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No Brasil, as pioneiras na utilização do vocábulo letramento foram Kato (1986), no livro intitulado No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística e Tfouni (1988), na obra Adultos não alfabetizados: o avesso do avesso. Kleiman (1995) dá maior visibilidade ao tema, ao publicar Os significados do letramento, seguida de Magda Soares (1998) que posteriormente lança Letramento: um tema em três gêneros (SOARES, 2009).

Kleiman (1995, p. 15), ao introduzir o conceito de letramento, esclarece que a utilização do termo nos meios acadêmicos adveio das tentativas de se estabelecer a diferença entre os estudos sobre “o impacto social da escrita dos estudos sobre a alfabetização, cujas conotações destacam as competências individuais no uso e na prática da escrita” (grifo da autora). Na continuidade de suas reflexões, a pesquisadora define o letramento “como um conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos”. Sob essa perspectiva, o letramento abrange tudo o que é produzido a partir da escrita, nas diferentes instituições sociais – as quais são chamadas agências de letramento (família, trabalho, igreja, sindicato, feira etc.) – em que há variados modos discursivos e, em consequência, diversidade nas orientações de letramento. A autora destaca, ainda, que, embora a escola seja uma das mais importantes agências de letramento, permanece difundindo práticas de letramento que valorizam o sucesso e a promoção dos sujeitos na própria instituição.

Por seu turno, Soares (2009, p.10) introduz o termo ‘letramento’ como “este novo conceito recém-introduzindo no campo da Educação, das Ciências Sociais, da História, das Ciências Linguísticas” e estabelece a relação entre esse vocábulo e outros do mesmo campo semântico – analfabetismo, analfabeto, alfabetizar etc., todos relacionados ao saber (ou não) ler e escrever. Prossegue, então, esclarecendo a origem do termo, a partir da palavra inglesa literacy, a qual define como “estado que assume aquele que aprende a ler e escrever”. E acrescenta: “Implícita nesse conceito está a ideia de que a escrita traz consequências sociais, culturais, políticas, econômicas, cognitivas, linguísticas, quer para o grupo social em que seja introduzida, quer para o indivíduo que aprenda a usá-la” (SOARES, 2009, p.17).

Diante do exposto, apreende-se que já não se concebe mais o letramento como uma via de mão única, determinado pela escola ou qualquer outra instituição dominante. É preciso considerar a dimensão sociocultural em que os processos de leitura e escrita estão inseridos e, assim, reconhecer a multiplicidade de letramentos que deles resulta. A esse respeito, Oliveira e Kleiman (2008, p. 7) observam que houve uma ampliação do termo letramento: “ao longo dos anos, o conceito de letramento foi sendo redimensionado. Os termos ‘estudos de letramento’, ‘novos estudos de letramento’ e ‘letramentos’, no plural, são algumas maneiras de registrar esse redimensionamento”. A existência de inúmeros letramentos se justifica pela existência de múltiplos contextos sociais. Podemos assim falar de letramentos como práticas sociais em processo. Tais práticas abrangem diferentes domínios de produção discursiva (BAKHTIN, 1997) – familiar, profissional, escolar, acadêmico, religioso etc. Em cada um desses domínios,

naturalmente, o sujeito cumpre diferentes funções, fazendo diferentes usos da linguagem em cada um deles.

Para ilustrar essa diversidade, Rojo (2009) elenca uma série de atividades as quais se constituem eventos de letramento, em que se percebe claramente o caráter comunicativo, mediados por textos escritos: o vendedor que escreve um bilhete no saquinho de balas, esclarecendo ao possível comprador que precisa sustentar seus filhos; a compra com cartão de crédito através da leitura das instruções na tela do caixa eletrônico e da digitação de códigos alfanuméricos; a chamada feita pela professora e posterior solicitação para que um determinado aluno leia um texto, entre outros. A esses, acrescento as ações envolvidas nas práticas escritas realizadas pelas cuidadoras de idosos no exercício de suas atividades laborais: 1) a cuidadora verifica que a despensa está vazia e precisa preparar o lanche do idoso de que toma conta: escreve uma pequena lista de compras, antes de ir à mercearia; 2) a cuidadora precisa sair mais cedo da casa do paciente e envia uma mensagem, via WhatsApp, avisando aos familiares que há determinado medicamento para ser comprado; 3) os filhos do paciente solicitam à cuidadora que organize o cardápio com os alimentos recomendados pela nutricionista; 4) a cuidadora anota numa tabela os horários dos medicamentos, para controlar melhor sua tarefa de administração. Tais atividades constituem-se eventos de letramento, pois, conforme a noção apresentada por Kleiman:

Um evento de letramento inclui atividades que têm as características de outras atividades da vida social: envolve mais de um participante e os envolvidos têm diferentes saberes, que são mobilizados na medida adequada, no momento necessário, em prol de interesses, intenções e objetivos individuais e de metas comuns. Daí ser um evento essencialmente colaborativo. (KLEIMAN, 2005, p.24)

Heath (1983, p. 98) assinala que um evento de letramento deve ser entendido como “qualquer ocasião em que uma peça de escrita integra a natureza das interações dos participantes e seus processos interpretativos”. A esse respeito, Oliveira (2014) esclarece que, embora a escrita seja o ponto de partida, nessas ocasiões comparecem também a linguagem oral e outros sistemas semióticos. No caso dos eventos protagonizados pelos cuidadores, a linguagem oral assume papel de destaque, pois é, certamente, a forma de comunicação mais utilizada entres os atores nas situações de comunicação ao longo do dia. Ainda que o paciente idoso não verbalize ou seja acometido por um estado de demência que dificulte sua

compreensão, a comunicação oral deve ser efetuada, e sempre de forma branda e equilibrada (BORN, 2008).

Também se distinguem muito facilmente outros sistemas semióticos nos eventos acima relacionados, já que toda a comunicação oral invariavelmente vem acompanhada de gestos, olhares, expressões faciais que, incorporados às palavras, adicionam-lhes sentido e expressividade peculiares. A especialista em gerontologia Andréa Viude destaca que deve haver consistência e coerência na comunicação com a pessoa dementada, para que as palavras do cuidador estejam concordes com seus gestos e tom de voz (BORN, 2008). Não se pode esquecer das imagens (fotografias que resgatam as lembranças, por exemplo) e tabelas de comunicação, que se tornam importantes no contexto do evento, pois ajudam a revelar os estados de ânimo dos cuidadores e idosos envolvidos nos eventos e complementam emocionalmente os discursos escritos.

Ao tratar desses recursos não materiais (os estados de ânimo, por exemplo) que permeiam os eventos, já me reporto às práticas de letramento, entendidas como “formas culturalmente aceitas de se usar a leitura e a escrita as quais se realizam em eventos de letramento. Envolvem não apenas o que as pessoas fazem, mas o que elas pensam sobre o que fazem e os valores e ideologias que estão subjacentes a essas ações” (BAYNHAM, 1995, p.39). As práticas de letramento são situadas, isso equivale a dizer que “são social e culturalmente determinadas, e, como tal, os significados específicos que a escrita assume para um grupo social dependem dos contextos e instituições em que ela foi adquirida” (KLEIMAN, 1995, p. 21).

De acordo com Street (2014a), as práticas, diferentemente dos eventos, estão em um nível mais elevado de abstração, são modos culturais de utilização do letramento e incorporam: eventos, ocasiões empíricas, modelos populares dos eventos, preconcepções ideológicas. Ao decidirem se tornar cuidadoras de idosos, as mulheres participantes do curso de extensão não só decidiram pela escolha de uma profissão, mas também anuíram tacitamente à adoção das práticas letradas inerentes ao exercício dessa profissão. Melhor dizendo, à profissão “cuidador de idoso” estão relacionadas práticas letradas que definem um determinado comportamento social e cultural de leitura e escrita específico para essa atividade de trabalho.

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