Section I – L’administration des Fonds internationau
C) Le rôle des c onseils d’administration
Após aprovado no curso de arquitetura da FAU, Reis Filho reconheceu desde logo o caminho profissional que iria seguir por toda sua vida. Como já foi mencionado, o arquiteto até hoje se dedica ao ensino e à pesquisa naquela faculdade. Desde cedo interessado pela estética moderna, ao buscar essa linguagem no meio arquitetônico acabou compreendendo a necessidade de estudar detidamente a arquitetura tradicional brasileira, o que levou Reis Filho ao contato com o SPHAN. No entanto, somente isso não explica as fontes que tornaram esse arquiteto um estudioso da história do urbanismo nacional.
Como vimos, a FAU careceria, nos seus primeiros anos, da formação teórica que Reis Filho e alguns de seus colegas procuravam. No entanto, o arquiteto chegou a frequentar as aulas de Anhaia de Mello na FAU, o mesmo que havia sido professor de Luís Saia na Escola Politécnica. Assim como influenciaram Saia, as aulas de Anhaia Melo despertaram certamente
em Reis Filho o interesse pela temática do urbanismo.
Reis Filho teve então que recorrer ao que havia disponível no campo da teoria e da história da arquitetura, produção esta quase que exclusivamente advinda do SPHAN. O arquiteto narra ter ficado profundamente marcado por um artigo de Paulo Tedim Barreto, sobre a arquitetura tradicional piauiense,289 no qual o autor, segundo Reis Filho, “com
adequada visão de conjunto”, abarca a escala urbanística e as políticas urbanizadoras do século XVIII, “como parte da política colonizadora portuguesa nas administrações de D. João V e de Pombal”.290 Este estudo abriu então os olhos de Reis Filho para uma perspectiva que
iria explorar adiante, numa postura distante de autores como Sérgio Buarque de Holanda e Robert Smith. Isso significa dizer que Reis Filho passou a defender a existência de uma política urbanizadora e de formas de planejamento urbano durante o período colonial, ao contrário de uma suposta lassidão portuguesa relativa às cidades, expressa no pouco interesse pela ordem em contraposição à colonização espanhola.
Outros autores ligados ao SPHAN foram igualmente significativos para a formação intelectual de Reis Filho, principalmente no que diz respeito a aspectos arquitetônicos e urbanísticos regionais. O arquiteto cita, por exemplo, os trabalhos de Joaquim Cardoso sobre o Recife291 e de Sylvio de Vasconcelos sobre a formação das vilas mineiras.292 Além desses,
lembra-se ainda de Ayrton de Carvalho (PE), José Reis (RJ), Alcides Miranda da Rocha (RJ) e Luís Saia, “com Lucio Costa à frente”. Embora nos estudos sobre arquitetura civil esses autores tenham ampliado “em muito os conhecimentos sobre os aspectos intra-urbanos de nossas vilas e cidades coloniais”, não teriam eles se voltado especificamente para a História do Urbanismo e da Urbanização.293
No entanto, para o caso de Luís Saia, creio que a influência exercida sobre Reis Filho tenha sido mais significativa, embora o autor não o arrole de maneira destacada quando faz alusão a seu referencial teórico. Mencionei há pouco que os caminhos de Reis Filho cedo se cruzaram com os de Luís Saia. De fato, em várias ocasiões este último parece ter oferecido oportunidades de trabalho aos mais jovens. Antônio Luiz Dias de Andrade, que sucedeu Saia
289 BARRETO, Paulo Thedim. “O Piauí e sua arquitetura”. Revista do SPHAN. Rio de Janeiro, n. 2, p. 187-223,
1938.
290 REIS FILHO, Nestor Goulart. Notas sobre a evolução dos estudos de história da urbanização e do
urbanismo no Brasil. São Paulo: FAU-USP, 1999, p. 25. (Cadernos de Pesquisa do LAP, n. 29).
291
Especialmente CARDOSO, Joaquim. Observações em torno da história da cidade do Recife no período holandês. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Rio de Janeiro, n. 4, p. 383-405, 1940.
292 A exemplo de VASCONCELLOS, Sylvio de. Vila Rica: formação e desenvolvimento. Rio de Janeiro:
Ministério da Educação e Cultura, Instituto Nacional do Livro, 1956.
na regional paulista do IPHAN, iniciou lá sua carreira como estagiário. O primeiro contato com Carlos Lemos também teria sido amistoso.294 O historiador Jaelson Bitran Trintade
também iniciou sua carreira no IPHAN em sua mocidade, e se recorda de Saia com admiração. Talvez esse modo de tratar os mais jovens seja um reflexo da convivência com Mário de Andrade, que demonstrou a mesma abertura ao então “jovem engenheirando”. Parece ter sido comum a presença de jovens estudantes de arquitetura estagiando no IPHAN, e foi numa dessas oportunidades que Reis Filho conheceu Luís Saia. Foi naquele já mencionado trabalho, no qual Reis Filho e seus colegas ficaram a cargo de realizar um levantamento cartográfico do Estado de São Paulo, que o jovem estudante de arquitetura teve um dos primeiros contatos com este tipo de fonte, ou seja, com plantas e mapas urbanos, além dos materiais iconográficos, cabendo recordar o quão importante esse material se tornaria posteriormente para a obra desse arquiteto. É pouco provável que Reis Filho desconhecesse os principais textos de Saia, no qual a ocupação rural e urbana tiveram papel cuja importância já foi destacada no capítulo anterior. É também clara a utilização de uma periodização semelhante à proposta por Saia para a evolução regional paulista. Embora Reis Filho tenha deixado claro o interesse em explorar algumas áreas que não chamaram muito a atenção do arquiteto do SPHAN, é difícil escamotear as semelhanças que se evidenciam, por exemplo, em Quadro da arquitetura no Brasil.
Dessa sua época de estudante de arquitetura também foram importantes as viagens que realizou pelo país. Juntando dinheiro para viajar nas férias, enfrentou as precárias condições de locomoção da época para conhecer o Nordeste (tendo se tornado amigo e admirador do arquiteto Ayrton de Carvalho no Recife), Minas Gerais e Rio de Janeiro (principalmente Parati), até onde é possível saber. Assim como aconteceu com vários outros intelectuais brasileiros (e mesmo estrangeiros), foi a partir do contato com os testemunhos materiais de outras épocas que, sem dúvida, Reis Filho se indagou sobre a evolução das configurações urbanas, passando a pensar então nos estágios que mediaram o processo do qual fazem parte aquela época e a nossa.
294
A respeito de um trabalho seu reprovado na Faculdade de Arquitetura da Mackenzie, Lemos narra o seguinte: “fui procurar Luís Saia na sede do SPHAN, na Rua Marconi, a quem não conhecia pessoalmente, só de nome e por meio da revista daquela entidade, cuja edição de número 8 consultara na Biblioteca Municipal para fazer o meu trabalho. Foi gentilíssimo e, como era vaidoso do seu saber naquele campo em que não havia mais ninguém interessado, resolveu fazer uma candente defesa do meu projeto, demonstrando grande erudição”. LEMOS, Viagem pela carne. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005, p. 140.