Nessa seção apresentamos algumas reflexões acerca do gênero selecionado para a intervenção pedagógica proposta. Explicitamos informações relacionadas a esse gênero como suas características estéticas e funcionais e apresentamos o mesmo como instrumento eficaz de representação da identidade e da cultura.
O início da Literatura de cordel ocorreu durante o século XVI, quando o Renascimento passou a popularizar a impressão de relatos que eram feitos oralmente pelos trovadores. De acordo com TAVARES (2009) “Onde quer que existam populações que não sabem ler nem escrever, existirá poesia oral, conto oral, narrativa oral, porque as pessoas não acham que o analfabetismo pode impedi-las de praticar a poesia e a narrativa [...]”. Com o tempo os artistas começaram a registrar suas falas em folhas soltas (conhecidas como “volantes” em Portugal) e prendê-las em barbantes, de forma que, ao recitá-las, suas mãos estariam livres e dispostas aos movimentos.
Vinda da Europa, este tipo de literatura foi introduzida no Brasil trazido pelos portugueses, desde o início da colonização, tendo se popularizado graças aos cantadores Silvino Pirauá, Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista.
Em 1881 surge o verbete “cordel”, sinônimo de publicação de baixo valor. Ao longo dos séculos, adquiriu características próprias, recebendo mérito. Os livretos (impressos com oito, dezesseis ou trinta e duas páginas, com dimensões que não costumam ultrapassar as da palma da mão e ilustrações feitas por xilogravuras) têm pouco mais de cem anos e nasceram graças a algumas prensas de jornal.
De acordo com Spadafora (2010, p. 46) para conseguir vender seus folhetos, “o poeta fazia a leitura oral de trechos e, assim, despertava o interesse do público, que queria saber o final da história.”. A verdade é que o cordelista, além de poeta, é um verdadeiro repórter. [...].
O cordel, gênero textual utilizado nessa pesquisa como instrumento de trabalho para o (re) conhecimento, divulgação e valorização da cultura regional e das variáveis linguísticas, está ligado à tradição popular.
A escolha do gênero “cordel” se deu diante da possibilidade de contato com um artefato que representasse e traduzisse a cultura regional, possibilitando a identificação de palavras e expressões que traduzissem múltiplas manifestações linguísticas, estimulando um olhar crítico e reflexivo sobre a realidade em comunhão com os mais variados temas sociais.
Trata-se de um gênero produzido para um público variado que, além de proporcionar lazer, informação, emoção (SPADAFORA, 2010) traz também temáticas sociais, sendo capaz de encantar por revelar particularidades de um povo e destacar palavras e expressões que têm uma representatividade no que diz respeito às múltiplas variedades da língua.
Os PCN sugerem o uso em sala de aula, não apenas dos gêneros considerados formais, mas também dos gêneros populares que permitem ao educando um satisfatório contato com essa variação, percebendo sua funcionalidade, além de oferecer mais um elemento para que o aluno possa se apropriar para uso em eventuais necessidades comunicativas.
O cordel pode e deve ser considerado um artefato estético, já que oferece às pessoas oportunidades de observarem um trabalho criativo e dinâmico realizado pelos autores com a linguagem. Sem contar que também se revela um instrumento eficaz de combate ao preconceito linguístico, pois através de seus versos, rimas, estrofes comprova uma ampla possibilidade de transmissão de saberes, interação, comunicação e conhecimento.
Atualmente, o cordel é visto como um gênero que precisa ter seu espaço garantido no trabalho cotidiano escolar, levando em consideração que é uma produção artística capaz de promover o gosto pela leitura, tendo em vista seu caráter melódico, simultaneamente informativo, fantasioso, humorístico, social, lúdico e ainda instrumento capaz de transitar pelas diversas disciplinas do currículo, oportunizando um trabalho multidisciplinar.
O gênero cordel oportuniza ao leitor o contato com as variáveis linguísticas, por isso, a proposta deste trabalho é que se utilize o cordel como instrumento de ensino, onde as variáveis linguísticas encontram campo para se fazerem presentes, mostrando que não devemos fazer da língua um instrumento de segregação cultural, afastando a ideia do preconceito linguístico, alimentado pela ideia equivocada de existir uma língua superior à outra.
No momento da construção dos textos, o cordelista, com a liberdade de abordar quaisquer temas, é capaz de envolver seu leitor que adquire novas vivências e conhecimentos com estas experiências de leitura, além de ir ao encontro de um instrumento eficaz de reconhecimento, divulgação e reafirmação da nossa história, identidade, língua e cultura. Conforme afirma Pinheiro (2012, p. 70), “o dinamismo da cultura, o poder que tem de se renovar, de recriar velhos e significativos temas é uma das marcas da literatura de cordel.”.
A utilização este gênero em sala de aula, sugerido pelos PCN como objeto de ensino e aprendizagem de Língua Portuguesa, através do qual os alunos ficam expostos à pluralidade cultural, visa proporcionar ao educando, além de informação e entretenimento, o contato com os mais diversos temas do cotidiano. Objetiva-se ainda oportunizar o conhecimento e a apreciação da cultura popular brasileira, principalmente, a nordestina, haja vista a mesma ser possuidora de contextos significativos e exemplos reais de uso das variações linguísticas, permitindo que os educandos tenham uma compreensão satisfatória das mesmas, já que o gênero utiliza expressões e palavras comuns à fala coloquial e próximas à sua realidade. Vale salientar, ainda, que:
A literatura de cordel, ao longo de sua história, tem sido instrumento de lazer, de informação, de reivindicações de cunho social, realizadas, muitas vezes, sem uma intencionalidade clara. Podemos apontar no cordel uma acentuação do caráter de denúncia de injustiças sociais que há séculos estão presentes em nossa sociedade. Seriam muitos os exemplos desta faceta da literatura de cordel. [...] (PINHEIRO, 2012, p. 88)
O “encontro” dos leitores de literatura de cordel com a língua materna proporciona aproximação, (re)conhecimento e uso da linguagem popular, comprovando a presença relevante das variáveis linguísticas neste contexto de produção. Entretanto, para que tal encontro ocorra de forma satisfatória, produtiva, é preciso uma empatia sincera com a cultura popular, desmitificando e superando qualquer preconceito que possa haver.
Assim sendo, para atingir nossas metas de organizar uma proposta de intervenção na qual seja enfatizado o ensino das variáveis linguísticas como manifestações possíveis da linguagem, é preciso que os alunos percebam que não deve existir o prestígio de uma variável em detrimento à outra, ressignificando, portanto, o preconceito linguístico. Para consecução dos propósitos estabelecidos foram tomados os referenciais teóricos anteriormente mencionados que embasaram e deram suporte aos posicionamentos, às ações, e acima de tudo, corroboraram as ideias aqui apresentadas e defendidas.