Matériels et méthodes
A) Rappel anatomique
Teorias desenvolvem-se por meio da controvérsia entre visões distintas da 'realidade', sendo, cada uma, uma perspectiva particular no tempo e no espaço. Dois fatores principais dão forma à teoria. Um é o movimento objetivo da história, que está continuamente agenciando novas combinações de força que interagem entre si. A outra são as percepções subjetivas daqueles que contemplam essas forças com intuito de compreender e agir sobre o movimento da história.
(Cox, 2002: 26)
Este trabalho buscou mostrar as diferentes formas pelas quais a idéia de uma emergente sociedade civil global, tema cada vez mais presente no debate político contemporâneo, vem sendo construída no campo de estudo das relações internacionais. A partir desta observação pudemos constatar algumas questões.
Em primeiro lugar, o termo tal como é amplamente utilizado por diferentes atores, é generalizante e precisa ser melhor qualificado. Do lado daqueles que afirmam que assistimos à emergência de uma sociedade civil global, este espaço não pode ser entendido apenas como a “articulação pela articulação” de grupos para além das fronteiras nacionais. Uma tentativa de retrato das tendências contemporâneas de crescente atuação de forças sociais em âmbito internacional e global é uma tarefa complexa e não pode ser resumida pela simples adoção do termo “sociedade civil global”. É preciso observar os processos sociais e políticos que impulsionam tais articulações, é necessário se dedicar a pesquisas empíricas sobre os diversos processos e dinâmicas apontados como sinalizadores da emergência de uma sociedade civil global. Cada vez que nos referimos à idéia de sociedade civil global é importante deixar claro, como vimos ao longo deste trabalho, o que se entende por sociedade civil e o papel que as transformações na ordem global têm sobre esta “globalização da sociedade civil”.
“Todos eles voltam-se para o mesmo movimento objetivo da história, mas eles o assimilam a partir de perspectivas diversas” (Cox, 2002). Sob as condições de um mundo em transformação a noção de sociedade civil global é apresentada inicialmente a partir de determinadas perspectivas que buscam “civilizar e democratizar a globalização” (Gómez, 2001). O conceito e a idéia em si são tidos como um valor a ser promovido para o futuro
das relações internacionais. Aos poucos, diferentes leituras sobre a idéia de sociedade civil global vão sendo construídas buscando compreender os processos e dinâmicas subjacentes a tal noção.
De uma maneira geral, cada uma destas perspectivas aborda o conceito de sociedade civil de uma maneira e traz esta discussão para o estudo das relações internacionais. Observar estas visões significa analisar como estas discussões passam para o âmbito internacional. Como vimos, o debate teórico em relações internacionais que surge no pós-Guerra Fria abre espaço para a aproximação da disciplina com outras áreas das ciências sociais. As perspectivas de aprofundamento das reflexões acerca da idéia de sociedade civil global em particular, e dos diversos processos sócias e políticos ligados à temática em geral, encontram-se justamente nesta ponte entre as relações internacionais e outras áreas das ciências humanas como a sociologia, a ciência política e a antropologia.
A literatura existente sobre a idéia de uma sociedade civil global, como vimos ao longo deste trabalho, reproduz o debate que já existe em torno do próprio conceito de sociedade civil e as diferentes abordagens e formas de se analisar as relações internacionais. Isto poderia parecer uma conclusão óbvia se não fosse pelo fato de que o discurso da sociedade civil global é reproduzido pelos quatros cantos do mundo, mergulhado e influenciado pelo contexto analisado no primeiro capítulo, sem que os agentes que o fazem tenham consciência da heterogeneidade de conceitos e de realidades sociais por trás desta “ação”. Nesse sentido, a sociedade civil global — idéia, conceito ou realidade — pode ser vista como um processo sujeito a interferências de projetos específicos.
Paralelamente à "indústria explicativa" que se formou ao fim da Guerra Fria, formou-se uma outra, tão frutuosa quanto a primeira, sobre "a ordem pós- Guerra Fria". Uma das características dessa produção é a sua diversidade, sendo vários os modelos do mundo pós-Guerra Fria e, mais importante, retratando, antes de mais nada, o mundo como o analista gostaria que fosse.
Assim, os diversos cenários internacionais são antes indicativos das preferências normativas desses analistas sobre a "melhor ordem", do que de sua viabilidade lógica ou empírica; são também prescritivos no sentido de indicar os meios para atingi-la. Isto se reflete tanto no uso da analogia
histórica que servirá de base para a construção da ordem provável, quanto na escolha daquela tendência ou daquele evento, a partir dos quais são projetadas linearmente i.e., sem que se mencione as condições específicas e os fatores contextuais que tornaram tal evento possível, no passado suas implicações no futuro (Lima, 1996; grifo nosso).
As críticas às diferentes perspectivas, muitas vezes, são críticas às próprias abordagens subjacentes à tal conceituação. Para alguns, elas podem apresentar um caráter muito liberal, para outros, muito marxista. O conceito de sociedade civil global mais disseminado hoje é aquele que tem como base as teses cosmopolitas, nesse sentido, o maior número de críticas que se faz ao conceito – e à idéia em si – na verdade são críticas ao próprio cosmopolitismo enquanto projeto político e modelo teórico. Sabemos que o debate teórico cosmopolita apresenta inúmeras nuances e variações, no entanto, as críticas são direcionadas a elementos comuns a este debate que atribuem à sociedade civil global um papel importante.
Seguindo o raciocínio anterior da relação com contexto político e com os modelos propostos para analisá-lo, a idéia de sociedade civil global emerge no contexto descrito no primeiro capítulo, ao mesmo tempo em que contribui para a análise que faremos dele. Em outras palavras, a importância em analisarmos o objeto proposto neste trabalho está no fato das diferentes perspectivas que se constroem hoje acerca da sociedade civil global contribuírem também para as diferentes leituras e abordagens que construiremos sobre este próprio “mundo em transformação”. A idéia de sociedade civil global é ao mesmo tempo um “produto” e um “produtor”, a partir de diferentes visões de mundo, deste mundo globalizado, “hipermoderno” e em transformação.
Por fim,
Sem um mapa que nos guie por todos esses discursos e modelos conflitantes de sociedade civil, arriscamo-nos a cultivar um otimismo ingênuo ou a assumir uma atitude francamente ideológica quanto à capacidade democratizante e à natureza e papel mundial da sociedade civil. O que está faltando é uma reflexão sistemática e cuidadosa sobre o modo
pelo qual a globalização transformou os parâmetros fundamentais da sociedade civil e como essas mudanças afetam o impacto potencial da sociedade civil nas estruturas nacionais, regionais e transnacionais. Sem uma reflexão meticulosa, não temos condições de perceber o que é novo e o que é possível, e corremos o risco de sobrecarregar o conceito de sociedade civil com funções reguladoras ou democratizantes que ela provavelmente não pode realizar (Cohen, 2003: 422; grifo nosso).
Conforme anunciado na introdução deste trabalho, a análise aqui apresentada — a partir da observação do contexto sócio-político, das diferentes perspectivas em torno do conceito e das relações com o estudo das relações internacionais — buscou dar um pequeno passo no sentido desta reflexão e colaborar, assim, com a compreensão de processos políticos contemporâneos relevantes.