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ANALYSE DE L’EXISTANT ET DES MOYENS DISPONIBLES

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CHAPITRE II: RAPPORT D’ANALYSE

II. ANALYSE DE L’EXISTANT ET DES MOYENS DISPONIBLES

Compreender as práticas musicais e o ensino/aprendizagem no dia a dia dos músicos da Banda passa pelo entendimento de como as relações estabelecidas entre eles possibilitam, a partir das situações que eles vivem e no local em que vivem, um ambiente onde as experiências são importantes para aquisição e compartilhamento de conhecimentos musicais. Para gostar de estar na Banda é também preciso que o indivíduo se reconheça como parte daquele grupo, que também aceite que é necessário o compartilhamento de atributos, fator essencial para a formação da identidade musical da Banda. Para Green (2011), as identidades musicais são formadas “a partir de uma combinação de gostos musicais, valores, habilidades e conhecimentos; e das práticas musicais em que um indivíduo ou grupo se envolve, incluindo não só as práticas de produção, tais como tocar um instrumento” (GREEN, 2011, p. 12, tradução minha)101.

Entender o porquê de essas pessoas quererem ficar juntas e como elas se relacionam entre si pode ser uma das formas de compreender como se dá o processo de ensino/aprendizagem nos grupos sociais. Como afirma Souza (2004),

a compreensão das práticas sociais dos alunos [nesse caso, músicos da Banda] e suas interações com a cidade, o lugar como espaço do viver, habitar, do uso, do consumo e do lazer, enquanto situações vividas, são importantes referências para analisar como vivenciam, experimentam e assimilam a música e a compreendem de algum modo. Pois é no lugar, em sua simultaneidade e multiplicidade de espaços sociais e culturais, que estabelecem práticas sociais e elaboram suas representações, tecem sua identidade como sujeitos socioculturais nas diferentes condições de ser social, para a qual a música em muito contribui (SOUZA, 2004, p. 10).

101 No original: “are forged from a combination of musical tastes, values, skills and knowledge; and

from the musical practices in which an individual or group engages, including not only production practices such as playing an instrument”.

Conforme dito anteriormente, percebe-se que existem diversos objetivos entre os participantes da Banda e, independentemente do que buscam neste grupo, é comum eles gostarem de estar juntos. Se o iniciante na Banda quer ser profissional ou quer tocar um instrumento porque gosta de música, ou mesmo porque elegeu a Banda como uma opção para passar o seu tempo de lazer, quaisquer que sejam os objetivos que ele tem para participar da Banda, estar neste espaço é o ponto de intercessão para essas pessoas.

Então, independentemente do motivo pelo qual o músico vai à Banda, o que não se pode negar é a vontade que eles têm de ficar juntos. Como disse um dos colaboradores, “o instrumento não fazia diferença. O importante era ser da Banda” (Paulo, Caderno de entrevistas, 07/06/2015, p. 141).

Pode-se dizer que a partir de afirmações desse tipo, o encontro de pessoas que têm afinidades é um dos acontecimentos mais significativos para manter a instituição Banda. Por exemplo, os músicos iam para a Banda a princípio para tocar, mas ao se envolverem com o que acontecia neste espaço, com o dia a dia dos músicos, os interesses voltavam-se também para outros aspectos relacionados ao grupo. Vinícius diz que:

No começo mesmo era tipo assim... Que eu via meu irmão tocando sax [...] eu ficava admirado de ver ele tocando, e eu queria tocar igualzinho ele, só que daí, depois daquele tempo que eu via, que eu já estava assim naquele estágio que ele estava, aí o que mais me interessava já era a comunhão que eu tinha com os meninos na época, que estava ali todos os dias. A gente estava em todos os ensaios, marcava a tarde pra gente ir lá ensaiar, a gente ia! Aí a gente foi tomando mais gosto pelas coisas, também tinha as viagens, que a gente viajava muito na época...! (Vinícius, Caderno de entrevistas, 05/03/2015, p. 28-29).

Vê-se que é comum entre os músicos/amigos a perspectiva de irem à Banda para estarem juntos. Consideravam que não fazia diferença se alguém tocava bem ou se tocava mal, o importante era “o grupo, as pessoas [...] isso era muito gostoso na Banda” (Cássia, Caderno de entrevistas, 07/05/2015, p. 81).

A opção dos integrantes da Banda de estarem juntos deixava também em evidência a busca deles por distrações, momentos de lazer, por um viver melhor. Para Juliano, estar junto na Banda era como fazer parte de “um clube”, de um espaço em que somente certas “pessoas seletas” podiam ocupar.

Pra mim era uma coisa gostosa, um encontro de colegas, de amigos, era um momento de entretenimento mesmo. Ou seja, ao invés de eu ir pra um campo jogar futebol, eu vinha pra Banda. Ao invés de eu ir pro clube nadar, ir pra uma sauna, eu vinha pra Banda. Eu tinha tudo aqui (Juliano, Caderno de entrevistas, 10/07/2015, p. 186).

No entanto, notou-se que, para alguns entrevistados, “tocar na Banda” não era só uma das formas de fazer parte de um grupo ou de tocar um instrumento, mas uma opção de lugar para onde ir. Quando conversei com Poliana sobre suas razões para ir à Banda, ela disse:

Poliana: [Como foi ir na] Banda? Sem a menor aptidão! Assim... eu fazia porque meus colegas faziam. [...]

Murilo: Porque você gostava de fazer parte da Banda?

Poliana: Eu gostava de viajar! Viajar... [pensa um pouco com a mão no queixo] Ah! De tocar... (Poliana, Caderno de entrevistas, 17/07/2015, p. 239).

Essas menções indicam que, para alguns, tocar na Banda não era só “fazer música” e que existiam outras motivações para o músico frequentar aquele grupo. Ou seja, o grupo poderia ser pensado como um espaço de interação e compartilhamento, no qual o sujeito poderia se relacionar com pessoas que tivessem interesses semelhantes. Na entrevista de Edwilson, quando pergunto sobre “o que mais faz o pessoal da Banda estar junto”, ele responde:

Cara, eu acho que amizade é o que mais faz hoje... a Banda [entrelaça os dedos da mão]... e também gostar das músicas, mas amizade é uma coisa bem forte, tem uma turma ali que... [faz, com as mãos, gesto de segurar] (Edwilson, Caderno de entrevistas, 18/07/2015, p. 277).

Percebe-se que existiam relações fortes de amizade dentro da Banda, tanto que, como dito, alguns consideravam estar em família, e é exatamente o que se confirma, pois, mesmo quanto existe algum conflito em relação ao que seria tocado ou à escolha de uma música, é notório que mesmo que algum músico não gostasse da música, ele a tocaria, pois sabia que algum de seus amigos gostava.

O gostar das “músicas de banda” e as explicações sobre este gosto fazem com que a música seja, entre esses músicos, uma das formas de se ligarem, de se reconhecerem uns nos outros. Na Banda, aprender uma obra musical significava também é tocar com o outro, interagir com a pessoa que faz a segunda voz, tocar e ser parte do grupo.

É importante dizer que a associação a essa Banda, que não remunera seus músicos, é feita de forma voluntária. Para Honczyk (2012), que discute o associativismo, o engajamento de forma voluntária, essas pessoas necessitam de outras motivações para estarem lá, que podem ser:

o desejo de ser útil aos outros e à sociedade; necessidade de fazer junto e de fazer para si; necessidade de encontros e trocas, de ser ou de permanecer ativo, de aprender para si e eventualmente ensinar a outros. Caracterizam-se assim pela busca de um engajamento, de responsabilidades cidadãs, de projetos coletivos, de uma solidariedade, de um envolvimento na vida local e de uma prática de ações solidárias (HONCZYK, 2012, p. 271).

Essas motivações, muitas vezes, estão fora da linguagem musical em si, porque a música para esse músico da Banda não é “somente música”. Souza (2004) ressalta que a música deve ser considerada “uma comunicação sensorial, simbólica e afetiva, e, portanto social, geralmente desencadeia a convicção de que nossos alunos podem expor, assumir suas experiências musicais e que nós podemos dialogar sobre elas” (SOUZA, 2004, p. 9).

A partir dessas reflexões, reitera-se a afirmação de que alguns dos participantes tocavam na Banda para estarem juntos. Mesmo que outras pessoas externas ao grupo atribuíssem aos integrantes da Banda um papel de destaque, alguns dos integrantes tocavam sem pensar, necessariamente, no seu reconhecimento. Vinícius diz que “não tocava pra aparecer, e sim para estar junto das pessoas” (Vinícius, Caderno de Entrevistas, 05/03/2015, p. 45). E ainda, na mesma perspectiva, Paulo (Paulo, Caderno de entrevistas, 07/06/2015, p. 137) “gostava de tocar no meio do povo por causa dos amigos”, da mãe, do pai e da avó que iam vê-lo ver tocar. Ele diz que gostava e que “sentia orgulho disso”.

Portanto, estar na Banda não era apenas tocar um instrumento, mas também estar junto de pessoas das quais se gostava, que tinham gostos parecidos e que aceitavam se unir em prol de um bem maior, a Banda.

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