PISTES POUR UN FONCTIONNEMENT CONCEPTUEL
3.6 Régime transitoire court d’évolution des stockages : calage et simula- simula-tionssimula-tions
Relativamente à restrição, foi já referido no capítulo 1 que o adjetivo, ao restringir o conjunto denotado pelo nome, forma um novo conjunto, mas que pode também apenas realçar uma informação já conhecida e, consequentemente, não formar nenhum outro conjunto. O adjetivo adverbial temporal recente serve para ilustrar estas duas propriedades dos adjetivos:
(21) a. Os acontecimentos recentes na Grécia mostram a gravidade da situação neste país.
b. Os recentes acontecimentos na Grécia mostram a gravidade da situação neste país.
É comum afirmar-se que, em português, o fenómeno da restrição está diretamente associado à posição do adjetivo relativamente ao nome. Sobre esta polémica questão foram já feitas algumas observações no capítulo 1 relativamente aos adjetivos qualificativos, nomeadamente no que se refere à posição dos adjetivos epítetos e à ambiguidade gerada em expressões nominais com complementos preposicionados. Consideramos que a questão continuará a ser polémica com certos adjetivos adverbiais temporais. Veja-se o seguinte exemplo:
(22) a. As gerações vindouras vão sofrer os efeitos da crise. b. As vindouras gerações vão sofrer os efeitos da crise.
Com efeito, observando o exemplo, parece-nos que, com um adjetivo como vindouro, a oposição restrição/não restrição não fará sentido. Note-se que, se extraírmos o adjetivo, a frase torna-se agramatical, e, de acordo com a fórmula proposta por Keenan & Faltz (1985) (AN N), não se verificará o fenómeno da restrição.
3. ADJETIVOS ADVERBIAIS TEMPORAIS E O TEMPO
Após esta reflexão sobre algumas propriedades dos adjetivos em geral aplicadas aos adjetivos adverbiais temporais, vamos apresentar, a seguir, conceções de adjetivos
temporais defendidas por alguns autores; seguidamente, faremos a distinção entre
adjetivos temporais e outros adjetivos aparentemente temporais. Depois,
,estabeleceremos as diferenças entre adjetivos dêiticos e anafóricos, descrevendo posteriormente as características dos adjetivos temporais dêiticos que exprimem anterioridade, simultaneidade ou posterioridade em relação ao momento da fala, abordando ainda os adjetivos temporais anafóricos. Finalmente, apresentaremos as nossas conclusões a partir das observações colhidas no estudo destes adjetivos.
3.1. Conceções de adjetivos temporais
Não são muitos os autores que se ocupam dos adjetivos temporais. Segue-se uma síntese das conceções sobre estes adjetivos formuladas por alguns. A proposta de Demonte (1999) sobre estes adjetivos já foi exposta atrás, pelo que nos dispensamos de a referir novamente. Observar-se-á que as propostas que vamos apresentar, no que diz respeito às propriedades destes adjetivos, são semelhantes. A diferença entre elas reside algumas vezes, na indefinição na classificação de alguns adjetivos, pois ora os consideram como temporais ora os incluem no grupo dos aspetuais, não distinguindo com clareza as suas funções.
3.1.1. Gross (1996)
Gross (1996) considera adjetivos «temporais»50 aqueles que inscrevem o predicado nominal no presente, “que le point de référence soit l’acte d’énonciation (…) ou un moment donné du temps”(…); le passé (avec la même opposition) (…); le futur (…). À côté de ces informations de nature temporelle, on relève un grand nombre d’adjectifs qui traduisent l’aspect” (pp.70-71). Este autor utiliza traços distintivos das classes aspetuais para referir o aspeto que os adjetivos traduzem: terminado/não terminado, iterativo, pontual, incoativo, terminativo, progressivo, durativo e intensivo. Note-se que os adjetivos aspetuais intensivos ( un respect profond, un rythme infernal) e alguns progressivos (une démographie galopante, un impôt progressif) utilizados por Gross (1996) fazem parte da classe dos adjetivos intensivos (cf. Marengo, 1995; Romero, 2005).
3.1.2. Borillo (2001)
Borillo (2001) divide os adjetivos temporais em três grupos:
absolutos, por se referirem a um tempo absoluto, podendo definir o período temporal a que dizem respeito (“património pré-histórico”, “época vitoriana”);
medíveis, por designarem intervalos de tempo medíveis, sendo utilizados como unidades de contagem (“tarifa horária”):
esta unidade de medida pode ser aplicada iterativa ou ciclicamente (“publicação trimestral”);
esta unidade de medida pode ser aplicada apenas ciclicamente (“visita quotidiana”);
relativos, ou ancrés, por operarem uma localização no tempo em função dos pontos de referência estabelecidos.
As nossas divergências com esta divisão serão discutidas posteriormente.
3.1.3. Fiorin (2003)
Partindo do princípio de que na língua há um “sistema temporal enunciativo, quando o momento de referência for concomitante ao momento da enunciação, e um sistema enuncivo, que contém dois subsistemas: um comandado por um momento de referência pretérito e outro, por um momento de referência futuro”, Fiorin (2003, p. 62), serve-se destes sistemas para o estudo dos adjetivos temporais e espaciais. Assim, relativamente aos adjetivos temporais, isto é, àqueles que dizem respeito ao tempo linguístico, e que, por isso, situam os acontecimentos face ao momento da enunciação ou a um ponto de referência, há, segundo este autor, dois tipos de adjetivos: “os que indicam a anterioridade, concomitância ou posterioridade em relação a um momento de referência concomitante ao momento da enunciação (adjetivos enunciativos) e os que indicam anterioridade, concomitância ou posterioridade em relação a um momento de referência
pretérito ou futuro inscrito no enunciado (adjetivos enuncivos)” (p. 66) e aqueles que podem ser enunciativos e enuncivos.
Esta divisão dos adjetivos temporais recobre todos aqueles adjetivos designados relativos por Borillo (2001). Note-se, porém, que Fiorin (2003) não considera temporais os adjetivos absolutos nem os medíveis propostos por aquela autora.
3.1.4. Balogh (2006)
Balogh (2006) define adjetivos temporais como sendo aqueles que designam um lugar para os nomes na dimensão do tempo. Para este autor, há adjetivos temporais que exprimem a estrutura temporal exterior, os temporais propriamente ditos, e há os que designam a estrutura temporal interior, os aspetuais.
Os adjetivos de estrutura temporal exterior são divididos em cinco categorias:
aqueles que se referem a um campo temporal passado, presente ou futuro (anterior, atual, futuro);
aqueles que designam uma duração:
que se pode delimitar (milenar, estival);
que não se pode delimitar (breve, temporário), idades da vida e ainda válido; os adjetivos que designam um ponto no tempo (ligados a datas ou a acontecimentos – pascal);
os adjetivos do tipo novo (moderno, novo, etc.);
os adjetivos do tipo pontual (assíduo, pontual, regular, esporádico).
Comparando a proposta de Balogh (2006) com a de Borillo (2001), verificamos que os adjetivos que não podem ser delimitados apresentados por aquele autor se integram na classe dos adjetivos relativos de Borillo (2001) e que os adjetivos que podem ser delimitados se incluem na classe dos adjetivos absolutos propostos por esta autora. Balogh (2006) não considera os adjetivos numerais como sendo temporais, embora necessariamente ligados ao tempo, uma vez que, dado que as situações modificadas por estes adjetivos indicam sucessividade, são suscetíveis, portanto, de serem representadas
no eixo temporal. No entanto, essa ligação ao tempo é secundária. De igual modo, os adjetivos rápido e lento estão relacionados com o tempo mas não são temporais. Quanto aos adjetivos que referem períodos históricos (cf. “absolutos”, Borillo 2001), o autor considera que, apesar de se poder definir o período temporal a que dizem respeito, não são verdadeiramente temporais, mas “quase temporais”. Como se pode verificar, também este autor integra na classe dos adjetivos temporais adjetivos aspetuais como temporário ou breve.
No que se refere à estrutura temporal interna, o autor adota a divisão proposta por Gross (1996), já mencionada anteriormente.