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A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente. (Rubem Alves)

Sobre a importância de uma relação afetiva entre docente-aluno, acredita-se que o docente não transmite apenas conhecimentos, mas pode, também, instituir uma relação de afetividade com seus alunos. De acordo com LaTaille (1992), Piaget (1896-1980) foi o primeiro a questionar as teorias que tratavam da afetividade e da cognição como aspectos funcionais. Para ele, não existe cognição sem afetividade. A afetividade também é concebida como o conhecimento construído por meio da vivência, como nesta pequena e simples frase de um docente que elucida um sentimento para trabalhar com o idoso “[...] é gostoso estar com pessoas experientes”- D3, e isso não se restringe ao contato físico, mas à interação que se estabelece entre as partes envolvidas, na qual todos os atos comunicativos, por demonstrarem comportamentos, intenções, crenças, valores, sentimentos e desejos, afetam as relações e, consequentemente, o processo de aprendizagem. Os relatos que seguem ilustram esta questão.

Eles vieram buscar companheirismo, amizade. D2.

É um carinho muito grande, é uma troca muito grande. Eles já não tratam você como professora, é a amiga, é a netinha, é a sobrinha, é sempre assim. D1

Essas demonstrações de afeto, carinho e amizade aos docentes são vistas como benefícios, pois suas respostas também derivam de estímulos que os fazem ficar cada vez mais envolvidos com o trabalho, não só pela afeição, mas pelo carinho e a gratidão que recebem por parte dos alunos (CACHIONI, 2003): “O interessante deles é que eles querem cuidar da gente também”,“[...] eu gosto mais dos bilhetinhos!”, “[...] isso em relação à gente é muito forte, pedem indicação de remédio, trazem coisas, presentinhos [...]”D2. Assim como disseram nas narrativas, percebeu-se também nas observações que a relação que os docentes mantêm com seus alunos adultos maduros e idosos é de muito carinho e respeito, e não deixam de agir pedagogicamente, por exemplo, tentando colocar disciplina na sala de

aula, quando todos falam ao mesmo tempo sendo aplaudido pelos alunos ao manejar o controle do grupo.

A afetividade funciona como chave potencializadora do processo de ensino- aprendizagem, tudo indica que, do ponto de vista dos alunos, a maior qualidade do docente está em seu domínio afetivo, e, como disse Rubem Alves (2000), docente é aquele que ensina com alegria!

Tudo indica que seja dessa forma que o aluno estabelece uma relação de troca. De acordo com Vital (2005, p. 15), “o processo educativo na dimensão gerontológica trabalha com a totalidade do ser, ou seja, de maneira multidimensional, o afeto é tão importante quanto à razão, o espírito, o corpo, a arte, a alegria de viver”. Arantes (2000) lembra, ainda, Wallon para quem a afetividade está sempre presente em todos os momentos, movimentos e circunstâncias de nossas ações. Na relação docente e aluno, não está presente apenas a transmissão de conteúdo, na perspectiva genética de Wallon, a inteligência e a afetividade atuam juntas. Para que a afetividade evolua, ela depende das construções realizadas no plano da inteligência, ao mesmo tempo em que a evolução da inteligência depende das construções afetivas. No entanto, Wallon reconhece que, ao longo do desenvolvimento humano, existem fases em que predomina o afetivo e fases em que predomina a inteligência, sendo a afetividade anterior ao desenvolvimento.

Acredita-se que ela seja o ponto de partida para o desenvolvimento da pessoa, a ponto de defender que a evolução do ser humano dependia tanto da capacidade biológica quanto do ambiente que a afeta de alguma forma (ARANTES, 2000). Em se tratando de um contexto de educação de idosos, o docente deve estar atento às suas nuances afetivas, como descrito neste relato: “O que eu tenho observado no núcleo que eu trabalho aqui é que as pessoas vêm, no intuito de dançar, de cantar [...], estão pedindo socorro, em suas palavras às vezes no diálogo, então você tem que estar atento a isso [...]” D5. Essa relação entre docente e aluno sugere presença da afetividade.

Nesta direção, ensinar exige querer bem. Querer bem aos alunos é um saber e um ato de coragem, a afetividade não pode assustar, e tampouco ser excluída do conhecimento. A afetividade não interfere no cumprimento do dever do docente no exercício de sua profissão, diz Paulo Freire (1996, p.141). Como um processo de mão dupla, os docentes afirmam que recebem muito carinho e atenção por parte dos idosos, talvez pelo volume de mulheres que frequentam o programa, dado que, naturalmente, estabelecem relações afetivas com mais facilidade que os homens.

Além disso, segundo Freitas (2006), no Brasil, a maioria das pessoas idosas é do sexo feminino, e essas têm uma participação maior em programas de educação permanente em relação aos homens. Ou seja, as ações destinadas à população idosa são frequentadas em sua maioria, pelo universo feminino. As mulheres, mais do que os homens, participam de atividades, cursos, viagens e adaptam-se melhor quando saem do mercado de trabalho (DEBERT, 1999).

Por apresentarem um lado afetivo mais intenso, tendem a permanecer mais tempo nesses espaços (DA SILVA OLIVEIRA, 2004). Esse fato também é constatado por esses docentes no programa estudado.

Elas são pessoas extremamente curiosas, muito inteligentes, extremamente interessadas e abertas para as novas informações. E elas têm uma carência muito grande de atenção também, isso é bem visível, a carência de atenção delas, isso às vezes até chega atrapalhar, porque você tem que saber se distribuir na hora [...] D2.

Para Mello e Rubio (2013, p.2), “a afetividade exerce um papel importante em todas as relações, além de influenciar decisivamente a percepção, o sentimento, a memória, a autoestima, [...]”. À medida que ocorrem as interações entre docente e aluno, desenvolvem-se sentimentos individualizados e constantes entre eles. As relações afetivas devem ser positivas e verdadeiras, a afetividade precisa estar presente nas experiências vividas pelas pessoas, por toda a vida. Para os docentes pesquisados, o contato com os idosos possibilita uma intensa troca afetiva e de conhecimentos entre eles, apresentam como característica serem extremamente participativos, calorosos e risonhos!

Mesmo assim, observou-se durante as atividades, os docentes serem firmes na condução do trabalho, mostrarem-se alegres, atenciosos, pacientes, tolerantes e compreensivos com quem apresentava dificuldade para aprender, seja um passo de dança, um exercício físico ou entendimento de um texto, ou o manejo da aprendizagem de informática. Além disso, uma postura dedicada, demonstrando amizade, amor pelo que fazem e simpatia na hora de envolver os idosos nas atividades. De acordo com Müller (2002, p. 276), essa relação é baseada na confiança, na afetividade e no respeito, e o docente não apenas orienta, mas fortalece bases morais e críticas, não deixando sua atenção voltada apenas para o conteúdo a ser dado. Uma relação baseada na afetividade é um relacionamento que auxilia docentes e alunos na construção do conhecimento. Quanto maior o comprometimento com a educação e mais vinculado afetivamente ao aluno, mais teor o docente traz para a relação ensino-aprendizagem (PLACCO; SOUZA, 2006). Assim, acompanha o pensamento de Paulo

Freire (1996) de que mal se imagina o que pode passar a representar na vida de um aluno um gesto do docente. Um gesto aparentemente insignificante pode valer como força formadora ou como contribuição.

Portanto, a prática educativa é afetividade, alegria; ela não pode ser vista como uma experiência fria, sem alma, onde os sentimentos e as emoções sejam reprimidos (FREIRE, 1996).

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