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Résultats de la revue des recommandations pour la pratique clinique

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3. RÉSULTATS

3.3 Résultats de la revue des recommandations pour la pratique clinique

Não é meu propósito categorizar todas as tipificações existentes. O critério para proposição das três categorias foi a relação que os estudos poderiam ter com os temas desta investigação (escrita, ensino de escrita, tecnologias, formação docente). Na seleção, optei por um recorte de estudos de pesquisadores estrangeiros e brasileiros que integram a pauta de discussões em linhas de pesquisa de programas de pós-graduação do Brasil.

Nas últimas décadas, nomenclaturas variadas vinculadas a diferentes letramentos circularam em pesquisas nacionais e internacionais. Modificadores associados ao termo nuclear letramento, em sintagmas nominais, são usados como forma de restringir o tipo de letramento, tais como: letramento autônomo, digital, ideológico, multiletramentos, metamidiático, literário, informacional, multi-hipermidiáticos, dentre outros. Essa variedade de conceitos pode ser simplificadora para os que estudam os letramentos do ponto de vista das Ciências da Linguagem e que tomam o sujeito e seu trabalho com a linguagem como ponto de partida. Simplificadora porque põe em relevo a necessidade de trabalhar com o sujeito para determinado tipo de letramento, apagando, de certa forma, os diferentes gêneros do discurso que se atualizam nas mais diferentes esferas, enfatizando a estabilidade desses gêneros e tratando a língua como homogênea. Ou ainda, põe em relevo a ficção de que o sujeito aprende e usa um gênero do discurso de forma compartimentalizada, sendo fortemente delimitadas as fronteiras entre um e outro gênero ou entre uma e outra esfera. Assumir a noção de relações intergenéricas e o trabalho do sujeito com a linguagem, na alteridade, pressupõe assumir que são muito tênues essas fronteiras e que o sujeito, em variados gestos de linguagem, nunca é o mesmo, visto que diferentes experiências sociais e presumidos sociais, a cada enunciação, compelem esse sujeito a refratar a si mesmo e ao outro, em um processo dinâmico e contínuo, em variadas práticas de letramentos

Expondo perspectivas de estudo dos letramentos, pretendo demonstrar que, a partir dos dois modelos seminais de letramento (autônomo e ideológico), pesquisadores se aproximam ou se distanciam de um ou outro modelo, ainda que proponham um qualificador anteposto ou posposto ao termo letramento. Para marcar a variedade de letramentos em relação ao letramento ideológico, em especial, a tipificação é proposta por pesquisadores da área da Educação, Etnografia, Antropologia, Linguística, Comunicação, etc.

Dessa forma, (1) estudos sobre práticas de letramentos conforme o contexto seriam aqueles em que o meio, a esfera discursiva e o discurso de um certo grupo social são aspectos a serem considerados. Como exemplo, cito os letramentos acadêmicos que singularizam os gêneros institucionais que circulam no meio universitário. Lillis (1999), Street (2010), Fiad e Silva (2014) e Fischer (2012) são representativos dessa vertente.

(2) Estudos sobre os letramentos de grupos sociais, por sua vez, levam em conta os

aspectos que encaminham, de uma forma ou de outra, os indivíduos a fazerem (ou não) uso de práticas de leitura e escrita. Seriam representativos dessa vertente Heath (1983), Rojo (1995), Signorini (1992) e Souza (2009) que estudam os embates e as relações dos sujeitos com práticas escolarizadas de letramentos e os letramentos sociais que fazem parte do seu dia a dia.

Komesu e Gambarato (2013), Xavier, 2012, Lemke (2010) tratam dos letramentos em contextos digitais e/ou em sociedades tecnológicas que se inserem nos (3) estudos sobre

práticas de letramentos conforme o suporte ou a tecnologia utilizada. Nessa última vertente,

são objetos de pesquisa: a interação sujeito e sujeito e/ou sujeito e suporte, a linguagem, os gêneros do discurso (digitais), recursos (hiperlinks, edição de vídeos, etc), a multimodalidade, dentre outros.

Ressaltam-se dois casos: 1) há pesquisadores, como Buzato (2001, 2006, 2010) e Rojo (2001, 2006, 2010, 2012), citando apenas dois exemplos, que transitam em mais de uma categoria; 2) um imbricamento de diferentes vertentes ocorre com os multiletramentos do Grupo de Nova Londres (1996) que insere as três perspectivas apontadas anteriormente. Apesar de associar as pesquisas citadas em correntes distintas, uma categorização é sempre estanque e sujeita à incompletude. A associação visa somente a demonstrar que a ênfase dada a um ou a outro aspecto contribui para que o pesquisador tipifique o letramento a fim de enfatizar o contexto, o grupo social, o meio/o instrumento, a tecnologia, etc.

Defendo que, por considerarem os sujeitos, os contextos, aspectos culturais, sociais, tecnológicos e identitários, essas perspectivas dialogam mais fortemente com o modelo ideológico de letramento. Assim, poderíamos pensar, com Street (2010), nas práticas de letramentos que sujeitos realizam e não nos letramentos x ou y de que esses sujeitos participam.

Poderíamos, ainda, pensar em variedades de letramentos, a exemplo do que ocorre com a língua – variedade padrão e outras variedades –, concordando com Street quando diz que “letramentos já instauram pressuposições ideológicas e políticas que dificultam fazer estudos etnográficos da variedade de letramentos em contextos diferentes.”69 (2003, p. 04) Nomear um letramento

como “multiletramento” ou “digital” ou “literário” já pressupõe uma ideologia: a qualificação não objetiva necessariamente restringir o escopo do letramento.

Letramentos envolvem o uso da linguagem que está na ordem do sujeito e não do suporte ou do contexto ou do grupo social ou do uso da linguagem ou, no limite, da própria linguagem. É nessa linha de investigação que defendo a perspectiva de que as tecnologias são constituivas

da linguagem, ou seja, há um sujeito que dialoga, na relação de alteridade, com a tecnologia,

que a refrata e a atualiza.

É evidente que o sujeito não é “uma fonte indepentende e a-histórica”. (MARCUSCHI, 2008, p. 127) Penso que, como há “um cruzamento de práticas sociais [...] a se considerar nos estudos do letramento e no ensino por meio de gêneros do discurso” (CORRÊA, no prelo), essas práticas, na alteridade, são constitutivas do sujeito.

Nesse sentido, minha recusa em tipificar os letramentos dialoga com os resultados da pesquisa de pós-doutoramento de Komesu (2013, p. 305), que analisou a(s) “concepção(ões) de texto em contexto digital, por meio do estudo de recursos semióticos atualizados na produção do universitário que utiliza computador com acesso à internet no processo de Educação a Distância (EaD) semipresencial”. A pesquisadora situa como central o trabalho do sujeito com as linguagens presentes em contextos digitais. É, portanto, um sujeito que se constitui, na alteridade, pela linguagem, é um sujeito que, diante de diferentes recursos multissemióticos, diante de um novo contexto, tem que aprender a lidar com a “emergência desses enunciados concretos”.

69 Tradução livre. Texto original: Literacy comes already loaded with ideological and policy pre-suppositions that

Na conclusão de seu artigo, a autora (2013, p. 328) pondera que:

o trabalho do sujeito de marcar(-se), no (seu) texto, relação sócio-histórica com outros textos e múltiplas semioses, descentralizadas, dispersas, não-lineares, abertas a um exercício da ordem do coletivo, como atribuído, por autores como Lankshear e Knobel (2011: 51-55), ao paradigma de uma sociedade pós-moderna. Esse diálogo

incessante com práticas sociais outras, num diálogo incessante com enunciados

alheios, parece colocar em evidência, no processo de textualização de acadêmicos,

relação entre lugar/meio e modo de ser, ocupar o espaço na enunciação (do texto)

na contemporaneidade, na apropriação e mobilização de recursos semióticos que não sejam restritos nem apenas reconhecidos a/como os de ordem gráfica. (Em itálico, grifos da autora. Em negrito, grifos meus.)

Percebe-se, pois, que o ponto de apoio teórico da pesquisadora é que lhe permite discutir práticas de leitura e de escrita em novos contextos, no caso, o digital. Entendo que o ponto de partida para a análise do corpus por ela selecionado foi situar o sujeito sócio-histórico na sua relação com a linguagem. Situar o sujeito com a vida, portanto, sendo esta a perspectiva que se delineia como mais próxima do lugar em que me ponho para realizar esta investigação.

Pensando que a heterogeneidade é constitutiva da linguagem, defendo que, de um lado, a tipificação dos letramentos encaminha para uma certa compartimentalização de práticas de letramentos, dividindo os letramentos e separando-os, como se fossem categorias estanques e padronizadas. Análoga e contraditoriamente, os usos da linguagem também teriam que ser pensados como estanques e padronizados como se os gêneros do discurso fossem estáveis por natureza e as esferas discursivas também. O sujeito, nesse caso, seria constituído pela linguagem, mas como um elemento exterior a ela. De certa forma e dependendo de como a escola se apropria desses estudos, essa perspectiva, numa versão fraca, poderia se alinhar a modelos de aprendizagem de base comportamentalista e a uma concepção de ensino e de língua que vise à apropriação de modelos de gêneros do discurso e ao ajustamento do indivíduo, tomado como sujeito empírico, a uma determinada situação num processo de adequação ao contexto.

Apoiando-me na noção de relações intergenéricas, de instabilidade do gênero e da interveniência de uma esfera em outra(s) esfera(s), essa categorização equivaleria a tipificar também o sujeito e suas práticas de linguagem. Dito de outro modo, o sujeito, as esferas e as formas de comunicação humana por meio dos gêneros do discurso seriam, até certo ponto, tão estáveis, que seria possível treinar/instrumentalizar o aluno para produzir gêneros do discurso específicos para participar de uma dada esfera. Essa instrumentalização só seria possível na perspectiva de sujeito como indivíduo empírico e na noção de língua(gem) como homogênea e estável.

Entendo que a tipificação desconsidera o trânsito que o sujeito faz, por meio da linguagem e em função das experiências sociais que constrói ao longo de sua vida, em diferentes práticas de letramentos. Assumir a compartimentalização implicaria pensar que o ensino das práticas sociais constitutivas de cada tipo de letramento se daria igualmente de forma padronizada e gradual, o que poderia encaminhar para

o ensino centrado na hierarquização do conhecimento, no controle do aprendizado e do resultado desse aprendizado, na seleção e observação de fatos, quanto [para] o modelo de ensino fragmentado em que o aluno, para aprender, deve passar por fases evolutivas”. (CORRÊA, 2015)70

Na sequência, apresentando estudos relacionados às três categorias postas nesta seção, procuro mostrar se esses estudos se aproximam ou se distanciam de um ou outro modelo seminal para propor a noção de sujeito como ponto de observação a ser fortemente considerado em estudos sobre os letramentos ancorados na área de Ciências da Linguagem, sobre gêneros do discurso e tecnologia e ensino (de escrita).

3.3.3 Distanciamentos e aproximações de estudos sobre os letramentos dos modelos

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