uma afirmação que ressalta a importância dos materiais escultórios, pictórios e epigráficos nelas confeccionados. De fato, as catacumbas são os maiores acervos funerários do cristianismo antigo e, por isso, constituem-se como núcleos de registros históricos, religiosos e artísticos. Contudo, desde a redescoberta destes complexos arquitetônicos e das pesquisas arqueológicas realizadas neles, muitas posturas foram revisadas e novas perspectivas de análise puderam colaborar com o estudo desses espaços.
As pesquisas iniciais foram empreendidas por Antonio Bosio, responsável por localizar e registrar cerca de trinta cemitérios em Roma, em fins do século XVI, o que lhe valeu o título de “primeiro arqueólogo cristão” (NICOLAI, 2009, p.11). Sua obra, Roma Sotterranea, foi publicada em 1634 em meio as conturbadas disputas entre católicos e protestantes, e por isso serviu como alimento para os debates a respeito de Roma ter primazia na história da cristandade. Tal trabalho foi a primeira referência que concebeu a cidade eterna como cristã, no entanto, pelos séculos seguintes as catacumbas romanas foram estudadas apenas por interesses antiquários, para coleta de artefatos e para a identificação e registro de afrescos.
Foi somente no século XIX que pesquisas sistemáticas passaram a ser realizadas. Dentre esses estudos, estão os de Giovanni Batista De Rossi, considerado o fundador da “arqueologia cristã”, que publicou alguns trabalhos de exploração dos complexos funerários - como os três volumes de Roma Sotteranea Cristiana, em 1864, e o Bulletino diArchaeologia
Cristiana (1864-1894). Em ambas as obras, De Rossi usou diversas fontes literárias, como
itinerários de peregrinos e documentos eclesiásticos, e além disso, detinha conhecimentos em geologia, epigrafia, hagiografia e história da arte que foram salutares nos estudos e construíram um importante legado de pesquisa (GREGORI, 2014, p.97).Nesses trabalhos, De Rossi identificou, registrou e descreveu várias sessões dos cemitérios, assim como as localizações de tumbas de papas e mártires, que ainda consistem em bons exemplares das explorações científicas feitas nas catacumbas.
As pesquisas que se sucederam a partir da segunda metade do século XX e começo do XXI, como as da arqueóloga Jocelyn M. C. Toynbee (1996) e o do teólogo Graydon F. Snyder (2003), foram salutares em vários sentidos, inclusive nos debates que envolviam as perseguições aos cristãos e as concepções de que esses lugares foram usados para celebrações eucarísticas realizadas em segredo. A ideia de que esses locais serviram de esconderijo foi aceita por muito tempo, mas progressivamente entrou em declínio com as pesquisas arqueológicas. A estrutura dos cemitérios, a escassez de iluminação e o forte odor dos corpos em decomposição eram indícios de que muito dificilmente eles servissem de refúgio; além disso, as catacumbas foram espaços reconhecidos por todos e protegidos pela legislação romana21. Dessa forma, tratavam-se de locais onde se celebravam pequenas cerimônias, eventuais solenidades fúnebres e visitações periódicas aos túmulos dos falecidos.
21 As Leis das Doze Tábuas, formuladas e instituídas ainda no período republicano, deliberava em sua décima
tábua, a que tratava sobre as legislações sagradas, que “uma pessoa morta não deve ser enterrada ou queimada na cidade” (LASSARD, 2013, p. 07).
Algumas das primeiras expressões pictórias cristãs que nos chegaram estão registradas nesses espaços subterrâneos construídos em Roma, no entanto, as práticas de sepultamento em lugares semelhantes foram recorrentes em várias civilizações antigas, como entre os etruscos, os sabinos, os egípcios e os gregos, como informa Sílvia Siqueira (2011).No território romano, a inumação de mortos foi um hábito difundido desde a República até o período imperial e, desta feita, existem diversos espaços funerários nos subúrbios romanos, dos quais os mais antigos datam dos séculos II e III. Como dito, a legislação ordenava que os mortos fossem sepultados fora dos limites do pomerium, e segundo Vincenzo F. Nicolai (2019), este princípio de separação foi aplicado sistematicamente na Itália, assim como em várias outras províncias com a expansão do Império.
“Na realidade romana, o direito sepulcral está além do direito civil, é um direito sacro e o sacro para os romanos era sinônimo de inviolável e eterno” (REMENSAL-RODRÍGUEZ, 2016, p. 28). Assim, além de terem espaços específicos para serem erigidos, ninguém podia demolir ou danificar os sepulcros22. Independente da origem dos mortos, a incorruptibilidade e
a santidade das sepulturas era uma obrigação e um estatuto expedidos para todos sob o domínio imperial. Portanto, o local da sepultura era sempre sagrado.
Dessa forma, os monumentos fúnebres foram dispostos nas vias que ligavam Roma ao resto do território, nas margens do limite sacro da urbs. Os hipogeus, como eram chamados entre os romanos23, apresentavam formatos diferentes entre construções mais simples e outras mais sofisticadas, adornadas com imagens, estátuas e inscrições que se destinavam aos passantes. A arte funerária não se dirigia apenas à família e aos amigos, mas a todos. Tão logo cruzasse os muros da cidade, o passante se deparava com fileiras de túmulos, dos quais alguns traziam epitáfios que falavam diretamente com o leitor ou narravam de forma breve alguma história da vida do sepultado, assim como nos diz Paul Veyne (2009). Mas outros traços também foram marcados nas lápides. Eram costumes, por exemplo, registrar características do falecido, seu estado civil, condição social, profissão, alguma divindade da qual o morto fora
22Segundo José Remensal-Rodríguez (2016), bastava que se enterrasse um corpo em algum espaço para que este
local se tornasse sagrado, mas sacro era somente o local onde estava depositado o corpo, isto é, o sepulcro; contudo, havia várias outras leis que regulamentavam os sepultamentos, por exemplo: se alguém fosse enterrado em um sepulcro temporariamente, tal espaço não se tornava sagrado; se um cadáver fosse sepultado em vários lugares, convertia-se em sacro apenas o local onde estivesse enterrada a cabeça, dentre outras (p. 29-30). Para aqueles que cometiam o crime de violar uma sepultura, as penalidades iam do desterro ou trabalhos forçados nas minas à pena de morte, dependendo da condição econômica do acusado (p. 35).
23 Uma pequena sepultura reservada à uma família era normalmente chamada de hipogeu, enquanto que um espaço
devoto ou alguma história mítica representada em afresco (CABAN, 2014; SIQUEIRA, 2011; NICOLAI, 2009).
Mas é somente a partir do século II, em geral, que esses ambientes funerários vão sendo expandidos e ganhando grandes dimensões subterrâneas. Isso se deu, provavelmente, pelo crescimento demográfico de Roma e pela propagação das práticas de inumação. De acordo com Vincenzo F. Nicolai (2019), é provável que entre o fim do século I e início do II, famílias mais abastadas e associações funerárias tenham passado a investir nesses tipos de necrópoles. Já no específico contexto cristão, o autor argumenta que tais estruturas passaram a ser construídas a partir dos primeiros anos do século III.
Segundo Peter Caban (2014), por muito tempo os primeiros cristãos não contruíram espaços funerários próprios nem tumbas suntuosas pelo fato de não deterem condições financeiras para tais empreendimentos e, por essa razão, no começo, eles tiveram de enterrar seus mortos em ambientes de sepultamento comuns aos não cristãos. Além disso, a inumação também era uma prática bastante disseminada entre os judeus. Por exemplo, Leonard V. Rutgers (2005), que dispõe de várias pesquisa sobre a história e arqueologia de cristãos e judeus, argumenta que as catacumbas de Villa Torlonia, um cemitério de matriz judaica situado em Roma e datado do século II, tenha servido de exemplo para os cristãos, visto que a mesma apresenta uma estrutura similar as demais catacumbas romanas, além de abrigar, também, inúmeros afrescos em suas paredes.
Portanto, antes do século II não se pode distinguir sepulcros de acordo com as tradições religiosas, visto que não disposmos de qualquer tipo de fonte que identifique inequivocadamente os sepultamentos cristãos. É somente por volta de 150 d.C. que espaços funerários de origem cristã apareceram (CABAN, 2014). A partir deste período, houve uma gradativa expansão das catacumbas por várias vias de saída da cidade e com vários quilômetros de extensão subterrânea, como mostrado no mapa (Figura 3). Os principais complexos funerários de Roma são o de São Calisto, o de Domitila, o de Priscila, de São Marcelino e Pedro, Comodila, São Sebastião, Pretextato, Santa Agnes, Santa Cecília, de Valentino, dentre outros24.
24 Algumas dessas catacumbas dispõem de sites elaborados pela administração do complexo, como é o caso das
de Domitila, São Calisto e São Marcelino e Pedro. Os endereços eletrônicos encontram-se na Bibliografia deste trabalho para fins de consulta.
Figura 3 – Mapa das catacumbas em Roma.
O mapa apresenta o traçado do pomerium, as regiões eclesiásticas, as catacumbas e basílicas cristãs antigas. Fonte: FASOLA, 2012, apud GREGORIO, 2014, p. 94.
A nomenclatura destes locais foi dada por judeus e cristãos e refere-se aos termos gregos Katá: “embaixo”, “sob” e Kumbes: “cavidade”, “profundidade” (SIQUEIRA, 2011, p. 91). De modo geral, as catacumbas apresentavam uma composição arquitetônica semelhante. As estruturas funerárias já escavadas eram unidas, posteriormente, por vastos túneis e escadas
formando um complexo escalonado e vertical, com vários nichos superpostos nas paredes, iluminados por pequenas aberturas no teto e por lamparinas (NICOLAI, 2019).
De acordo com a referida arqueóloga Jocelyn M. C. Toynbee, responsável por uma das pesquisas mais importantes sobre a estrutura desses complexos fúnebres na obra Death and
Burial in the Roman World (1996), é possível identificar tipos comuns de tumbas nesses
espaços, o que nos demonstra certas convenções da arquitetura funerária da época. Segundo a arqueóloga, as tumbas mais numerosas são os loculi, espécie de covas retangulares que normalmente abrigava apenas um corpo insepulto – embora existam exemplares nos quais foram sepultados dois ou três corpos num mesmo loculus. O sepultamento era simples, normalmente os mortos eram enrolados em lençóis ou em sudários acompanhados de perfumes. Após o enterro, o loculus era fechado com pequenas placas de mármore, azulejos ou tijolos fixados com uma massa conhecida como pozzolana, e nesses materiais eram inscritos nomes, símbolos, profissões, etc. Colocava-se, também, pequenas lamparinas para iluminar o local.
Outro exemplar comum era o cubiculum, ou pequena câmara funerária, que de costume possuía forma quadrangular ou poligonal e onde normalmente se enterravam membros de uma mesma família. O teto de um cubiculum geralmente era adornado com afrescos. Existia também o arcosolium, um tipo de tumba mais suntuosa, com um arco na parte superior. Geralmente abrigava sarcófagos de pessoas importantes ou membros de uma família inteira, e eram decorados com mosaicos e pinturas. Já as criptas eram amplos cômodos com várias sepulturas - que possivelmente continham corpos de mártires, santos e pessoas importantes na hierarquia da Igreja (GREGORI, 2014).
Essas estruturas eram escavadas por fossóres (do latim fódere, cavar), como eram chamados os trabalhadores que cavavam as galerias e tumbas. Os fossóres realizavam este lento trabalho com ferramentas rudimentares, como pás e picaretas, e possivelmente foram eles que desenvolveram as pinturas e inscrições nas lápides. De acordo com o arqueólogo Alessandro M. Gregori(2014), cada nível dos complexos podia ter de três a oito metros de profundidade25. Nas catacumbas de São Calisto, por exemplo, a profundidade total é superior aos 20 metros26.
25 “Tais empreendimentos arquitetônicos tinham de ser construídos em lugares com estrutura geológica que
permitisse a criação de galerias e garantisse sua sustentação. É o caso do solo da periferia de Roma, que encontra- se em uma região de rochas vulcânicas, “entre elas o tufo litóide, bastante resistente, o tufo arenoso ou pozolana, elementos necessários para a composição de uma espécie de cimento, e o tufo calcário, fácil de cavar e bastante resistente” (GREGORI, 2014, p. 95).
26 De acordo com o endereço eletrônico da administração do complexo: LAS CATACUMBAS CRISTIANAS DE
ROMA. Catacumbas de São Calisto. Disponível em: <https://www.catacombe.roma.it/es/index.php>. Acesso em 25 abr. 2019.
Os nomes de alguns complexos funerários se devem a concessão do terreno por um indivíduo particular, que portanto doava o nome ao cemitério, tais como as catacumbas de Priscila e Domitila. Outros recebiam o nome de algum mártir ou santo, como as de São Marcelino e Pedro; havia ainda aquelas que herdaram o nome de alguém da organização eclesial, como no caso do complexo de São Calisto, que se constitui como um dos cemitérios subterrâneos cristãos mais antigos. Aqui, iremos nos ater a tratar brevemente das características dessas quatro necrópoles, visto que a maior parte de nossas fontes imagéticas foram colhidas nelas.
Somente a catacumba de São Calisto pode ser associada, desde o início, à iniciativa cristã (Figura 4). O complexo recebeu o nome do diácono que administrava o espaço durante o papado de Zeferino (199 - 217) e que, posteriormente, foi martirizado em Roma. Tal cemitério se encontra localizado na Via Appia antiga e ocupa uma área de quinze hectares, com uma rede de galerias que atingem quase 20 quilômetros e alcançam uma profundidade superior aos 20 metros. De acordo com Antonio Baruffa (2006), a necrópole abriga quase meio milhão de tumbas.
O cemitério de São Calisto contém zonas distintas; as mais antigas datam do século II, onde se localizam a Cripta de Lucina e a Cripta dos papas - área onde se sepultaram pontífices do século III, pois São Calisto se converteu na catacumba oficial da Igreja de Roma27. A parte mais antiga é a cripta de Lucina, conhecida desde o século XVI, mas somente explorada a partir da metade do XIX (GREGORI, 2014). Neste núcleo se encontra o cubículo “dos Sacramentos” que recebe este nome em razão dos afrescos que abriga, os quais acredita-se fazer referência ao Batismo e à Eucaristia.
Outras áreas importantes são o cemitério de Calisto, o cemitério de São Soter, o de Balbina, o de São Marcos e o de Marcelino e Dâmaso. Essas galerias foram progressivamente unidas por túneis conforme ia ocorrendo a ampliação do complexo. De acordo com Paul C. Finney (1994), as catacumbas de São Calisto foram possivelmente construídas por um colégio funerário cristão que depois passou a administração do espaço para a Igreja de Roma.
27 A Cripta dos Papas é conhecida como a “Primeira área” e, no século III, tornou-se diretamente dependente da
Igreja, que determinou esta parte para o sepultamento dos pontífices (BARUFFA, 2006). O lugar abriga os sepulcros dos papas entre os anos 230 e 283, identificados pelas inscrições nos respectivos túmulos, são eles: Ponciano (230-235), Antero (236), Fabiano (236-250), Lucio (253-254), Estevão (254-257), Sisto II (257-258), Dionísio (259-268), Felix I (269-274) e Eutiquiano (275-283) (FASOLA, 2012apud GREGORI, 2014, p. 101).
Figura 4 – Plano geral das Catacumbas de São Calisto
Fonte: NICOLAI, 2009, p. 32.
Quase tão grande quanto Calisto, a catacumba de Domitila, situada na Via delle Sette
Chiese, tem quase quinze quilômetros de extensão sendo, portanto, um dos maiores cemitérios
de Roma. O nome do complexo se refere à Flávia Domitila, proprietária original que doou o terreno onde se construíram as catacumbas. Há debates se o complexo funerário de Domitila seria o mais antigo de Roma, se se considerasse que a proprietária em questão é Flávia, esposa de Flávio Clemente e neta do imperador Vespasiano, que imperou de 69 a 79. Segundo James F. Jeffers (1995), Domitila teria doado terreno para seus dependentes cristãos, o que teria originado a necrópole28. Entretanto, não há muitas fontes que afirmem com certeza tal teoria.
28 O autor ainda afirma que o núcleo original da catacumba, o hipogeu flávio-aureliano, foi assumido pelos cristãos
no século II e, posteriormente, conectado às demais galerias – o que teria resultado no complexo por volta do quarto século.
A nave central da catacumba possui largas janelas em arco e a estrutura se divide em dois planos principais, com poucas galerias em um terceiro ou quarto plano, sendo o núcleo original o hipogeu pagão dos flavianos, provavelmente escavado e usado no século II. Segundo Alessandro M. Gregori (2014), o espaço também abriga uma basílica subterrânea, datada do século IV, a Basílica dos mártires São Nereu e Aquileu, redescoberta apenas no século XVI.
No rol de cemitérios cristãos mais antigos, está também a catacumba de Priscila, localizada na Via Salaria, que se estende por quase treze quilômetros e está dividida em vários níveis de profundidade. A necrópole foi gradativamente construída entre os séculos II e V.Ainda de acordo com Gregori, provavelmente o espaço funerário recebeu esta denominação por causa do nome de certa Priscila, da linhagem senatorial dos Acili, cuja identificação pode ser vista no primeiro plano – o mais antigo - da catacumba, no hipogeu da família.
No primeiro plano do complexo de Priscila encontra-se a conhecida “Capella Grecca”, do século III, que tem esse nome devido as inscrições em grego que adornam as paredes. O “Cubículo da Velatio”, assim chamado devido à imagem central de uma mulher “orante”, é um pouco mais tardio. Outro núcleo bem conhecido é o “Cubículo da Anunciação”, no qual se encontra uma imagem que pode se referir à Virgem recebendo a visita do anjo Gabriel29. O
segundo plano da catacumba dispõe de duas grandes galerias paralelas coligadas posteriormente ao resto do cemitério. A necrópole guarda tumbas de inúmeros mártires, como Felix e Felipe, filhos de Santa Felicidade, martirizados em Roma durante a perseguição instituída por Diocleciano, em 304 (GREGORI, 2014).
Uma das catacumbas que receberam o nome de mártires, no período em que o culto a essas personalidades era promovido pela Igreja, foi a dos Santos Marcelino e Pedro, localizada na antiga Via Labicana e atual Via Casilina. A região onde está situada a catacumba, antes de ser um cemitério cristão, fora um local de sepultamento entre os romanos pagãos, tendo sido encontrados pequenos mausoléus em escavações na década de 197030. A área teria sido chamada de “Ad duas lauros” que, juntamente à Basílica e ao Mausoléu de Elena, formou um grande complexo de 18 mil metros quadrados e dezesseis metros de profundidade31; somente
29De acordo com o endereço eletrônico da administração do complexo: CATACOMBE DI PRISCILLA.
Catacumbas de Priscila. Disponível em: <http://www.catacombepriscilla.com/visita_catacomba.html>. Acesso em 25 abr. 2019.
30Os monumentos funerários de tradição pagã construídos na área foram datados do reinado de Augusto se
estendendo, pelo menos, até o de Sétimo Severo, no século II (BLANCHARD, et. al., 2015).
31De acordo com o endereço eletrônico da administração do complexo: CATACOMBE SS. MARCELLINO E
depois do translado dos restos mortais dos dois mártires é que o nome do complexo foi modificado.
No início do quarto século, Pedro e Marcelino foram mortos durante a perseguição de Diocleciano, mas seus corpos só foram depositados na necrópole algum tempo depois, dispostos em dois loculi sobrepostos dentro de um cubículo. Este espaço é considerado o núcleo mais importante da necrópole. Gradativamente foram erguidos outros edifícios no local, como a basílica que também leva o nome dos mártires – e se situa sobre o cemitério – e diversos mausoléus. Segundo Philippe Blanchard (et. al., 2015), algumas pesquisas arqueológicas realizadas nos anos 2000 confirmam que a catacumba foi utilizada pelo menos até o século VIII – de acordo com a datação de alguns afrescos encontrados.
Contudo, de forma geral, os complexos funerários romanos foram progressivamente entrando em desuso a partir do século V. As áreas periféricas à cidade foram sendo submetidas como espaço de cultivo (NICOLAI, 2009), ao mesmo tempo em que os mártires, no corpo de suas relíquias, adentraram o núcleo urbano. Os locais de inumação vão sendo incluídos no interior da cidade com o costume de sepultar os mortos perto das igrejas e, dessa forma, as necrópoles subterrâneas passam a ser usadas muito mais para fins devocionais - de peregrinação aos túmulos dos mártires - que para ritos sepulcrais, como afirma Robert. A. Markus (1997).
Como já ressaltamos, as imagens cristãs que nos propomos analisar foram registradas nesses ambientes destinados aos sepultamentos e, portanto, carregam consigo o imaginário que rodeava o propósito do local. As pinturas e inscrições catacumbais constituem valiosos documentos históricos que compartilham as experiências socioculturais e religiosas e