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Filosofia e construção social da surdez influenciaram-se mutuamente ao longo da história do pensamento. Por um lado, quando consideramos as origens das teorias sobre pensamento e linguagem, devemos levar em conta os efeitos que o estudo da surdez imprime sobre as visões cartesianas e empiristas acerca da origem das ideias. Por outro lado, alguns conceitos e teorias, desenvolvidas a partir daí, estão presentes até hoje no imaginário social sobre a surdez e mesmo em diferentes teorias da psicologia sobre a deficiência.

Na Política de Aristóteles (1985, 1253a), podemos encontrar uma relação direta entre fala e pensamento:

Como costumamos dizer, a natureza nada faz sem um propósito, e o homem é o único entre os animais que tem o dom da fala. Na verdade, a simples voz pode indicar a dor e o prazer, e os outros animais a possuem (sua natureza foi desenvolvida somente até o ponto de ter sensações do que é doloroso ou agradável e externá-las entre si), mas a fala tem a finalidade de indicar o conveniente e o nocivo, e portanto também o justo e o injusto; a característica específica do homem em comparação com os outros animais é que somente ele tem o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto e de outras qualidades morais, e é a comunidade de seres com tal sentimento que constitui a família e a cidade.

Para Aristóteles, a essência necessária do homem é o fato de ser racional (ABBAGNANO, 2007) e ele associa a racionalidade, principalmente, à fala, como mostra a citação acima. Por dedução, suas ideias serviram de embasamento para a noção de que o surdo, por não ter acesso à linguagem tal como ela é para os não-surdos, estaria excluído da condição de racionalidade e também deposto da condição de humano. Pelo menos, até o final do século XVI, isso qualificou o surdo como inapto para o ensino, excluído do direito ao casamento, à posse de bens ou à herança (FENEIS; FADERS; SECRETARIA DA EDUCAÇÃO, 2005). No século XVIII, em carta publicada em 1751, Diderot (1993) defende que a

observação de surdos-mudos7 de nascença seria a forma ideal de compreender a formação da linguagem, uma vez que estes reproduziriam o homem primitivo em

seus primeiros contatos com uma língua e demonstrariam o pensamento em seu estado inicial. O texto de Diderot, longe de representar o reconhecimento do surdo como sujeito pensante, o apresenta como um curioso objeto de investigação. Como afirma Virole (1990, p.09), não apenas sobre Diderot, mas também sobre ele: "A referência aos surdos-mudos na história das

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A expressão surdo-mudo não é mais empregada, mas a utilizo aqui para manter a forma utilizada pelo autor: les

sourds et les muets.

ideias vai se inscrever na linhagem das ficções imaginárias que o Homem construiu para se conhecer a si mesmo."8

Diderot (1993) afirma, por exemplo, sobre a impossibilidade de a pessoa surda compreender conceitos abstratos, defendendo uma visão que ainda hoje persiste no senso comum, particularmente explicitada à respeito da língua de sinais, como ela sendo incapaz de comunicar ideias abstratas e não permitindo a expressão de algumas figuras de linguagem, como a metáfora e a ironia, por exemplo. Esta é uma compreensão que, embora

venha sendo negada pelos pesquisadores e usuários das línguas de sinais, ainda é encontrada na prática. Como afirma Skliar (2010, p. 24):

Mesmo agora, quando numerosas pesquisas já têm demonstrado que as línguas de sinais cumprem todas as funções descritas para as línguas naturais, ainda persiste e chama a atenção a sua desvalorização o seu tratamento como mescla de pantomima e de sinais icônicos, e a sua consideração enquanto um pidgin9 primitivo.

Segundo Virole (2006), a surdez e a cegueira se tornaram eixos centrais nas discussões entre o pensamento cartesiano e a filosofia empirista de Locke, no que diz respeito à origem do conhecimento. Os antecedentes filosóficos dessa discussão podem ser encontrados nas divergências entre Protógenes, Platão e Aristóteles. Aggio (2006) faz uma análise das ideias desses três filósofos no que diz respeito à relação entre sensação e conhecimento. Para Protógenes, identificado à corrente filosófica dos sofistas, há identidade entre sensação e pensamento e a qualidade sensível só existe no encontro entre percipiente e objeto, sendo radicalmente dependente do primeiro.

Aristóteles, por sua vez, distingue sensação de pensamento, entendendo ambos como operações que têm como função conhecer. Tal como Protógenes, ele identifica uma função discriminativa na percepção. Para ele, a sensação depende das coisas externas, enquanto o intelecto depende da percepção dessas, posto que se constrói sobre formas sensíveis. Assim, há uma relação de dependência entre sensação e pensamento, mas não de identidade. Segundo Aggio (2006), diferentemente de Protógenes, Aristóteles entende que a qualidade sensível é uma atribuição real da coisa, enquanto a aparência se refere a uma afecção do sujeito que percebe. Para Platão, é a reflexão, e não a percepção, que determina o objeto sensível. Para o filósofo, não são os órgãos dos sentidos que percebem, mas sim a alma que o faz, através

8Tradução da autora. No original: “La référence aux sourds muets dans l’histoire des idées va s’inscrire dans la

lignée de fictions imaginaires que l’Homme a construit pour se connaître lui-même ".

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Língua rudimentar, criada artificialmente para permitir o contato, na ausência de um idioma comum. É uma solução historicamente encontrada em zonas de comércio, onde falantes de diferentes línguas precisam se comunicar. Não possui uma gramática elaborada e seu uso é limitado a situações específicas e práticas.

deles. Dessa forma, o corpo exerce uma função apenas material. Segundo suas ideias, a alma é dotada de conceitos inatos e procede a comparações para discriminar aquilo que o corpo sente de forma indistinta. Assim, a percepção é já uma função do intelecto.

As ideias de Platão estão nas bases do racionalismo, corrente filosófica que tem na razão a principal fonte de conhecimento. Descartes é considerado o autor inicial do racionalismo moderno, embora não tenha usado ele mesmo essa denominação. Tal como Platão, ele defendia a natureza inata das ideias. A invenção e o uso de uma linguagem de sinais pelos surdos, como instrumento para comunicar seus pensamentos, são apontados por ele (DESCARTES, 2007) como prova de que o pensamento é inato e universal e principal marca de distinção entre animais e homens.

O empirismo, por sua vez, é uma corrente filosófica que tem como principal característica tomar a experiência como critério ou norma de verdade (ABBAGNANO, 2007), o que é diferente de dizer que ela toma a experiência como única via de acesso ao conhecimento. De qualquer modo, a ideia de uma origem sensualista do pensamento a coloca em embate com o racionalismo. Para Abbagnano (2007), duas características são essenciais ao empirismo: 1. negar o caráter absoluto da verdade acessível ao homem; 2. afirmar que toda verdade deve ser posta à prova.

O que nos interessa analisar é como a filosofia empirista, particularmente aquela associada às ideias de Locke, se posiciona diante do conflito posto pela evidência de que surdos e cegos são capazes de desenvolver ideias claras sobre as coisas, a despeito da ausência de um dos sentidos. De acordo com os primeiros empiristas, a ausência de um dos sentidos levaria consigo um tipo de conhecimento, impossível de ser adquirido por outro meio. Como afirmou Locke (1999, p. 276): "Porque os que carecem dos órgãos de qualquer sentido nunca podem ter as idéias pertencentes a este sentido produzidas em sua mente (itálico no original)." Para Virole (2006), essa teoria tem repercussões até os dias de hoje, que se tornam evidentes na compreensão do surdo como alguém que possui uma capacidade limitada de compreensão e abstração. Ainda, uma das hipóteses da teoria do funcionamento sensorial, que busca explicar a percepção dos surdos, se sustenta na ideia de contágio, que afirma que a privação de um sentido resulta na fragilização dos outros (MARTIN-LAVAL, 1980), fazendo eco à visão dos filósofos empiristas ingleses.

Diante deste conflito, os teóricos sensualistas franceses se distinguem dos empiristas ingleses pelo desenvolvimento da noção de suplência de sentidos, validada justamente pelos resultados obtidos na educação de surdos. Ao se reconhecer a possibilidade de que um sentido possa

substituir outro na apreensão do mundo e construção do conhecimento, cai por terra a ideia de uma hierarquia entre os sentidos e revela-se a ideia de que há uma redundância sensorial na relação com os objetos do conhecimento (VIROLE, 2006). Esta visão também se revela na teoria sobre o funcionamento perceptual dos surdos, porém na hipótese contrária àquela do contágio, denominada hipótese da compensação. Pela teoria da compensação, diante de uma perda sensorial, o organismo aumentaria a capacidade de percepção dos outros sentidos (MARTIN-LAVAL, 1980).

De fato, pesquisas recentes no campo das neurociências tentam comprovar a potencialidade da plasticidade cerebral, que pode levar à suplência de sentidos, ou mecanismo semelhante. Sacks (2006), por exemplo, fala do potencial criativo das deficiências, que podem deflagrar formas inesperadas de desenvolvimento. Ele cita o trabalho pioneiro de Alexander Luria, desenvolvido a partir de sua prática com crianças cegas e surdas, em que ressalta a diferença qualitativa do desenvolvimento dessas crianças. Tais constatações demandam a construção de uma nova visão sobre a constituição e o funcionamento do cérebro, mais dinâmica e que considere sua capacidade de adaptação.

Vygotsky (1997), parceiro de trabalho de Luria, retoma o conceito de suplência de sentidos, porém de forma crítica. Segundo esse autor, é preciso afastar-se de uma compreensão meramente biológica e ingênua da compensação, ou seja, de uma substituição de sentidos que se daria de forma automática e inerente à deficiência, e direcionar-se para o reconhecimento de seu motor sócio psicológico. Para ele, o conflito originado do contato com o meio externo e com a demanda social que dele advém é que pode deflagrar a compensação. No entanto, conforme afirma Vygotsky (1997), essa não é uma condição exclusiva da pessoa deficiente, mas uma característica geral do desenvolvimento e de sua orientação para o futuro.

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