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II. Interactions copépodes/diatomées

3. Résultats et discussion

Comparando esse momento com as lutas que ocorrem no egitsü, quando a seleção dos principais lutadores é apresentada formalmente pelos donos da festa antes das lutas, no uluki não há essa apresentação formal, até porque, como apontei anteriormente, não há um dono desse evento. Os lutadores do grupo visitante e dos anfitriões foram apenas chamados pelos respectivos ugihongo, um a um, para se enfrentarem. Depois dos confrontos entre os principais lutadores, todos os homens puderam lutar. Nesse momento, diversas lutas aconteceram ao mesmo tempo, incluindo as crianças, assim como ocorrem nos demais rituais que envolvem mais de um povo da região. Idealmente, cabe aos anfitriões chamarem os lutadores visitantes

22 Ouvi vários relatos dizendo que antigamente as lutas – e as trocas – não aconteciam no mesmo dia de chegada dos visitantes, apenas na manhã seguinte, provavelmente pelo fato de os visitantes chegarem tarde, depois de percorrerem longos trechos de canoa ou a pé. Na akinha apresentada no início do capítulo, essa também é a ordem dos eventos. Atualmente, os deslocamentos estão muito mais fáceis e as lutas e trocas acontecem, idealmente, no mesmo dia de chegada dos visitantes. Ver Ball (2007) para a descrição de um uluki, realizado na aldeia Yawalapiti, com participação dos Wauja, em que as lutas e as trocas ocorreram apenas no dia posterior à chegada dos visitantes.

com quem querem lutar, mas isso pode, eventualmente, se inverter. Caso haja também mulheres interessadas, elas podem lutar entre si, apesar de isso ocorrer com pouca frequência.23

Comparando as lutas do uluki com as lutas do egitsü, no primeiro caso, elas se realizam no início e não no final do evento, possibilitando um movimento no sentido de marcar a diferença para, posteriormente, possibilitar a aproximação-identificação dos grupos, ainda que essa identificação nunca ocorra integralmente. Além disso, no caso do uluki, as lutas têm uma duração maior (se utilizarmos como comparação as lutas que ocorrem com cada um dos povos visitantes no egitsü) e, mais importante, durante todo o tempo se mantém um clima ameno e amigável. Durante as lutas do egitsü não é incomum que pequenas brigas se formem, envolvendo inclusive os familiares dos lutadores (especialmente suas mães), que acusam os adversários de roubar ou de serem feiticeiros. No uluki o clima durante as lutas foi bastante diferente e, mesmo com algumas ocorrências de lutadores machucados, não houve nenhuma acusação mútua entre os visitantes e os anfitriões. Ao contrário, ao final das lutas, os lutadores se abraçavam, sorrindo, antes de se separarem e iniciarem novas lutas com outros adversários. Tal foi o clima que, ao final das lutas, quando retornamos para a formação inicial (com os ugihongo sentados e o grupo kalapalo logo atrás), antes do início das trocas propriamente ditas, homens e mulheres kuikuro e kalapalo se cumprimentaram, individual e longamente, fazendo questão de demonstrar toda a alegria que os envolvia.

Depois que todos já haviam se cumprimentado, outras três cadeiras foram colocadas logo à frente dos ugihongo, onde se sentaram os imünhilo, cada um em frente a um ugihongo. São eles (os ugihongo) que iniciam as trocas, colocando no chão à sua frente os objetos disponibilizados e dizendo o que esperam receber em troca. Esses primeiros objetos ofertados pelos ugihongo são distintos e, em geral, menos valiosos do que os que foram utilizados como presentes no começo do ritual (antes das lutas) e devem, necessariamente, ser aceitos pelos imünhilo que os recolhem do chão, dando início aos ciclos de troca. Nesse momento, como observadora, minha primeira impressão foi de que tudo funcionava como uma grande feira, tamanha a “confusão” decorrente da quantidade de trocas que ocorriam simultaneamente. O grupo de visitantes entregava seus objetos aos seus chefes, indicando se esperavam algo específico como pagamento. O chefe depositava o objeto no chão, à frente de seu “adversário” (aquele que estiver sentado à sua frente), que o recolhia e apresentava ao seu grupo, indicando qual deveria ser o pagamento, conforme indicado pelo ofertante. Depois de um tempo com os

23 As mulheres muitas vezes têm vergonha de lutar e somente se sentem à vontade para fazê-lo no ritual feminino

visitantes oferecendo seus objetos, as posições se inverteram e os anfitriões passaram a oferecer, no mesmo formato, tudo o que desejavam trocar. Nessas sessões de trocas os grupos estão todo o tempo medindo um ao outro e trocando, para além de objetos, imagens de si mesmos.

Apesar da aparência de confusão, com diversas coisas acontecendo ao mesmo tempo, as pessoas se mantiveram muito atentas às trocas que se efetivavam, fazendo comentários sobre o valor e a qualidade dos objetos ofertados e gritando “hi-iu” (um grito utilizado apenas no uluki e que indica extrema alegria decorrente de uma troca bem-sucedida) cada vez que algum objeto de grande valor era trocado. Embora, em geral, fossem feitos no mesmo momento, havia a possibilidade de acordar pagamentos (hipügü) futuros. Arranjos entre as pessoas envolvidas nas trocas podem ser realizados, especialmente em se tratando de bens valiosos, cujo pagamento exigirá algum esforço posterior por parte do receptor. O mais frequente, entretanto, é que os objetos mais comuns e, portanto, “baratos”, sejam pagos imediatamente. Todo tipo de coisa circula nesses eventos, tanto como oferta, quanto como pagamento: colares de caramujo, panelas de alumínio de todos os tamanhos, missangas, penas, braçadeiras, vestidos, sabonetes, cartuchos de espingarda, flechas, massa de pequi, peixe, anzol, café, açúcar, lã, peças de moto, relógio e inclusive dinheiro. Becker [Basso] (1969, p. 252) descreve que, no final dos anos 1960, “certain ‘valuable’ items, namely shell ornaments, hardwood bows, and very large ceramics, rarely appear during an uluki ceremony, and it is usually ‘lesser’ items which are exchanged here”. No uluki que presenciei, ao contrário, uma quantidade razoável de itens valiosos foi ofertada nesse momento das trocas, especialmente colares e cintos de caramujo, panelas de alumínio e grandes cintos/colares de missangas, formados por algumas dezenas de voltas. Todavia, efetivamente a maior parte das (dezenas ou centenas de) transações realizadas envolveu itens de pequeno valor. Essa distinção na quantidade e qualidade dos objetos trocados possivelmente atesta uma mudança na disponibilidade de bens – que é ressaltada por meus anfitriões, na comparação com seus ancestrais, como já apontei anteriormente – que tem como consequência uma possível mudança também no valor atribuído a esses bens. Quanto maior a disponibilidade, potencialmente menor o valor atribuído ao objeto; um processo de “desvalorização” semelhante ao descrito por Lea (2012) e Gordon (2006) entre os Mẽbêngôkre.

Os objetos mais valiosos trocados no primeiro dia do evento que acompanhei foram ofertados por homens, possivelmente por três razões: a primeira delas, o fato de que, em geral, os homens, por terem maior circulação nas cidades e mais dinheiro à sua disposição, possuem também mais bens do que as mulheres. Em segundo lugar, está, provavelmente, o fato de as mulheres terem mais vergonha do que os homens de se expor – a si e suas riquezas – nesses