Outras perguntas cabem no contexto específico das chamadas redes
sociais, sistemas de interação on line surgidos e desenvolvidos nas duas
últimas décadas. São as redes sociais expressões da indústria cultural, renovada por novos tipos de massificação simbólica? A ideia de indústria cultural, nos termos de Adorno (2007) remete a uma histórica composição de produtos e imaginários aderentes, instruídos e compreendidos como partes do modo moderno de comercialização, onde a cultura da apropriação massiva tende a ser ampliada ao universo dos bens imateriais e dos serviços contínuos, ligados à fruição, a identificação pessoal, à aceitação em grupos de interesse e/ou apreciação ou à demarcação de novas fronteiras de gosto. A internet inseriu, na primeira década do século, um refinamento dessa prática ao integrar um hábito empresarial de registro de consumidores à uma nova modalidade de “identidade” em rede.
As primeiras redes sociais on line datam dos anos 2000 e tem entre elas serviços como MySpace, Orkut, Badoo, Twitter, Linkedin, entre muitas outras. Sua adequação às novas exigências de um mercado publicitário deu-se rápido: mediadoras de publicidade em meio a assuntos de ordem pessoal, essas
ferramentas comunicativas vem sendo replicadas e reinventadas a cada ano, organizando em torno de si um série de novas práticas culturais e um tipo inerente de capital vinculado a fama, reconhecimento, seguidores e contatos: uma ainda instável moeda socialde valor incerto e interno.
O modelo de difusão recente da informação – ancorado na posse crescente de meios de comunicação de massa por indivíduos e grupos não relacionados aos veículos tradicionais de controle da notícia, vem instruindo o Estado a reorganizar sua presença. As redes sociais, funcionando como sistemas de adesão a essa nova ordem de publicação de informes, tem sido, então, instrumentalizadas por órgãos públicos em ritmo acelerado. Citaremos, para pensar a realidade do governo no Ceará, duas delas.
O Executivo cearense faz-se presente no Facebook desde 11 de Fevereiro de 2011, mantendo uma página de relações de acesso público (uma
fanpage oficial: qualquer usuário da rede pode conectar-se a ela, se desejar). O
modelo de exposição das informações segue o padrão do FB: caixas de informes abertas a comentários e a marcações positivas (“like”/”curtir”), organizadas em ordem cronológica (as mais recentes no topo da página, as mais antigas em seu rodapé). Cada caixa informativa contém um link para a notícia relacionada e mantida no portal do Estado, gerando um mecanismo interligado e centralizando o foco da informação ainda no site principal do governo.
Além do acesso simples, como sempre, no que diz respeito a esse tipo de sistema on line, as atualizações do Facebook são enviadas para as páginas pessoais de todos os usuários “assinantes” da página pública. Há um padrão de uso ou um tipo de declaração implícita e explícita da permissão de participação: os usuários são convidados a compartilhar (difundir) a informação postada, comentá-la ou marcá-la (ainda que a dinâmica já descrita do Facebook só permita marcações positivas).
O controle exercido via política editorial lembra a dinâmica de uso consentido e sob vigília, anti-característico da Internet da década (LEMOS, 2010). Por outro lado a participação de usuários da rede é registrada nos próprios códigos de interação da rede social, permitindo mesmo uma análise
das valorações da informação-ação pública (assinalada pelo número de likes, comentários ou compartilhamentos que cada conteúdo tende a receber).
Entre fevereiro de 2011 e janeiro de 2012 a participação era quase nula. Poucas notícias recebiam um único like e não havia registro de compartilhamento em nenhuma das mesmas durante o período. Lentamente a dinâmica muda neste mesmo ano. Em 20 de dezembro o governo divulga a informação de que sua fanpage é a mais curtida (com número de likes da página, indicando a quantidade de assinantes da mesma e não associados a conteúdos específicos) dentre as demais fanpages de outros governos estaduais. Mais de 15.000 usuários assinados contra cerca de 12.000 do estado de São Paulo (o segundo do “ranking”). Ao longo de 2012 e no começo do ano de 2013, o número de assinantes subiu para 22.000 likes, mantendo a página como a página governamental mais acessada entre os governos estaduais (ainda que, como discutiremos, o número de assinaturas seja pouco expressivo para os padrões da internet brasileira – a título de comparação, o site do Globo Esporte, programa esportivo televisivo, soma mais de 3 milhões de assinantes no mesmo período) (dados de março de 2013), mas expressivo no comparativo com páginas estaduais (a TV Verdes Mares, afiliada da Rede Globo no Ceará, possuía cerca de 5.000 likes no mesmo ano).
A modelagem do noticiamento em rede segue o sistema de referência dos conteúdos centralizados do governo. A gestão dessa informação, articulada em uma rede de repetições usa o Facebook como plataforma renovada e janela extra, mas não sem agregar ao mesmo o mesmo estilo específico de informe – a saber, o resumo pontuado e fragmentado da ação pública em cada história.
O Twitter assume outra vertente de atuação, ainda que as opções comunicativas sejam semelhantes. Pela dinâmica da rede social, os seguidores (usuários que assinam a página vinculada do Governo) são atualizados de semelhante modo: sua timeline recebe cada nova atividade postada na conta pública estatal, intercalando uma sequência mais ou menos fluída de informes (dependendo do dia ou mês, o fluxo de atualizações é mais ou menos constante). De modo muito parecido com o Facebook o Twitter sistematiza a prática de fala-sobre-a-ação em um ritmo acelerado e em um espaço curto. O limite de 140 caracteres por tweet e a utilização já corriqueira dos encurtadores
de URL27são contornos deste formato de rapidez. Por outro lado e fazendo o exame minucioso das diferenças, o formato unilateral desta rede (que não permite comentários associados a cada postagem) cria um mecanismo de ações sem marcas externas e redireciona a responsabilidade da valoração da informação para os Retweeets (RTs), organizando uma economia própria de relevância na Internet que, para os fins de nossa análise aqui, pode ser entendida a partir de três afirmações: 1) a prática de ações públicas publicadas sem distintivo ou interação reproduz uma lógica anterior no campo da difusão política: a da TV, que direciona e introduz os informes em mão única; 2) a reprodução das informações via RT “manual” (o ato de replicar a notícia, editando-a; opção de qualquer usuário) é uma das raras exceções a regra da “pureza” do dito público, permitindo, ainda que de modo a não associar diretamente informação e opinião externa, a aplicação de signos de ação, de reflexão sobre a fala estatal28; 3) a cultura de republicação dos noticiamentos ainda é incipiente e também raramente dotada de diálogo, mantendo intactas as regras usuais estabelecidas pelo mercado de informação das redes.
A economia simbólica destas pequenas estruturas – pequenas no sentido de sua abrangência ainda limitada – é referenciada pela contradição do Estado enquanto máquina diretiva (seja na teoria, seja na prática de nossa história política) e a imagem democrática, cuja exigência pela transparência é uma constante. Assim, a modernização dos meios de exposição vai ganhando vincos de exposição listada – e como lista, desprovida ou pouco provida de adjetivações ou descrições: as coisas são simplesmente ditas, uma depois da outra, com raras e não raro prejudiciais questionamentos externos. O esforço ou ao menos o aparente esforço da elaboração de tais listas está na clareza dos atos listados; mas trata-se, “arqueologicamente” falando (FOUCAULT, 1998) de uma clareza da objetividade sem descrição, de uma voz reiterada apenas por si mesma.
27
Protocolos/serviços que trocam os extensos endereços de websites por versões menores, em combinações de caracteres articuladas a uma espécie de redirecionamento, gerando assim, links menores, passíveis de serem utilizados em uma mídia de espaço limitado.
28
Alguns aplicativos (como os para o sistema operacional IOS) listam os tweets de resposta a qualquer tweet publicado. Ainda assim, além do limitado uso deste tipo de programa, o mesmo não adere o comentário à página de sua produção, fazendo do twiiter um ambiente mais isento de valorações externas a cada noticia repassada pela instância pública.
Essas informações nos colocam, mais uma vez, diante do quadro cultural da prática pública de noticiar os feitos de maneira massiva, aberta e oficial. O presente capítulo, visa, no entanto, retornar as notícias usuais, desta vez da Secretaria de Planejamento e Gestão (SEPLAG), com o objetivo de perscrutar os motes de tratamento do desenvolvimento a partir da lógica de auto-imagem que o Estado gera por meio de uma secretaria simbolicamente coordenadora.