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CHAPITRE III : MATERIELS ET METHODES

3.7. Rappels théoriques

As manifestações da ordem dos arcanjos (ἀρκαγγέλων) são especialmente semelhantes às dos deuses, que apesar de próximo deles não são idênticos (II.3.72,3-4). As súbitas diferenças quando dos seus aparecimentos refletem seus papéis distintos. Assim como os deuses, tanto os arcanjos como os anjos exibem um brilho extraordinário e supernatural (ὑπερφυους, II.4.77,8-10).

a) Em termos de claridade e perfeição, os φάσματα dos arcanjos quase se emparelham aos dos deuses, sendo tais aparições perfeitas e verdadeiras (II.3.71,2-3;72,2-3;4.77,2-4), no entanto, mesmo sendo imensamente belas não chegam a ser exatamente tão maravilhosas como as dos deuses (II.3.73,8-11);

b) Enquanto a perfeita ordem e tranquilidade são naturalmente pertencentes aos deuses, nos arcanjos a ordem e tranquilidade têm neles uma qualidade ativa (δραστήριων, II.3.72.10-11).

c) Os φάσματα arcangélicos são descritos como sendo solenes como o fim do dia (βλοσυρὰ ἅμα καὶ ἥμερα), mais suaves (πραότερα) do que os dos anjos (ἀγγέλους), (II.3.71,8- 9), que são menos uniformes embora permaneçam constantes (ἀμετάβλητα) e não variem como a dos daímones (II.3.72,4-5;71,2-3), e nem a sua cognição é tão perfeita quanto a dos deuses ou dos arcanjos (II.4.77,2-4).

d) As imagens angélicas admitem algum movimento (II.3.72,11-13;II.4.74,13-14), mas este movimento é fixo (μόνιμος) e estável (II.II.4.79,1-2). A luz ou chama dos anjos é difusa – exceto na sua forma mais perfeita – (De Myst. II.4.78,5-6; 75,14-76,1), fato que reflete uma importante atribuição dada aos anjos, é dito que eles têm a tarefa de difundir ou distribuir a beleza transmitida pelos arcanjos (III.73,10-11). A luz ou chama dos arcanjos não é difusa, mas eles podem ser vistos com uma grande chama ao seu redor (II.4.78,3-5).

É interessante notar que tanto os anjos como os arcanjos admitem certa alteridade, o que não acontece no caso das manifestações dos deuses; o brilho dos arcanjos parece fundar- se em outra coisa, e o dos anjos com certeza o é, no entanto as suas luminescências não são misturadas nem interrompidas, fato que, como veremos, acontece nas ordens inferiores (II.5.79,14-80,3). Ora, quando da elaboração sobre a sutileza (λεπτότης) da luz emitida pelas manifestações, Jâmblico afirma que as ordens arcangélicas radiam pureza, sendo difícil de respirar, porém não tão insuportável quanto às dos deuses (II.8.86,10-12). Já os anjos deixam a atmosfera de um modo tal que os teurgistas são capazes de respirar (II.8.86,13-15). Essa afirmação corrobora com a afirmação de Jâmblico de que a alma humana pode ser elevada até a ordem dos anjos (II.2.69,12-14; II.6.83). Talvez, com isso, Jâmblico esteja implicando que a alma humana possa viver de modo “ordinário” elevada até a ordem dos anjos, porém acima disso é necessário a imobilidade – incluindo a interrupção do ato físico de respirar54. Em De Myst. IV.2.184,7-8 Jâmblico descreve a elevação das almas humanas como “devidamente

capazes de rodearem-se das formas divinas (ὃ δὴ δύναται εικότος καὶ τὸ τών θεών σκήμα περιτίθεσθαι).

Ao discorrer sobre os poderes e efeitos das manifestações, Jâmblico atribui aos arcanjos um poder purificatório classificado como anagógico (ἀναγωγών), e aos anjos credita apenas o poder de liberação (λύουσι) dos “grilhões” da matéria (II.5.79,7-8). Os efeitos sobre a matéria, no caso dos arcanjos, são definidos em termos de anulação ou aliviamento (ἀναλωτικόν), e no caso dos anjos, dissolução (λυτικόν) e absorção (ἀπαγωγόν) (II.5.80,11- 81,1). Já quanto aos benefícios transmitidos pelos arcanjos, eles aumentam o poder e a capacidade das disposições da alma, levando a um estado mental de plena serenidade, com um poder estável de contemplação intelectual (II.9.88,1-2). Porém, os benefícios transmitidos por eles não ocorrem em todos os casos e nem na mesma intensidade, sendo proporcionais à

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sua manifestação (II.6.82,1-4; II.9.89,2-6). Se dos anjos decorrem benefícios particulares, com muito menos perfeição do que a luz que os rodeia (II.6.82,4-7), já os deuses conferem verdade universal. Os anjos e arcanjos o fazem de forma limitada e parcial, e, em relação a progressão das dádivas, os anjos tem menos limitações que os arcanjos (II.9.89,6-8).

3.1.3 Os arcontes

Jâmblico define duas categorias de arcontes (αρκοντοι): os arcontes cósmicos (κοσμοκράτορες ou ἡγεμονικοί), regentes do reino sublunar, e os arcontes ctônicos (ἔνυλοι ou κθόνιοι) regentes da matéria (της ὕλης προεστηκοτες) (II.3.71,3-7). Os κοσμοκράτορες são também mencionados em De Myst. IX.9.284,3-7. Clarke (2001, pág 117 nota 66) identifica o uso desse termo nessa passagem como referência aos deuses planetários, fato que ocorrerá em autores posteriores como Proclo ou Damáscio (CLARKE, DILLON, HERSHBELL, 2004, pág.341, n.483)55. Os arcontes cósmicos estão acima e além de qualquer relação com a matéria, tendo uma descrição de sua manifestação semelhante à dos anjos, porém essa sua superioridade é sempre definida somente em relação aos arcontes ctônicos que, devido ao seu envolvimento com a matéria, têm a descrição de sua manifestação com algumas semelhanças à dos daímones, como veremos adiante.

Na descrição da aparência de suas manifestações é dito que os arcontes irradiam fogo56 (II.4.77,11-12), que no caso dos arcontes cósmicos é clara (ἐναργε) e translúcida (διαφανέστερον) (II.4.77,5-6;78,9-11), pura e mais grandiosa do que a dos arcontes ctônicos

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Para uma discussão sobre os arcontes ver Dillon (1973, p.51), Cremer (1969, p.86-91).

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As aparências divinas abaixo do nível dos anjos são todas descritas como πῡρ, no entanto é bem claro o contraste que ele estabelece entre o fogo divino e imaterial, do fogo material (i.e. De Myst., II.4.78,1-2). Clarke (2001) distingue o vocabulário utilizado por Jâmblico associado ao fogo material (αιθόω, ιακω , καίω/καιόμαι ,

πυρόω, ou εμπίπτω), do vocabulário associado ao fogo divino (εκλάμπο, διαφαíνω, e αστράπτει) que possui uma

conotação mais relacionada à atividade da luz.

Assim, Jâmblico explora o nosso entendimento do fogo corpóreo para criar uma vívida imagem das epifanias inferiores em contraste com as superiores, enquanto ainda mantendo que nenhuma visão divina é corpórea. (CLARKE, 2001, p.108).

(II.4.77,11-12; 76,3-6; II.3.74,1-2), os quais são mais obscuros e sombrios misturados com coisas de uma natureza desigual e contrária (II.4.77,5-6;77,11-12;78,9-11). Assim:

a) As manifestações dos arcontes cósmicos têm uma aparência variada ou complexa, mas com disposição ordenada; já os arcontes ctônicos manifestam-se de modo ainda mais variado e inferior (II.3.71,4-6), enquanto as visões dos arcontes cósmicos são estáveis, tranquilas e firmemente auto-estabelecidas (II.3.72,5-6; 73,1-2;II.4.79,3-4), a dos arcontes ctônicos apresentam uma multiplicidade variável, sendo turbulentas e movidas em tumulto (II.3.72,6; 73,1-2;II.4.79,3-4). Fica claro que os arcontes cósmicos exibem a ordem e constância da esfera supralunar (II.3.74,2-3; II.4.75,4-5; II.4.80,7; II.7.84,3-4), enquanto os arcontes ctônicos exibem uma inconsistência caótica, e, algumas vezes, a natureza simulada do mundo material (II.3.74,2-3; II.4.75,5-6; 76,9-10; II.7.84,4-5). Além disso, as manifestações dos arcontes cósmicos são impressionantes, e a dos ctônicos, se seu observador estiver envolvido com a matéria, serão prejudiciais (βλαβερά) e dolorosas (λυπηρά) (II.3.71,12-13). Em ambos os casos, Jâmblico declara que tais manifestações são acompanhadas de numerosas aparições difíceis de suportar (II.8.87,5-8). Fica clara a manifestação hierárquica com relação à matéria (mais pesada, portanto, mais distante dos deuses).

b) Em relação aos poderes e efeitos de suas manifestações, os arcontes produzem um resultado de acordo com a sua esfera de autoridade, sendo que, a manifestação dos arcontes cósmicos resultam numa associação com a esfera sublunar (II.5.79,9-10; II.9.88,9-10) e produz bens cósmicos que auxiliam todas as necessidades da vida em si (II.6.82,9- 83,1;II.9.89,12-14); já a manifestação dos arcontes ctônicos resultam numa integração com a esfera terrestre (II.5.79,9-10; II.9.88,9-10), beneficiando, porém, somente interesses materiais que pertencem aos trabalhos ctônicos (II.6.82,9-83,1;II.9.89,12-14).

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