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V.3.2.3 Résultats de simulation
Ao final desta seção podemos considerar que as estudantes cotistas dos dois cursos vêm construindo suas identidades na família e na escola em meio a dificuldades e sofrimento no que se refere à situação socioeconômica e pertencimento raciaL. As famílias das estudantes migraram de outras regiões para Brasília, em geral do Nordeste, e passaram por ascensão social, especialmente as do curso de Direito.
As cotistas que estudaram em escola pública e particular como Bárbara, da pedagogia e Mana do Direito revelaram se sentirem mais acolhidas no que se refere à posição social e racial na escola pública, e Bárbara relata experiências marcantes de preconceito, o que vem evidenciar a presença maior de negros e pobres na escola pública. Larissa, que sempre estudou em escola particular de bom nível declara que sempre sofreu preconceitos de toda natureza, o que reforça a constatação acima.
As mães das estudantes figuram como pessoas de referência na família, especialmente a de Mana, do curso de Direito e a de Malu, do curso de Pedagogia, influenciando bastante na escolha do curso – são mães com curso superior. Kelly, do curso de Direito tem uma família com baixo nível de escolaridade e diz não ter tido influência de nenhum familiar ou amigo, sendo a escolha do curso, como que, uma espécie de resposta à condição de pobreza e exclusão sofrida na família.
6 EXPERIÊNCIAS COM DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO NA
ESCOLA E NA UNIVERSIDADE
Neste capítulo analisaremos experiências das jovens cotistas na escola e na UnB, focando aspectos que dizem respeito às situações de racismo, discriminação e preconceitos vivenciados pelas jovens do curso de Pedagogia e de Direito ao longo de suas trajetórias.
A escola se constitui em um espaço de construção de relações sociais significativas de ampliação de nossos conhecimentos sobre nós mesmos, sobre os nossos semelhantes, e sobre o mundo. A escola é certamente, o primeiro grupo depois da família que nos coloca diante do outro, o que traz à tona as diferenças e desigualdades de gênero, de raça/ etnia, classe, religião, orientação sexual, estruturas físicas e emocionais, dentre outros aspectos que se revelam nas múltiplas relações cotidianas.
Começamos a perceber na escola a necessidade de requerer um trato de igualdade para conosco, quando a diferença nos diminui, e um trato diferenciado quando a homogeneidade nos descaracteriza48. Sermos diferentes, não significa sermos desiguais. Essa consciência, só se adquire na convivência construída no dia-a-dia na família, na escola, nos grupos religiosos, culturais, políticos, entre outros. A escola produz e reproduz conhecimentos, e dentro da sua história49 sabemos que, a população negra aparece com uma imagem identitária negativa, quando não aparece, dentro das diversas formas de construção do conhecimento. A instituição escolar é o lugar da linguagem, por excelência, e nas suas diferentes formas de linguagem50, as
48 Ver mais em Santos (1995).
49 Em estudos realizados sobre a História da interdição e do acesso do negro à educação, Silva e Araújo (2005, p.
68), afirmam que: “[...] a população escrava era impedida de freqüentar a escola formal, que era restrita, por lei aos cidadãos brasileiros-automaticamente esta legislação (art.6, item 1 da Constituição de 1824) coibia o ingresso da população negra escrava, que era, em larga escala, africana de nascimento. Ainda no século XIX surgiram as primeiras faculdades de medicina, odontologia, engenharia e direito, esta ultima fundada no ano de 1827 em São Paulo. Apesar dos subsídios do Estado, este ensino possuía um custo altíssimo, e era destinado quase que exclusivamente às classes sociais privilegiadas para a formação de profissionais de alto nível que iriam exercer as funções do capital e as funções políticas no país.
50 Silva (2000), ao discutir sobre identidade e diferença afirma que estas são criaturas da linguagem e que além
de serem interdependentes, identidade e diferença partilham uma importante característica por serem resultados de atos de criação lingüística. Traz exemplo afirmando que a definição da identidade brasileira, é o resultado da
representações do negro muitas vezes estão ligadas ao que é pobre, feio, mau, sujo, sem inteligência, ridicularizado, exotizado, entre outros51.
Podemos perceber estas linguagens nos livros didáticos, na literatura infantil, nos brinquedos e brincadeiras, nos xingamentos e apelidos, na omissão dos professores, e da direção da escola, nos diferentes recursos didáticos como música, vídeos, jornais, revistas, dentre tantos outros. A ausência quase completa da história das nossas origens e culturas africanas nos currículos, além de tudo, concorre para que, crianças negras cresçam rejeitando seus valores, e se esforçando para assimilarem um comportamento, uma estética, uma postura, um conhecimento que sejam bem aceitos socialmente, ou seja, aqueles que se aproximam de uma identidade branca.
Com o fortalecimento das reflexões sobre ações afirmativas, em especial sobre cotas, impulsionadas pelas pressões do Movimento Negro em conjunto com os movimentos sociais e também com os intelectuais brancos que pensam de forma semelhante, o papel da escola enquanto instituição vem sendo questionado.
Com a aprovação da lei nº 10.639, sancionada pelo Presidente da República em 2003, muitos intelectuais52 vem pensando propostas para uma educação anti- racista, sugerindo atividades pedagógicas que auxiliem os professores a pensar conforme uma outra lógica do conhecimento e da convivência humana.
As jovens dos cursos de Direito e de Pedagogia da UnB, como veremos a seguir, mostram como vivenciaram experiências de racismo, discriminação e preconceito na escola, e na universidade, confirmando a necessidade de uma outra forma de trabalhar com situações como estas no cotidiano da sala de aula, e da escola como instituição.
criação de variados e complexos atos lingüísticos que a definem como sendo diferente de outras identidades. Ver mais em: Silva (2000).
51 Guimarães (2002) faz interessante estudo sobre termos injuriosos e define insultos raciais como instrumentos
de humilhação, e afirma que sua eficácia reside justamente em demarcar o afastamento do insultador em relação ao insultado, remetendo este último para o terreno da pobreza, da anomia social, da sujeira e da animalidade.
52 Munanga (2005) adverte nesse sentido que precisamos todos, branco, negros e outras etnias reconhecer sem
medo, que somos racistas e preconceituosos. Conseguindo transformar nossa estrutura mental herdada de um mito de democracia racial, podemos elaborar estratégias pedagógicas e educativas de combate ao racismo, tarefa que nenhum de nós tem um modelo ou receita, mas que podemos experimentar construir outras formas de viver juntos.