Com a finalidade de identificar os produtos brasileiros com vantagens comparativas no comércio exterior com a União Europeia, foram utilizados os Índices de Vantagem Comparativa Revelada (VCR), de Balassa (1965) e o Índice Simétrico de Vantagem Comparativa Revelada (VCS), de Laursen (1998). Segundo Higaldo (1998), quando uma região exporta um grande volume de um determinado produto em relação ao que é importado pelo país desse mesmo produto, supõem-se que a região possui vantagem comparativa na produção desse bem.
A Tabela 3 mostra a evolução do índice de vantagem comparativa revelada de Balassa (1965), durante o período 2007/2017, do Brasil no comércio com a União Europeia, seguindo a classificação da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Já na Tabela 4, é possível analisar o Índice alternativo de Vantagem Comparativa Revelada Simétrica, que está baseado exclusivamente no valor das exportações, por considerar-se que as importações são muito afetadas por medidas protecionistas dos parceiros comerciais.
Tabela 3 – Índice de Vantagem Comparativa Revelada por Grupos de Produtos, Brasil para União Europeia – 2007/2017
NCM/Período 2007 2009 2011 2013 2015 2017
1 a 24 Alimentos, fumo e bebidas 1,45 1,31 1,17 1,07 1,10 1,04
25 a 27 Minerais 0,93 0,67 0,89 1,06 0,89 0,94
28 a 38 Produtos Químicos 0,69 0,87 1,07 0,94 0,88 0,90
39 a 40 Plásticos e borracha 0,65 0,68 0,85 0,76 0,95 0,82 41 a 43 e 64 a 67 Calçados e couros 1,26 1,40 1,46 1,33 1,28 1,41 44 a 46 Madeira e carvão vegetal 1,54 0,16 1,76 1,29 1,27 1,08
47 a 49 Papel e celulose 0,25 0,25 0,25 0,20 0,17 0,12 50 a 63 Têxtil 0,37 0,28 0,24 0,29 0,22 0,32 68 a 72 Minerais não-metálicos 0,79 0,80 1,16 0,86 1,18 1,51 73 a 83 Metais comuns 1,13 1,16 1,38 1,38 1,72 1,74 84 a 85 Máquina e equipamentos 0,71 0,82 0,96 0,95 0,96 1,11 86 a 89 Material de transporte 0,65 0,91 0,55 1,08 0,31 0,28 90 a 92 Ótica e instrumentos 0,83 0,87 0,87 0,83 0,88 0,89 93 a 99 e 00 Outros 0,41 0,46 0,27 0,39 0,54 0,52
Fonte: Elaboração própria baseada nos Dados do ComexStat do MDIC/ Secretária de Comércio Exterior (SECEX).
Obs.: Este critério de classificação é o mesmo utilizado em Thorstensen et. Al. (1994, p. 50-51).
Observa-se, na Tabela 4, que, dos produtos comercializados com a União Europeia alguns apresentaram VCS positivo em todos os anos do período de 2007-2017, mostrando que o Brasil possui vantagem comparativa no comércio com a União Europeia. Esse foi o caso do grupo de produtos de Alimentos, Fumo e Bebidas, Calçados e Couros, Madeira e Carvão Vegetal e Metais comuns, produtos dos quais o Brasil apresenta vantagem comparativa se comparado à União Europeia. Alguns grupos apresentaram VCS positivo somente em alguns períodos, que foi o caso do grupo de produtos Minerais, com VCR positivo somente em 2013, o grupo Produtos Químicos, em 2011, o grupo Minerais não-metálicos, em 2011, 2015 e 2017, e o grupo Material de Transporte, em 2013. É importante ressaltar a trajetória do grupo Minerais não-metálicos, que variou de -0,12 em 2007, na qual se encontrava uma situação de
desvantagem comparativa, para 0,08 e 0,20, nos respectivos anos de 2015 e 2017, passando assim a ser considerado uma vantagem comparativa nesse grupo de produtos.
Os resultados mostram que, apesar do Brasil ser um país com uma economia sólida, por possuir vantagem comparativa em uma grande variedade de produtos, essas vantagens comparativas se concentram principalmente nas commodities. Esses índices indicam e reforçam a grande existência de riquezas minerais e vegetais e da grande extensão territorial brasileira, que proporcionam a atividade agropecuária e agrícola. Essa produção a partir da exploração de recursos da natureza faz com que o Brasil seja um grande exportador de produtos primários, ou seja, que fornece a matéria-prima para a indústria de transformação.
Tabela 4 – Índice de Vantagem Comparativa Revelada Simétrica por Grupos de Produtos, Brasil para União Europeia – 2007/2017
NCM/Período 2007 2009 2011 2013 2015 2017
1 a 24 Alimentos, fumo e bebidas 0,18 0,13 0,08 0,03 0,05 0,02
25 a 27 Minerais -0,04 -0,20 -0,06 0,03 -0,06 -0,03
28 a 38 Produtos Químicos -0,18 -0,07 0,03 -0,03 -0,07 -0,06 39 a 40 Plásticos e borracha -0,21 -0,19 -0,08 -0,14 -0,03 -0,10 41 a 43 e 64 a 67 Calçados e couros 0,11 0,17 0,19 0,14 0,12 0,17 44 a 46 Madeira e carvão vegetal 0,21 0,23 0,28 0,13 0,12 0,04 47 a 49 Papel e celulose -0,60 -0,60 -0,60 -0,67 -0,71 -0,79 50 a 63 Têxtil -0,46 -0,57 -0,62 -0,55 -0,64 -0,51 68 a 72 Minerais não-metálicos -0,12 -0,11 0,07 -0,08 0,08 0,20 73 a 83 Metais comuns 0,06 0,07 0,16 0,16 0,27 0,27 84 a 85 Máquina e equipamentos -0,17 -0,10 -0,02 -0,02 -0,02 0,05 86 a 89 Material de transporte -0,21 -0,05 -0,29 0,04 -0,53 -0,56 90 a 92 Ótica e instrumentos -0,10 -0,07 -0,07 -0,09 -0,06 -0,06 93 a 99 e 00 Outros -0,42 -0,37 -0,57 -0,44 -0,30 -0,32
Fonte: Elaboração própria baseada nos Dados do ComexStat do MDIC/Secretaria de Comércio Exterior (SECEX).
Obs.: Este critério de classificação é o mesmo utilizado em Thorstensen et. al. (1994, p.50-51).
Os índices de VCS na relação entre Brasil e União Europeia mostram ainda alguns produtos dos quais o Brasil não possui vantagem comparativa em nenhum dos anos, no caso Grupo de Plásticos e Borracha, Papel e Celulose, Têxtil, Máquina e Equipamentos, Ótica e instrumentos e Outros. Porém, vale destacar que, alguns desses grupos de produtos estão com a tendência crescente, ou seja, diminuindo a desvantagem comparativa dos produtos brasileiros. Esse foi o caso de Plásticos e borracha, que passou de um índice de -0,21 em 2007 para -0,10, em 2017 e de ótica e instrumentos, que passou de -0,10 para -0,06.
Os resultados mostram que a desvantagem comparativa brasileira em relação a União Europeia são, em grande parte, pertencentes ao setor secundário, ou seja, que transforma as matérias-primas em produtos industrializados, por meio da agregação de conhecimentos tecnológicos, que proporcionam um maior lucro na comercialização dos mesmos.
A fim de aprofundar a análise das vantagens comparativas reveladas no comércio Brasil-União Europeia, um processo de filtragem pode ser utilizado a fim de identificar os chamados setores fortes da economia brasileira no comércio internacional, por meio do índice de contribuição ao saldo comercial. Assim, além do índice de VCS também é utilizado o indicador de Vantagem Comparativa Revelada de Lafay (1990), baseado na contribuição ao saldo comercial, justamente buscando identificar os pontos fracos e pontos fortes de um país.
Tabela 5 - Indicador de Contribuição ao Saldo Comercial do Brasil para a União Europeia – Grupo de Produtos – 2007/2017 NCM/Período 2007 2009 2011 2013 2015 2017 1 a 24 Alimentos, fumo e bebidas 63,95 103,72 109,12 137,78 117,98 25,44 25 a 27 Minerais 21,43 25,95 69,70 72,36 24,84 5,92 28 a 38 Produtos Químicos -25,80 -53,26 -59,89 -85,81 -92,63 -28,59 39 a 40 Plásticos e borracha -5,69 -8,91 -10,87 -18,49 -15,17 -5,74 41 a 43 64 a 67 Calçados e couros 5,64 5,99 6,56 8,10 7,06 1,55 44 a 46 Madeira e carvão vegetal 5,44 4,20 4,14 4,11 4,68 1,10 47 a 49 Papel e celulose -1,71 -2,44 -3,66 -4,23 -2,48 -1,20 50 a 63 Têxtil -0,88 -1,95 -2,27 -2,62 -2,57 -0,77 68 a 72 Minerais não- metálicos 5,03 4,23 14,71 7,50 16,41 6,05 73 a 83 Metais comuns -0,26 -3,10 -2,87 -7,61 1,40 -0,88 84 a 85 Máquina e equipamentos -39,39 -67,67 -88,56 -112,33 -91,47 -21,82 86 a 89 Material de transporte -5,34 -11,07 -32,09 -26,26 -38,52 -8,34 90 a 92 Ótica e instrumentos -7,11 -11,45 -14,27 -20,16 -17,41 -5,09 93 a 99 e 00 Outros 0,89 1,41 0,19 0,69 0,59 -0,08
Fonte: Elaboração própria baseada nos Dados do ComexStat do MDIC/Secretaria de Comércio Exterior (SECEX).
Na Tabela 5 são apresentados os índices de contribuição ao saldo comercial que foram obtidos para o Brasil no comércio com a União Europeia. Observa-se novamente a importância do grupo de Alimentos, Fumo e Bebidas, Calçados e Couros e Madeira e Carvão Vegetal, como grupo de produtos que representam vantagens comparativas no comércio com a União Europeia. Além disso, percebe-se a relevância de outros grupos de produtos como Minerais, Minerais não-metálicos e Outros. Portanto, esses grupos representam um ponto forte do Brasil nas relações com a União Europeia. É perceptível também, a característica em comum dos grupos aos quais o Brasil apresenta ponto forte, os quais são setores intensivos em recursos naturais e basicamente de origem primária.
Assim, como foram considerados desvantagens comparativas, setores como Produtos Químicos, Plásticos e borracha, Papel e Celulose, Têxtil, Máquina e equipamentos, Material de transporte e Ótica e instrumentos também foram considerados como ponto fraco na competitividade com a União Europeia, o que ressalta ainda mais a vantagem comparativa do Brasil no setor primário.