8. Origines et conséquences des effets aigus de la pioglitazone et de la metformine
9.6. Rôle de l’activation de PPARγ dans la cellule β
Diz a lenda popular que Santa Clara, acamada e entristecida por não poder
acompanhar uma procissão, viu, projetada na parede do seu quarto, o evento religioso
acontecendo naquele instante. A história foi o motivador para que a Igreja Católica a elegesse
padroeira da televisão, certamente, sobre os auspícios dos profissionais da área, desejosos de
uma proteção sobrenatural. O fato nos remete a algumas questões interessantes. A primeira é
mais uma comprobatória da inquestionável ascensão da televisão, em bem menos de um
século, como algo importante para a humanidade a ponto de exigir um protetor divino tão
coincidência da proteção da santa que também ‘cuida’ do bom tempo, do tempo claro e
aberto, das condições de se poder ver o mundo pela luz abundante. E, por último, a visão um
tanto ingênua, mas bem objetiva do que seja a televisão: um meio pelo qual as pessoas,
comodamente, podem distorcer os limites do espaço e do tempo, não exatamente a seu bel
prazer, mas de modo que possibilite presenciar o que lhes interessa sem a responsabilidade da
gestão dos procedimentos, exceto pelo desejo de assistir.
Embora concordemos com esse conceito do que é a televisão, certamente uma lenda
secular não nos parece ser a maneira mais apropriada para defender um ponto de vista. A
lenda, como não poderia deixar de ser, também é coincidente com o senso comum segundo o
qual a TV é um aparelho eletrodoméstico para a distribuição de informação e entretenimento,
um instrumento de comodidade da vida moderna.
No entanto, essa visão não coincide com a apresentada e discutida na maioria dos
inúmeros trabalhos, pesquisas e conceitos que envolvem a temática da televisão conforme
veremos adiante. Essa seria, como dito anteriormente, uma visão ingênua da televisão, muito
mais do que revela a visão de Santa Clara ou pensam os telespectadores comuns.
Mas não deixam de serem ingênuos, também, alguns paradigmas conceituais acerca do
que seja a televisão. Conforme Machado (2000), há uma grande preocupação em submeter a
televisão a uma ampla análise sociológica, que não é de todo ruim, mas que enfatiza a
necessidade de se verificar a sua influência, a amplitude das experiências e o tamanho de suas
repercussões. Com isso, a busca e os resultados desse tipo de abordagem sociológica coincide,
perigosamente, com as pesquisas de mercado. Segundo o autor,
Por mais que pareçam avançar os estudos sobre esse meio, permanece ainda muito amplamente disseminada a idéia antiga de que televisão é um “serviço”, sistema de difusão, fluxo de programação, ou, numa acepção mais “integrada”, produção de mercado. Segundo essa concepção, o que importa não é o que acontece de fato na tela, mas o sistema político, econômico e tecnológico no qual se forjam as regras de produção e as condições de recepção. Eis por que as atenções quase nunca se voltam para o conjunto dos trabalhos individuais que a televisão efetivamente produz e a que os espectadores efetivamente assistem, mas para a estrutura genérica do meio, entendida como tecnologia de difusão, empreendimento mercadológico, sistema de
controle político-social, sustentáculo do regime econômico, máquina de moldar o imaginário e assim por diante (MACHADO, 2000: 16).
Portanto, há uma grande ênfase na gestão da televisão, na forma como os detentores
do meio se apropriam do próprio meio e suas aplicabilidades sociais, políticas e ideológicas.
Essa abordagem, no entanto, pode ser aplicada a qualquer meio e em qualquer tempo. A
história oral, passada de geração em geração, a missa como fonte da verdade, os folhetins do
século XVIII e XIX, o rádio no início do século XX, todos esses meios foram (e continuam
sendo) os tais geradores da realidade, inescapavelmente fragmentada, a que a televisão dá
prosseguimento. E foram, igualmente, geridos conforme a distribuição de poder, o contexto
social e político onde estavam inseridos, as necessidades e desejos de seus receptores
cooptados, ou não, por aqueles que produziam o conteúdo desses meios.
Certamente não há como descolar essa questão da discussão sobre o que é a televisão,
mas a intenção é buscar outro viés, pensando, conforme sugere Machado (2000: 11), a
televisão como “um dispositivo audiovisual através do qual uma civilização pode exprimir a
seus contemporâneos os seus próprios anseios e dúvidas (...). Aqui, a questão da qualidade da
intervenção passa a ser fundamental.”
Para isso, é necessário descolar o meio televisão dos demais meios de comunicação,
vendo o que é peculiar a TV, como único ou predominante. Assim, a princípio não há como
negar que a TV, em especial, “tem uma participação decisiva na formação das pessoas – mais
enfaticamente, na própria constituição do sujeito contemporâneo” (FISCHER, 2001: 15).
Certamente, no Brasil essa característica tem uma ênfase distinta de outras experiências pelo
globo. Embora tenha forte influência do modelo norte-americano de televisão, no Brasil, a TV
teve peculiaridades desde sua gênese e a história do país definiu sua trajetória de forma
Trazida por Assis Chateaubriand, então proprietário do maior grupo de mídia do país,
os Diários e Emissoras Associados, a TV brasileira começou no dia 18 de setembro de 1950,
com a TV Tupi para cerca de apenas 200 aparelhos de televisão espalhados entre lugares
públicos, casas de personalidades e lojas de eletrodomésticos, num raio limitado em torno de
uma antena, na cidade de São Paulo. Após meio século, já estava em praticamente 90% dos
lares brasileiros (NOVAES, 1999; BUCCI: 2000; PRIOLLI, 2001).
Esse crescimento está intimamente ligado à trajetória histórica e política do país. Nos
anos 50, a urbanização favoreceu o caminho do campo para a cidade, assim como, na década
de 60, a integração dos países em desenvolvimento com o mundo favoreceu aquele aparelho
que dava conta de entreter e informar/integrar. A grande expansão começou nessa década,
prosseguindo nos anos 70, em grande parte pelo desejo dos governos militares de integrarem
o território nacional sob uma só confluência de imagens e informações, em uma só suposta
‘identidade nacional’. Em conjunto com o desenvolvimento da tecnologia via satélite e de
vídeoteipe (que permitiu difundir programas gravados sem a necessidade dos altos custos dos
programas ao vivo locais), ampliaram-se, significativamente, os investimentos dos
conglomerados de mídia assim como o próprio investimento estatal – principalmente
beneficiando aqueles alinhados com a política do governo militar. Na década de 80, o
desenvolvimento tecnológico une a fabricação de aparelhos de TVs nacionais mais baratos
com uma cobertura nacional via satélite e uma rede integrada e eficiente de retransmissores,
que levavam os sinais das emissoras a todos os rincões do país. A abertura democrática
provoca a sede pela informação e liberdades individuais, ainda mais valorizadas na década de
90. Com a estabilização da moeda, há uma nova redistribuição de parte da renda e chega-se a
aumentar em 70% o consumo de aparelhos no país (PRIOLLI, 2001).
A programação, certamente, acompanha essa trajetória. Como os novos meios são
experiência do rádio, com seus programas de auditório, jornalismo narrado, publicidade
acachapante, novelas exageradamente dramáticas, glamorização dos artistas. Tal trajetória a
difere da TV norte-americana, que busca sua fonte no cinema, e a européia, com sua matriz no
teatro e nos textos literários.
Pela conjunção de todos esses fatores, a popularidade da fonte radiofônica e os
investimentos públicos e privados, a TV se torna o ambiente favorável para a construção de
um espaço público onde a identidade nacional vai aparecer, se formar e ser formada. Não é
um fenômeno inédito, pois muito da identidade européia se deve às suas letras, a norte-
americana ao cinema, a japonesa às histórias orais. Da mesma maneira que o norte-americano
acredita ser um John Wayne, um japonês sonha com suas raízes samurais e o europeu se
identifica com os personagens de Vitor Hugo, o brasileiro se vê na TV.
Está claro que a televisão é o maior e mais importante meio de comunicação do Brasil, a principal – quando não a única – fonte de informação e entretenimento de milhões de pessoas, as quais integra, duplamente, no imaginário coletivo e no mercado de consumo nacionais. A televisão exerce uma tal influência sobre a população brasileira que é possível pensá-la não apenas como um instrumento de formação da opinião pública, mas como a própria esfera pública, o espaço semi- virtual onde se trava o conflito das idéias, dos gostos, dos desejos e das utopias nacionais, e no qual todos os brasileiros se encontram, buscam identidade, irmanam- se (PRIOLLI, 2001: 168).
Essa TV, historicamente, teve, em seu processo de constituição e produção, a
expectativa de ser um instrumento de controle social tanto de quem detém o poder de gestão
quanto dos intelectuais que a monitoram. Se para alguns autores, esse controle social é real e
não dá margem para que o telespectador reaja, para outros a construção do sentido que ela
mesma proporciona é a chave para a sua libertação. Como afirma Penteado,
Pensada e produzida para constituir um dos processos de controle social, da mesma maneira que a escola, a TV acaba ultrapassando essa possibilidade, por acontecimentos que se dão fora dela, no âmbito de sua recepção, a partir de recursos que utiliza (PENTEADO, 1991: 16).
Portanto, a construção do sentido mediada pela TV ainda pode, e deve, receber
reforços de outras ações de produção de sentido, como as que acontecem no ambiente familiar
e na escola. Conforme Baccega (2003), esta é a oportunidade de a escola desenvolver um
papel de mediadora entre a TV e quem gosta de assistir a TV.
É preciso não perder de vista que a recepção dos produtos televisivos é uma construção de sentido, que ocorre no território que se forma entre emissor/enunciador e receptor/enunciatário. Toda construção é um processo pessoal, que se dá em diálogo com a sociedade, a partir de construções prévias e com as ferramentas que a própria sociedade ofereceu para aquele indivíduo/sujeito. O sentido que crianças e jovens atribuem à televisão resulta, portanto, de suas experiências e da cultura na qual estão imersos (BACCEGA, 2003: 82).
Certamente a televisão, por tudo isso, não está livre de ser pensada sobre aspectos
igualmente críticos. No Brasil, televisão é, antes de tudo, negócio. O modelo de televisão
brasileiro é filho dos modelos pragmático norte-americano e ideológico europeu.
Infelizmente, o resultado foi que ela herdou os defeitos de cada um, em detrimento das
qualidades. Do modelo europeu, herdou um desejo incomensurável de controle estatal, que dá
ao estado todo o poder de controle sobre sua distribuição e fiscalização, sob o argumento de
que um veículo de tal poder deve ser gerido sob a perspectiva do interesse público. A
legislação brasileira, por exemplo, está cheia de boas intenções, conforme podemos conferir
no Artigo transcrito a seguir:
Art. 221 – A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão os seguintes princípios:
I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos por lei;
IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família. (BRASIL, 2004: 126)
Como sabemos, o resultado é que, além de o estado não dar conta de fiscalizar o que
atribui às suas concessões para radiodifusão, a distribuição depende dos interesses políticos-
barganha, ao invés de democratização. Como complicador, a televisão brasileira herda do
modelo norte-americano a busca pela remuneração do capital de seus investidores em TV,
mesmo em detrimento da sanha legalista herdada de sua contraparte.
A televisão nacional não se diferencia muito da lógica de uma padaria, uma farmácia
ou uma linha de ônibus. Em uma padaria, mesmo que todos saibam que o pão de cada dia é
um direito de qualquer cidadão, o que interessa para o proprietário ao final do expediente é
quanto arrecadou no caixa, obrigatoriamente mais do que gastou, de modo a viabilizar sua
própria sobrevivência. Assim como uma farmácia, a única intervenção da sociedade é feita
através de órgãos públicos como a vigilância sanitária que deve resguardar o interesse público
sobre qualquer outro aspecto, evitando que um pão ou um remédio faça mal à saúde da
população. A televisão, legalmente, aproxima-se ainda mais da linha de ônibus urbano, uma
concessão que a sociedade dá a empresários, através de outros órgãos públicos constituídos
por essa mesma sociedade, com o objetivo de oferecer à população transporte a custo o mais
baixo possível. Como retorno, a sociedade/órgãos públicos dá a esses empresários o direito de
obterem lucros na exploração do serviço.
Também é essa a fórmula das concessões de televisão, da qual não escapam nem as
emissoras ditas educativas e sem fins lucrativos que, em sua maioria, servem aos negócios do
Estado e das fundações que as mantêm. A diferença, no entanto, é que, ao contrário do
consumidor de pães e de remédios, e o passageiro do transporte coletivo, as pessoas recebem
TV de graça em suas casas. Mesmo no caso do reduzido número de assinantes de televisão
paga, o valor arrecadado não sustenta a cara produção televisiva. Portanto, é uma ilusão
imaginar que o público-alvo da televisão brasileira sejam os telespectadores. “O verdadeiro
cliente da televisão não é, então, o espectador, mas, sim, o anunciante, porque é ele que torna
possível a existência da televisão. E a única forma de prestar um serviço ao anunciante é lhe
Isso explica uma série de circunstâncias de nossa programação nacional, como
programas que apelam para o sentimentalismo, que se sustentam no carisma de um artista ou
na espetacularização da notícia. Some-se a isso a lembrança de que, mesmo não totalmente
hegemônicas, há forças políticas e sociais com acesso mais privilegiado na produção da TV.
Conforme Penteado,
Participa do processo de produção da mensagem ampla equipe de profissionais, a maioria procedente da classe média-média e média alta pelo requisito de um acervo cultural específico exigido pelo trabalho e só atingível por pessoas assim localizadas na escala social (PENTEADO, 1991: 16).
No entanto, isso não impede um diálogo de quem a ela assiste com quem a produz. “A
TV é dualista: retrata a vida porque precisa ser inteligível para o público que quer atingir e é
guiada pelos interesses da sociedade consumista que ajuda a construir.” (PORTO, 2000: 39).
Se é dualista, essa mesma TV tem uma via de mão dupla onde, de alguma(s) forma(s) o
telespectador acaba por definir sua programação, seja pelos índices de audiência que
proporciona a determinados programas, seja pelos produtos e serviços que adquire.
Não caberá aqui destrinchar o emaranhado das relações comercias entre anunciantes,
comerciantes e detentores de outorgas de televisão. Mas comprovar que essa relação
telespectador e televisão/programação não restringe o primeiro em um papel passivo e que,
como sujeito complexo que é, sua intervenção é fato e é um componente real. Assim, quando
queremos estudar essa relação, entendemos, como Machado (2000: 11), “a questão da
qualidade da intervenção passa a ser fundamental”.