Orfeu, como representante da linguagem poética, é atemporal e, presente nas manifestações artísticas, quer seja poesia, pintura, escultura, música, trará sempre a metalinguagem como cerne dos questionamentos humanos, suscitando as questões relacionadas à inspiração e à construção do objeto poético. Órfica trata da dificuldade da elaboração da linguagem, da dureza das palavras, quando manuseadas pela poeta que busca erguer o edifício da poesia.
Órfica
Não me destruas Poema enquanto ergo
a estrutura do teu corpo e as lápides do mundo morto. Não me lapidem pedras se entro na tumba do passado ou na palavra-larva.
Não caias sobre mim que te ergo ferindo pedras duras
pedindo o não-perdido
do que se foi. E tento conformar-te à forma do buscado.
Não me tentes Palavra além do que serás
num horizonte de Vésperas. (SILVA, 1999, p. 307)
O poema Órfica também traz-nos uma forte marca da poesia na construção poética. O eu lírico trava uma batalha com a Palavra, buscando a forma para o poema.
O Mito de Orfeu confere uma leitura pontual do que seja o fazer poético. Simboliza a construção da própria linguagem. A literatura é sempre o se lançar ao vazio, à morte, às origens. Experimenta-se, no uso das palavras, conferir-lhes sentidos, além do que elas carregam. O poeta é aquele que tem o dom, o poder de adentrar ao mundo sombrio, desconhecido, das letras e de lá retirar a poesia, assim como Orfeu que, de posse da lira, instrumento de sedução, desce à mansão dos mortos para trazer, de volta, Eurídice. Essa aventura destemida é repleta de desafios. Intenso diálogo do poeta com a poesia.
No poema Órfica, a batalha é expressa pelas imagens contidas nos verbos: destruir, lapidar, cair e tentar (no sentido de tentação). O poeta busca edificar a estrutura do poema, visitando, para tanto, a morte que também é origem. É o mergulho no mais
- sepulcro frio, onde o poeta busca o resgate.
Orfeu volta à superfície sem a amada, no entanto, com maiores poderes. O herói passa pelo sacrifício, pelo contato com os mundos escuros, misteriosos e retorna mais forte. E, nesse sentido, o título do poema inspira-nos à experiência do poeta. A poesia órfica é aquela que passou pela dor, pelo sofrimento, pela morte. Nela, o poeta viveu a experiência do árduo trabalho com a palavra, na busca de trazê-la à vida. É a metalinguagem plena, em que o poeta, como um alquimista, ajuda a poesia a nascer.
Ainda, ressaltamos as personificações dos verbetes Poema e Palavra. O Poema é aquele que tem força e utiliza-a para guerrear com o poeta, desferindo seu peso sobre ele. Já a Palavra é a Lira que tenta, seduz, a fim de que o poeta, ao olhar para trás, distraia-se e perca-se na forma que tenta dar ao Poema, o qual ainda se encontra em vias Como refletido pela estudiosa da obra de Dora Ferreira da Silva, Drª. Enivalda Nunes Freitas e Souza,
Olhar para trás é mais do que a violação do interdito, isto é, o buscar daquilo que já se perdeu para sempre, o olhar para trás caracteriza a emoção incontrolável, os desejos da subjetividade para além de regras, leis e limites que não sejam os da própria vontade. (SOUZA, 2013, p. 108)
Por fim, sobre Órfica, destacamos a não obediência à métrica, contudo, observamos o ritmo que o poema traz-nos por meio da exploração dos sons. Para os
formal e indispensável para um poeta valorizar uma palavra
não só pelo seu significado íntimo, mas também por sua acústica, porque uma palavra
comunica-se primeir SKY, 1970, p. 72).
Em Órfica, há
equilibrada, pois aparecem, ao longo do texto poético, 12 e 15 vezes, respectivamente. Tal repetição confere ritmo ao poema, sugerindo angústia, duelo, cadência binária de repetição proposital, em que o evidenciado repousa no trabalho árduo com a Palavra, ou seja, os sons vêm das imagens suscitadas pela poeta, argumento esse que corrobora o poeta, aparece antes a imagem indefinida de um complexo lírico
dotado de estrutura fônica e rítmica e só depois essa estrutura transracional articula-se
Como podemos constatar, Órfica
temática da metalinguagem, em que o fazer poético é indagado, de maneira a exaltarem o ofício da palavra como construção pesada, passível de ser destruída, esmagada, tentada. Nesse sentido, a poeta tem papel fundamental, pois ela é a responsável por dar a forma, a estrutura, o corpo à palavra morta. A poesia é então submetida ao caos, ao túmulo, às origens, de onde ressurgirá. Nessa vertente, a exploração dos sons, dos ritmos e das imagens são recursos imprescindíveis ao poeta, os quais se articulam com as palavras laboradas.
Chklovski afirmou:
. Desta forma, o pensar por imagens, dentro de uma perspectiva metalinguística e sob o enfoque formalista, remete- nos a uma análise que culmina com a constatação do trabalho formal nos poemas de DFS, aqui estudados.
Enfim, poesia como construção é uma vertente que se reflete na obra da autora DFS, somando-se à poesia como inspiração, sendo o trabalho poético algo que perpassa pelo caminho formal, onde o poeta, submetido à dor de trazer o poema à superfície, mergulha nas profundezas de si e trava uma batalha com a linguagem, buscando a forma perfeita e tentando conformar-se à forma do buscado.
No entanto, é preciso destacar que não há um divisor de águas na obra de DFS. Poesias inspiração e construção, como chamadas nesse trabalho, correlacionando-se com a poesia de deuses e de homens, estão interligadas. A poeta aqui estudada é a poeta do sagrado, da epifania, da celebração. Desta forma, é até natural o entendimento de que a poesia é dádiva, mas não no sentido de estar pronta e finalizada. A poeta a recebe como doce fruto maduro, todavia, trabalha para dar-lhe corpo, buscando na alquimia com os palavras, as combinações que culminem no nascimento dos poemas. Presente dos deuses, a inspiração encontra o poeta que, atento, inaugura um corpo recheado de palavras: o poema.