A imposição do ideal heterossexual de conduta sexual da sociedade burguesa faz surgir movimentos de afirmação, por exemplo, a subcultura camp37que recorre, quase sempre, à exacerbação dos estereótipos homoeróticos. O equivalente brasileiro deste termo americano é fechação, ou seja, os homossexuais procuram escandalizar não somente os tipos de comportamentos dos homossexuais que são discriminados, mas também os dos heterossexuais que são valorizados. Entre si, tratam-se no feminino e reagem agressivamente a qualquer indício de pudor. Insultam de “enrustidos”38
ou de “homossexuais incubados” todos aqueles que não declaram, publicamente, a sua homossexualidade. Segundo Costa (1992), na manifestação camp existe um código de comunicação que, como todo código, é semanticamente ambíguo. De certo modo, o contexto da zombaria exprime uma condenação do preconceito. Essa maneira de agir, entre eles, não significa uma desqualificação moral, mas, sim, uma retomada lúdica e sarcástica de tudo aquilo que possa ser usado como motivo de preconceito. Ainda para esse autor, a tentativa de romper os preconceitos, ao invés de fortalecer um modo de vida diferenciado da maioria, parece mais que denuncia o quanto essa cultura camp está presa aos ideais morais que fazem da homossexualidade uma “aberração”.
Embora esses movimentos tenham uma intenção positiva, porém constituem-se numa atitude inadequada de luta pela aceitação das diferenças de conduta sexuais. Com base na mesma ideologia que, nos últimos tempos, se construiu a Barbie, a que se refere Gontijo (2009). Tais posturas, de alguma forma, tendem a reforçar o preconceito que quer ver o homossexual como “bobo da corte”, em meio à “nobreza heterossexual”, ou seja, entre o amaneirado de antes, que fazia o papel caricatural que a sociedade criara, e o hipermacho que faz a mímica do ideal da masculinidade (Badinter, 1992; Costa, 1992). Este último questionamento parece fazer eco na figura do “entendido39”, termo que surgiu na década de 60 com o mesmo objetivo do termo gay e, segundo Fry (1982), englobou todos os homens com orientação homossexual e se opôs à tradicional hierarquia que os dividiam entre “bofes” e bichas. A categoria denominada de “entendido” tem como marca manter as características masculinas secundarias: bigode,
37 “Camp” é uma palavra da gíria americana para designar o comportamento exagerado, escandaloso,
propositadamente efeminado de homossexuais ou de certos círculos homossexuais (Sontag, cit. in MacRAE, 1990).
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“Homossexual não assumido é o indivíduo que, na linguagem popular, é chamado de enrustido ou incubado. Acomoda-se numa dualidade existencial em que a ocultação e a clandestinidade de suas práticas homoeróticas são preocupações obsessivas” (Lima, 1983, pp. 14-15).
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Se denomina fundamentalmente quem “transa” “ativo”/“passivo” como pessoas do mesmo sexo sem que adote necessariamente trejeitos (Fry, 1982; Fry & MacRae, 1985).
barba, músculos etc. A relação com o parceiro é norteada pela noção de igualdade. Nesse sentido, Montoya (cit. in Forcano, 1996) diz:
O homossexual não será rechaçado por sua degração ou por seu poder de sedução, mas pela ameaça que representa à classe masculina. De facto, é ela que detém o poder na sociedade e quem determina como valor e característica de todo varão, o poder. O poder é o que define e realiza o varão, o que o faz ser ativo, legislador, guerreiro, conquistador. (p. 370)
É sobre essa ameaça ao masculino que se desevolve a defesa homofóbica, um fenômeno de dimensão mundial que se perpetua ao longo dos séculos, contra a transgressão que é a função sustentada pelos homossexuais nas mais variadas inversões de papéis (Touraine, 2007a), o facto de ser homossexual, por si só, já caracteriza uma transgressão porque contraria o contexto da heterossexualidade como parâmetro da normalidade. Na realidade, o homossexual coloca a masculinidade em questão e como insustentável (Trevisan, 2002). A homofobia é uma forma de controle social que se exerce sobre os homens, desde os primeiros passos da sua educação. Para ser valorizado, o homem precisa ser viril, mostrar-se superior, forte, competitivo, do contrário, será tratado como fraco e mulher, e assinalado aos homossexuais (Welzer- Lang, 2004). Em suma, o homossexual é alojado no território do marginal, do desvio, do estrangeiro (Paiva, 2007). Embora bissexual e homossexual se permitam à prática sexual “passiva”, no entanto, é sobre o homossexual com visibilidade que “pesa o estigma da virilidade perdida” (Trevisan, 2002, p. 468). Portanto, é “colocado em patamar inferior ao feminino da mulher” (Seffner, 2003, p. 126), ou remetido à condição de animal e objeto depreciados, por meio da qual o entorno se autoriza a insultá-lo de paneleiro, bicha, viado etc.
Na perceção de Dover (1994), para o senso comum o homossexual está associado ao comportamento sexual “passivo”, assim, todo homossexual, necessariamente, se enquadra no estereótipo persistente de um homem com traços delicados e físico frágil, e que imita as mulheres, e por isso mesmo é, apropriadamente, designado de “boneca” ou “bichinha”, ou seja, apresenta a “visibilidade do estigma” (Goffman, 1988). Mas, o suposto “passivo”, nem sempre, explicita sua conduta sexual, prova disso é que muitos até se mostram excessivamente másculos, por meio da figura da barbie, em consonância com a ideologia de que tem como objetivo contrariar os estereótipos, bem como de seguir a tendência atual do culto ao físico.
A relação homem/homem é estruturada de modo similar a imagem hierarquizada das relação homem/mulher (Welzer-Lang, 2004). É sobre o tipo que apresenta “visíbilidade do estigma” que a intolerância social pode puni-lo por meio da violência que vai da simbólica as mais drásticas e concretas, por exemplo, nos últimos quinze anos mataram no Brasil mais de 1500 gays e travestis, vítimas de crimes homofóbicos (Mott, cit. in Silva, 1999). Esse número, na verdade, é apenas uma estimativa, uma vez que nem todos os casos são notificados ou sua divulgação fica circunscrita à região do homicídio.