Hoje, quatro anos depois de eu ter finalizado minha dissertação de mestrado (Amorim, 2002), ainda valem os comentários ali registrados sobre as promessas grandiosas e os sonhos mirabolantes dos defensores da inteligência artificial. Na medida em que o tempo passa e as promessas não se realizam, livros são reciclados, metas são revistas e os pesquisadores novamente entrevistados – sempre para anunciar sucessos, jamais para analisar fracassos –, em um ciclo que se repete há mais de quarenta anos. Dessa forma, mantém-se o público sempre na expectativa de que, por um lado, a próxima conquista da IA resolverá importantes problemas humanos, e por outro lado, estabelece-se a idéia de que apenas pessoas com qualidades excepcionais, segundo os critérios das classes dominantes, terão oportunidades de trabalho em um mundo completamente automatizado.
Creio que o mito de uma possível simetria nas relações entre seres humanos e máquinas é sem fundamento, e além disso, nocivo. Por isso, na presente seção argumento que devemos compreender a cooperação humano-máquina como co-operação, uma vez que entre ambos se estabelece uma relação assimétrica, que coloca lado a lado entidades completamente distintas, em ato e em potencial.
Ryle (1984, p.55) afirma que “o executor inteligente de uma tarefa opera de forma crítica, e o expectador inteligente, acompanha de forma crítica”141. Se substituirmos a palavra
“inteligente” por “competente”, na fala de Ryle, o que parece razoável, a capacidade crítica aparecerá com condição necessária para o reconhecimento da competência em determinado domínio. Reitera-se, por essa via de raciocínio, a importância capital do diálogo, do dialogismo, da interação humana no contexto cultural, como condições para o desenvolvimento das competências. Se, por um lado, é preciso dialogar criticamente para demonstrar-se competente, por outro lado, é apenas sob condições dialógicas adequadas que a competência pode ser desenvolvida e reconhecida.
Conforme discutimos no capítulo anterior, todo ser competente é um ser da práxis, seja porque a práxis é uma herança inerente à sua condição humana, seja porque ele a
compreende e a exercita deliberadamente. Por outro lado, a máquina não é uma criatura da
práxis, pois “não possui exigências, portanto ignora a necessidade” (Vieira Pinto, 2004,
p.527). O ser humano, como todo ser vivo, ao contrário, traz em sua constituição o impulso primário a permanecer vivo. Por isso, procura o meios de se opor à entropia, que é tendência dos sistemas físicos de evoluírem rumo a um estado de completo equilíbrio energético, no qual a vida não é possível. Porém, ao contrário do ser humano, a máquina não existe em antagonismo com a tendência natural à entropia. Nesse sentido, podemos dizer que ela é, em si mesma, acabada. Se for além do que é, reproduzindo-se, por meio de laços cibernéticos, em formas idênticas à atual, ou outras, melhoradas, será apenas porque seus criadores humanos a dotaram dessa capacidade, mas não porque tenha alguma necessidade autêntica de fazê-lo. O ser humano, ao contrário, precisa continuamente se projetar em novas realizações, primeiramente por simples necessidade vital, depois, em função do seu desejo inexorável de bem-estar, e mais ainda, pelo desafio da descoberta142. Inacabado como obra da natureza143,
está, portanto, condenado ao trabalho que o projeta rumo a novos horizontes.
Essa diferença fundamental entre humanos e máquinas se reflete na natureza essencialmente intencional dos primeiros, de que as últimas não compartilham. Nas palavras de Vieira Pinto, “nenhum [maquinismo] propõe finalidades a si próprio” (Pinto, 2004, v.2, p.532), o que torna a superioridade dos seres humanos ainda mais evidente. Segue-se que apenas o ser humano é um ser da práxis, ao tempo em que as máquinas são suas auxiliares nas práticas aí implicadas. Logo,
a primazia do homem sobre a máquina será sempre confirmada, em qualquer tentativa de síntese, suposto entendida por primazia não a capacidade de fazer mais rápido, exata ou abundantemente. A superioridade do homem consiste em ter gerado a máquina, enquanto o inverso é inconcebível (Pinto, 2004, v.1, p.527).
Um outro motivo para acreditarmos nessa superioridade é a incompetência social das máquinas que, ao contrário das pessoas, são incapazes de escolher sensatamente entre os infinitos caminhos de ação que se abrem diante das mais simples atividades cotidianas144.
142É assim, por exemplo, que enquanto o jogador humano usa o xadrez como uma forma de superar seus
próprios limites, impondo-se desafios subjetivos, a máquina processa mecanicamente os símbolos através dos quais os programadores humanos codificam o jogo. O computador faz cálculos sem sentido específico, que nós interpretamos como análises de xadrez.
143Agradeço ao Prof. Roberto Sidnei por me chamar a atenção para o “inacabamento” próprio da condição
Nesse sentido, podemos dizer que às maquinas falta o Background, indispensável para uma prática social coerente.
A incompetência cultural das máquinas é analisada detalhadamente por Collins e Kusch (1999), que desenvolveram a teoria das ações, ou teoria da “morficidade das ações”(p.1)145, a partir da sua investigação sobre o que pessoas e as máquinas,
respectivamente, são capazes de fazer. Eles afirmam que
Há ações mimeomórficas e ações polimórficas146. Ações mimeomórficas147 são ações que nós tentamos, ou ficamos satisfeitos em realizar sempre da mesma maneira, em termos de comportamento, em diferentes ocasiões. Ações polimórficas são todas as outras (p.31, grifo no original).
Cabe esclarecer que “poli”, aqui, não é o prefixo que significa de “vários”, mas é uma corruptela de “polis” (do grego, “cidade”). Por isso, ações polimórficas não são simplesmente aquelas que são realizadas de diferentes maneiras, mas aquelas que são realizadas de diferentes maneiras porque obedecem a um imperativo de contextualização sócio-cultural. Em outras palavras,
quando os humanos realizam ações polimórficas eles se baseiam na sua compreensão da sociedade; quando eles realizam ações mimeomórficas, eles agem propositalmente como máquinas – entidades que não precisam compreender a sociedade [...] Máquinas não podem realizar ações polimórficas porque elas não tem uma compreensão da sociedade sobre a qual se basear [...] (Collins e Kusch 1999, p.1).
Tomasello (1999, p.150) afirma que “por causa da natureza perspectiva dos símbolos lingüísticos, não existe procedimento algorítmico para determinar a intenção comunicativa específica de uma pessoa em uma situação específica”. Portanto, nenhum dos mais sofisticados autômatos já criados tem essa capacidade, porque o funcionamento de todos eles baseia-se no processamento de algoritmos, por meio de circuitos eletrônicos. Nos seres humanos, ao contrário, a capacidade de desvendar as intenções comunicativas de outrem, de acordo com o contexto, é um traço fundamental. O desenvolvimento dessa capacidade, ao longo da vida, decorre, segundo Tomasello (1999), de uma adaptação evolutiva que consiste
na capacidade e tendência dos indivíduos de se identificarem com co- específicos de uma maneira que lhes permite entender esses co-específicos
144Vale recapitular, aqui, a discussão conduzida na seção 4.3 sobre as infindáveis possibilidades de
interpretações inadequadas para uma frase simples. 145“Action morphicity”, no original.
146“polimorphic”, no original. 147“mimeomorphic”, no original.
como agentes intencionais iguais a eles mesmos, com suas próprias intenções e atenção, e, por fim, entendê-los como agentes mentais iguais a eles mesmos, com seus próprios desejos e crenças (p.282).
Uma capacidade ausente dos autômatos, e que continuará ausente, pelo menos no horizonte de qualquer especulação sensata. A alternativa é acreditarmos nas promessas sempre postergadas de excelentes cientistas, tais como como Kurzweil (2000) e Moravec (1988), travestidos em maus gurus da evolução planetária, que promovem (creio, inconscientemente) nas suas falas ideológicas justamente a valorização das conquistas dos países tecnologicamente avançados, ou, lembrando Vieira Pinto, alardeiam “os feitos e valores das grandes nações metropolitanas” (Pinto, v.1, p.36).
Vem bem a propósito a lembrança da vitória do computador Deep Blue sobre o então campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, em 1997, por muitos interpretada como a superação do homem pela máquina. Mas, considerando a questão, anos antes daquela disputa decisiva, a equipe que deu início ao projeto do Deep Blue148 já esclarecia: “o resultado [de um
futuro match] não vai revelar se a máquina pode pensar, mas se um esforço humano coletivo pode suplantar os maiores feitos dos seres humanos mais capazes149 (Hsu et al., 1990, p.24)”.
Isto é: a máquina, mesmo em suas formas mais avançadas, não é um ser autônomo, dotado de idéias próprias, mas instrumento de mediação entre seres humanos engajados em um objetivo comum.