As experiências vividas nas Bocas de Noite foram bastante enriquecedoras para o processo que o grupo vinha passando desde fevereiro. A oficina sobre o a história do cangaço, e a de teatro, além da roda de conversas sobre Contadores de Histórias nos ajudaram de forma significativa na produção do nosso espetáculo. O mais legal de todo
esse processo foi a reflexão que fizemos acerca da passagem de Lampião em Lucrécia, fato tão bem recordado na cidade.
A apresentação estava prevista para junho na Cavalgada Heróis da Resistência. Esse evento acontece anualmente na cidade em homenagem aos três heróis, como ficaram conhecidos Francisco Canela, Sebastião Trajano e Bartolomeu Paulo, que caíram mortos na comunidade de Caboré lutando bravamente contra Lampião pela libertação do fazendeiro Egídio Dias. Porém, devido à programação junina de Lucrécia, boa parte do grupo estava bastante envolvido nos eventos das escolas do município, então ficava inviável naquele momento apresentar. Assim, adiamos para julho, mas houve um imprevisto, a morte de uma pessoa na comunidade onde ia acontecer o Boca de Noite. Aproveitamos esse tempo para aprimorar o trabalho.
De forma resumida, o espetáculo mostra cinco senhores que se reuniram em uma boca de noite para uma conversa e nela acabam falando da passagem de Lampião. Os personagens criados pelos componentes do grupo trazem tipos populares. Maria Suênia Leite da Silva se inspirou em sua bisavó para fazer Francisca a dona da casa onde se passa a história. Já Wallace da Silva Soares que gosta bastante de música e tem em sua família cantores trouxe a figura do violeiro. Igor Felipe da Silva criou o Pedro, um filósofo louco que vivia nas ruas, tomou como base para a sua construção o filósofo grego Diógenes que era um dos assuntos da aula de filosofia que estudou na escola. Rillary Yasmin Vieira Alves fez a sonhadora Emília que sempre andava com um chapéu de flores e Anna Beatriz Amaral Dias a viúva religiosa Maria de Lurdes.
O espetáculo tem em média a duração de 30 minutos. A peça é apresentada em círculo, os personagens ficam espalhados no meio do público. A estreia do espetáculo aconteceu em agosto, no terreiro de Dona Maura, na comunidade de Exú, e foi reapresentada no dia 22 de setembro no sitio Caboré.
Chegamos no sitio Exú à tarde, por volta das 14:00 horas. A capela de Nossa Senhora de Fátima foi cedida para os ensaios. Passamos a peça três vezes, duas na capela e uma no terreiro de dona Maura. Essa Boca de Noite me marcou de forma especial por ver o grupo bastante ativo e à frente do projeto. O projeto conseguiu chegar no sítio Exú por intermédio das integrantes do grupo Rilary e Beatriz, que faziam parte dessa comunidade. Minha finalidade ao iniciar o curso de iniciação ao teatro de 2018 foi tentar fazer com que os aprendizes conhecessem um pouco do processo, entendendo que para a construção de um espetáculo leva tempo, pesquisa, assim como também para formar um grupo de teatro.
Figura 14: Ensaio do Espetáculo Três Contra Um Bando na comunidade de Exú.
Figura 15: Apresentação do espetáculo Três Contra Um
Adalto Serra, meu primeiro professor de teatro, dizia que “teatro não é para quem quer, é para quem quer muito”. Assim buscava fazer com que eles entendessem quão complexa é uma peça de teatro e que nem sempre o produto final não é mais importante que o processo. O maior espetáculo acontece por trás das cortinas, ali nos bastidores, nas salas de ensaio, no corpo do artista. O que foi visto naquela noite foi fruto de uma profunda reflexão em grupo a respeito da passagem de Lampião em Lucrécia.
No decorrer do curso de iniciação ao teatro em Lucrécia precisei dizer não a muitas propostas da prefeitura para fazer espetáculos para datas comemorativas, de última hora, sem muita reflexão, e que serviam apenas para ilustrar um evento. Isso ia contra os meus princípios, de como eu enxergo o teatro. Não sou contra fazer espetáculos em datas comemorativas, mas que, pelo menos, os envolvidos reflitam sobre o objetivo daquela apresentação.
A peça teatral foi reapresentada do terreiro de Seo Noé, na comunidade de Caboré. Quando você sai de Lucrécia com destino a Umarizal, de frente à entrada que vai para o sitio Várzea Grande, encontrará uma casa com um alpendre enorme, e nele estarão sentados, em cadeiras de balaço, um casal de idosos, esses são Seo Noé e Dona Severina. Duas figuras bastante conhecidas na comunidade de Caboré. Passando na casa deles você poderá pedir uma aguinha e quando pensar que não, passará a tarde toda, vai tomar um cafezinho e conversar muito. Seo Noé e Dona Severina gostam de conversar.
Figura 16: Apresentação do espetáculo Três Contra Um Bando na Boca de Noite da comunidade de Caboré.
Caboré é uma comunidade que fica as margens da pista que vai para Umarizal. Bastante conhecida pelas tradicionais festas de São Pedro e Réveillon. Entre 2016 e 2011, a associação comunitária era a sede da Cia. Tribo da Arte, grupo do qual participei quando era adolescente e cuja a história relatei nos capítulos anteriores.
Foi nesse lugar que aconteceu no dia 22 de setembro a quarta Boca de Noite. Chegamos à tarde na comunidade, ensaiamos o espetáculo três vezes, uma na Associação comunitária de Caboré, e no terreiro da minha casa, no sitio Várzea Grande. Minha mãe Lucineide Alves e a vizinha Franscinete Almeida nos assistiam. Fiquei bastante nervoso nesse dia, um dos integrantes não pode apresentar, tive que substituí-lo, apresentar o
Figura 17: Dona Severina e Seo Noé. (Foto: Andison Araújo)
Figura 18: O grupo se preparando para apresentar o espetáculo Três
projeto e também cuidar dos preparativos para a Boca de Noite. No grupo os problemas relacionados a som geralmente quem os resolvia era o integrante do grupo Wallace Soares. Nessa noite, além da apresentação do grupo, conseguimos trazer a cantora Romeica Soares e Felipe, ambos artistas locais.
Aquela já era a nossa quarta Boca de Noite, o projeto já ganhava um notável crescimento desde o seu início. As rodas cresciam, os lucreciences começavam a perguntar quando e onde seria a próxima Boca de Noite. Os terreiros recebiam pessoas de outras comunidades. Tanto em Exú quanto Caboré, por exemplo, nós fizemos um pequeno círculo de cadeiras, enquanto eu estava com os integrantes do grupo se preparando para entrar em cena. Lá fora, chegava gente de lugares diferentes de Lucrécia, alguns até traziam suas cadeiras e entravam na roda.