Dynamique de ligaments fortement ´etir´es
3.4 R´ esultats : temps de brisure
A Trança Feiticeira é, tal como Amor e Dedinhos de Pé, um romance de
costumes que tematiza uma relação sentimental. Romance fechado, constitui-se numa urdidura linear com o princípio, meio e fim demarcados e contendo uma sequência temporal sem ressaltos cronológicos. Na primeira parte, ao longo de nove capítulos, o narrador heterodiegético dá-nos a conhecer o protagonista, um jovem macaense, um ‘Mamão’, oriundo de um dos bairros mais característicos de Macau e que albergava a média burguesia quase exclusivamente macaense, o bairro de Santo António “O Belo Adozindo não possuía a abastança das mansões da Praia Grande e de S. lourenço ou das casas que principiavam a erigir-se na Avenida da República, mas vivia muitíssimo bem, com a largueza típica de um mamão de Stº António” ( p.43), um retrato que em interessante dialogismo nos remete para algumas passagens do protagonista machadiano de Brás Cubas. O Belo Adozindo, em quem a família depositava grandes esperanças de ascensão social, pois de acordo com os costumes estaria destinado a uma menina de família com igual ou superior prestigio na comunidade, perde-se de amores por uma aguadeira chinesa de humilde condição.
A relação entre o protagonista e a pequena aguadeira é o resultado de um capricho irresponsável de Adozindo numa representação que patenteia a desigualdade de relações entre as duas comunidades e sobretudo representa, embora de forma atenuada na discursividade a relação colonial. Os filhos-família ‘patrícios’ da comunidade dominante130 considerando-se com direitos sobre as
raparigas da comunidade chinesa, que eram olhadas como pertença sua, na medida em que, maioritariamente ocupavam, na cidade cristã, as funções inferiores, como serviçais e, naturalmente, numa posição de submissão de acordo com a sua condição social, não lhes sendo permitido pôr em causa o convencionalmente estabelecido, tanto devido a essa condição, como também pelo facto de pertencerem à ‘cidade chinesa’.
Foi, pois, o desafiar dessas convenções “ (…) em vez de enlanguescer-se perante a sua [de Adozindo] beleza irresistível, a rapariga ousava sujar-lhe os sapatos lustrosos e as calças sem se desculpar. E era uma aguadeira ou lavadeira
de categoria abaixo de uma criada de servir. A desfaçatez!” (p.19) o que leva Adozindo ao capricho quase obsessivo de conseguir da aguadeira aquilo que considerava como um direito.
O narrador heterodiegético, na medida em que não se configura como um enunciador explícito, nem é co-referencial com nenhuma personagem, na sua omnisciência demiúrgica ( Friedman:1975:cap.8) confronta-nos com o quebrar de regras que regiam cada uma das comunidades e que emolduravam a dimensão simbólica das relações sociais, não só, entre as comunidades e que se consubstanciavam na interdição imposta no que concernia a outro tipo de contatos que não fossem os de trabalho ou trocas comerciais; mas, ainda, entre as camadas socioeconómicas da comunidade macaense, os comportamentos associados e as práticas.
O que deveria ter sido um relacionamento fugaz e com perda evidente para A-Leng, pois acabaria inevitavelmente na Rua da Felicidade131, transforma-se
numa relação séria e numa representação do entendimento do autor sobre o comportamento que a formação moral dos jovens da comunidade macaense perspetivava; o protagonista, enfrentando toda a cidade cristã que o condena, numa atitude de manifesta intolerância, assume a responsabilidade da sua leviandade; também A-Leng enfrenta a sua gente, e ambos são ostracizados pelas respetivas comunidades, carreando uma quebra nos laços de solidariedade.
Á-Leng era oriunda de um bairro fechado, pequena aldeia chinesa na extrema da cidade cristã, com um forte vínculo aos valores da cultura tradicional chinesa: “ O mundo de A- Leng era o bairro onde vivia e para onde fora trazida garotita, por uma velha a quem chamava de avó, sem o ser (…) menina e moça ainda sem forças para transportar baldes começou por confeccionar caixas de fósforos (…) a rapariga esperava ansiosa pela festividade do pagode de Tou Tei que quebrava com a rotina dos seus dias sempre iguais (…) também aguardava (…) os dias dos festejos do Ano Novo Lunar (…) começava, à meia-noite, no meio do estralejar dos panchões, por bater cabeça no templo (…)” e com um profundo controlo social: “ a rainha [das aguadeiras] era uma mulher avantajada, cerca de quarenta anos, que imperava no poço, a Abelha-Mestra de todo aquele mulherio (…) quando (…) se enfurecia calava-se o poço inteiro, o casario em volta recolhia- se, a criançada irrequieta debandava espavorida.” (P.15-16).
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Adozindo era o varão de uma família patriarcal e, tal como o protagonista do romance anterior, representa a família de distinção “que no Brasil se designaria de «família quatrocentona»”, membro, portanto, da fração dominante da burguesia e detentor de elevado capital simbólico, com várias gerações nascidas no bairro de Santo António, o bairro da burguesia macaense abastada, fechado e com grande controlo social, profundamente conservador e católico.
Expulsos dos seus lugares de pertença, os dois bairros mais característicos e reveladores em termos identitários das duas comunidades, refugiam-se nas franjas desses lugares e sem meios de subsistência, pois Adozindo frustra as possibilidades de um emprego condicente com o seu estatuto, na cidade cristã, sendo exemplificativa a forma como a comunidade macaense se posiciona em relação à comunidade chinesa e demonstrando a existência de praticas distintivas impossíveis de serem ultrapassadas, pois poriam em causa o habitus de toda uma comunidade: “ Invejou os chineses que podiam aceitar tarefas mais humildes, como cules, varredores de rua pedreiros ou marceneiros que ninguém reparava. Mas a ele, filho-da-terra, estava vedado descer a tão humildes profissões, ainda que morresse de fome (…)” (p.91).
A ajuda surge de uma amiga e antiga colega de profissão de A-Leng “(…)uma das que poucas que saíra do bairro para casar com o dono de uma lojeca de pivetes da rua da barca (…)”(p.83)numa forma de solidariedade esperada a uma comunidade sem grandes assimetrias no campo económico em que prevalece a entre ajuda; e de um antigo colega de escola de Adozindo de condição social inferior à sua “(…) Valdemero (…) a quem nunca dera suficiente importância (…) noutra situação, Adozindo não se dignaria dirigir-lhe a palavra. (…) um emprego e do insignificante Valdemero?” (pp.92-93); consideramos esta situação reveladora da importância, que o capital social e económico e, sobretudo, a posição simbólica ocupada não seio da comunidade, tinham na estruturação distintiva da comunidade macaense.
Se a aceitação do casal por parte da comunidade chinesa foi relativamente fácil, no que concerne à comunidade macaense revelou-se um longo percurso que ambos tiveram que percorrer, embora de forma desigual, na medida em que para A-Lenga, como se pode constatar no excerto seguinte, a aceitação, por parte da comunidade do Outro-marido, associou-se à renúncia de si própria e à submissão aos valores culturais do marido ou seja à assimilação:
― (…) para a minha gente, para se considerar casado, requer-se ir à igreja diante do padre.
― Mas eu não sou católica.
(…) Se aquilo era a vontade dele e o mundo dos «kuai-lous» assim exigia, que remédio senão submeter-se. (…) Foi assim, com relutância, que anuiu abraçar a religião do seu homem. A-Sôi consolou-a:
― O que tem de ser, tem de ser. Leva daqui pivetes e vai ao templo aplacar os teus deuses.
Este romance textualiza a aproximação das duas comunidades, consubstanciada, nomeadamente, em alguns segmentos frásicos que exemplificam com especial pertinência este devir de união: um respeita à mais célere aceitação do casal misto pela comunidade chinesa: “(…) e um chinês quando é amigo, é amigo de verdade, generoso, mãos largas (…)”; outro, que nos permite considera- lo a metáfora do devir, concerne a um momento da narrativa em que Adozindo se desequilibra e A-Leng o segura dizendo: “―Apoia-te a mim que nunca hás-de cair.” E Adozindo responde: “ ― Eu sei…Contigo estou sempre seguro”
(
p.118); ou ainda outro excurso do narrador, passível de ser olhado também como uma metáfora, sobre o decurso da relação entre Adozindo e A-Leng: “(…)Ao fim e ao cabo, havia uma plataforma de entendimento de parte a parte, alcançada não por imposição ou por brutalidade, mas através da paciência e da lenta persuasão que amolecia o contendor.” (p.121) Embora, tendo em conta a ficcionalização do contexto epocal, essa aproximação esteja representada de forma desigual, verificando-se a supremacia da comunidade macaense/portuguesa em relação à comunidade chinesa de Macau.Contudo constata-se um olhar crítico por parte do narrador ao conservadorismo da cidade cristã, associado a uma certa hipocrisia, que se consubstancia numa demonstração exteriorizada de fortes valores morais de humanidade e numa profunda crença religiosa e que na realidade prática se mostra pouco solidária, no sentido humanista, com os seus; esta ausência de solidariedade, manifesta-se nos romances sempre que um dos elementos da comunidade põe em causa as normas estabelecidas pelo grupo, caso contrário verifica-se a ‘solidariedade de grupo’ que não deixou de ser manifesta na atitude de Valdemero, colega macaense de extrato social mais baixo, mas que não configura relações autenticas mas sim reações de partilha de ‘infortúnio’ que se consubstanciam em posições de defesa perante a ameaça do outro que nestas
circunstancias tanto poderia ser o Outro etnicamente diferente ou o Outro socialmente diferente.132
A inflexibilidade e a mentalidade imbuída de preconceitos, - eventualmente associados a estratégias, que poderiam ser inconscientes, de distinção identitária carreadoras da necessidade de auto proteção perante a possibilidade de diluição por parte de uma comunidade significativamente mais numerosa - e muito pouco seguidora dos valores da moral cristã, assumidos como código de conduta, podem ser constatadas no excerto do diálogo entre Adozindo e seu pai quando A-Leng é expulsa do seu bairro onde se pode também constatar traços de um discurso de cariz colonial - o Outro visto sempre como inferior :
―Oh, Papá, deixa-a entrar e depois conversaremos. ―Não.
― Não permita que a vizinhança…
―Já te disse. Esta badalhoca rafada não passa pela minha porta. (…)
―Já afirmei que ela é uma rapariga decente. E esta também é a minha casa.
―Não, não é. Para fazeres o que te apetecer. Não ganhaste para isso. Só tens dois caminhos a seguir. Ou ires com ela, ou entrares muito obedientemente para dentro, sem ela. È uma questão de dinheiro, paga-se e acabamos com toda esta vergonha. (TF:74)
É de referir que esta inflexibilidade e preconceito, no que concerne à atitude da própria família, tinha como fundamento o facto de a mudança de estatuto e a consequente mobilidade social descendente de Adozindo, através do casamento com uma mulher de condição inferior e de outra comunidade, carrear a perda de prestígio da sua família “Quando souberam do casamento de Adozindo em S. Lázaro, ele [O pai, Aurélio] e a mulher afastaram-se da vida social. Vergava- os o estigma da vergonha, esconderam-se como se enlutados. (…) Era
132 A propósito desta ocorrência refere J.C. Venâncio, na linha do pensamento Weberiano,
que os macaense podem ser entendidos como um grupo de status, sendo “estes grupos constituídos por membros que ocupam posições cimeiras nas sociedades, no que se confundem com as respetivas elites, como deles também fazem parte elementos que, partilhando das suas características culturais, linguísticas e/ou somáticas, pertencem a estratos sociais baixos.”( Venâncio: 2006:3)
humilhante”; esta situação atinge a prima de Adozindo, moça casadoura que acaba por aceitar a corte de um sargento, o que consubstancia um excurso narrativo denotador da distância em relação ao outro/pátria e do elitismo subjacente à comunidade “Casar com um sargento de tarimba, um europeu que, mais dia menos dia, a transportaria para muito longe, para, ao fim e ao cabo «cavar batatas» (…) A mãe e a tia opuseram-se.”133