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A partir do número de participantes das oficinas, iniciou-se o processo de delimitação dos entrevistados do grupo familiar. Em- bora a descrição dos recursos metodológicos utilizados na pesquisa como a entrevista, por exemplo, esteja explicitada mais à frente nes- te capítulo, optou-se por antecipar a caracterização dos participan- tes dessa proposta metodológica ainda neste tópico, para dar conti- nuidade à descrição dos sujeitos da pesquisa.

O processo de delineamento das famílias entrevistadas partiu da análise das situações de privação que vivenciam com base no Questio- nário Socioeconômico, como também da frequência de participação nas oficinas e, por último, o fator mais decisivo que contribuiu para a es- colha: as histórias de vida permeadas por uma série de privações con- tadas de maneira emocionada pelos representantes familiares durante as oficinas. Além do mais, a definição deste último fator amparou-se na perspectiva de Vygotsky (2001), ao defender que os processos psíqui- cos formam-se a partir de relações de interdependência entre aspectos sociais, cognitivos e afetivos. É dessa visão dos processos psíquicos que advém a noção de que o impacto emocional oriundo de suas vivên- cias (de privação) interfere nas condutas humanas trazendo à discussão a forma como lidam com seu sofrimento. Dessa maneira, as experiên- cias de privação narradas pelas famílias e a observação do modo como são afetadas por essas circunstâncias foram fatores decisivos para a seleção dessas famílias. Assim, têm-se a caracterização das famílias:

Família de Maria – Maria, 60 anos, viúva, participou de três oficinas. Foi criada pela madrasta e pelo seu pai. Não sabe ler nem escrever, porque seu pai achava que era mais importante trabalhar que estudar. Conforme suas palavras “ainda tô do jeito bem dizer que nasci sem saber ler nada” (OF2). Vivenciou situação de extrema pobreza sendo necessário pedir ajuda a estranhos para poder ali- mentar a sua filha quando bebê. Atualmente, ela e sua família encon- tram-se em situação de pobreza multidimensional no que se refere aos indicadores: anos de estudo, má nutrição, acesso a saneamento adequado e combustível para cozinhar; a família utiliza lenha quan- do não tem dinheiro para comprar o gás de cozinha. Sua família é composta por dois filhos homens, um com vinte e outro com vinte

e três anos, e por uma filha de trinta e cinco anos, recém divorcia- da. Ela reside em uma casa cedida, apenas com seus dois filhos e sobrevivem com a renda do Programa Bolsa Família e de um salário mínimo do seu filho mais novo, este utiliza o dinheiro mais para seu próprio usufruto. Na ocasião da entrevista estavam presentes ela e seu filho Igor, vítima de violência urbana, que afirmou não estar tra- balhando em razão de uma doença crônica. Os discursos referentes à entrevista dessa família serão retratados como E1 seguido pelo nome fictício de cada interlocutor.

Família de Selma – Selma, 37 anos, viúva, participou de duas oficinas. Precisou deixar de estudar para cuidar dos irmãos mais no- vos e quando cresceu e casou, seu marido não a deixava estudar para que ela cuidasse exclusivamente dos seus filhos. Atualmente, sua família encontra-se em risco de pobreza multidimensional nos indicadores anos de estudo e acesso a saneamento básico adequado. Sua família consiste em três filhos homens com 18, 19 e 21 anos e de uma filha com 15 anos, estudante. O primeiro filho está desempre- gado, o segundo é cadeirante devido à sequela de ferimento à bala e o terceiro é diagnosticado com depressão e esquizofrenia desen- volvida após o assassinato do seu pai. A renda familiar consiste em dois salários mínimos derivados de dois BPCs para pessoas com de- ficiência referentes ao segundo e ao terceiro filho. No entanto, Selma informou que seu filho cadeirante não compartilha sua renda com o resto da família, ficando as despesas da casa a cargo de um salário mínimo. Reside com seus filhos em uma casa cedida localizada pró- ximo ao CRAS, em uma comunidade considerada violenta. Por isso foi necessário solicitar a Selma para buscar a pesquisadora no CRAS para que ela pudesse adentrar a comunidade em que vive a entrevis- tada. Na ocasião da entrevista, estavam na residência além dela, seu filho Caio de 18 anos e seu outro filho de 21 anos, contudo, apenas participou da entrevista ela e Caio, pois afirmou que seu outro filho não tinha condições de responder as perguntas. Os discursos refe- rentes à entrevista dessa família serão retratados como E2 seguido pelo nome fictício de cada interlocutor.

Família de Roberta – Roberta, 46 anos, solteira, participou de quatro oficinas. Na sua infância, passou por situação de extrema po- breza, em que a alimentação se resumia apenas a café com farinha,

por isso houve a necessidade de trabalhar ainda na sua infância. Para sanar a fome de seus filhos batia de porta em porta nas ruas atrás de alguma atividade (faxina, lavar roupa) para conseguir comprar comi- da. Atualmente, sua família encontra-se em risco de pobreza multidi- mensional no que se refere aos indicadores anos de estudo e acesso a saneamento básico adequado. Roberta reside em uma casa cedida com seus dois filhos, Aline de 20 anos e José de 23 anos. A renda da família provém do Programa Bolsa Família, do trabalho autônomo de Aline, como professora particular de crianças, e do trabalho de José, como vendedor de peixe. Na entrevista, não foi informado o valor to- tal da renda familiar, porém o Questionário Socioeconômico respon- dido por Roberta aponta o valor de até R$394,00 de renda familiar. Na ocasião da entrevista, estavam presentes na residência Roberta e seus filhos e a namorada de José, contudo esta última se absteve de participar. Os discursos referentes à entrevista dessa família serão retratados como E3 seguido pelo nome fictício de cada interlocutor.

Família de Rosa – Rosa, 29 anos, solteira, participou de três oficinas. Vivenciou o abandono de seus pais na infância tendo sido criada pela avó. Na sua juventude, se envolveu com tráfico de dro- gas e interrompeu seus estudos na 5ª série do Ensino Fundamental, retomando seus estudos quando adulta. Em decorrência desse crime, hoje cumpre medida socioeducativa de Prestação de Serviço à Comu- nidade no próprio CRAS, trabalhando de segunda a sexta durante o dia sem remuneração. Atualmente, a família se encontra em situação de privação de renda e de acesso a saneamento básico adequado. A única renda da família provém do Programa Bolsa Família. A família reside em casa alugada, cujo aluguel é pago com o recurso do Progra- ma de Locação Social8 da Prefeitura de Fortaleza. Residem na casa,

Rosa e seus três filhos, João de treze anos, Rodrigo de dez anos e o mais novo com seis anos. O pai de Rodrigo faleceu e ele passou a morar com a avó paterna devido à falta de recursos financeiros de Rosa para suprir a necessidade do seu filho, apenas recentemente

8 O Programa de Locação Social da Prefeitura de Fortaleza “é um mecanismo destinado a prover

abrigamento provisório para famílias em situação de vulnerabilidade social, sejam aquelas afe- tadas por desastres de caráter natural como chuvas ou humano, por incêndios e explosões, entre outras” (PREFEITURA DE FORTALEZA, 2014). O valor do aluguel social é de R$ 420,00 e por ser uma medida provisória, a família pode ser beneficiada somente durante 24 meses.

Rodrigo voltou a morar com a mãe, porque a avó também passou a enfrentar dificuldades financeiras. Participaram da entrevista, Rosa, João e Rodrigo. Os discursos referentes à entrevista dessa família serão retratados como E4 seguido pelo nome fictício de cada compo- nente familiar.

A partir dos dados descritos acima, tem-se de forma resumida na tabela abaixo a caracterização das famílias somente com os com- ponentes entrevistados:

Tabela 5 – Perfil dos entrevistados definindo a família, nome dos componentes familiares, sexo e idade

Família Componente Sexo Idade

Família de Maria Maria Feminino 60 anos

Igor Masculino 23 anos

Família de Selma

Selma Feminino 37 anos

Caio Masculino 18 anos

Família de Roberta

Roberta Feminino 46 anos

Aline Feminino 20 anos

José Masculino 23 anos

Família de Rosa

Rosa Feminino 29 anos

Rodrigo Masculino 10 anos

João Masculino 13 anos

Fonte: elaborado pela autora.

Para as entrevistas, a pesquisadora procurou se adequar às datas disponibilizadas pelas famílias, e nos horários em que estives- sem presentes o maior número de componentes. O contato com as famílias para agendar a entrevista ocorreu por meio do telefone, cujo número foi concedido pela equipe técnica do CRAS, mas não antes de as famílias terem sido advertidas durante as oficinas desse possível contato. Cabe salientar que a entrevista com a família de Maria ocor- reu no dia 29/01/2016 e com as famílias de Selma, Roberta e Rosa no dia 03/02/2016.