Se compreendemos a razão de ser e o fundamento da cooperação entre escola e família, das vantagens do envolvimento parental, das estratégias para um melhor envolvimento, estamos agora em condições de nos debruçarmos sobre o papel da escola na relação com a família. A escola tradicional, centralista, era entendida como um serviço do Estado e as famílias eram vistas como clientes e não como participantes.
Todas as decisões em matéria de Educação passavam ao lado das famílias e das comunidades onde as escolas se inseriam. Como afirma Nóvoa (1992): "O sistema educativo português consolidou-se no século XIX graças à acção do estado que reservou para si a definição dos aspectos básicos do ensino e da formação, delegando na corporação docente um poder de intervenção pedagógica. Num certo sentido, o aparelho escolar edificou-se contra as famílias e as comunidades que foram marginalizadas, ora com o argumento político (a legitimidade do estado para decidir em matéria educativa), ora com o argumento profissional (a competência especializada dos professores em matéria educativa). (...) A relocalização na escola de margens de autonomia cada vez mais alargadas coloca de novo o problema das diversas legitimidades (e interesses) em jogo no contexto escolar. Neste domínio, é fundamental proceder a algumas mudanças
radicais, permitindo que as famílias e as comunidades tenham capacidade de decisão (e poder) no seio das escolas".
A escola manteve-se até há bem pouco tempo, nomeadamente durante o período pré-25 de Abril de 1974, fechada dentro das suas fronteiras. Só depois surge uma outra escola, aberta e em contacto com pais, autarquias e comunidade envolvente. Com a implementação da Lei de Bases do Sistema Educativo, Lei 46/86, surge uma nova escola com papéis mais inovadores. Como diz Ribeiro (1989), “No modelo anterior todas as escolas são iguais, podendo concretizar de modo idêntico as determinações e regulamentações superiores”. Mas com a reforma temos todos os ingredientes para que surja uma nova escola. “As escolas são hoje encaradas como organizações sociais complexas que, pelo seu funcionamento interno, pelas relações com múltiplas entidades externas, pelos problemas que decorrem de emergência da escola de massas, pelas transformações e reajustamentos, em contextos particulares, permanentemente necessários, apelam a uma diversidade de competências”. É função da escola, para além de transmitir conhecimentos, também fomentar o desenvolvimento global do indivíduo, a nível cognitivo, motor, afectivo, criativo, e contribuir para a sua socialização, interiorização dos valores dominantes na sociedade (Canário 1993; Silva 1996)
Logo, o papel da nova escola exige uma abertura à comunidade envolvente, tornando-se a abertura da escola à comunidade educativa fundamental e coexistente com o envolvimento da família. Escola e pais devem estabelecer uma estreita ligação. Marques (1991) afirma ser a escola a instituição ideal para o exercício de cidadania, e deverá ser vista como uma instituição comunitária ao alcance directo dos pais, porque só assim se alcançará o sucesso de todos e se colmatarão as desigualdades sociais e culturais. “É necessário que o papel desempenhado pelos professores não omita a diversidade cultural existente na escola. Os professores são, junto dos alunos, os representantes da cultura socialmente dominante, cuja tarefa que se lhes exige passa pela promoção do acesso daqueles alunos à cultura dominante, sem perda das suas raízes culturais” (Silva 1996).
Compete assim à escola fazer a ponte entre as várias culturas presentes no seu espaço. Como detentora da cultura dominante, cabe-lhe tomar a iniciativa, ou seja, se as famílias
não vão à escola, deve a escola ir ao seu encontro. Cada no início de ano lectivo deve a instituição conjugar estratégias para aprofundar a relação com as famílias, que poderá inclui a disponibilização de uma sala apropriada para que os pais sintam o espaço como seu.
Em síntese, a nova escola tem o dever de atenuar os diferentes níveis socioeconómicos das famílias, criando condições favoráveis à sua participação, não só para saber do aproveitamento e comportamento dos seus educandos, mas também para a colaboração nas diferentes actividades socioculturais do seu Projecto Educativo. Esta nova escola implica a escola cultural, com maior participação dos pais e de toda a comunidade envolvente.
2.5.2 - A Escola Cultural
A escola cultural é criadora, personalizada e produtora de cultura, favorecendo a participação dos pais e a abertura à comunidade. Este modelo recusa a noção tradicional de escola como comunidade de professores e de alunos, alargando-a à noção de comunidade educativa, onde têm lugar agentes formais e informais de educação e onde os profissionais dão as mãos a agentes comunitários com capacidade de intervenção no acto educativo, em sentindo amplo. (Patrício 1992b)
A noção de parceria constitui o cerne do programa de participação dos pais na vida da escola e tem sido identificada por muitos autores (Bronfenbrenner, Seeley, Davies, Epstein)108 como uma componente essencial da reforma educativa, caso tenhamos como preocupações centrais a qualidade de escola e a igualdade de oportunidades para todos, incluindo os mais desfavorecidos. Como refere Patrício (1992b), “(...) a escola tem de se transformar em casa de aprender”, pois tem de ser participativa no meio envolvente, tendo aqui a família um papel preponderante. O mesmo considera que “do ponto de vista da família, uma escola participativa é aquela em que a família, directamente ou através das suas estruturas associativas de representação, é actor efectivo e não apenas
simbólico no processo educativo dos seus filhos, em termos de organização e funcionamento da escola".
Este modelo de escola cultural valoriza os saberes de todos: professores, alunos, pais e outros agentes educativos. Se pretendemos uma escola de qualidade, somos obrigados a apostar na qualidade do clima ecológico dos estabelecimentos de ensino, de forma a torná-los locais onde dê gosto aprender e dê gosto viver.
2.5.3 - Ambiente escolar e envolvimento parental
O êxito e a concretização de um bom envolvimento parental dependem de diferentes variáveis. Entre elas está o clima organizacional. Actualmente, como refere Morgado (2005), “A Escola é confrontada com a massificação, (…), o alargamento a grupos sociais cada vez mais diferenciados (…) uma das consequências mais evidentes foi, nalguns casos, a degradação do ambiente escolar e a deteriozação da autoridade dos professores. A valorização e a salvaguarda dos direitos dos alunos, facto em si positivo, conduziu, contudo, à falaciosa subalternização dos deveres.” Urge pôr cobro à falta de rigor e ao clima de permissividade que grassa em muitas escolas e estabelecer e fazer cumprir determinadas regras. Mas autoridade109 é diferente de autoritarismo110.
Com o aumento dos anos de escolaridade, com o ensino básico a abranger domínios do ensino secundário tradicional e com o prolongamento do tempo obrigatório de permanência na escola de adolescentes e jovens adultos, surgem problemáticas novas, em especial devido à situação de moratória social, retardando a sua chegada à vida activa. Isto significa que a infância final, a adolescência e o começo da idade adulta são passados, em boa parte, no interior da escola. Portanto, o envolvimento dos pais na vida escolar, como inovação que é, pode ter “resistentes”. A implementação de qualquer
109 Poder de mandar. Domínio. Vontade própria. Poder público. Aquele que exerce este poder. Crédito,
importância. Pessoa que tem crédito. Pessoa ou texto que se invoca em reforço de uma opinião. In Dicionário Básico da Língua Portuguesa, (2001:177)
110 Adj. Relativo à autoridade. Denominador; despótico. In Dicionário Básico da Língua Portuguesa,
mudança pressupõe um espaço e um contexto de mudança, um clima ou “etho” escolar favoráveis (Fullan, Mortimore, Holmes, Wynne, Chrispeeis, Zabalza, Carvalho)111.
Mas, o que se entende por clima/ambiente escolar? O investigador Nóvoa (1990) regista várias definições de alguns autores que nos merecem alguma reflexão. Kelly “entende o clima/ambiente escolar como o conjunto de normas, valores e atitudes que se reflectem nas condições, acontecimentos e actividades de um bom ambiente específico, que servem como elemento de distinção e como base para determinar as expectativas e para interpretar factos que se manifestam num determinado espaço organizacional”.
Para Brunet, “o ambiente de uma escola pode definir-se como uma série de atributos que são apercebidos relativamente à instituição e que podem ser induzidos pelo modo como a escola age (conscientemente ou inconscientemente) em relação aos seus membros e em relação à sociedade”. Este mesmo autor escreve que “cada escola tem a sua personalidade própria, que a caracteriza e que formaliza os comportamentos dos seus membros. O clima organizacional é percebido ao mesmo tempo de uma forma consciente e inconsciente, por todos os actores de um sistema social, tal como o clima atmosférico que nos afecta, sem que necessariamente estejamos ao corrente da sua composição”.
Parece, então, que o ambiente de trabalho constitui um elemento de primordial importância na definição de estímulos e das coacções à actividade dos professores, pais, alunos e comunidade. Um clima de tipo participativo é aberto às mudanças e estimula o empenhamento dos pais na actividade escolar. Este facilita o desenvolvimento do aluno, implicando-o num processo de participação e num ambiente que contribui para o sucesso destes.
Vários autores (Moss, Rutter, Owens, Sommerville) 112 são unânimes em afirmar que a eficácia da escola depende em grande maioria do clima da escola. Confirma-se deste modo a existência de uma relação significativa entre um clima organizacional aberto, a aprendizagem dos alunos e a eficácia dos professores. Em suma, podemos dizer que os
111 Citados por Teodósio (1999). 112 Citados por Muñiz (1989)
efeitos do clima são múltiplos e se reflectem nas relações escola / família. Um clima aberto113 e participativo melhorará as expectativas em relação aos pais e, por conseguinte, favorecerá o tipo de acolhimento e apoio aos pais. Assim, nas escolas deve existir um clima de confiança, cooperação, entreajuda e apoio a todos os níveis. O investigante Morgado (2005) aponta para políticas que tenham em conta esta visão: “as políticas educativas terão de voltar a centrar o seu esforço de enquadramento, de forma a promover um melhor ambiente escolar e a fomentar a vivência concreta de valores (…), princípios democráticos consagrados na nossa Constituição.”
Parece-nos evidente que as relações interpessoais assumem igualmente um papel importante porque influenciam o ambiente escolar e podem determinar os níveis de conflito – latente ou real. Um ambiente de rigidez e distanciamento entre os vários agentes – órgão de gestão, docentes, discentes – favorece um ambiente frígido ao nível das relações humanas, é demonstrativo da falta de confiança, em si próprios e nos outros, desincentiva um maior envolvimento na realização das tarefas, reduz a empatia, fragmenta a imagem da escola num caleidoscópio de visões amorfas. Ao contrário, um ambiente vivo ao nível das relações interpessoais favorece a entreajuda, a compreensão, o envolvimento afectivo, a solidariedade, a percepção da escola como um todo, em que cada um se realiza como pequena parte e se sente responsável pelo desenrolar dos acontecimentos que a si dizem respeito e à comunidade escolar, no seu conjunto.
Neste sentido, melhorar o envolvimento parental nas escolas passa certamente pela “abertura” ou não da escola. Esta ideia aliás, é defendida por Sanley e Wyness114, os quais avançam que, para pais e professores, este é um ponto de convergência. A esta “abertura”, damos o nome de ambiente escolar, isto é, entendemos que será a atmosfera vivida e sentida por todos aqueles que são envolvidos directa ou indirectamente pela instituição escola. Claro que essa atmosfera entre pais, alunos e professores terá de ser cordial, amigável, fraterna, pois são estes os principais actores deste cenário escolar.
113 Segundo Owen (1976), quanto mais próximos estivermos do clima aberto, mais perto estaremos do
ambiente ideal.
Aberto Autónomo Controlado Familiar Paternalista Fechado
De todos os cenários escolares, aquele que cremos que tem maior potencial em termos de um “bom ambiente escolar” será o ensino básico e, mais concretamente, o 1º Ciclo. Isto porque existe, intrinsecamente, nos professores e nas famílias, uma natural envolvência, pois a criança está com o mesmo professor durante cinco horas diárias (no mínimo), todo o ano lectivo. Neste sentido, facilmente acontece a escola ser um prolongamento das famílias e as famílias um prolongamento da escola.
Stoer e Silva115 (2005) revelam esta mesma faceta das escolas básicas: “a vantagem da escola aberta com professores acessíveis consiste em esta preencher a necessidade que o professor tem de conhecer a criança. Os professores, principalmente os que trabalham em escolas básicas, operam com base na assunção de que é necessário um conhecimento geral da criança para o desenvolvimento educativo com sucesso”. E conhecer a criança significa, provavelmente, conhecer o seu historial familiar. Digamos, então, que no que respeita a um bom ambiente escolar, quer pais, quer professores “valorizam um ambiente baseado na comunicação, na informalidade e na rotina116”