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Diversas propostas de reorganização do processo produtivo impactaram no meio ambiente do trabalho, pois interviram em seus mais diversos aspectos relacionados à organização e às condições de trabalho.

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OLIVEIRA, Elisângela Magela. Transformações no mundo do trabalho na Revolução Industrial aos nossos dias. Caminhos de Geografia, Uberlândia, v. 5, n. 11, p. 84-96, 2004.

No início do século XX, a reestruturação do processo produtivo instituído pela Revolução Industrial foi revista pelo modelo taylorista-fordista que, de uma maneira geral, ressignificou o modo de produção através da reinvenção da organização do trabalho. Os impactos provocados por esse modelo alcançaram o meio ambiente do trabalho, evidenciando a interdependência entre economia, trabalho, ambiente e saúde.

A saber, o taylorismo – método de organização científica do trabalho proposto pelo engenheiro norte-americano Frederick Winslow Taylor – instituiu uma nova concepção de organização do trabalho por meio do controle dos movimentos das máquinas e dos trabalhadores, com a finalidade de sistematizar a produção, majorar a produtividade, economizar tempo e suprimir gastos desnecessários no processo produtivo37.

O modelo taylorista, mais tarde conhecido no Brasil por Organização Científica do Trabalho, propôs a racionalização e a intensificação do processo produtivo, fragmentando- o em tarefas especializadas e repetitivas38. Sustentava Taylor que os operários perdiam tempo demais para encontrar formas de desacelerar o trabalho, o que o levou a cronometrar o tempo despendido para cada etapa da produção; cada operário era especialista no seu próprio ofício e deveria realizá-lo no menor tempo possível. Harry Braverman adverte que, na prática, Frederick Winslow Taylor “tendia a definir este nível de atividade em um limite extremo, escolhendo um ritmo que apenas alguns podiam manter, e mesmo assim sob força” 39.

Ainda no início do século XX, período em que os bens de consumo tornavam-se mais acessíveis em virtude do aparente crescimento econômico40, o fortalecimento do capitalismo dependia da expansão do mercado consumidor. Portanto, mais do que aumentar a produtividade, era preciso reduzir o preço final dos produtos para estimular o consumo, o que somente seria possível com a reinvenção do processo produtivo.

Aperfeiçoando o padrão taylorista de organização do trabalho, Henry Ford propôs a reinvenção do processo produtivo baseada no aumento da produtividade por meio do

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SILVA, Airton Marinho da. A regulamentação das condições de trabalho no setor de teleatendimento no

Brasil: necessidades e desafios. 2004. 129 f. Dissertação (Mestrado em Saúde Pública) - Faculdade de Medicina,

Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2004.

38 NAVARRO, Vera Lúcia. Trabalho, subjetividade e lazer: estranhamento, fetichismo e reificação no

capitalismo global. In: PADILHA, Valquiria. (Org). Dialética do Lazer. São Paulo: Cortez, 2006. p. 50-74.

39 BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Tradução

Nathanael C. Caixeiro. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. p. 91.

40 A euforia econômica registrada no início do século XX não alcançou sequer o final da década de 20, sendo um

dos motivos que desencadearam a crise de 1929, com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York; os impactos dessa crise, também conhecida como “A Grande Depressão”, alcançaram ainda os países europeus e o Brasil, que tinha os Estados Unidos como seu maior mercado para exportação de café.

controle dos movimentos das máquinas e dos operários para a execução das tarefas no menor tempo possível; introduziu a esteira mecânica no sistema de produção, cujo mecanismo, ininterrupto, impunha o ritmo de trabalho. Com a introdução da esteira no processo produtivo, cada tarefa dependia da agilidade e da qualidade do trabalho realizado pelo operário envolvido na etapa anterior, pois “uma linha rígida de produção articulava os diferentes trabalhos, tecendo vínculos entre as ações individuais das quais a esteira fazia as interligações, dando o ritmo e o tempo necessários para a realização das tarefas”41

.

O modelo fordista ainda cuidou de instituir uma nova política salarial escorada no cumprimento das regras estabelecidas e dos ritmos de produção, visando ao estímulo do consumo até mesmo no interior das fábricas, ao tornar seus operários capazes de adquirir os bens que produziam.

Ricardo Antunes esclarece que o binômio taylorismo-fordismo vigorou durante quase todo o século XX, sobretudo a partir da segunda década, baseando-se na “produção em massa de mercadorias, que se estruturava a partir de uma produção mais homogeneizada e enormemente verticalizada”42

.

A despeito de toda revolução do sistema produtivo decorrente desses modelos de organização, a intensificação das formas de exploração e a supressão da dimensão intelectual do ofício, concentrada tão somente na gerência científica, comprometeram as condições de trabalho da classe operária, fazendo dela um componente instrumental sem subjetividade. Essa expropriação intensificada era sintetizada em uma atividade repetitiva e desprovida de sentido43, empregando uma clara dicotomia entre trabalho concebido ou planejado e trabalho executado, haja vista o planejamento da atividade incumbir aos hierarquicamente superiores, cabendo a simples execução aos operários, limados de qualquer pensamento conceitual sobre aquilo que executavam.

Uma vez ausente o pensamento conceitual sobre o trabalho, nada se pensava, nada se elaborava e nada se construía. E é justamente esse pensamento conceitual sobre o trabalho que diferencia o ser humano dos outros animais. Na visão de Karl Marx, o trabalho pertence exclusivamente ao ser humano, pois mesmo que uma aranha execute operações semelhantes a

41 ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo:

Boitempo Editorial, 1999. p. 37.

42 Ibidem, p. 36. 43 Ibidem, p. 41.

de um tecelão e uma abelha envergonhe o melhor dos arquitetos na construção dos favos de sua colmeia, o que distingue o esforço desses animais do trabalho humano é que o resultado alcançado ao fim do processo já existia desde o início na imaginação do trabalhador, portanto, idealmente44. Essa complexidade do trabalho humano, cerceada pelos modelos produtivos em análise, assim é compreendida por Karl Marx:

Ele não apenas efetua uma transformação da forma da matéria natural; realiza, ao mesmo tempo, na matéria natural seu objetivo, que ele sabe que determina, como lei, a espécie e o modo de sua atividade e ao qual tem de subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um ato isolado. Além do esforço dos órgãos que trabalham, é exigida a vontade orientada a um fim, que se manifesta como atenção durante todo o tempo de trabalho, e isso tanto mais quanto menos esse trabalho, pelo próprio conteúdo e pela espécie e modo de sua execução, atrai o trabalhador, portanto, quanto menos ele o aproveita, como jogo de suas próprias forças físicas e espirituais. Os elementos simples do processo de trabalho são a atividade orientada a um fim ou o trabalho mesmo, seu objeto e seus meios.45

Noutro giro, se por um lado essas propostas de reestruturação da produção comprometeram as condições de trabalho ao cercear a subjetividade dos trabalhadores, por outro, foram eficazes para o desenvolvimento de um mercado de consumo, principalmente ao reamoldar a organização do trabalho visando à redução dos custos do processo produtivo.

Embora possa parecer que os termos condições de trabalho e organização do trabalho são análogos, Cristophe Dejours46 aponta que, por condições de trabalho, deve-se entender as características do conteúdo ergonômico, nas suas dimensões físicas, químicas, biológicas, condições de higiene, segurança e características do posto de trabalho, que atingem a saúde física do trabalhador; e por organização do trabalho, o conteúdo subjetivo do atrelado ao conteúdo material (instrumentos de operação, características da tarefa, conteúdo simbólico da prática, etc.), apresentando estreita relação com a saúde psíquica do trabalhador.

Em síntese, as condições de trabalho são relacionadas à saúde física e a organização do trabalho é relacionada à saúde psíquica do trabalhador.

44 MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Tradução Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. v.1, t. 1. São

Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 297-298.

45

Ibidem.

46 DEJOURS, Cristophe. A loucura do trabalho: estudo de Psicopatologia do Trabalho. 5.ed. São Paulo: Cortez,

Portanto, evidente que a rígida organização do trabalho dos modelos taylorista e fordista, marcada pela expropriação intelectual e pela exploração intensificada dos operários para o aumento da produção e satisfação da demanda consumerista, comprometeram as condições às quais estavam submetidos os operários. Esclarece Ricardo Antunes47 que, no final dos anos 60, os trabalhadores passaram a questionar a organização do trabalho imposta pelo método taylorista-fordista de produção, conferindo-se ocorrências de absenteísmo, fuga do trabalho, alta rotatividade, greves parciais e até mesmo ações coletivas para a tomada do poder sobre o processo do trabalho.

Em meados dos anos 70, período crítico de mudanças econômicas, com a diversificação do mercado e o sucateamento dos equipamentos operados individualmente, “o sistema de produção em massa ficou muito rígido e dispendioso para as características da nova economia”48

. Com a introdução de novos métodos de trabalho, o fordismo entrou em declínio, cedendo espaço para o toyotismo (ou modelo japonês), por alguns considerado um modo original de gerenciamento do processo produtivo flexível pautado na cooperação entre gerentes e trabalhadores, no controle rígido de qualidade, na capacitação multifuncional e na proporcionalidade entre produção e demanda49.

Essa ideia de surgimento de uma “nova organização do trabalho” não é unânime e vem sendo contestada por recentes pesquisas que atribuem às mudanças do período que afetaram o mundo do trabalho não apenas às novas tecnologias e ao processo de desenvolvimento organizacional toyotista, mas também a fatores históricos e geográficos da época50.

O modelo toyotista originou-se no Japão pós-45, como uma forma de organização do trabalho para a expansão e consolidação do capitalismo industrial. Ricardo Antunes51 evidencia os seguintes traços do modelo toyotista: (a) produção variada e heterogênea vinculada à demanda e ao atendimento individualizado do mercado consumidor; (b) trabalho em equipe com multivariedade de funções; (c) processo produtivo flexível, alterando a relação operário-máquina, diante da possibilidade de um mesmo operário manejar simultaneamente

47 ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo:

Boitempo Editorial, 1999.

48 CASTELLS, Manuel. A Era da Informação: economia, sociedade e cultura. Fim de milênio. v. 3. Tradução

Klauss Brandini Gerhardt e Roneide Venancio Majerv. São Paulo: Paz e terra, 1999. p. 176.

49 FRAGA, Alexandre. Da rotina à flexibilidade: análise das características do fordismo fora da indústria. Revista

Habitus: IFCS/UFRJ, Rio de Janeiro, v. 3, n. 1, p. 36-43, 2006.

50 ANTUNES, Ricardo. Op. cit. 51 Ibidem.

diversas máquinas; (d) subcontratação de trabalhadores, transferindo-se parte das atividades para outras empresas; (e) melhor aproveitamento do tempo de produção; e (f) estoque mínimo, com a reposição de peças e produtos através do sistema kanban52.

Otavio Pinto e Silva refere-se ao toyotismo como um dos modelos que surgiram no período pós-fordismo, “como método de organização que se caracterizou pelo trabalho em equipe, desenvolvido com uma grande rotação dos trabalhadores pelos postos de trabalho, conforme as necessidades de demanda”53

, evidenciando o entrelaçamento das condições e da organização do trabalho com a demanda consumerista.

Essas transformações, na análise de Ricardo Antunes54, decorreram da própria necessidade de estancar as lutas sociais e abrandar a crise estrutural capitalista que se reergueu apoiada em um processo de retomada da acumulação e valorização global do capital, que se estende até hoje, cuja proposta assentava-se na seguinte lógica: redução do tempo de vida útil dos produtos para o aumento do consumo que, por corolário, dependia do aumento da produção55. O desenvolvimento de “tecnologias de curta duração” é também apontado por Antonio Rodrigues de Freitas Júnior como estratégia para o enfrentamento das crises inauguradas na década de 7056.

Para Otavio Pinto e Silva, as características do sistema produtivo toyotista ainda se encontram preservadas no mundo ocidental, com as devidas adaptações57, como bem examina Antonio Rodrigues de Freitas Júnior ao destrinchar uma política de recursos humanos contemporânea bastante comum ao modelo instaurado pelo toyotismo:

(...) em lugar das grandes concentrações fabris, a nova empresa deve se preocupar com a contínua otimização do pessoal ocupado e com a terceirização das atividades não estratégicas, oferecendo remuneração

52 Para melhor elucidar o sistema kanban, Ricardo Antunes explica que na Toyota o ritmo de trabalho era

estabelecido pelo sistema de luzes (cor verde, laranja e vermelha); a luz verde indica funcionamento normal, a luz laranja impõe intensidade máxima ao ritmo produtivo e a luz vermelha acusa problemas no processo produtivo e a necessidade de redução do ritmo de trabalho – In ANTUNES, Ricardo. Op. cit.

53 SILVA, Otavio Pinto e. Subordinação, Autonomia e Parassubordinação nas Relações de Emprego. São

Paulo: LTr, 2004. p. 114.

54 ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo:

Boitempo Editorial, 1999.

55 Ricardo Antunes cita alguns exemplos: o tempo médio de vida útil para os automóveis, cuja durabilidade é

cada vez menor e a desvalorização cada vez mais veloz; os fast foods que produzem lanches sob o ritmo seriado, sem qualquer qualidade ou preocupação com a saúde do consumidor; os softwares que se tornam obsoletos rapidamente, tornando-se incompatíveis com novos computadores, requerendo pronta substituição por versões atualizadas; aparelhos de celulares que se tornam obsoletos e “demodês” em três meses; etc. – ANTUNES, Ricardo. Op. cit.

56 FREITAS JR., Antonio Rodrigues de. Direito do trabalho na era do desemprego. São Paulo: LTr, 1999. p. 99. 57 SILVA, Otavio Pinto e. Op. cit.

seletivamente atraente segundo critérios de compromisso com os objetivos da empresa e de produtividade individual ou setorial58.

O incremento tecnológico da automação e da microeletrônica proposto pelo modelo toyotista e aprimorado pela Revolução das Tecnologias da Informação e da Comunicação, a seguir abordada, viria intensificar as condições de exploração da força humana de trabalho, possibilitando que um menor contingente de trabalhadores alcançasse altos índices de produtividade, favorecendo o consumo pela massa. Evidentemente, essa recente reestruturação do processo produtivo também impactou no meio ambiente do trabalho, ao intervir no modo da prestação laboral.

1.3 A contemporânea Revolução das Tecnologias da Informação e Comunicação e seus

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