Em novembro de 1938, a revista A Semana publicou um texto de autoria de Tancredo Vasconcellos, chefe de polícia do Acre, considerado pela imprensa como um intelectual carioca, esteve em Belém em duas ocasiões, em 1926 e 1938. O texto do intelectual mencionou, em sua passagem inicial pela cidade, que as mulheres se destacavam por sua beleza vulgar, mas que, em decadência tinha na alma um “travo de amargor profundo”, desse onde deixavam impressa uma mágoa “incurável”, atormentando a alma e deformando o rosto. Com essas observações afirmou ainda que a cidade apresentava um aspecto “contristado e contristador”. As ruas mal calçadas, praças abandonadas. O movimento das ruas quase não existia, havia na opinião do observador uma descrença e desconsolo por toda a parte. Concluía a primeira observação enfatizando a “forma de civilização primitiva, rudimentar e preguiçosa. Belém enchia a alma de melancolia e de tristeza e não de entusiasmo e de encorajamento” (Belém. Dr. Tancredo Vasconcelos. A Semana. 05/11/1938).
A partir dos relatos do visitante verifica-se a apresentação de uma versão diferente sobre a Belém dos anos de 1920, pois apresentou um contraponto, as narrativas de viajantes que estiveram na capital do Pará, naqueles anos e que haviam registrado os seus aspectos de “grandiosidade” os quais eram considerados uma marca da cidade. Sendo assim, a cidade havia ingressado no seu largo “período de declínio e estagnação” (DEL PRIORE, 2017, p. 71) Na segunda passagem por Belém, o visitante viu “o progresso”. A cidade tornou- se sinônimo de esplendor e otimismo. A capital do Pará “enfeitiçava e encantava”. “Belém sorri e confia seu futuro”. A cidade agitava-se. Movia-se a passos largos em direção ao progresso, na opinião de Vasconcelos. As ruas, antes paradas, em dinamismo, estavam, agora, movimentadas, numa clara alusão ao movimento das grandes cidades. A elegância e “galanteria” faziam parte do cotidiano da cidade. Os estabelecimentos comerciais, segundo o viajante, eram importantes, honravam qualquer cidade grande, mesmo o Rio de Janeiro. O sistema de transporte era fácil e confortável, conduzia a multidão “satisfeita a arrabaldes alegres”. O Bosque era o lugar preferido para passeios encantadores e o Museu Goeldi considerado uma “joia, o mais perfeito da América do Sul”. Concluía, Vasconcelos, destacando dois pontos: a elegância e a inteligência,
Elegância. As suas filhas caminham com o passo ágil e o desembaraço natural das cariocas. A inteligência brilha lhes nos olhos e a alegria brinca lhes nos corações. A mulher de Belém é bem a mulher do Norte. São como as de Esparta. É bem conhecida a lenda daquelas espartanas, que, ao dar-lhe um mensageiro a notícia da guerra: “Morreram os teus filhos”, retrucou: “Miserável! Não te pergunto por isto, mas quem ganhou a batalha”. A inteligência e o patriotismo falam lhes no olhar audacioso.
Inteligência. Um núcleo de intelectos jovens se despetala, prometendo ao Brasil uma grandeza irretorquível e inegável. A Amazônia tem hoje a sua literatura, e esta tem a pujança e a grandeza do seu solo privilegiado. E nunca poderá descrer do seu destino um país que possui – uma Amazônia, e uma Amazônia que tem uma capital: Belém. Pois é, a semelhança daquelas portas centenárias e grandiosas por onde entravam outrora as riquezas que vinham de outras partes nas cidades antigas, pelos portões largos desta cidade maravilhosa, que penetra a riqueza que vem de paragens longínquas e por onde se escoa o sulco imortal de uma civilização imorredoura (VASCONCELLOS. Belém. A Semana. 05/11/1938).
Diversos elementos chamam atenção no texto acima, destacando entre outros uma região marcada pelo “progresso” de uma “civilização imorredoura”. Vasconcelos mostra um conjunto de itens capazes de dar conta dessa ideia de “modernidade” vivida na cidade de Belém. Para tanto faz um comparativo entre as grandezas dos homens e mulheres habitantes
da capital do Pará. Primeiro, ressaltando o seu patriotismo presente no “olhar audacioso”, e segundo, lembrando o grupo de intelectuais jovens capazes de tornar pelas suas letras uma “civilização imorredoura”. Vale ressaltar, esse tipo de análise se coadunava com o pensamento estabelecido pelo regime político vivido no Brasil. O governo de Getúlio Vargas havia implementado o Estado Novo e com ele um conjunto de medidas que pudessem estruturar as bases do governo, mantendo constantemente a figura do político marcada pela harmonia com o povo. Isto posto, as revistas e jornais, por exemplo, deveriam estar registrados junto ao DIP para que levasse adiante valores nacionalistas (FAUSTO, 2015; FAORO, 2012).
No entanto, quando voltamos as análises para a revista A Semana, em especial, para os anos de 1920, nos deparamos com diversas imagens que dão conta de uma cidade que se queria “moderna”. Por seu turno, apresentava-se com diversos problemas de ordem urbana, como a carência de saneamento, falta de abastecimento de água, transporte público precário e certo abandono das áreas periféricas. Vale destacar, entre os anos de 1919 e 1924, o semanário publicou uma série intitulada “Belém Moderna”, na qual exibia em fotografias os elementos arquitetônicos considerados importantes para a representação da grandeza da cidade.53 Com base na documentação pesquisada, aproximadamente 25 imagens foram publicadas, sendo incluídas basicamente em pelo menos um exemplar mensal da revista, o que contribuiu para a criar/reforçar uma espécie de identidade local.
O Bosque tornou-se um dos principais pontos de exibição dessa identidade local, porque a população belenense se dirigia em bondes ou em transportes particulares para passar o domingo em família. Já os solteiros buscavam nos recantos do Bosque a possibilidade de encontros amorosos. Vale lembrar, este espaço ficava distante da área central da cidade, pois localizava-se no distante “Marco de Légua” e chegar até lá custava um determinado valor, não disponível a muitos. Restando assim como um lugar de diversão e encontros da elite belenense.
53 Apesar de Andrelino Cotta ter se dedicado a construir elementos que, de certo modo, confrontassem os valores
de modernidade visualizados no cotidiano da cidade de Belém. Em relação a arquitetura não o vemos tão ativo assim. Sobre as representações da arquitetura e do urbanismo como uma crítica satírica à modernidade, ver: NERI, Gabriele. Caricature architettoniche satira e critica del progetto moderno. Macerata: Quodlibet, 2015.
Figura 35. Belém Moderna. A Semana: revista ilustrada. Belém, 29 de novembro de 1919. Ano 2, nº 88.
As fotografias retratavam as ruas, praças, teatros, hotéis e docas, além dos palácios do governo e da intendência municipal. Contudo, em quase todas as imagens chama atenção a sua composição, com pessoas bem vestidas, ou mesmo com a presença de elementos considerados “modernos”, como os globos de iluminação, a fiação elétrica por onde os bondes deslizavam e, até mesmo as arborizações plantadas na cidade para amenizar o calor dos trópicos.
Na figura acima ficou evidente o quanto esses elementos foram considerados importantes, não apenas por apresentar-se enquanto símbolo de uma cidade grandiosa, mas sobretudo, por sua vinculação a uma identidade regional. Nessa linha, os textos que, geralmente acompanhavam as imagens, procuravam reproduzir e/ou mesmo concentrar uma relação entre a arquitetura e os proprietários dos imóveis ou firmas, assim como relacioná-los com importância para a cidade. Neste caso, a revista apresentou os elementos que marcaram a grandeza da capital do Pará, apresentando as fachadas dos prédios em suas páginas, como a do Grande Hotel, estampado com o objetivo de, “dá motivo a que o nosso sentimento de
cívico entusiasmo exalte um estabelecimento que, por modelar, tanto concorre para o embelezamento e civilização da nossa cidade”.
Figura 36. Belém Moderna. A Semana: revista ilustrada. Belém, 12 de abril de 1924. Ano 7, nº 312.
A Semana comemorava o seu natalício no dia 23 de março. E, na edição especial
de comemoração ao 6º aniversário, publicada, no dia 22 de março de 1924, por algum motivo, houve a troca das fachadas, e os clichés reproduzidos não eram do Grande Hotel,54 apresentou um estilo diferente, por essa razão levaria “nossa Belém para um atraso que nos envergonharia...”; neste sentido, o semanário, buscou corrigir o equívoco, publicou a fotografia acima, pois, segundo os editores, para quem o conhecia, sabia o “elegante estabelecimento” ganharia destaque maior, na medida em que apresentou, A Semana, a
54 Na documentação disponibilizada na seção de obras raras da Biblioteca Pública Arthur Viana, essa edição não
existe no acervo, de modo que não podemos realizar as análises relativas ao estilo de prédio que foi apresentado pelos editores do semanário.
fachada como de “fato ele é”. Deste modo, a figura da página anterior apresentou “o clichê que tão bem desenha a beleza arquitetural do prédio”.
Por essa razão, o edifício foi considerado pelos proprietários do magazine como de “valor dos empreendimentos grandes de nossa terra”. Sendo assim, o Grande Hotel era “desses que honram o Pará, produto da brilhante e honesta atividade dos Srs. Teixeira Martins & C.ª.” (Belém Moderna. A Semana. 12/04/1924). Diversos questionamentos podem ser realizados em relação a esse tipo de publicação. Primeiro: O que levou os proprietários do magazine a justificarem tal equívoco quanto à troca de fotografias? Segundo: Qual a necessidade de se estampar nas páginas da revista essa imagem e reforçar os nomes dos proprietários?
O objetivo desse tipo de publicação visava assegurar uma espécie de patrocínio ao desenvolvimento das atividades desempenhadas pela revista. Ao mesmo tempo, dava ao empreendimento o espaço privilegiado nas páginas do semanário de maior duração da história de Belém e do Pará. Já o nome dos proprietários do Grande Hotel ganhava notoriedade pelo desenvolvimento produzido para a cidade, reforçando a ideia de um regionalismo. Essa representação correlacionava-se com a palavra “civilização”, enquanto um elemento relevante, pois passou a ser considerada uma constante nas publicações desses magazines.
Havia entre os integrantes das revistas uma necessidade de mostrarem-se ativos no desenvolvimento das atividades socioeconômicas e políticas vividas na cidade. Assim, alguns aspectos marcantes na vida de Andrelino Cotta, se mostram na revista A Semana. Para se ter ideia, nas comemorações do 12º aniversário do magazine foi publicado um número especial no qual os diversos funcionários e ex-funcionários escreveram crônicas, poesias entre outros textos, com o objetivo de homenagear o semanário. No entanto, um aspecto chamou atenção, justamente na edição, de 23 de março de 1931, o caricaturista Cotta apareceu na condição de redator artístico da revista.
Com o título de “Os que fazem A Semana”, os integrantes da revista apareceram, em página inteira, fotografados com as suas respectivas atribuições. Embora a predileção fosse estampar os nomes, em alguns momentos, a fotografia dos rostos dos participantes ganhou um espaço maior. Houve uma mudança de postura do próprio semanário. Com a mudança de funções, Andrelino Cotta passou da condição de caricaturista a redator artístico. E isso impactou os rumos artísticos desse pintor, pois, a partir da década de 1930, Cotta participou, de maneira ativa, das exposições oficiais de arte, organizadas entre outros, pelo
governo do estado. Além disso, A Semana passou a contar com outros caricaturistas, os quais foram responsáveis pelas imagens que estamparam o número de aniversário.
Edgar Proença,55 que assumiu o comando da revista após o falecimento de Alcides Santos, na mesma edição, publicou texto intitulado “Quanto custa fazer a A Semana”
mostrando a revista enquanto resultado de esforço incalculável. Era um semanário, publicado
todos os sábados, “há doze anos”, circulava pela cidade como uma “trebelhante falena a derramar a carícia sensual de seu beijo sobre as flores mimosas dos jardins”. Proença desconstruía essa representação ao destacar: “Tudo isto é, efetivamente, uma doce imaginação de poesia”. Fazer A Semana, entretanto, é “abordoar-nos a um trabalho exaustivo”, fazendo “a gente sentir os primeiros toques de uma velhice que vem render, como nas guaritas os soldados entre si” (Quanto custa fazer a “A SEMANA”. A Semana. 23/03/1931).
Os novos colaboradores traziam consigo energia inconsciente e boêmia e ganhavam espaço no magazine. Contudo, lembravam da produção como algo de custo alto, assim era preciso uma dedicação intensa, pois construir uma imagem positiva do magazine deveria ser constante, pois tratava-se de uma moldura de “elegância e sensação da vida da cidade”. Para pôr em circulação semanalmente, precisava de dinheiro, o que muitas vezes faltava, esse modelo fazia parte da lógica que não falhava. O ambiente de produção era tão intenso, que chegou a conceituar o dinheiro como um “fidalgo que humilhava a gente e azedava a lama de certos tipos sem consciência e sem moral”. Deste modo, o capital era uma “avis-rara”. O gerente financeiro “Osmarino Pingarilho, quando aos sábados” rezava o evangelho “Meus senhores! Economia. Sigam o exemplo do nosso diretor Edgar Proença, que não mete vales” (Quanto custa fazer a “A SEMANA”. A Semana. 23/03/1931).
Bruno de Menezes,56 todo dia, segundo Proença, tinha um compromisso, por essa razão “metia um vale”. Já o “Zé Simões” estava em débito com a lavadeira, segundo
55 Considerado por muitos historiadores como um “Decano dos jornalistas paraenses”. Foi fundador e um dos
proprietários da PRC-5, Radio Clube do Pará. Segundo Carlos Rocque, Proença iniciou sua carreira de jornalista como repórter marítimo do jornal Folha do Norte. Considerado como eclético na sua profissão, pois fez o jornalismo político, o esportivo, o policial e o social. Teve uma forte atuação nos magazines de Belém, principalmente a frente da revista A Semana, onde assinava com o pseudônimo de “Miracy”. (ROCQUE, 1968, p. 1416-1417.).
56 Bento Bruno de Menezes Costa (Belém PA, 1893 - Manaus AM, 1963). Publica, em 1920, seu primeiro livro
de poesia, Crucifixo, na época, membro da Academia dos Poetas Paraenses. Em 1923 funda a revista literária Belém Nova, responsável pela divulgação da poesia modernista após a década de 20. Publica, no ano seguinte, Bailado Lunar; seguiram-se Poesia (1931), Batuque (1939), Lua Sonâmbula (1953), Poema para Fortaleza (1957) e Onze Sonetos (1960). Nos anos seguintes escreve peças teatrais juninas para o grupo Pirapema e, em 1950, publica a novela Maria. Em 1954 torna-se membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e da
afirmava. E mal terminava o seu discurso, “Pingarilho” era interrompido. “Seu Pinga, falta papel para a capa. Os rolos da máquina estão em petição de miséria”. Os dias na redação eram intensos. Todos os colaboradores apareciam, vez ou outra cobrando pelos trabalhos. O gravador “Armando Mendonça” comunicava a chegada de Dona “Fleugma”, queria receber “os cobres dos clichês” (Quanto custa fazer a “A SEMANA”. A Semana. 23/03/1931). Ainda, segundo Proença, o gravador era um herói entre os funcionários da A Semana, pois, responsável por uma série de tarefas e as fazia sem reclamar.
Bebia-se um café, “sordidamente requentado, fabricado numa tasca, havendo distúrbio entre o dr. Paulo Oliveira e Andrelino Cotta para sorverem a primeira golada”. Outro aspecto curioso, ocorrido na redação da revista, ficava por conta do telefone, tocava “mais do que o da polícia”, segundo Proença. E o mais procurado era “Miracy”, o responsável pelas notícias gerais, relacionadas, principalmente, aos namoros dos outros, pois tomava conhecimento de “mil e um flertes da terra. A série de narrações telefônicas é infindável” (Quanto custa fazer a “A SEMANA”. A Semana. 23/03/1931). Mas, as angústias da produção de uma revista iam além, posto que as dificuldades se mostravam ainda quando chegavam nas mãos dos leitores.
Desde segunda feira a sábado, aqui dentro é uma colmeia de trabalho honesto e fecundo. Aos sábados o produto de nosso esforço é atirado ao sabor dos comentários de mil espécies. Há os, felizmente na sua maioria, lisonjeiros e amigos. Mas há outros...
- Proença, desculpe a franqueza; mas A SEMANA está abaixo da crítica. Não vale um tostão. Os clichês estão que é uma borradela; o papel é vagabundo, os “gravetos” sem espíritos; enfim, podes limpar as mãos à parede com o teu pasquim.
Que assim, armado do fueiro de sua estupidez, algumas feitas me acutilam, tem acabado de ler, por empréstimo o número passado da revista. É por isso que a nossa abnegação se entibia, muitas vezes. Não temos auxílio oficial e
Comissão Paraense de Folclore e lança o romance Candunga, com o qual ganha o Prêmio Estado do Pará. É presidente da Academia Paraense de Letras entre 1956 e 1957. Publica diversos livros sobre folclore, em 1958 e 1959, entre os quais Boi Bumbá, Auto Popular. Bruno de Menezes pertence à segunda geração do modernismo brasileiro. Segundo o crítico Dante Costa, ele realizou em sua obra uma transposição “das vivências do negro no Brasil, do fato folclórico, da realidade que não interessa apenas ao crítico literário, mas também e principalmente ao sociólogo, ao estudioso dos hábitos e costumes, ao etnógrafo do negro brasileiro”. Informações disponíveis em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa4889/bruno-de-menezes, acesso em 23/03/2018. Sobre Bruno de Menezes e sua presença na literatura da Amazônia dos anos 20, ver: FIGUEIREDO, Aldrin Moura de. O dançarino da lua: a arte e o mundo de Bruno de Menezes nos anos 20. In: Élide Rugai Bastos; Renan Freitas Pinto. (Org.). Vozes da Amazônia III. 1ed.Manaus: EDUA, 2016, v. 1, p. 237-271. Sobre as relações entre literatura, política e vanguarda em Bruno de Menezes, ver: FIGUEIREDO, Aldrin Moura de. Arte, literatura e revolução: Bruno de Menezes, anarquista, 1913-1923. In: Edilza Joana de Oliveira Fontes; José Maia Bezerra Neto. (Org.). Diálogos entre história, literatura & memória. Belém: Paka-Tatu, 2007, p. 293-307.
vivemos com dificuldades. A A SEMANA tem um número de leitores efetivos, que são nossos desinteressados amigos. Esses são vítimas dos filantes, que formam uma legião imensa. (Quanto custa fazer a “A SEMANA”. A Semana. 23/03/1931).
Para termos ideia das críticas realizadas por Proença, um exemplar do magazine passava por dezenas de mãos, por empréstimo, o que para ele era algo “Incrível”. Bastos Portella, o redator de “Fon-Fon”, conhecia bem o que era a “feitura de uma revista”. Em sua crônica, “cheia de bondade para comigo”, escreveu no “Fon-Fon” do Rio de Janeiro:
Dar ao público uma revista, é trabalhoso, pela preocupação a que obriga os seus dirigentes, preocupação de ordem comercial e administrativa; mortificante, pelo insano labor literário que consiste na organização técnica da revista; delicado, pelo tino diplomático, pela ética, pelo espirito de justiça e critério que reclama, na seleção dos valores. Os valores que vão concorrer para o êxito e prestígio da publicação. (Quanto custa fazer a “A SEMANA”. A Semana. 23/03/1931).
Sobretudo, essa última parte é uma das mais difíceis para o diretor de um semanário. Enfrentava “ingratidões e aborrecimentos”. Bastava notar que o jornalista, o redator de revista, segundo Proença, é um sujeito que “vive a servir de escada, para todos, sem que, na maioria dos casos, o seu nome apareça” (Quanto custa fazer a “A SEMANA”. A
Semana. 23/03/1931). A revista servia de painel expositor para homens e mulheres na busca
de possibilidades de ver seu nome avaliado pela opinião pública e dos leitores do magazine. Não à toa, certo “almofadinha”, pediu a publicação de sua fotografia nas páginas do semanário, e no sábado, perguntou pelo telefone:
- A A SEMANA já saiu? - Sim, senhor.
- Não sabe me informar se traz o meu retrato, que eu dei para publicar? - Não sei. Por que?
- Porque se eu tivesse a certeza, iria comprar um número... (Quanto custa fazer a “A SEMANA”. A Semana. 23/03/1931).
Havia um público certo o qual adquiria o magazine, mas a maior parte era como o “almofadinha” que “são as centenas”. Contudo, A Semana, “há de continuar a vencer, dê por paus ou por pedras” (Quanto custa fazer a “A SEMANA”. A Semana. 23/03/1931). Bastava, para orgulho e consolo, o conceito adquirido na alta sociedade paraense e na opinião pública do estado. Proença prometia enfrentar todos os revezes, resistir e não recuar, por maior que
fosse os obstáculos. Em seu 12º aniversario ficou evidente a importância da revista para a história de Belém e do Pará, bem como dos seus proprietários e colaboradores.
Neste contexto, Andrelino Cotta mostrava-se cada vez mais atuante na estrutura do semanário. O ano de 1935, trouxe uma série de artigos publicados na A Semana de autoria de Cotta. Com o título de “Considerações sobre artes decorativas”, o diretor artístico apresentava seu entendimento sobre a questão das artes e sua relação com a indústria. A partir desse ponto, tem-se um autor apresentando os elementos capazes de interagir com as artes plásticas e o mundo industrial. Embora as fontes encontradas na seção de obras raras do CENTUR, sejam essenciais na construção deste trabalho, os números da revista disponíveis apresentam muitas lacunas.57
Antes de adentramos na análise dos textos produzidos por Cotta, em 21 de novembro de 1931, A Semana, publicou uma nota sobre o aniversário do pintor com a denominação “Um de casa que faz anos”, destacando haver datas que tocavam de perto “o coração d’A Semana”, e no dia 30, “que se passou”, foi uma delas, por assinalar o natalício