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Nos primeiros anos da Guerra Fria, basicamente entre 1945 e 1960, os governos americanos se preocuparam, principalmente, em concentrar esforços para superar alguns desafios, como o desenvolvimento de estratégias capazes de responder, satisfatoriamente, o ambiente de segurança internacional. Estas estratégias seriam voltadas, a princípio, para a exploração das armas nucleares. As armas nucleares se destacaram entre as pautas da agenda de segurança e corroboraram para ascensão da perspectiva entusiasta do poder tecnológico na vida política, econômica e social dos Estados Unidos. Esta perspectiva corroborou para que os militares desenhassem suas estratégias de condução de guerra, travada pelos mísseis guiados de longo alcance. O Pentágono via nesse tipo de condução o futuro das guerras.165

Thomas Mahnken (2008) ressaltou que a Estratégia de Retaliação

Massiva sobreviveu por quinze anos, com a finalidade de trabalhar no desenvolvimento dos mísseis de longo alcance, da defesa aérea e da corrida espacial. Destacaram-se os avanços na tecnologia de aeronaves e de satélite. Na linha de frente, a produção das bombas atômicas representou, para os americanos, o seu poder militar. Em apenas três anos, construíram quinze bombas nucleares de aproximadamente cinco toneladas cada uma. Posteriormente, produziram as termonucleares de aproximadamente 20 toneladas, cujos testes foram aprovados no último ano do mandato de Harry Truman (1945 – 1953). Dentre aquelas, esteve o famigerado Little Boy. Praticamente, todas as produções e os testes estiveram amparados pela Política de Guerra Atômica (PGA) do Conselho Nacional de Segurança. A PGA foi responsável por autorizar o planejamento do DOD desenhado a partir da probabilidade do seu uso em meio a uma possível guerra nuclear.166

Com foco na deterrência nuclear, Dwight Eisenhower (1953-1961), abertamente, expôs as suas ideias sobre o dinamismo do complexo militar-industrial e o seu poder de influência nas decisões governamentais. Influenciado, acreditou que o poder aéreo garantiria o poder de manobra e a liberdade de ação em meio ao ambiente internacional marcado pelo início da “democratização” da posse de armas nucleares. Além dos assuntos espaciais e outros relacionados à defesa aérea, como os mísseis de cruzeiro – utilizados em necessidades táticas – os mísseis balísticos de alcance intercontinental (ICBM’s) e os bombardeiros foram se tornando os principais fundamentos e os mais desafiantes da execução da Retaliação Massiva.

A dedicação aos mísseis balísticos esteve diretamente ligada à sua capacidade de ataque à distância. Ademais, com esse propósito, foram desenvolvidos para a dupla função marítima e aérea os mísseis balísticos lançados por submarinos (SLBM, sigla em inglês) e os mísseis balísticos lançados por submarino nuclear (SSBN, sigla em inglês).167Os entusiastas do governo defendiam o argumento de que as armas nucleares transformaram a guerra.

Como consequência do lançamento do satélite artificial da União Soviética, Sputinik, Eisenhower autorizou a criação da Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA, sigla em inglês), que incorporou o antigo Comitê do Conselho Nacional para Aeronáutica, com a finalidade de acelerar os projetos de foguete militar e outras atividades de pesquisa e desenvolvimento espacial.

166 LESLIE, 1993. 167MAHNKEN, 2008.

Ademais, reorganizou algumas agências governamentais, como foi o caso da realocação do Comitê do Conselho de Ciência, do Escritório de Mobilização da Defesa, para a Casa Branca; e a mudança no posto de Secretário de Pesquisa e Desenvolvimento em Defesa para o de Diretor de Pesquisa e Engenharia da Defesa. Além disso, aprovou a Lei Nacional de Educação em Defesa, destinada a amparar os projetos de Ciência e Engenharia voltados à Segurança Nacional. Destarte, criou a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (ARPA), que posteriormente se tornou Agência de Projetos de Pesquisa Avançada da Defesa (DARPA), do Departamento de Defesa.168

Internamente, a DARPA – na seção seguinte a pesquisa desenvolverá mais sobre este assunto – iniciou as pesquisas de tecnologia de radares, interceptores, lasers e Defesa de Míssil Balístico (BMD). Internacionalmente, os Estados Unidos iniciaram suas investidas com o Reino Unido para a utilização de algumas ilhas; com a Itália e a Turquia para a instalação de mísseis balísticos, da Organização do Atlântico Norte; com a Noruega, para operações espaciais, como foi o caso do satélite de fotorreconhecimento Corona.169

3.2.1.1. A DARPA

A Fundação Nacional da Ciência e a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço foram algumas das principais instituições criadas na Guerra Fria e passaram a desenvolver pesquisas e tecnologias militares em auxílio à Grande Estratégia de contenção. No entanto, a Agência de Projetos Avançados da Defesa (DARPA, em inglês) foi designada, unicamente, para direcionar o rumo da pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico do setor militar e atender às diretrizes das Estratégias Nacionais de Segurança e de Defesa, principalmente, na articulação de ideias entre as diversas instituições militares e não-militares de caráter sinérgico e cooperativo.170 O discurso de criação foi o de que os Estados Unidos deveriam responder ao lançamento do satélite Sputnik no mesmo tom de rigor e capacidade. Não obstante, a orientação de não investir na quantidade, mas na qualidade, foi baseada na expansão do aumento de forças nucleares e nas

168 HACKER; VINNING, 2006. 169 HACKER; VINNING, 2006. 170 BONVILLIAN; ATTA, 2011

arestas da Guerra do Vietnã171. A pressão política foi a de que, institucionalmente, a Agência deveria buscar por lacunas e oferecer alternativas para não comprometer os grandes interesses americanos.172 Em 1972, a Agência foi reformulada e reorientada para atender algumas demandas do Pentágono. Teoricamente, suas atribuições seriam a de propor novos conceitos e inovações “disruptivas” que pudessem garantir a superioridade das Forças Armadas.

A sua estrutura foi relativamente pequena e organizacionalmente composta pela diretoria geral, pelos diretores e pelos coordenadores dos projetos de pesquisa. Entre as suas principais características estiveram: cultura de risco, tolerância a falhas, técnicas especializadas, projetos de curta duração, pesquisa básica e aplicada, método multidisciplinar – como nas áreas de Matemática, Química, Biologia, Física, Neurociências, Engenharia, Ciência da Computação e Ciências Sociais. Entre as suas principais contribuições, destacaram-se o Foguete Saturno V, que contribuiu para às missões espaciais da NASA; computação, microeletrônica e a internet; as tecnologias da comunicação e informação e os sistemas de navegação; GPS e receptores; melhorias às aeronaves de combate, com a tecnologia furtiva e os veículos não tripulados; defesa de mísseis; satélite de vigilância; munições de precisão guiada.

A DARPA combinou os furtivos, ataques de precisão e os sistemas de inteligência, vigilância e reconhecimento e entregou seus resultados às Forças Armadas, com implicações estratégicas e táticas. Os sistemas de sistemas do Pós- Guerra Fria, carro chefe do Pentágono, foram fabricadas nos laboratórios da DARPA.

Em relação à internet, o governo americano jogou papel essencial, desde a exploração da Ciência da Computação, passando pela criação da arpanet/internet, até os subsídios e impulsos à indústria de computadores. Muitos atribuíram a criação da internet como um resultado de um acidente. Para Newman (2002), os investimentos públicos destinados a uma área sem interesse empresarial foram os responsáveis por esse fenômeno. Além disso, foram os contratos governamentais e o apoio às instituições, aos laboratórios e startups, os responsáveis por desenvolver e estabelecer os padrões da tecnologia, em uma área nova para as empresas privadas.

171 ROSENBERG, 2003. 172 ATTA, 2003 (b).

O início do seu desenho foi dado a partir do Projeto Lincoln, resultado de uma parceira entre a Força Aérea e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts nos anos 1950. O projeto esteve interessado em desenvolver um sistema de radar para computadores.173 Nos anos 1960, os programadores vinculados a pesquisas financiadas pelo Departamento de Defesa reuniram esforços para consolidar o novo campo da Ciência da Computação. Neste sentido, a Agência criou a Rede Intergaláctica de Computadores, preocupada basicamente com a computação voltada para os bancos de dados e sistemas de processamento. Todavia, a partir do artigo “Homem – Simbioses do Computador”, Carl Licklider propôs ao Escritório de Técnicas de Processamento de Informação novas ideias sobre uma rede de computadores, o que seria a Arpanet.174 O Projeto Mac, de 1962, conseguiu criar a primeira rede on-line, composta de alguns serviços básicos, como e-mail, amigos virtuais e quadro de avisos. O primeiro roteador, conhecido como o Processador de Mensagem de Interface (IMP) foi criado em 1965, capaz de realizar monitoramento de rede e análises estatísticas. O auxílio da empresa AT&T no seguimento infraestrutural foi fundamental para a expansão da rede.

A primeira transmissão foi realizada em 1969, entre a Universidade da Califórnia – Los Angeles e o Instituto de Pesquisa de Stanford. Em parceria com a Universidade da Califórnia – Berkeley, foi desenvolvido o Protocolo de Controle de Transmissão (TCP). Em 1974, a Fundação Nacional da Ciência (NSF, sigla em inglês) propôs um projeto de rede para comunicação on-line. A integração com outras redes, a partir de um sistema, foi realizada em 1976, que viria a ser massificado apenas uma década depois. Um ano depois, foram integrados o satélite, o rádio e a Arpanet, através da criação do Protocolo de Internet (IP).175 De acordo com alguns dados, no início dos anos 1980, mais de setenta polos estiveram on-line e no final da década quase todos os departamentos de Ciência da Computação estiveram conectados pela rede.176 Em 1986, foi lançada a rede da Fundação Nacional da Ciência (NSFNet), expandindo-se exponencialmente para todas as universidades do país, assim finalizando o Projeto Arpanet em 1989.177

173 WALDROP, 2008. 174 WALDROP, 2008. 175 NEWMAN, 2002. 176 NEWMAN, 2002. 177 WALDROP, 2008.

O conceito de Defesa de Míssil Balístico (BMD, em inglês), objeto do famigerado ABM Treaty, e as tecnologias de monitoramento de teste de armamentos nucleares fizeram parte dos projetos da DARPA – até o momento que passou a ser conduzido pela Agência de Defesa de Míssil.178 As pesquisas sobre antimísseis balísticos objetivaram entender os métodos de reconhecimento e localização do míssil, os seus efeitos na atmosfera, os métodos de interceptação, entre outros questionamentos levantados pelos cientistas e engenheiros da Agência.179 Satélites de captação por infravermelho, radares de detecção de submarinos, mísseis, rádiotelescópio, sistema óptico de medidas operacionais para a localização espacial, lasers e os testes atmosféricos foram os seus principais resultados.180 Dentre eles o Tratado de Banimento de Testes com a União Soviética, de 1963, para evitar os danos causados pelos impactos das explosões na atmosfera, no espaço, em alta altitude e no subsolo.181

O primeiro projeto da DARPA para Defesa de Míssil Balístico foi implementado nos anos 1960, chamado de Projeto Defender, com o objetivo de identificar desde a fase inicial até a fase de ataque dos mísseis. O Sistema Óptico teve início em 1961 para produzir imagens com precisão a partir de infravermelho, como a identificação de satélites e outros objetos. Nos anos 1980, os telescópios infravermelhos foram transferidos para as Força Aérea.182 Os programas que integraram os radares aos mísseis, por meio dos Programas Sentinel e Safeguard, foram ambiciosos o bastante para implicarem no Tratato de Míssil Antibalístico com a União Soviética, de 1972.183 Não obstante, a DARPA criou a primeira Rede Mundial de Sismografia Padronizada (WWSSN), com o apoio do Serviço Geológico dos Estados Unidos, para o estudo das placas tectônicas.184 Assim como, foi possível estabelecer parcerias internacionais relativas às medidas sísmicas com a Noruega, Finlândia e Alemanha Ocidental. Nessas pesquisas foram utilizados os primeiros andamentos de inteligência artificial, softwares para detecção de sinais e coletas de dados.185 Ademais, os estudos para as medidas de potência energética

178 ROSENBERG, 2008. WILSON, 2008. 179 ROSENBERG, 2008. 180 ROSENBERG, 2008. 181 WILSON, 2008. 182 ROSENBERG, 2008. 183 ROSENBERG, 2008. 184 WILSON, 2008. 185 WILSON, 2008.

necessária para a defesa de míssil foram desenvolvidos através dos programas de lasers infravermelhos e ultravioletas.186

A Agência de Projetos Avançados foi responsável, também, pelas demandas das aeronaves de combate com maior desempenho de velocidade e manobra, e com a tecnologia stealth, capaz de reduzir a detecção de radar (radar cross section), infravermelho, visibilidade e ondas sonoras. O Programa Have Blue, com esta finalidade, foi financiado pela Força Aérea. Anteriormente, foram realizados o Programa Avançado de Caça de Combate e o Programa de Aeronave de Vigilância de Campo de Batalha, ambos também da Força Aérea, e responsáveis pelo desenvolvimento do F-16 e do B-2, respectivamente. 187 Para além das aeronaves, os americanos tiveram a ideia de expandir a aplicação da tecnologia furtiva para helicópteros, mísseis cruzeiros, bombardeiros, tanques e navios.188 Neste último caso, a Marinha implementou dois programas, o “Sombra do Mar” e o “Navio de Arsenal”, com a finalidade de aplicar os conceitos do F-117A aos navios de superfície.189

Os avanços tecnológicos já amadurecidos, como nas áreas de sensores, lasers, aeronaves, navegação, microeletrônica e mísseis, permitiram o desenvolvimento das armas de precisão guiada (PGM, em inglês). Este desenvolvimento foi demandado pelo Departamento de Defesa para poder diminuir as assimetrias internacionais com as armas desenvolvidas pelos soviéticos e rever os resultados das experiências nas Guerras da Coréia e do Vietnã.190As PGM’s foram utilizadas no “Programa Bombas Inteligentes”, com a finalidade de, através da energia eletromagnética, distribuir os ataques de precisão, principalmente acoplada aos mísseis de longo alcance e aos sistemas integrados.191 As pesquisas se desdobraram, principalmente, na linha de desempenho para encontrar e destruir com precisão os alvos em condições desfavoráveis.192

As armas de precisão foram responsáveis pelo abate de veículos aéreos e blindados, com a capacidade de utilização de armas, dispositivos, sistemas,

186 ROSENBERG, 2008. 187 ATTA et al., 2003 (a). 188 ATTA et al., 2003 (a). 189 ATTA et al., 2003 (a). 190 ATTA; GUTMANIS, 2003. 191 ATTA et. al. 2003 (a). 192 ATTA et al., 2003 (a).

munições biológicas, químicas, nucleares e radiológicas193, assim como fizeram parte da modernização dos tanques, sistemas de foguete e helicópteros do Exército americano. Aos mísseis táticos foram acoplados radares, indicadores de movimento, sensores e munições de precisão guiada.194Na metade dos anos 1980, o “Programa Bombas Inteligentes” criou uma família de munições aos veículos aéreos não tripulados, com sensores de imagens diurna e noturna e processamento de dados com capacidade de desempenhar atividades terrestre e aérea.195

A DARPA, também, foi responsável pelas pesquisas em sensores e conceitos operacionais, que originaram os veículos com pilotos remotos (RPV, em inglês) ou veículos não tripulados, os drones (UAV, sigla em inglês), capazes de se comunicar, navegar e localizar os alvos.196 Com as experiências marcantes nas Guerras da Coreia e do Vietnã, o Pentágono demandou o desenvolvimento de aeronaves com baixa tripulação. Balões, aviões e helicópteros foram envolvidos nos experimentos. Os RPVs representaram os primeiros estágios dos UAVs. A exigência das pesquisas da DARPA voltou-se para aeronaves com capacidade de sobrevôo em alta altitude, com longa duração e transporte pesado.197

Com foco no baixo custo de produção, velocidade baixa, estrutura mínima, com eficiência na comunicação, reconhecimento, localização e ataque ao alvo por laser, as Forças Armadas solicitaram à Agência o Programa Mini-RPV, iniciado em 1971.198 Os primeiros a serem desenvolvidos foram os Praerie e Calere. Por conseguinte, o Praerie II e o Calere II e III, foram munidos de radares, lasers, infravermelho reduzido, sobrevoo de seis horas e capacidade para guerra eletrônica.199 Posteriormente, o Programa Mini-RPV foi transferido para as próprias Forças Armadas. A DARPA continuou a avançar nas melhorias dos UAV’s, acoplando o novo Sistema Integrado de Navegação e Comunicação. Nos anos 1980, com a ideia de agregar capacidade de reconhecimento, vigilância e os motores movidos a vários tipos de energia, a Agência iniciou os Programas “Chuva

193 ATTA et. al., 2003 (a). ATTA et. al., 2003 (b). 194 ATTA et. al., 2003 (a). ATTA et. al., 2003 (b). 195 ATTA et. al., 2003 (a). ATTA et. al., 2003 (b). 196 ATTA et. al., 2003 (b).

197 ATTA et. al., 2003 (a). 198 ATTA et. al., 2003 (b). 199 ATTA, et. al., 2003 (a).

Tácita” e “Amber” para o desenvolvimento dos UAV’s de última geração, com reconhecimento fotográfico e inteligência eletrônica.200