CHAPITRE 5 SIMULATION D’ÉCOULEMENT
5.2 Cas de la mesure de perméabilité
5.2.2 Résultats des simulations pour le renfort unidirectionnel
A situação econômica da vila de Goiana, no século XVIII, era equivalente aquela em que se encontrava Olinda. Isso se explica em boa parte porque os engenhos de açúcar de Pernambuco (não só os de Olinda) enfrentavam sérios problemas, desde o século anterior, em função dos desdobramentos advindos da expulsão holandesa. Assim como Olinda, Goiana tinha na produção açucareira o centro de sua economia. Porém, diferente de vila “Duartina”, o comércio de carnes também mobilizava a economia daquela cidade. Goiana havia participado das batalhas contra os holandeses e a elite política e econômica da vila tinha orgulho disso e usava este aspecto para obter favores da coroa portuguesa, conforme o relato do extrato abaixo, retirado de certidão de 1779:
45 SOUZA, George F. Cabral de. Patrimônio, Territorialidade, Jurisdição e Conflito na América Portuguesa: Pernambuco, século XVIII. In: OLIVEIRA, Carla Mary S. MENESES, Mozart Verguetti de. GONÇALVES, Regina Célia (orgs.). Ensaios Sobre a América Portuguesa, p. 81-84.
46 AHU_ACL_CU_015, Cx 59, D. 5040. CARTA dos oficiais da Câmara do Recife ao rei D. João V. Recife. 04/04/1743.
47OLIVEIRA, Carla Mary S. MENESES, Mozart Verguetti de. GONÇALVES, Regina Célia (orgs.). Op.cit., p. 85-86.
... aquelle Povo dizemos, que com hum animo intrépido, sem auxilio, sem armas, sem munições, sem posses respirou do poder de Holanda, para o de V. Magestade... chegando a sofrer assim mesmo, com as limitadas munições, e armas tomadas a aquella infiel nação, o orror de três batalhas Campaez, trabalhadas pela gente mais Luzida do dito Paiz, vindo a ter o ultimo vencimento em 27 de Janeiro de 1654... 48
Passados mais de cem anos da participação de Goiana na expulsão dos holandeses de terras sob a autoridade de Portugal, os autores do documento fazem questão de rememorá-los como forma de persuadir seus interlocutores, sobre a necessidade de auxílio diante da crise que se abatera sobre a vila. No ano de 1779, a razão da crise, segundo a Câmara de Goiana, era a atuação opressora da Companhia Geral, conforme trataremos ainda neste capítulo. Contudo, o mesmo documento menciona outra crise que atingiu Goiana no ano de 1723, deixando um rastro de morte, sobretudo entre os escravos.49
O maior problema dos donos dos engenhos de Goiana, na 1ª metade do século XVIII era o endividamento. As dívidas deles junto a comerciantes que praticavam o transporte do açúcar para a Europa, fazia com que muitos engenhos fossem executados pelo governo, com a possibilidade de perderem suas propriedades. Essa situação levou a Câmara de Goiana em 1724, pedir ao rei provisão para que os senhores de engenho não fossem cobrados judicialmente. Ao qual respondeu o rei D. João V favoravelmente ao pleito dos oficiais da Câmara de Goiana:
... Faço saber aos offeciaes da Camara de Goyana que havendo visto o que me reprezentastes em Carta de dezeceis de Março do prezente anno, Reprezentandome o mizeravel estado em que se achava essa Cappitania de Itamaracá pellas execuçoens que se fazia a esses moradores, e que assim vos devia eu conceder huã Provizão... para não serem executados os Senhores de Engenho nas fabricas delles... Me pareceo mandarvos dizer por Rezolução de vinte e sete de outubro deste prezente anno... que houve por bem concedervos se vos passe nesta parte a mesma Provizão que se passou aos moradores de Pernambuco de que avizo para que assim o tenhaes entendido, para que mandeis tirar ao Reyno a Provizão da graça que vos tenho feito para ahy se praticar... 50
Vale destacar que Goiana até meados do século XVIII estava ligada a Capitania de Itamaracá. Sendo aquela Capitania administrada diretamente pela coroa. Porém, depois que a Capitania de Itamaracá foi extinta em 1756, a cidade se aproximou mais da Capitania de
48 AHU_ACL_CU_015, Cx. 133, D. 10010. CERTIDÃO do Secretário do Conselho Ultramarino. 12/05/1779. 49 Idem.
50 AHU_ACL_CU_015, Cx 30, D. 2741. REQUERIMENTO dos oficiais da Câmara de Goiana ao rei D. João V. Anterior a 20/06/1724.
Pernambuco. Em relação à Itamaracá, Goiana havia se constituído uma de suas principais vilas e a Câmara exercia autoridade sobre uma área que ia além dos termos dela, abraçando uma região mais ampla, devido a sua importância política e posição estratégica. Goiana estava localizada entre Pernambuco e às Capitanias estabelecidas mais ao Norte, como a da Paraíba, a do Rio Grande do Norte e a do Ceará.51
Convergia para Goiana o gado que vinha destas Capitanias que se localizavam mais ao Norte, e isso alimentava o comércio de carnes na região.52 Do ponto de vista administrativo, somente no século XVIII Goiana iniciou sua aproximação a Pernambuco, entretanto, politicamente e economicamente aquela vila possuía estreitos e antigos laços com aquela Capitania53. Por exemplo, em matéria de assuntos eclesiásticos, a vila de Goiana deveria responder ao Bispado de Pernambuco com sede em Olinda, mesmo antes de se desligar de Itamaracá, assim como também, era a administração de Pernambuco quem monitorava a situação espacial de Goiana e informava às autoridades superiores.54
A peculiaridade de Goiana se revelava em função de outras questões. Vejamos as tensões políticas. A tensão que levou Olinda a se levantar militarmente contra o Recife no início do século XVIII, também se apresentava em Goiana. A vila possuía atores ligados ao setor açucareiro e ao comércio. Estes mantinham canais de contato e relações clientelares respectivamente com a “nobreza da terra” de Olinda e os mascates do Recife. A tensão entre estes grupos em Goiana apresentou diferentes contornos, pois, enquanto naquela vila os homens da terra e os do comércio partilhavam do mesmo espaço, disputando o controle da Câmara e a hegemonia política local, no caso de Olinda e Recife era diferente, pois, em Olinda estava estabelecida a “açucarocracia” e em Recife a “mascataria”, cada qual em seu espaço.55 Entretanto, um ponto em comum entre Goiana e Olinda, eram as dificuldades encontradas pelos moradores ligados à produção açucareira. Porém, a questão que aproximava as três vilas era clara dependência do trabalho escravo.
51 Biblioteca Nacional. II – 32, 33, 006. OFÍCIO da Câmara de Goiana. 15/12/1785. Em 1785, a Câmara de Goiana afirmava que o gado do Ceará que não havia sido embarcado pelo porto de Assu e nem no de Mossoró, chegava a vila de Goiana por um preço muito alto, tão elevado que a população não conseguia comprar carne. Argumentavam que as populações da Bahia e do Rio de Janeiro não precisavam das carnes secas de Pernambuco pois possuíam outros fornecedores, rogando, portanto, que as carnes secas em vez de irem para fora da capitania se desviem para a vila de Goiana.
52 BARBALHO, Luciana de Carvalho. Capitania de Itamaracá, poder local e conflito: Goiana e Nossa Senhora
de Conceição (1685-1742). Dissertação CCHLA/UFPB, p. 83. Disponível em <
http://bdtd.biblioteca.ufpb.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=959>. Acesso em 28/04/2014. 53 Idem, p. 81-83.
54 Biblioteca Nacional. 10, 03, 018. DESCRIÇÃO da Capitania de Pernambuco. Século XVIII. Apesar de não apresentar uma data específica, o documento ainda descreve Goiana como parte da Capitania de Itamaracá, possuindo quatro freguesias, Tejicupapo, Tacuará, Desterro e Itamaracá. Portanto, ele deve ter sido confeccionado em período anterior a 1756, ano da extinção da Capitania de Itamaracá.
No que diz respeito à pessoas negras, afirmamos que elas também estavam representadas em Goiana e região, fazendo parte da sociedade durante os anos de dificuldades, e, desta forma, também estavam sujeitos a crise econômica que atingira a todos na vila. Sobre os grupos subalternos da vila, a crise se traduziu em fome e mortes, como se depreende no trecho da cópia de uma certidão do secretário do Conselho Ultramarino, Joaquim José Lopes de Lavre, que faz referência a situação de parte da população negra de Itamaracá e, por extensão, de Goiana, na 1ª metade do século XVIII:
... e depoiz posta na ultima mizeria por hum contagio pestilencial, e ultimamente por huma fome que arreduzio à ultima extremidade, chegando os naturaes a sustentarem-se de raízes de pao, que matando-lhes a fome, também lhe erão correiyoz da morte, cuja ultima calamidade sofrerão em 1723, deixando morrer a montes seus escravos, que constituem neste Pais a melhor posseção, por não terem com que os alimentar... 56
O ano de 1723 foi de calamidade para Goiana e outras localidades da Capitania de Itamaracá. Os proprietários tendo prejuízos econômicos, e, na ponta inversa da escala social, os negros escravizados perdendo suas vidas em função da falta de gêneros básicos para a sua alimentação. Estes que estavam morrendo aos “montes”, ao longo de suas vidas na vila, integravam-se economicamente às principais atividades econômicas, de maneira subordinada. Assim como os brancos, freqüentavam a Igreja e participavam de irmandades como a do
Rosário dos Homens Pretos, ereta dentro dos termos da vila.
A morte era algo latente às condições de vida a que estavam expostos os negros em Goiana. Na 2ª metade do século XVIII, mais de 50 anos depois, permaneciam as mesmas dificuldades verificadas na 1ª metade do século. Na ocasião a Câmara de Goiana reclamava do preço dos escravos. O preço mínimo que pagavam por um escravo era de 80.000 réis, e, apesar do alto valor, os negros que lhes eram oferecidos estavam doentes. Duas epidemias ocorreram sobre a cidade, vitimando principalmente pessoas daquele grupo social. Tantos foram os mortos que não havia mais espaço, na Igreja Matriz, para se enterrá-los.57 Por isso, por quase um ano, o costume de se enterrar os mortos na Matriz foi suspenso, e, mesmo
56 AHU_ACL_CU_015, Cx. 133, D. 10010. CERTIDÃO (cópia) do secretário do Conselho Ultramarino. 12/05/1779.
57 Veremos no último item deste trabalho a questão do uso das Igrejas para o enterro das pessoas no século XVIII. Um costume que começou a ser combatido pelo discurso médico no século XIX, o que levou a construção de espaços específicos para o sepultamento dos mortos por parte das autoridades civis, os cemitérios. Tal espaço foi planejado para se localizar longe das cidades. Veremos também que o uso das igrejas como locais de enterramento estava relacionado com a atuação das irmandades leigas na América portuguesa.
assim, nas sepulturas que na Igreja haviam sido abertas, por falta de espaço, em cada uma não era raro colocar-se até três mortos.58
Goiana era uma vila menos desenvolvida do que Olinda e Recife, apesar de possuir algumas características que a aproximava destas duas. Aquela cidade apresentava menos visibilidade no contexto da América portuguesa. Contudo, entendemos que a rigidez da estrutura da escravidão apresentou faces parecidas nas três vilas, tendo em vista que as mesmas se integravam no projeto colonial português, marcado pela exploração econômica baseada no trabalho escravo. O índice elevado de mortos entre a população escrava de Goiana nos revela um quadro tenebroso, e nos indica parte das dificuldades sociais e como elas se projetavam sobre os grupos subalternos, especificamente, os negros, no XVIII.
A partir do que vimos até aqui acerca das vilas de Recife, Olinda e Goiana, gostaríamos de apresentar o quadro seguinte para que visualizemos outros aspectos comparativos entre elas:
QUADRO 1
Situação administrativa, militar e econômica de Olinda, Recife e Goiana, século XVIII (anterior a 1756)
Olinda Recife Goiana
Nº de Freguesias 8 3 4
Quantidade de Soldados ou guarnições 1.254 2.086 877
Nº de engenhos moentes 49 46 16
Fonte: Biblioteca Nacional. 10, 03, 018. DESCRIÇÃO da Capitania de Pernambuco. Século XVIII.
A quantidade de engenhos moentes ou ativos apresentados no quadro são indicadores que dimensionam o nível da atividade econômica que era desenvolvida nas três vilas. Apesar do desenvolvimento do comércio em Recife, a produção açucareira no século XVIII continuava a ser o principal critério para se mensurar a riqueza de uma cidade. Neste quesito Olinda e Recife se destacam em relação à Goiana. Também nos revela o crescimento do Recife em relação a Olinda, posto que no século XVII, o Recife se resumia a porto de Olinda, e, provavelmente, possuía menos engenhos do que na época que foi feito este levantamento.
58 AHU_ACL_CU_015, Cx. 133, D. 10010. CERTIDÃO (cópia) do secretário do Conselho Ultramarino. 12/05/1779.
Antes de 1756, aquela cidade passou a possuir uma produção açucareira independente de Olinda, quase que equiparada à vila “Duartina”, que sempre se pautou nesta atividade. As áreas de plantio do Recife localizavam-se distantes dos três bairros pioneiros da cidade que correspondiam ao espaço urbano propriamente dito da vila: Recife, Santo Antônio e Boa Vista.59
A maior relevância de Recife sobre as outras duas também se mostra no quesito das guarnições lá presentes. O número de soldados de prontidão em Recife era muito superior a quantidade que se apresentava em Olinda e em Goiana, revelando o quanto se tornou necessário se guardar o porto, porta de entrada e saída das riquezas que se traziam e produziam em Pernambuco.
Em relação às freguesias o número maior delas em Olinda, provavelmente é um indício de que aquela cidade era a que possuía o maior território, em relação às outras duas, o que não deve causar admiração, pois Olinda, entre as três vilas, foi a que primeiro constituiu uma área urbana. As três freguesias do Recife citadas eram Cabo, Muribeca e Ipojuca que estavam separadas do porto por três, duas e três léguas respectivamente. Enquanto Goiana possuía quatro freguesias e uma delas, a de Tejucupapo distanciava-se do porto da vila por menos de meia légua. Enquanto as freguesias de Recife tinham como referencial de espaço e distância o porto da cidade - que era o principal de Pernambuco, pelo volume de produtos que por ele entravam e saíam da Capitania - as freguesias de Goiana também usavam como referencial que marcava as suas distâncias, o porto daquela vila, apesar de menor em comparação com o de Recife.60 Por ser relativamente menor, e não permitir que certas embarcações pudessem aportar nele, o porto de Goiana, por vezes foi preterido pelo porto do Recife.61 Portanto, Goiana apresentava ligações econômicas (circulação de mercadorias) com Pernambuco e o porto do Recife, inclusive com a ingerência dos governadores da Capitania de Pernambuco62, apesar de até meados do século XVIII, estar vinculada a jurisdição de outra Capitania, a de Itamaracá.63
Estas cidades e suas freguesias tinham o negro totalmente integrado a sua produção econômica e material. A vivência da comunidade de ascendência africana em Pernambuco,
59 CARVALHO, Marcus J. M. de. Liberdade..., p. 21-22.
60 Biblioteca Nacional. 10, 03, 018. DESCRIÇÃO da Capitania de Pernambuco. Século XVIII.
61 AHU_ACL_CU_015, Cx. 28, D. 2564. CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei D. João V, sobre a carta dos oficiais da Câmara de Goiana, informando a necessidade que têm aqueles moradores de escravos e pedindo autorização para poderem navegar embarcações para Angola e Costa da Mina. 03/07/1719.
62 Idem.
63 AHU_ACL_CU_015, Cx. 30, D. 2741. REQUERIMENTO dos oficiais da Câmara de Goiana ao rei D. João V, pedindo uma certidão da provisão passada na qual se proíbe de se arrematarem as fábricas dos engenhos e lavradores. 20/06/1724.
formada por ações que redundaram em produção material em Olinda, Recife e Goiana, dialoga com a constituição da cultura imaterial naquelas localidades. A fé e a religiosidade daquelas pessoas era a principal fonte de produção de cultura imaterial naqueles espaços. Como agentes nesse processo, os negros possuíam história. Uma história de grupos etnicamente e politicamente unidos ou separados em África, e que, a partir da diáspora, também se tornou a história do tráfico transatlântico de pessoas.