O método da entrevista de narrativa de livre associação, referido por Hollway e Jefferson (2008), constitui nesta investigação um referencial central, nomeadamente no que respeita à importância da resposta, sob a forma de narrativa livre, que permite uma
compreensão de como a temática em análise se encontra interiormente organizada no entrevistado. Como preconizado também por Sandler et al. (1991), neste tipo de metodologia de investigação, pode-se utilizar um método de exploração baseado numa entrevista relativamente livre. Deste modo os métodos de entrevista de associação livre desenvolvidos por Wendy Hollway e colegas, afiguram-se adequados nos seus pressupostos e metodologia, ao trabalho de investigação conceptual.
No entanto, e devido à especificidade do tema e do objetivo deste trabalho ser uma investigação conceptual sobre um aspeto específico da teoria grupanalítica, nomeadamente sobre o conceito de matriz grupanalítica, torna-se assim relevante incluir no presente trabalho outras abordagens de entrevistas qualitativas.
As entrevistas efetuadas para analisar a forma como grupanalistas portugueses lidam com o conceito de matriz grupanalítica, nomeadamente na prática clínica, são semiestruturadas (Flick 2002/2005), permitindo obter elementos descritivos e implícitos da linguagem dos entrevistados e assim uma perceção de como estes interpretam os factos em observação.
Foi elaborado um guião da entrevista semiestruturada para melhor sistematizar a informação de acordo com os objetivos preconizados. As questões constantes no guião têm por objetivo estimular os entrevistados a exprimirem os seus pontos de vista. Estes foram estimulados a darem exemplos precisos e aprofundados da sua prática clínica, num ambiente descontraído, sendo previamente informados dos objetivos desta investigação e da importância crucial da sua participação na mesma. Do guião da entrevista constam as questões indicadas no quadro que se segue.
Quadro 3
Guião da Entrevista
Questão nº. Conteúdo
1 Pode-me falar, resumidamente, sobre a sua história como grupanalista e o seu interesse na grupanálise?
2 Como grupanalista, como relaciona os conceitos teóricos da grupanálise com a sua prática clínica?
Quadro 3 (continuação)
Questão nº. Conteúdo
3 Na sua opinião, qual, ou quais os conceitos que considera mais importantes para a grupanálise e porquê?
4 Pode-me contar algum sonho que tenha tido relacionado com a sua prática como grupanalista?
5 Pode-me dizer o que é para si a matriz? E o que entende por matriz grupanalítica?
6 Pode-me dar exemplos da importância e uso do conceito de matriz grupanalítica na sua prática clínica?
7 Para si quais os aspetos mais relevantes que encontra no conceito de matriz grupanalítica?
8 A matriz grupanalítica, num grupo, muda ou mantem-se inalterável? Pode-me dar um exemplo da sua prática clínica?
9 Na sua opinião, este conceito de matriz, poderá requerer mais investigação? 10 Gostaria de acrescentar algo mais em relação a este conceito?
11 O que lhe parece da contribuição de Bion, Foulkes e Cortesão para a elaboração e compreensão do conceito de matriz de grupo e matriz grupanalítica?
12 (Leitura do conceito de matriz grupanalítica de Cortesão). Acrescentava algo mais a esta definição?
Foram efetuadas duas entrevistas de pré-teste a dois grupanalistas com o grau de membro efetivo da SPGPAG, que permitiram aferir da pertinência e escolha das questões do guião, ajustando as mesmas de acordo com os objetivos delineados relativos ao conceito em estudo.
Segundo Flick (2002/2005), na sua descrição das várias entrevistas, existem diversos tipos de entrevistas semiestruturadas. Algumas delas são: a entrevista focalizada; a entrevista semipadronizada; a entrevista centrada no problema; a entrevista de especialistas; a entrevista etnográfica.
Na presente investigação, e tendo também por referência esta descrição sistematizada das entrevistas, a entrevista semiestruturada que foi utilizada, aproxima-se mais da entrevista de especialistas No entanto, dadas as características desta investigação conceptual, aplicou-se, também, algumas componentes da entrevista semipadronizada e da entrevista centrada no problema, além do referencial à entrevista de narrativa de livre associação, já mencionada.
A entrevista de especialistas, como o próprio nome indicia, pretende trabalhar dados de um entrevistado especializado numa dada área e matéria, interessando aqui mais o perito, como representante de um determinado grupo de especialistas, do que propriamente tanto a pessoa total.
A entrevista semipadronizada tem por objetivo captar as teorias implícitas do entrevistado acerca de um determinado assunto. Para este efeito, é constituído um guião com diversas áreas temáticas e um conjunto de questões que poderá permitir este objetivo. A entrevista inicia-se com questões abertas, depois podem-se fazer algumas perguntas mais impulsionadas pela teoria, e por último, podem-se utilizar perguntas confrontativas, cuja finalidade é reexaminar as teorias e relações expressas pelo entrevistado, perante explicações alternativas.
A entrevista centrada no problema caracteriza-se por três aspetos fundamentais que são eles: a centração no problema, a orientação para o objeto, e a orientação processual. Trata- se pois de uma entrevista que aborda especificamente um problema e o que entrevistado pensa dele. A combinação de narrativa com questões tem como objetivo que o entrevistado exprima o seu pensamento pessoal sobre o problema específico em causa. Por vezes não será fácil de distinguir esta tipologia de entrevista semiestruturada, de outras, mas talvez esta se centre mais num problema específico.
De qualquer modo nestes tipos de entrevista semiestruturada, deverá haver um equilíbrio entre o desenrolar da entrevista e o guião da mesma, permitindo uma flexibilidade e adaptabilidade constantes, a fim de se obterem respostas mais genuínas e desenvolvidas. As entrevistas realizadas, seguindo os parâmetros anteriormente mencionados, nomeadamente integrando alguns elementos de diversas tipologias de entrevistas, permitiram captar aspetos inerentes à especificidade teórica e técnica do conceito em estudo mas também como este conceito está interiorizado na própria formação e identidade grupanalítica dos entrevistados.