Ao se observarem as relações sociais e os papéis referentes ao sexo masculino e ao feminino ao longo da história, Therborn (2006) defende a ideia de que
Sexo e poder não são mundos distintos um do outro, mas entrelaçados um no outro. O poder pode ser observado no reino animal, enquanto as formas de sexualidade humana são socialmente construídas e variáveis [...] A família é um espaço cercado nos campos de batalha abertos pelo sexo e pelo poder, delimitando a livre competição através de fronteiras entre membros e não-membros [...] Como tal, a família é uma instituição social, a mais antiga e a mais disseminada de todas. (THERBORN, 2006, pp.11-12)
Em sua obra, o autor faz uma reflexão sobre as relações sociais que são estabelecidas a partir do sexo do indivíduo, o que lhe confere direitos e obrigações que são institucionalizados por meio de órgãos que os regulamentam assim como por meio de autoridades religiosas que instituem a ideologia do Poder.
Para tanto, retoma trabalhos anteriores, identificando-se com a obra de William J. Goode, intitulada Revolução Mundial e Padrões de Família, sobre a qual tece crítica com base em três núcleos de problemas: o foco na unidade familiar em torno do casal e filhos, que exclui outras relações familiares adquiridas por laços consanguíneos; a falta de clareza em relação à influência sobre a família de forças sociais da industrialização e da urbanização; a fragilidade do argumento que limita à funcionalidade a adaptação entre família conjugal e o moderno sistema industrial.
Nessa perspectiva, o autor retoma outras pesquisas, comparando seus principais pontos de intersecção, esclarecendo que, tendo por base essas reflexões, sua obra apresenta uma temática dividida em três subtemas: o
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patriarcado e as relações homem – mulher, pais – filhos como ponto de partida para discussão sobre as relações de gênero; o papel do casamento e não- casamento como controle dos relacionamentos humanos e das relações sexuais em particular; e, por fim, a influência do controle de fecundidade e de natalidade sobre o envelhecimento da população e as mudanças geopolíticas.
O estudo de Therborn tem como guia um mapa geocultural e passa a definir os sistemas familiares enquanto geoculturas, que significam
[...] instituições ou estruturas que tiram suas cores dos costumes e das tradições, da história de uma área particular, uma cobertura cultural que pode permanecer após a mudança estrutural, institucional, deixando marcas na nova instituição. (THERBORN, 2006, p.25-26)
Esclarece o autor que seu intuito não é classificar do ponto de vista tipológico os sistemas familiares modernos, mas estudar o patriarcado, a ordem sociossexual e a fecundidade no decorrer de um século (1900 – 2000).
Compreende, assim, que há cinco sistemas familiares principais: o da África (subsaariana), o Europeu (que inclui as colonizações do Novo Mundo), o do Leste Asiático, o da Ásia do Sul e o da Ásia Ocidental/Norte da África. Além desses principais, considera dois intersticiais, que são o do Sudeste Asiático e o da América crioula.
Nesse sentido, esse autor passa a analisar o patriarcado tanto em sua dimensão intrínseca – dominação do pai e dominação do marido –, quanto em seu aspecto extrínseco, ou seja, sua relação com os demais poderes existentes na sociedade.
O patriarcado, segundo Therbon, embora tenha sido o sistema predominante nas sociedades que se destacaram ao longo da história, sofreu variação de acordo com cada cultura, o que diferenciaria o poder de pais, irmãos, maridos e filhos adultos.
E para o sociólogo, é preciso considerar essa diversidade de costumes e tradições para poder captar a situação em 1900, quando ocorreram mudanças nas relações sociais familiares. Considera um marco dessa mudança a Feira Mundial
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de Paris, em que houve também o congresso internacional sobre as condições e os direitos das mulheres.
Quanto às mudanças, cita acontecimentos como, por exemplo, alterações nas leis da França, em 1889, tornando possível a retirada do poder paterno em caso de maus-tratos de crianças. Na Índia britânica houve também alteração nas leis, proibindo-se o sati (imolação das viúvas) e o infanticídio, além de permitir o recasamento das viúvas e o a união conjugal entre castas.
As mudanças sociais e legais acabaram contribuindo para o enfraquecimento do patriarcado para alguns. Entretanto, para outros, significou enrijecimento do mesmo sistema, como na cultura muçulmana o “Estatuto Pessoal” árabe, em 1875, ou o fortalecimento da instituição patriarcal do casamento na Inglaterra durante o período vitoriano. Nesse contexto, a América do Sul hispânica teve por base o Código Civil Napoleônico, que reafirmou a supremacia do casamento civil sobre o eclesiástico, bem como do sistema patriarcal.
Além das questões sociais, as migrações do campo para a cidade ocasionaram mudança nos sistemas de trabalho, tornando emergente uma “classe de trabalhadores em serviços”, segundo Therbon, o que modificou também as relações familiares na Europa, nos Estados Unidos e em outros assentamentos europeus, estendendo-se para o Japão, alguns centros industriais da Índia e novos centros de mineração como África do Sul e Chile.
A família tornou-se, então, ao mesmo tempo modelo e alvo de textos que tratavam do patriarcado no final do século XIX. Nesse cenário, as famílias se constituíam pelo casamento e, a partir do Concílio de Trento e da Contra-Reforma, a livre escolha do cônjuge passa a ser uma norma religiosa, divergindo da influência dos pais nas camadas superiores e na parte Sul e leste do continente. Havia, ainda, uma certa libertinagem sexual das classes superiores, mesmo sendo o casamento um ato sagrado.
Todavia, por volta de 1900, ocorreram três grandes mudanças institucionais e econômicas para as famílias europeias, que se iniciaram no noroeste e atingiram o sudeste. A primeira diz respeito à proletarização, a segunda a urbanização e a terceira à industrialização.
A proletarização modificou o poder de pai, uma vez que este estaria subordinado ao poder de proprietários das terras ou do capital. Essa mudança deu-
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se principalmente no meio rural, onde houve crescimento significativo dessas relações.
Quanto à urbanização, esta correspondeu a uma mudança que fugia ao controle de autoridades consideradas tradicionais, inclusive o patriarcado, pois deixou de ser um controle social uma vez que havia heterogeneidade de ofertas e, consequentemente, de opções para os sujeitos na sociedade.
A industrialização trouxe como principal contribuição a distinção entre o lugar de trabalho e o lugar de residência, o que influiu consideravelmente sobre o patriarcado por enfraquecer o poder paterno.
Entretanto, seja no campo, na cidade, na produção industrial, enfim, em todos os contextos sociais, o homem era a figura central da família no século XIX, pois, conforme afirma Therborn,
O homem de família era o herói normativo [...] a normatividade patriarcal foi trazida da aldeia camponesa ao bloco da classe trabalhadora urbana através de uma ponte cultural construída sobre um cataclismo social. (TERBORN, 2006, p. 43)
A ideologia do patriarcado encontrou, porém, desafios, nessa época, oriundos de duas fontes principais, segundo o autor. A primeira fora o radicalismo protestante, que teve sua primeira manifestação no tratado de John Stuart Mil sobre
A sujeição das Mulheres, tornando-se uma bíblia feminista, cuja tese era sobretudo
a liberdade de pensar e de agir conjugada a uma melhoria nas condições gerais de associação entre homens e mulheres.
Já a segunda fonte de desafio ao sistema patriarcal foi o socialismo ateu, que tinha uma orientação feminista, cuja conexão foi estabelecida por August Bebel, líder da democracia social alemã, cujo tratado, intitulado Die Frau und der
Sozialismus (A Mulher e o Socialismo), passou a ser um dos textos mais lidos, após
o Manifesto Comunista, considerada uma obra de história social pelo sociólogo Therborn.
No final do século XIX, de acordo com esse autor, a sujeição da mulher passa a ser questionada, mas sua atuação era restrita, nem mesmo votar ela podia. As mulheres que se destacaram em movimentos revolucionários foram aquelas que
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tinham acesso à escolaridade de nível superior, como Vera Figner e Alexandra kollontai. Todavia, apesar de a Suíça ter sido pioneira nesse aspecto, eram mulheres estrangeiras que tinham a oportunidade de se escolarizarem, o que conferiu a Nadezhda Suslova – russa – o título de Médica.
Foram as mulheres do Novo Mundo que tiveram mais fácil acesso à educação universitária, conquistando-a ainda no século XIX, com um percentual de cerca de 36% nos Estados Unidos em contraposição a uma média de 10 e 15% dos países europeus. Essa educação feminina teve o apoio significativo do protestantismo anglo-saxão, de acordo com Therborn, que afirma:
O protestantismo desvinculado de Estado dotou as mulheres do Novo Mundo de uma força moral pública que não seria permitida por nenhum catolicismo do Novo Mundo e, tampouco, por algum protestantismo de Estado do Velho Mundo [...] (THERBORN, 2006, p.54)
E foi nos Estados Unidos que nos anos 1840 ocorreu a Convenção de Seneca Falls, evento que marcou historicamente o feminismo, e a Declaração de 1848 tinha por objetivo a reforma da propriedade marital no estado de Nova York.
As discussões sobre a subordinação das mulheres no direito de família ganharam expressão no Cone Sul das Américas (Chile e Argentina especialmente) apenas na última década do século XIX.
Já as sociedades crioulas, segundo o sociólogo, obtiveram dois tipos principais de sistema na vida moderna: um originário do contato entre europeus e indígenas americanos (colonizadores e nativos), que constitui a sociedade indo- americana; outro fruto da conquista e da colonização espanholas, o indo-crioulo. Esta última foi responsável por produzir uma grande população mestiça e, sobretudo, a escravidão de plantation, a qual atingiu o Brasil (da Bahia ao Rio de Janeiro) nas plantations de cana de açúcar.
A sociedade crioula fortaleceu o patriarcado, tendo em vista as mulheres brancas serem impedidas de qualquer trabalho produtivo, uma vez que tinham seus provedores masculinos, além dos escravos e servos. Além disso, as famílias crioulas constituíam-se na informalidade e era matrilinear, em oposição à família branca, patriarcal e patrilinear.
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Essa cultura passou a ser multiplicada por meio das colonizações, modificando-se conforme os costumes específicos de cada local mas preservando essa base comum que opunha brancos a negros, indígenas, mestiços e, consequentemente, a mulher branca à negra, escrava, mestiça.
Os movimentos que, por volta de 1900, representaram ruptura com o que Therborn denominara “bifurcação crioula de raças e famílias” foram a Revolução Francesa, a Guerra Civil Americana e, no Brasil em particular, a Lei Áurea que trouxe a libertação aos negros escravos.
O colonialismo do século XIX, enfim, impulsionou três sistemas familiares mundiais relevantes, segundo o sociólogo Therborn: o da Ásia do Sul, o africano e o do Sudeste Asiático, intersticial de civilizações. É esta a herança para as gerações dos séculos vindouros.