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Como já afirmado, os vínculos entre a capoeira e instâncias políticas, intelectuais e

grupos socioculturais ou étnicos foram objeto de diversos estudos, cujos dados complementam a abordagem apresentada e são aqui confrontadas com aqueles produzidos na pesquisa de campo no universo de dois grupos baianos de capoeira angola.

Também são retomados aspetos etnográficos de pesquisas já disponibilizadas, quando os dados apresentados permitem esclarecer ou ampliar o foco das minhas observações ou ainda quando as conclusões às quais chegam os autores suscitam um diálogo proveitoso aos efeitos do trabalho, independentemente da coincidência ou não dos posicionamentos. É conveniente situar a perspectiva adotada pelos autores, no sentido de trazer à tona os pressupostos e valores inerentes à posição que ocupam no campo, para que se possa acolher suas contribuições. É importante que se diga isto porquanto existe, em muitos casos, uma estreita relação entre os pesquisadores da capoeira e seus objetos – o que também é o caso deste trabalho. O envolvimento com o universo que se pretende investigar costuma engendrar uma situação peculiar do pesquisador, que freqüentemente se encontra vinculado ao seu objeto por laços afetivos, pois compartilha os valores e os interesses que animam os grupos de capoeira. Sendo assim, a sua perspectiva pode tender a uma certa idealização, pois a própria experiência enquanto membro de uma coletividade resulta na adoção consciente e/ou

incorporação de perspectivas e categorias dadas que orientam a sua apreensão. Ora, sabe-se que a relação que une o capoeirista a seu grupo, seu mestre e sua prática pode por vezes alcançar dimensões vitais em termo de auto-estima, inclusão social, equilibro físico e psico- afetivo. Em todo caso, isto implica uma identificação com este universo particular, sem a qual não haveria possibilidade de permanência prolongada no grupo.

Por outro lado, os dados e as conclusões que um trabalho acadêmico traz à luz irão direta ou indiretamente pesar no sentido de alimentar uma ou outra perspectiva sobre um

objeto controvertido, pois a discussão sobre a identidade cultural negra ou afro-brasileirae a

herança das matrizes tomadas como africanas, seja esta herança central ou apenas transversal nos estudos da capoeira, participa de um amplo debate com inegáveis dimensões políticas. Os discursos produzidos na academia, ao apresentarem o objeto sob uma vertente dada, enobrecida pela “objetividade científica”, exercem um poder de construção do real ao modo do discurso performativo (BOURDIEU, 1994) capaz de levar à existência fatos, relações e grupos ou, pelo contrário, relegar conclusões anteriores e alheias ao status de equívocos ou de simples mitos. Assim foi o caso de uma pesquisa etnográfica realizada pelo antropólogo

português Neves e Sousa, em meados dos anos sessenta do século passado22, que revelava a

existência de um rito de passagem consistindo numa luta entre dois rapazes observado em Angola e chamado de dança da zebra ou N´golo. Semelhanças notáveis entre os movimentos desempenhados em tal luta ritual e aqueles que caracterizam a capoeira brasileira, ressaltadas pelo autor do estudo, forneceram o insumo para pesquisas ulteriores argumentando a favor da

origem Bantu da capoeira. A dança do N’golo como possível origem da capoeira é retomada

em praticamente todos os trabalhos acadêmicos enfocando este tema dos últimos 30 anos23.

Mais relevante ainda é que várias academias de capoeira angola adotaram como símbolos e logotipos representativos dos seus respectivos grupos o desenho de duas zebras em confronto, inspirados nos dados aportados pela pesquisa portuguesa e retomados não só nos mais recentes estudos acadêmicos brasileiros como também na literatura de vulgarização. Este

22A primeira referência ao trabalho deste antropólogo é encontrada em Câmara Cascudo. Diz ele: “Albano de

Neves e Sousa, de Luanda, poeta, pintor, etnógrafo, encarregou-se de elucidar o lado de lá; as fontes da capoeira” (CASCUDO, 1967, p. 184).

23 Não pretendo aqui recusar tal hipótese, nem mesmo participar do debate polêmico sobre a trajetória histórica

da capoeira no Brasil e na Bahia, inclusive porque a proposta da pesquisa não inclui abordar a discussão da origem da capoeira. Entretanto, convém ressaltar que faltam estudos comparativos entre as diversas lutas e danças rituais africanas e as suas supostas heranças na América do Sul e no Caribe, regiões em que se encontram diversas modalidades dessas práticas lúdicas e marciais (como a Bassula, a Ladja e o Mouringue). Neste sentido, a relação entre capoeira e N´golo me parece ser demasiadamente estreita em vista das múltiplas interseções que caracterizam as manifestações lúdicas e religiosas reinterpretadas pelas diásporas africanas nas Américas. Só nos últimos anos, pesquisadores e capoeiristas têm iniciado pesquisas a respeito dessas manifestações; assim, pode- se esperar que o tema inspire novas pesquisas num futuro muito próximo.

exemplo evidencia os vínculos que unem o mundo acadêmico e o universo da capoeira, num contexto em que a produção simbólica, acadêmica ou não, pode se tornar um elemento estratégico na disputa pelo reconhecimento de indivíduos e grupos e traz assim à tona a questão da relação do pesquisador com seus campo e objeto, justificando uma atenção especial.

A dimensão metodológica da pesquisa adquire assim um lugar central no conjunto do trabalho, correspondendo à posição donde se empreende a observação. Trata-se do elemento que condiciona não só a escolha dos dados considerados relevantes, como também a perspectiva analítica que orienta a sua interpretação. Ao pretender aqui investigar o que

acontece na roda de capoeira com a finalidade de identificar e/ou reconhecer os códigos e

valores que estruturam tal prática e constituem seu sentido singular, é preciso questionar os pressupostos inerentes à própria démarche da autora, pressupostos estes que se originam em

duas vertentes da experiência: como praticante e admiradora da capoeira e na perspectiva de

um trabalho acadêmico em Ciências Sociais. Ambas as posições implicam compromissos e acarretam determinados ângulos de visão que decorrem, em grande parte, do uso de categorias de apreensão e de critérios de coerência, ou seja, de uma lógica.

A perspectiva bourdieusiana auxilia a minha reflexão ao ressaltar a diferença entre a lógica teórica da prática, oriunda de uma apreensão que faz das práticas um “uso cognitivo” (BOURDIEU, 1982), esquecendo que as relações e as práticas que se pretende objetivar cumprem outras funções para os agentes, e a lógica prática da prática, decorrente dos habitus, predisposições incorporadas que estruturam as práticas sem que os agentes tenham intenções reflexivamente percebidas de perseguir determinados fins. Entre as construções teóricas sobre a prática, ainda se há de distinguir entre aquelas às quais os

próprios agentes recorrem para explicar ou justificar seus modos de agir e as elaborações

científicas. À duplicidade das perspectivas teóricas, é necessário responder através de uma dupla ruptura (BOURDIEU, 1980). A primeira é a já clássica ruptura epistemológica, que consiste em demarcar-se do ponto de vista dos agentes, da sociologia espontânea, termo que corresponde ao que Durkheim (1990) chamava de pré-noções. A segunda consiste em romper com o ponto de vista do observador, isto é, com o distanciamento necessário à observação científica para questionar as condições e os pressupostos de natureza social de tal postura e compreender que esta obedece a uma lógica diferente daquela que impulsiona os agentes, para enfim reintroduzir na análise essa distância objetivada. Tal démarche consiste, assim, em objetivar a objetivação.

Aos efeitos de alcançar este objetivo, à modalidade de observação participante, escolhida pelo fato de a autora do projeto conviver e participar das atividades dos grupos de capoeira observados desde uma época prévia à investigação, é associado um rigoroso acompanhamento crítico. Aposta-se na fecundidade da tensão relacional do binômio pesquisadora/campo para propiciar uma reflexão sobre os processos de naturalização dos valores. Através de uma postura reflexiva que interroga a escolha das categorias que surgiram de um modo que parecia “natural” no processo de tomada de notas que acompanhou as observações, são desvendados alguns dos pressupostos ocultos na vivência nativa. Em outros termos, a descrição do ritual, fase fundamental do trabalho etnográfico, é reveladora de categorias de classificação que também são categorias de apreciação ou de julgamento, as quais são incorporadas e remetem aos valores dos capoeiristas: o jogo é bonito, tem axé, é jogo de mestre ou jogo de compadres, o capoeirista é aluno de Mestre X, aluno antigo,

mandingueiro, de fora, mulher, etc.

Por outro lado, também se lança mão, na etnografia, de critérios de classificação e avaliação inerentes à pesquisa científica para a medição e/ou comparação dos fenômenos observados. Trata-se, por exemplo, nos procedimentos de observação e de colheita de dados, de quantificar elementos da prática – o número de cantigas interpretadas numa roda, por exemplo – e/ou de medir os tempos de atuação dos jogadores, dos revezamentos de jogo ou de canto. Este concernimento com as quantidade e duração objetivas das performances é alheio aos marcos apreciativos nativos e remete a um trato do tempo orientado pela racionalidade científica, além de revelar habitus oriundos da origem européia – mais precisamente, francesa – da pesquisadora. Não se trata aqui de empreender uma síntese entre estes dois ethos diferenciados, mas de submeter as categorias êmicas (dos capoeiristas, entre os quais a autora em certo sentido e em certa medida) a uma análise sociológica de tipo etnográfico cujos instrumentos (fundamentados na racionalidade científica) são também objetivados.

Procurou-se assim reconstruir o objeto, evidenciando as divergências e intersecções entre a posição do fazer/participar e a posição do observar/analisar ao custo de um

posicionamento reflexivo ao mesmo tempo difícil, desafiante e extremamente enriquecedor.

Tal jogo entre distância/objetivação e familiaridade, que já se encontra presente, embora de um modo diferenciado, na minha experiência de estrangeira convivendo há duas décadas na capoeira e no Brasil, sustenta uma posição e um olhar que oscilam de dentro para fora e vice- versa. As duas experiências distinguem-se, no entanto, de forma significativa, pois, se na vida

cotidiana exerço o meu estranhamento de forma quase naturalizada24, trata-se agora de

objetivá-lo.

Em outros termos, foi preciso atentar à diversidade de pontos de vista, alternado e/ou se sobrepondo ao longo da observação e da escrita, que revelam níveis de identificação, de familiaridade e de conhecimento distintos. Optou-se pelo uso da primeira pessoa verbal para expressar a posição de autora da pesquisa e do texto, o que permitiu reservar o nós aos enunciados em que se deseja marcar a pertença ao universo dos angoleiros (nós capoeiristas

ou, em outros momentos, nós do Nzinga). O uso do eu autoral permite que se desenhe o

ele/eles do objeto e expressa – e propicia – o distanciamento necessário à análise. Enfim, esse eu assume a sua parcialidade e a sua subjetividade: quem escreve é capoeirista, mulher, estrangeira e pesquisadora. Ou ainda: enquanto capoeirista, tende a partilhar e, portanto, a

perceber as experiências vivenciadas pelos aprendizes capoeiristas (e tende a ignorar aquelas dos mestres) e, enquanto mulher estrangeira, ocupa uma posição no campo que orienta o foco da observação no sentido de tornar mais visíveis as relações de poder.

A esse esforço de esclarecimento da posição da autora do trabalho25, ou seja, do

“sujeito”, falta ainda acrescentar uma consideração sobre a sua finalidade, seu receptor, já que esta segunda face determina, também, aquilo que é dito – ou não – no texto que segue. Parafraseando Castoriadis, a pergunta “quem ?”, que remete à subjetividade daquilo chamado de indivíduo social, surge logo que se produz uma interpretação (o autor está se referindo à psicanálise, mas não há como negar que uma etnografia também seja, em parte, uma interpretação). Contudo, segue afirmando que qualquer interpretação dirige-se também a alguém e, neste sentido, implica a segunda pergunta: “para quem ?” (CASTORIADIS, 1990, p. 235). Pois o presente texto destina-se em primeiro lugar a leitores acadêmicos e procura corresponder às exigências e padrões deste universo; por outro lado, também objetiva satisfazer leitores capoeiristas, o que significa respeitá-los, pesar o dito, omitir nomes ou fatos

suscetíveis de explicitar aquilo que deveriapermanecer na opacidade da prática.

24 Praticamente, é um estranhar familiar.

25 Como demonstra Geertz (1989), as estratégias textuais, ou seja, o estilo adotado pelo autor da etnografia, são