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DES RADIO-RÉCEPTEURS ET DES TÉLÉVISEURS

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Os esquemas imagéticos estabelecem um contraponto com a noção de frame inicialmente formulada por Fillmore (1982). Enquanto frame refere-se à estrutura argumental de um verbo, na perspectiva fillmoriana, os EI representam uma estrutura cognitiva de eventos. Assim, nesta tese, examino a semântica dos verbos de movimento em termos de frame/estrutura argumental e analiso os EI que os construtos com esses verbos acionam em termos de estrutura cognitiva.

Nessa perspectiva, os EI refletem experiências sensório-motoras ativadas pelas orações com os verbos de movimento sob exame. Esses esquemas são definidos, segundo Ferrari (2011, p. 86), “como versões esquemáticas de imagens, concebidas como representações de experiências corporais, tanto sensoriais quanto perceptuais, em nossa interação com o mundo”.

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Esse conceito, fundamentando em Lakoff (1987) e Johnson (1987), considera a (inter) relação entre percepção cognitiva e significado linguístico. Quando essa relação é armazenada na mente do usuário da língua, ele é capaz de conceber e significar linguisticamente noções de espaço e trajetória, entre outras. Langacker (2008, p. 535) amplia essa concepção, ao afirmar que:

A cognição é corporificada. Ela reside na atividade de processamento do cérebro, que faz parte do corpo, que faz parte do mundo. No nível mais básico, interagimos com o mundo através dos nossos sentidos e ações físicas. Existem outros níveis, é claro: grande parte do mundo em que vivemos é mental e socialmente construída. Mas, direta ou indiretamente, o mundo que construímos e apreendemos está fundamentado na experiência sensorial e motora. (tradução minha43)

Dessa experiência é que resulta uma série de EI que podem ser combinados entre si. Croft e Cruse (2004, p. 69), por exemplo, mostram que a nossa experiência de graus de peso combina dois EI: escala e peso. E admitem que é muito difícil separá-los, pois “PESO e ESCALA representam o relacionamento mais estreito entre domínios, isto é, o que Langacker descreve como dimensões de um domínio” (tradução minha)44. Esses autores fazem um inventário dos EI com base em relações perceptuais. Ao considerar o evento transitivo de movimento, os esquemas de espaço (que inclui noções de cima-baixo, frente-trás, esquerda- direita), escala (origem-caminho-meta) e contêiner (dentro-fora) são os mais propensos a serem acionados.

As dimensões de domínio descritas por Langacker (1987) dizem respeito aos diversos conceitos que podem ser perfilados, simultaneamente, por um único domínio45.

Com relação aos EI evocados pelos construtos da CMT, uma simples alteração da preposição que introduz o SP pode acarretar significados diferentes quanto ao tipo de espaço referenciado no evento. Demonstro com os seguintes dados:

43 Texto original: Cognition is embodied. It resides in processing activity of the brain, which is part of the body,

which is part of the world. At the most basic level, we interact with the world through our senses and physical actions. There are other levels, of course: much of the world we live in is mentally and socially constructed. But either directly or indirectly, the world we construct and apprehend is grounded in sensory and motor experience.

44 Texto original: WEIGHT and SCALE represent the tightest relationship between domains in a domain matrix,

that is, what Langacker describes as dimensions of a domain.

45 Croft e Cruse (2004) chamam a atenção para o fato de que os termos frame (Fillmore) e domínio (Fillmore,

Lakoff e Langacker) competem pelo uso e parecem identificar a mesma abordagem teórica. Conforme estabelecido anteriormente, neste trabalho utilizo frame para me referir à estrutura argumental de um verbo, enquanto domínio diz respeito mais especificamente a estruturas esquematizadas de conhecimento.

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(106) Ulysses McGill (George Clooney) foge da prisão com dois outros trapalhões para

buscar um tesouro enterrado e para evitar que sua mulher, Penny (Holly Hunter), aceite outros pretendentes. (Revistas On-line, Veja)

(107) O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás. (Revistas On-line, Época) (108) Ele fugiu para os Estados Unidos depois de passar quase três anos presos, sem

condenação. (Revistas On-line, Época)

Com base nesses dados, vê-se que as preposições introduzem pontos do percurso de um evento de movimento. Assim, a preposição de indica a Origem do movimento, em (106): da prisão; a preposição por em (107) designa o Caminho: pelo deserto; e em (108) para assinala a Meta: para os Estados Unidos.

Os EI evocados pelos construtos da CMT envolvem percepções relacionadas a um contêiner ou a uma relação escalar de trajeto que engloba origem-caminho-meta, conforme serão tratadas a seguir.

3.2.4.1 Contêiner

Em eventos de movimento com verbos transitivos, o EI de Contêiner está relacionado a tipos de recipientes capazes de acondicionar participantes desse evento. Ancorada em Lakoff (1987) e Johnson (1987), Ferrari (2011, p. 87) diz que “o esquema imagético CONTÊINER resulta de nossas experiências com objetos desse tipo, originando expressões que indicam movimento para dentro ou para fora”, tais como um barco que navega para “dentro de um túnel” ou uma pessoa que joga toda a sua raiva “para fora”. No segundo caso, parte-se do princípio de que, metaforicamente, o corpo funciona como um contêiner, local de onde a raiva é removida.

Para Talmy (2000), o Contêiner corresponde ao espaço que suporta dois tipos de manipulação: extração e depósito. Os dados analisados corroboram essa asserção. Quando se trata de extração, temos um ponto de origem do movimento, como de dentro do carro, em (109). Quando é depósito, temos o destino do movimento, como na tijela da Batedeira, em (110).

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(109) [...] ela ficou dentro do ... das ferragens do carro ... fratu/ fraturou a perna ... sabe? foi

uma luta pra tirar ela de dentro do carro ... (Corpus D&G Natal, Fala, p. 222)

(110) Colocar todos os ingredientes na tigela da Batedeira e ligar no maximo com batedor para massas leves mais tem que bater todos os ingredientes até a massa ficar homogenea e despejar numa forma untada e povilhada. (Corpus D&G Natal, Escrita, p. 336)

Isso mostra que o EI de Contêiner se relaciona diretamente com o sentido lexical de TIRAR, o qual implica a participação deum recipiente (expresso pelo SP) de que se pode extrair uma entidade, como ela, em (109). O verbo COLOCAR, por sua vez, perfila um ponto do esquema que corresponde ao alvo/meta do movimento, um recipiente (na tigela da Batedeira) em que se pode depositar um objeto, como todos os ingredientes, em (110).

3.2.4.2 Trajetória: origem, caminho e meta

Em eventos de movimento, a Trajetória, tal como proposto por Croft e Cruse (2004), constitui-se em um EI composto de um ponto de partida (origem), de um percurso (caminho) e de um ponto de chegada (meta). Vejamos os seguintes dados:

(111) O advogado afirmou também que, na entrevista, Macarrão teria dito que quando trouxe Eliza e o adolescente J. – primo do ex-goleiro Bruno – do Rio de Janeiro a Belo Horizonte (MG), eles teriam dado carona a um policial militar até a cidade de Juiz de Fora, no interior de Minas. (Revistas On-line, IstoÉ)

Em (111), a Origem e a Meta da trajetória percorrida pelos participantes Macarrão, Eliza e o adolescente J., são revelados pelos SP do Rio de Janeiro e a Belo Horizonte (MG), respectivamente. Nesse caso, o Caminho é o percurso entre essas capitais.

A correlação entre frames e EI é fundamental para o desenho da rede construcional do EMT. Se, de um lado, a nossa capacidade de identificar os papéis semânticos desempenhados pelos argumentos dos verbos de movimento provém da experiência adquirida no uso da língua em interação, de outro, os esquemas armazenados na memória nos permitem identificar distintos eventos de movimento, a exemplo dos descritos na Subseção 3.2.3.

Percebe-se, portanto, que o contêiner está atrelado a eventos de manipulação, e a trajetória, a de deslocamento.

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