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Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 40-146)

No processo de formalização hierárquica, a comunidade começou a sofrer tensões, pois seus membros não estavam mais dispostos a legitimar os atos da Ialaxé Rosa Moreno como sacerdotisa suprema, em favor do poder de mando do novo pai-de-santo. Assim, o título honorífico de sacerdote, conferido a Neto pelo decá, para além de cumprir sua função de ampliar o terreiro com a iniciação de novos membros, ocasionou a descentralização do poder da Ialaxé Rosa, gerando conflitos e afastando alguns adeptos. A lógica desse processo vivido pela comunidade Oba Koso pode ser associada ao modelo de drama social elaborado por Victor Turner. Na sua obra Schism and

Continuity in an African Society, Turner define os dramas sociais como:

uma sucessão encadeada de eventos entendidos como perfis sincrônicos que conformam a estrutura de um campo social a cada ponto significativo de parada no fluxo do tempo [...] representam uma complexa interação entre padrões normativos estabelecidos no curso de regularidades profundas de condicionamento e da experiência social e as aspirações imediatas, ambições ou outros objetivos e lutas conscientes de grupos ou indivíduos no aqui e no agora (TURNER,1996: 21 e 22).

Os dramas sociais seguem uma lógica processual e, para além da superfície aparente dos conflitos interpessoais, podem revelar as contradições e conflitos ocultos no sistema social. Os tipos de mecanismos de correção para lidar com o conflito, o padrão de luta e as fontes de iniciativa para acabarem com a crise, todos claramente manifestados no drama social, fornecem pistas valiosas sobre o caráter do sistema social (MAGGIE, 2001: 43-44, cf. TURNER, 1964:17).

A lógica processual do drama social se apresenta através de quatros momentos que são: (1) ruptura, (2) crise e intensificação da crise, (3) ação reparadora e (4) desfecho (que pode levar à harmonia ou cisão social), pois no drama se encontram as fontes de poder liminar, imprescindíveis à recriação de um mundo pleno de significados. Nesta seção pretendo narrar a primeira fase desse drama social, apresentando uma progressão de tensões que se constituíram nos antecedentes da “ruptura” que levou à “crise”.

Entre os anos de 2006 a 2010, os conflitos se tornaram corriqueiros, brigas e discussões entre os filhos de santo e a ialaxé eram algo comum, mas até aquele instante, não

ameaçavam a existência da comunidade, pois os voduns sempre intermediavam os problemas e os mesmos não eram de extrema gravidade. Entre 2011 e 2012, os conflitos tornaram-se mais graves, pois comprometiam a realização dos processos rituais. Seguem alguns exemplos das disputas e tensões que surgiram no seio do grupo. Estes eventos, alguns deles por mim observados e outros destacados por membros da comunidade nas entrevistas, tiveram um efeito cumulativo que culminou na “ruptura”. Em julho de 2011, o terreiro de Simões Filho se preparou para o ciclo ritual da casa. Iria ocorrer uma festa pública para Xangô, uma para Oxum e, ao mesmo tempo, um ogã e um iaô de Xangô foram recolhidos para o processo de iniciação. Tudo transcorria com a maior normalidade, até que o Humbono Carlos, pai de santo de Neto e Rosa, não compareceu ao terreiro durante os processos rituais de iniciação, pois estava em Belém do Pará cuidando da vida espiritual de outros filhos de santo. As festas públicas no Oba Koso normalmente são realizadas aos sábados. O calendário litúrgico foi feito pelo Humbono Neto e, na tentativa de contar com a presença do Humbono Carlos, alterou as datas das obrigações, sendo que a festa de Xangô seria em um domingo e a de Oxum num sábado.

A Ialaxé Rosa, ao ter conhecimento das mudanças nas datas, não ficou satisfeita e mostrou um grande descontentamento durante todo o período de obrigação. Manteve-se afastada por algum tempo dos processos rituais e exigiu que as datas fossem modificadas. A fim de evitar um conflito de maiores proporções, Neto propôs que a festa de Oxum fosse realizada no domingo e a de Xangô no sábado, sobretudo, porque na festa de Xangô, aconteceria à confirmação de um ogã e as autoridades de axé e a família Savalu já haviam sido previamente convidadas.

Assim, a festa de Xangô se realizou nas datas determinadas pela ialaxé, pois em suas palavras “Xangô como dono da casa, deveria ser reverenciado como sempre ocorreu, aos sábados”. Alguns filhos do terreiro ficaram insatisfeitos com a designação da ialaxé e do Humbono Neto, pois acreditaram que a festa de Oxum foi desprestigiada. A insatisfação gerada por esse incidente ficou visível no dia-a-dia do terreiro e se alastrou durante semanas.

No dia 24 de setembro de 2011, foram realizados os rituais para Ibeji e o caruru dos erês. Nessas obrigações religiosas, os filhos de santo do Oba Koso, como de costume

chegaram ao terreiro numa sexta-feira. Neste dia, os adeptos passaram a madrugada cortando quiabos e cantando músicas ligadas as erês. No sábado pela manhã, ao acordar, cada filho de santo foi realizar suas tarefas diárias na comunidade. As equedes foram organizar o hundeme, o Pejigan Nelson e Osi Pejigan Jorge e o Huntó Edimar foram cumprir outras funções da roça e a Deré Rozimar, a Ebômi Cláudia e os demais foram cuidar dos afazeres da cozinha de santo e da cozinha de uso comum. Entretanto, Ialaxé Rosa, que, naquela época, fora nomeada delegada numa Conferência de Cultura como representante dos povos tradicionais e comunidades religiosas do município de Simões Filho, precisou sair do terreiro durante o dia e não acompanhou o trabalho dos filhos de santo.

Durante sua ausência, tudo transcorria com normalidade. Todos estavam felizes, pois o caruru ficou pronto muito cedo. A roça estava devidamente limpa e organizada, mesas arrumadas, banheiros lavados, enfim, estava tudo pronto para se ofertar o caruru dos erês no período da noite para as pessoas da comunidade local. Devido à boa organização dos trabalhos, o Humbono Neto afirmou que, após ser ofertado o caruru, os filhos da casa que tivessem concluído suas tarefas poderiam retornar para as suas casas, sem necessidade de dormir no terreiro. Na hora em que o caruru estava sendo distribuído, Ialaxé Rosa chegou acompanhada da Secretária de Cultura de Simões Filho e foi participar da parte social da festa, dando a atenção devida aos convidados presentes e organizando a distribuição do ajeum. Ao final do ritual, os adeptos começaram a limpar a roça para retornarem para as suas residências. A ialaxé perguntou porquê todos estavam arrumados para sair, e quando soube que o Humbono Neto tinha autorizado a saída, informou que nunca os filhos da casa iam embora após o caruru, que ela não foi comunicada sobre esta ordem e que todos iriam ficar na roça aquela noite. Novamente a insatisfação pela transgressão de uma determinação do humbono era visível nos filhos da casa.

Poucos dias depois, em 7 de outubro, Rosa completou dezessete anos de iniciada. Na roça de Simões Filho, em todas as ocasiões do aniversário de santo da ialaxé e de Xangô é realizado um ossé nos ibás de Rosa, bem como oferecido um amalá ao vodum Xangô. Entretanto, neste ano, o aniversário coincidiu com o dia de sexta-feira e não houve ritual para o vodum. Apenas a Equede Sônia de Oxum foi ao terreiro neste dia para ver a ialaxé, e a maioria negligenciou o fato e sequer entrou em contato telefônico para

justificar a ausência, vez que haveria um ritual específico para este vodum nas semanas seguintes. Alguns filhos não compareceram, pois uns estavam ocupados com seus afazeres e outros por motivos que não foram revelados a mim. Esta atitude e conduta foram reprovadas pela ialaxé, pois desde a fundação do terreiro, Xangô sempre foi reverenciado com rezas, cânticos e alimento ritual.

Após esta data, o Humbono Neto aguardava a liberação do plano de saúde para a realização de cirurgia bariátrica, pois apresentava problemas de saúde em virtude de obesidade. Diante dessa assertiva, a Ialaxé Rosa se colocou contra a realização do presente das yabás no ano de 2011, a despeito da vontade do Humbono Neto que ficou a favor da manutenção do ritual, ainda que sem a sua participação direta ou efetiva. Alguns filhos foram a favor do posicionamento da ialaxé, pois acreditavam que após a cirurgia, Neto estaria fragilizado. Entretanto, a Equede Deri e o Huntó Edimar, por estarem ligados ao vodum Oxum, mostraram-se insatisfeitos com a decisão tomada pela ialaxé em discordância com os outros filhos da casa.

Novas tensões se seguiram. Em 15 de novembro foi realizado o obi e o assentamento de Oxum de uma a abiã chamada Verônica. Neste dia, a ialaxé ficou doente. Devido ao seu estado de saúde, ela não realizou os rituais na nova filha de santo e designou o seu irmão Neto para ficar à frente da obrigação. Porém, conforme palavras dele, “não era justo que ela estando doente, fosse realizar atos religiosos numa pessoa. [Porém] eu estou com a energia baixa devido ao meu estado de saúde e [também] não posso passar isso para Verônica” (Comunicação Oral, Oba Koso, 15/11/2011). No outro dia pela manhã, a ialaxé informou que iria para o quilombo da Caipora, localizado na área rural do município de Simões Filho. Determinou que a Equede Deri a acompanhasse ao quilombo. Entretanto, Deri, sinalizando sua dissidência, a retrucou com a seguinte resposta: “Eu não vou para o quilombo. Eu vou preparar a roupa do santo!” (Comunicação Oral, Oba Koso, 15/11/2011). Rosa acabou indo ao quilombo acompanhada por Neto e o Pejigan Nelson. No retorno, a Ialaxé Rosa se desentendeu com a Equede Deri de Ogum, que a respondeu de forma incisiva com a seguinte colocação: “se toda equede fosse como eu, que mesmo tendo um filho com deficiência sempre está aqui no terreiro, eu bateria paó para as equedes” (Comunicação Oral, Oba Koso, 15/11/2011). Após esta discussão, a Equede Deri arrumou suas roupas laicas e

retornou para a sua residência no bairro do Luiz Anselmo. Afastou-se da roça por um período de dois meses, retornando apenas no dia 27 de janeiro de 2012.

No dia 24 de Janeiro de 2012, foi comunicado aos filhos-de-santo do Oba Koso que todos deveriam ir para roça, pois no sábado 28 seria feito o primeiro ossé do ano no terreiro e o momento seria aproveitado para se comemorar o nascimento de Oxum. Como já citado anteriormente, o Humbono Neto foi iniciado para esse vodum em 28/01/1998, e no Oba Koso o dia do nascimento de santo de cada filho é geralmente comemorado com rezas, cantigas, oferecimento de onze comidas secas e a chegada de outras pessoas da família de Axé para confraternizarem o dia especial. Como de costume os filhos-de-santo chegaram ao terreiro um dia antes. Nesta comunidade quem não dormir no terreiro em véspera de obrigação, fica proibido de participar de qualquer culto, tendo que esperar a próxima obrigação para poder participar e justificar sua ausência.

Embora eu chegasse à roça no dia 27 de janeiro de tarde, só à noite as pessoas ligadas ao axé começaram a chegar. Reinava certa expectativa, pois, no dia seguinte, seria celebrada Oxum, dona da cabeça do Humbono Neto. Contudo, percebia no olhar dos membros da casa, principalmente das autoridades religiosas, que algum problema estava no ar. Os filhos-de-santo tinham se afastado cada vez mais da ialaxé, bem como o contrário. Esse distanciamento ficava evidente quando, nas reuniões que ocorriam durante o período dos ossés, Rosa insistia que se as pessoas continuassem indiferentes a ela, iria recorrer a Pai Carlos para que ele as aconselhasse a tratá-la com maior atenção. Enfim, chegou o tão esperado 28 de janeiro, quando o Humbono Neto estava completando 14 anos de iniciado.

Todos acordaram cedo, alguns, como a Equede Deri (que após meses de afastamento tinha voltado), Huntó Edimar e Dagã suspensa Cristiane de Oxum passaram a noite arrumando a casa das yabás. Ao acordar, os filhos da casa foram tomar a benção a Ialaxé Rosa Moreno e ao Humbono Neto. Todos tomaram café da manhã. Um clima de tensão começou a se espalhar no ar enquanto os filhos-de-santo arrumavam a roça para o inicio do ossé. Bacia em mãos, sabão de coco do outro lado, pequenas mesas foram colocadas na área externa da roça, para que os objetos sagrados fossem limpos. Como de costume, a cozinha deste terreiro não para. De lá saíam às ordens, as fofocas, as intrigas, as dúvidas, as alegrias, o ouvir do outro.

De repente, olhei para a Ialaxé Rosa e percebi que ela não estava muito contente. Quando não se ouvia muito a sua voz, sinal de que coisa boa não estava por vir. A ialaxé, perguntou em voz alta alguma coisa para todos os que estavam na cozinha. Ao ouvir a resposta de forma desrespeitosa, ela começou um estranhamento com um adepto, e determinou que ele deveria buscar seus afazeres e ir embora. A descrição do evento e da briga que ensejou o conflito entre eles, não foi autorizada pelas autoridades do terreiro Ilê Axé Oba Koso Loke Omi. Contudo, este evento pode ser considerado a “ruptura” que desencadeou a crise no terreiro.

Conforme Maggie, tais conflitos no seio do Candomblé parecem fazer parte de um padrão de desenvolvimento social na comunidade (MAGGIE, 2001: 43). O conflito aparece sempre que os interesses colidem. Desta forma, quando os interesses individuais de cada membro da comunidade religiosa se contrapõem à esfera de poder, segue-se uma reação de conflito. Vê-se, comumente, na origem do conflito

uma força disfuncional que pode ser atribuída a um conjunto de circunstâncias ou causas lamentáveis. [...] o conflito pode ser explícito ou implícito. Qualquer que seja a razão e qualquer que seja a forma que assuma, a sua origem reside em algum tipo de divergência de interesses percebidos ou reais (MORGAN, 1996: 160).

Em contraposição aos sistemas de relações sociais mais inclusivos, a relação hierárquica entre o humbono e a ialaxé resultou em caminhos desviantes. No momento da ruptura, a ialaxé questiona a finalidade de sua existência na roça: “Aqui neste terreiro vocês devem respeito a mim, se não fosse eu, isso aqui não existiria. O que eu sou?” (Transcrição de fala da Ialaxé Rosa Moreno- Oba Koso – Simões Filho). O drama se manifesta na mudança e parece regido por dinâmica espiral que vai encadeando eventos de consequências cada vez graves.

A partir do último conflito ocorrido em janeiro de 2012, a crise se instalou e foi se intensificando a cada dia, o que gerou o afastamento dos adeptos no terreiro. As obrigações que estariam por ocorrer foram desmarcadas e o terreiro passou três meses sem qualquer atividade religiosa e o seus membros ficaram afastados entre si. As portas da roça até então não se abriram mais. Diante do silêncio que se apresentava, Humbono Carlos Bottas chamou o Humbono Neto para uma conversa. No momento que a crise se intensificou, o jogo de búzios informou que os voduns tinham ido embora do terreiro e os únicos que ainda permaneciam no local eram Bessén e Ossaim. O ápice eclodiu!

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