inspeção realizada na Escola de Enfermeiras Luiza de Marillac (CD da EEAN/UFRJ, Oficio 59, janeiro de 1941). Cabe dizer que até o momento não consegui localizar o parecer dessa inspeção. Porém, acredito que as observações feitas por Maria de Castro Pamphiro, podem ter determinado tanto a entrada de Elda Nina como professora quanto a admissão de uma enfermeira leiga para a direção da Escola.
Como vimos, para que uma escola de enfermagem alcançasse a equiparação à Escola Padrão, precisava atender às exigências do artigo 7°, do Decretq nº 20. 109/31 , o qual entre outras coisas, vinculava seu funcionamento à existência de uma diretora - enfermeira formada na Escola Anna Nery ou em Escola a ela equiparada. Irmã Matilde Nina era a pessoa autorizada pela Associação São Vicente de Paulo para assumir tal cargo. Contudo, como a Escola Carlos Chagas (na qual se formara em 1936) ainda não tinha conseguido ser equiparada à Escola Anna Nery, sem capital institucionalizado ( o diploma) não era válida para que pudesse assumir o cargo de diretora da Escola Luiza de Marillac.
Apesar de toda força simbólica do clero, a organização do processo hierárquico do espaço da EELM tinha que se estabelecer de acordo com a ordem jurídica preconizada pelo Decreto nº 20.109/31. No entanto, os rígidos
costumes das Irmãs da Caridade não permitiam que assumisse o cargo de diretora da Escola qualquer enfermeira. Por outro lado, a ASVP não correria o risco de ter nesse cargo uma pessoa apenas por possuir o capital institucionalizado ( o diploma), pois a esta competiria impor legalmente as diretrizes da estrutura e do funcionamento do Curso, podendo inculcar nas alunas maneiras diferentes da Companhia das Filhas da Caridade de ver o mundo. Até por isto mesmo, a Companhia necessitava de uma pessoa que além de possuir o capital institucionalizado, fosse de sua inteira confiança, ou seja, principalmente que professasse a religião católica .
Foto nº 24
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Certificado expedido em 21 de novembro de 1941, nomeando a enfermeira Rosa Maria Leone Diretora da Escola de Enfermeiras Luiza de Marillac. O documento é assinado pela lnnã Visitadora (Blanchot) e pelo Diretor do Conselho Consultivo.
Assim, de acordo com o certificado de nomeação, de 21 de novembro de 1941 (foto nº 24), a ASVP designou Rosa Maria Leone (foto nº 25), diplomada pela Escola Anna Nery, na turma de 1935, para ser a primeira diretora da Escola de Enfermeiras Luiza de Marillac (Barbosa, 1989, p. 16 e CD da EEAN/UFRJ, Módulo 1, ex. 6, 1935 e Arquivo da FELM/SC).
Confirmando essa idéia, Irmã Fiusa ( depoimento nº 3) afirma que Rosa Leone era católica, muito completa, como pessoa humana e profissional. Ela
já tinha aquele gabarito da "Escola Oficial'� já formada, e, depois, ela era de
muita responsabilidade, de muita confiança, em todos os sentidos.
Foto nº 25
Rosa Maria Leone, natural do Rio de Janeiro, ingressou no Curso de Enfermagem da Escola Anna Nery em agosto de 1932, concluindo-o em 1935. Em 1941, assumiu a direção da EELM, cargo que ocupou até 1942.
Localização: Centro de Documentação da EEAN/UFRJ - Série Graduação, turma 1935 e Arquivo da FELM/SC.
O fato é que, desde sua criação em 5 de setembro de 1939 e até 21 de novembro de 1941, parece que a Escola Luiza de Marillac foi dirigida por uma enfermeira que não tinha o diploma reconhecido, ou seja, a Irmã Matilde Nina. Para poder garantir a equiparação da Escola, a ASVP tratou de
encontrar uma diplomada que aceitasse ser juridicamente a diretora mas que permitisse que a estrutura de comando interno da Escola se mantivesse como estava até aquele momento.
Corrobora essa análise a afirmação de Valderez ( depoente nº 6):
Rosa Maria Leone foi a primeira diretora
[legal] da Escola, antes da Irmã Matilde Nina,
porque o Conselho das Irmãs determinou isso. Rosa Maria Leone estava na Escola porque a lei determinou, mas na verdade, quem mandava mesmo [ desde o início da Escola], era a Irmã Matilde Nina; a outra só assinava os papéis.
De acordo com Bourdieu (1989, p. 101), é necessário organizar o campo social segundo a ordem estabelecida em determinado momento e, ao mesmo tempo, perpetuar o processo da história institucional. O fato que se revela até os dias de hoje, não apenas nos depoimentos colhidos durante a realização desta pesquisa, mas em conversas informais, é que a Irmã Matilde Nina foi a primeira diretora da EELM, ou seja, a representação contribui largamente para construir a realidade (Bourdieu, 1989, p. 1 O 1 ).
Vale comentar que Rosa Maria Leone era irmã da também enfermeira Mafalda Leone. Mafalda se diplomou na EEAN, em 1933, onde ficou trabalhando como professora. Em 27 de abril de 1935, foi enviada para realizar cuidados domiciliares, por um mês, na residência da família do Ministro da Educação Gustavo Capanema, cuidando de seu cunhado, Eurico de Alencastro Massot. Cinco anos mais tarde, em 31 de dezembro de 1940,
Mafalda Loene se casou com Eurico, tomando-se parente do referido Ministro.
Além disso, em depoimento, a enfermeira Haydée Guanais Dourado, diplomada na mesma turma que Rosa Maria Leone, revela que a mesma era filha de italianos, comprava coisas caras na confeitaria da esquina da Rua
Marquês de Abrantes (CD da EEAN/UFRJ).
A análise desses fatos nos permite constatar que Rosa Leone, além de possuir capital institucionalizado, trazia consigo capital cultural e social, que, na visão da ASVP, poderia futuramente se reverter em lucro simbólico, uma vez que a Escola, para ser equiparada, teria que passar pelo crivo do Ministro Capan�ma, para então ser reconhecida por decreto, assinado pelo presidente da República.
Em 9 de agosto de 1941, três meses antes de Rosa Leone assumir a